Eram 20h e Paulo chegou finalmente em sua residência. Retirou o uniforme e foi para o banho. Após, abriu uma garrafa de cerveja e bebeu o primeiro copo em apenas um gole. Em seguida, colocou um peito de frango para cozinhar.
- Uma lasanha vai cair muito bem hoje – disse ele.
- Uma lasanha vai cair muito bem hoje – disse ele.
Enquanto cozinhava, Paulo recordava que este era o prato predileto de sua esposa Evelin. Assim, ele voltou ao passado.
Ele era o responsável pelos ensaios musicais do grupo de jovens de uma comunidade evangélica. Tocava violão e cantava. Conhecera Evelin quando ela começou a participar do coral. Desde o princípio, admirou seu carisma, porque ela possuía o poder de cativar as pessoas com sua voz doce e melodiosa. Ela não era a garota mais bonita ou a mais popular, mas marcava presença onde quer que fosse. As crianças da catequese adoravam-na, os amigos sempre procuravam-na para ouvir as palavras de consolo que era capaz de dizer, os adultos frequentavam as tardes de louvor para ouvi-la cantar, onde ela doava toda sua alma. E a admiração desenvolveu um sentimento mais forte que Paulo já não conseguia esconder.
Certo dia, em uma pausa dos ensaios, Paulo tomou coragem e decidiu abrir seu coração. Estavam sozinhos na sala e ele aproveitou a oportunidade:
- Eu tenho uma coisa muito importante para dizer, Evelin.
- E o que é? – perguntou ela, curiosa.
- É que eu te amo...
- Eu sei – interrompeu ela, sorrindo com doçura e surpreendendo-o. – Eu também te amo porque você é meu irmão.
- Eu tenho uma coisa muito importante para dizer, Evelin.
- E o que é? – perguntou ela, curiosa.
- É que eu te amo...
- Eu sei – interrompeu ela, sorrindo com doçura e surpreendendo-o. – Eu também te amo porque você é meu irmão.
Ele teve a intenção de explicar que ela estava enganada, mas perdeu a chance, porque o Pastor entrou naquele instante para acompanhar o ensaio. Paulo julgou que Evelin não deu importância a sua declaração e sentiu-se muito magoado.
Apesar disso, houve uma chance para ele declarar-se de verdade por ocasião de um retiro em uma propriedade rural. Após as orações e os cantos, os jovens aproveitaram para tomar banho no rio. Naquele instante em que todos se divertiam, Evelin afastou-se e ficou perdida em seus próprios pensamentos. Paulo observou que ela estava quieta, o que não era de seu costume, e apanhou uma flor silvestre para ir ao seu encontro.
- Uma flor para outra flor – comentou ele, estendendo para ela o presente e sentando-se ao lado dela.
- Obrigada, você é muito gentil.
- Gentil? É isso que você pensa que sou? Só isso? – Ela, confusa, apenas movimentou a cabeça para confirmar. – Acho que você nunca percebeu nada, não é? – Evelin não respondeu e desviou os olhos para a flor em sua mão. Ele tentou outra vez. – Por que você está aqui, triste e isolada dos outros?
- Porque nesse momento acabei sentindo uma solidão muito grande. Eu sei que não devo reclamar, porque Papai do Céu está sempre fazendo companhia pra gente.
- Mas você não está só.
- Uma flor para outra flor – comentou ele, estendendo para ela o presente e sentando-se ao lado dela.
- Obrigada, você é muito gentil.
- Gentil? É isso que você pensa que sou? Só isso? – Ela, confusa, apenas movimentou a cabeça para confirmar. – Acho que você nunca percebeu nada, não é? – Evelin não respondeu e desviou os olhos para a flor em sua mão. Ele tentou outra vez. – Por que você está aqui, triste e isolada dos outros?
- Porque nesse momento acabei sentindo uma solidão muito grande. Eu sei que não devo reclamar, porque Papai do Céu está sempre fazendo companhia pra gente.
- Mas você não está só.
Paulo segurou a mão dela e os olhos de ambos permaneceram fixos durante um longo minuto. De repente, uma lágrima desceu pelo rosto dela.
- Paulo, você está falando sério?
- Pensei que tivesse compreendido naquele dia que falei que te amava.
- É que eu achei que poderia ser uma brincadeira sua e não quis me iludir, porque já te amava.
- Eu jamais pensaria em te enganar, Evelin. Te amo, te amo e é isso aí – falou ele, subitamente nervoso.
Ela deu um beijo no rosto dele e Paulo abraçou-a. O tempo passou e eles resolveram se casar. Todos os amigos do grupo foram convidados. Na cerimônia, Evelin cantou para Paulo, surpreendendo-o com sua declaração de amor. Viveram quatro anos muito felizes. Ele formou-se em telecomunicações e começou a trabalhar em uma empresa do ramo como técnico em instalações telefônicas. Evelin formara-se em pedagogia e trabalhava em uma instituição pré-escolar.
Eles amavam-se muito, eram amigos inseparáveis e gozavam de uma vida plena de felicidade. Como tudo estava correndo bem, decidiram ter um filho. Evelin, então, fez diversos exames e descobriu que não podia engravidar. Aquele resultado apagou sua alegria e vontade de viver. Ela tornara-se depressiva e seu trabalho trazia-lhe ainda mais sofrimento.
Paulo jamais cobrou dela o filho que eles gostariam de ter, mas mesmo assim, ela não aceitou a idéia de que jamais poderia ser mãe. Assim, abandonou seu trabalho, começou a sofrer crises nervosas que terminavam no pronto-socorro sem causa aparente, tinha sintomas de gravidez e, ao contrário do que os médicos afirmavam, acreditava que conseguiria conceber o filho tão desejado. Cada sintoma fazia com que ela imediatamente realizasse o teste de gravidez e a cada vez que o resultado era negativo, Evelin isolava-se para remoer sua mágoa.
Paulo tentou de todas as formas suprir as necessidades dela, desdobrando-se em atenção e carinho. Chegou a sugerir a adoção, o que ela repudiava sempre que se tocava no assunto.
- Meu bem, tem tanta criança precisando de pai e mãe – argumentou ele, enquanto afagava os cabelos dela. – Pense bem, será que não é isso que Deus espera de nós?
- Meu bem, tem tanta criança precisando de pai e mãe – argumentou ele, enquanto afagava os cabelos dela. – Pense bem, será que não é isso que Deus espera de nós?
Evelin, entretanto, mudava de assunto ou se fechava em seu sofrimento. Com frequência ela telefonava para Paulo, pedindo ajuda porque se sentia mal, e ele, sem hesitar, voltava para casa para consolá-la.
Um dia, ele foi designado para cobrir a rota de outro instalador além da própria rota e não deu atenção quando a esposa ligou em seu celular.
- Evelin, se controla que eu já estou chegando.
Passava das 15 horas quando ela ligou, mas ele estava atarefado demais para atendê-la naquele momento. Voltou para casa somente depois das 19 horas quando finalmente conseguira vencer todo o trabalho.
- Amor, cheguei!
Normalmente ela vinha ao seu encontro para abraçá-lo e beijá-lo. Entretanto, não aparecera. Paulo sentiu uma súbita preocupação e chamou-a de novo, procurando-a por todos os cômodos da casa. Finalmente, encontrou-a no quarto, desmaiada sobre a cama, com os olhos abertos e a pele arroxeada.
- Evelin! Sou eu, me responde!
Ele sentou-se na cama e puxou-a para o colo. Evelin ainda sussurrou que o amava antes de perder completamente os sentidos. Ele abraçou seu corpo frio e quase sem vida e chorou. Retirou o celular do cinto e chamou uma ambulância, que pareceu levar horas para chegar. Os socorristas levaram-na com vida até o hospital, onde ela faleceu assim que chegou. A causa da morte havia sido intoxicação devido a superdosagem de calmantes, mas Paulo sabia que a depressão havia sido responsável por sua morte, pois Evelin desistira de lutar pela vida quando ele, a única pessoa que estivera sempre presente, se negou a ir vê-la.
Paulo voltou de sua viagem ao passado e por um momento o aroma saboroso do refogado de frango provocou-lhe náuseas. Sorveu o último gole de cerveja e engoliu com dificuldade. Emoções conflitantes como saudade e culpa tiraram seu apetite e ele desligou o fogo, indo se deitar, embora soubesse que passaria mais uma noite em claro.
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