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Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 8 - PARTE I - A DECISÃO

Tatiana recebera alta naquela manhã, mas aquilo não a alegrou, pois não fazia a menor ideia para onde ir. Estava ansiosa e sentia calafrios percorrendo seu corpo. Pediu para ver o médico, mas este já havia deixado o hospital. Aquela sensação estranha a deixou assustada e ela imaginou que voltava a ficar doente. Ela trocou a camisola de algodão cru pelas próprias roupas, fazendo um esforço para fechar o zíper da calça jeans. Depois de ter ganho 5 kg a mais devido à medicação durante duas semanas era natural que sua roupa ficasse apertada, mas aquilo a deixara irritada. A roupa parecia sufocá-la e ela sentiu-se ainda pior. Mas controlou-se e passou a arrumar a cama e ajeitar o travesseiro. Colocou as caixas de remédios no centro da mesa de cabeceira e abriu a persiana para que a iluminação do dia penetrasse no quarto. Olhou para fora e suspirou. Segundo o médico, ela estava em condições de continuar uma vida normal. Mas que vida? E por que ela não se lembrava? Estava livre para sair, mas acorrentada a seu subconsciente.

Enquanto procurava recordar alguma coisa, ela deu um passo na direção da janela e olhou para o céu. Permaneceu momentaneamente quieta e imóvel. Observou a movimentação das nuvens que formavam estranhos desenhos. Então o sol apareceu e a cegou. Ela fechou os olhos e surgiram manchas coloridas dentro de suas pálpebras. Aquelas cores explodiam dentro de seus olhos e formaram um rosto. De repente, Tatiana escutou uma gargalhada e não tinha certeza de sua origem, pois parecia que a gargalhada vinha de dentro dela mesma. Olhou em redor e tapou os ouvidos, com um medo crescente. Até que a visão verdadeira se formou. Ela ficou paralisada e seu coração precipitou um descompasso acelerado enquanto ela se lembrava da dor no pescoço e imediatamente levou as mãos para se proteger. Ela viu que estava caída de lado no chão, procurando respirar, mas sem conseguir. Com um esforço enorme, ela se virou, mas não conseguiu levantar e viu o teto girar lentamente e depois aumentar a velocidade e aproximar-se dela e uma voz falar atrás dela, só que as palavras não pareciam fazer sentido. Ainda no chão, sem poder respirar, ela viu o fio preto do telefone e procurou alcançá-lo com uma das mãos, mas sem conseguir mover o corpo. Puxou o aparelho, que caiu ao seu lado e ligou para o primeiro ramal que veio em sua mente. Subitamente, sua mente ficou em branco. E voltou somente com o garotinho do outdoor ouvindo-o rir alto...

Tatiana procurou respirar e sentiu sede. Encheu um copo com água da jarra e bebeu em um gole só. Sentiu calor e uma dormência nas pernas e sentou-se na cama, respirando irregularmente. Fez outro esforço para lembrar a quem pertencia a voz que ela escutou enquanto estava caída e qual a mensagem que era dirigida, mas não obteve resultado.

Paulo abriu a porta devagar e pediu licença para entrar. Viu que Tatiana estava pálida e aproximou-se com cuidado.

Soube que está de alta – disse ele –, e vim oferecer para levar você para sua casa.

- Paulo, estou com medo.

Tatiana correu para os braços dele como uma criança assustada. Ele perguntou-lhe o que ela sentia, mas só respondia que tinha medo.

Pode confiar em mim, Tatiana. O que houve?

- Paulo, eu lembrei!

- Lembrou de quê? – Ele ficou momentaneamente esperançoso.

- Do dia em que quase morri.

- Ah... – ele sentiu uma pequena decepção. – Quer falar a respeito?

- Foi horrível...

- Eu sei, não precisa dizer nada...

Mesmo assim, Tatiana contou o que lembrava.

É melhor eu te levar pra casa. Vamos?

Tatiana, insegura, hesitou. Ficou olhando para ele, lembrando do que Elisabete havia dito. Sentiu o ímpeto de dizer para ele que era casado com sua melhor amiga, mas se conteve, pois não achou o momento oportuno. Decidiu por acompanhá-lo.

Ele pegou o braço dela para levá-la até o carro e viu quando ela parou diante do Pajero.

Tatiana, tudo bem?

Ela não respondeu. Ficou diante do veículo com o olhar distante.

Eu estou sentindo uma coisa estranha.

- Lembrou alguma coisa?

- Não, acho que não.

- Você está confusa. Impressiona-se com qualquer coisa.

Ela não quis discordar e por isso manteve-se calada durante o percurso. Quando Paulo parou o carro em frente da casa dela, sorriu e disse:

É aqui. Aqui estão suas chaves.

Ela pegou as chaves da mão dele e saiu do carro, encaminhando-se para o portão e enfiou uma das chaves no cadeado. Olhou uma vez para Paulo, que ficara encostado no carro, e ele fez um sinal para dar coragem a ela. Tatiana, então, subiu os degraus, abriu a porta e entrou. O ambiente era claro, iluminado pela luz do dia. Ela caminhou devagar, observando tudo, tocando nos móveis, abrindo a janela que ficava ao lado da cama. Ela virou-se e Paulo estava na porta, sorrindo para ela.

Eu comprei algumas frutas, leite, pão e nata. São coisas que você gosta.

- Verdade? Você conhece minhas preferências? – Tatiana riu pela primeira vez, sentindo-se mais à vontade e contagiou-o com sua alegria sincera. – Até senti fome. Obrigada.

- Não precisa agradecer. Quer que eu prepare alguma coisa para você comer?

- Não me diga que sabe cozinhar também?

- Faço uma lasanha de frango que é um espetáculo.

- Tô pra ver – desafiou ela, divertida.

- Você não vai querer dividir com ninguém. Vamos começar?

- Eu não lembro se sei cozinhar – disse ela, sorrindo.

- Mas aposto que cortar cebola, descascar alho e preparar um café pra gente você é capaz de conseguir – disse ele, irônico.

- Vamos ver o que posso arranjar.

Paulo não se sentia tão livre há muito tempo e Tatiana parecia uma moça normal e despreocupada. Ele pensou em como eles poderiam ser felizes se não existisse a sombra de Elisabete entre eles.

Jantaram juntos e terminaram de ajeitar a cozinha, quando subitamente, ficaram calados. Ele observava-a diretamente nos olhos e ela sentiu-se constrangida. Afastou-se dele e foi observar a noite.

Está uma noite linda – disse ela, tentando quebrar o constrangimento.

- Aposto que a lua não está mais linda do que o brilho de seus olhos.

Tatiana não se esquivou do toque dele, mas sentiu remorso de estar se apaixonando.

Paulo... não podemos – desculpou-se, desviando os olhos do olhar apaixonado.

- Eu te amo, Tatiana, se for preciso te conquistar de novo, eu vou fazer de tudo.

- Mas você é casado...

Ele parou, imaginando que ela recordara alguma coisa incompleta.

Sim, mas você sabe que meu casamento é de mentira e que eu não tenho nada com Elisabete.

- Elisabete? Então esse é o nome de sua esposa? – havia um pouco de mágoa na voz de Tatiana.

- Sim, você não se lembra o que ela fez para acabar comigo?

- Paulo, você está me confundindo e pra mim já chega. Eu agradeço por você estar cuidando da minha reabilitação durante esse tempo todo após o acidente, mas é só isso. Você é casado e eu sinto, apesar de não lembrar, que eu sigo princípios morais. Não posso agradecer sua atenção da maneira que você espera...

- Tatiana... – Ele não quis que ela continuasse e abraçou-a com força, beijando-a com desejo. Ela foi apanhada de surpresa e rendeu-se à explosão de sentimentos. – Eu te amo... Não me deixe...

- Não posso... – sussurrou ela.

- Pode, sim. Claro que pode. Escute o seu coração, Tatiana. O que ele diz a você sobre mim, sobre nós? – perguntou, enquanto a beijava.

Tatiana sentia que o amor era verdadeiro, mas enquanto não se lembrasse de tudo, não poderia tomar nenhuma iniciativa. A razão mandava ela parar, para não iludir Paulo e também lhe lembrava de que não deveria ser instrumento para a infelicidade da amiga. Seu coração estava dividido entre o amor que sentia e a empolgação de Elisabete. Não era justo estragar o casamento da amiga. Empurrou Paulo e fugiu dele.

Escute, Paulo, eu não te amo...

- Como você pode dizer isso, Tatiana? Você pode não se lembrar do dia em que nos entregamos ao amor, mas eu sei que posso te ajudar... – ele começou a ficar desesperado.

- Se fizemos isso, então foi um erro – falou ela, decisiva.

- Não faça isso comigo, Tatiana, por favor...

- Paulo, não torne isso difícil pra você. Hoje eu não sinto nada por você e se algum dia eu senti, pode ser que acabou. Como vou ter certeza?

- Eu já disse, eu vou te ajudar...

- Mas e a Elisabete?

- Ela não representa nada pra mim! – Ele gritou, tentando convencê-la.

- Paulo, de uma vez por todas, escute: eu agradeço tudo que você tem feito por mim, mas é só. Chega. Acabou.

Ela falou as palavras pausadamente e correu para a porta, a qual abriu e parou ao lado, aguardando que ele saísse. Quando olhou para ele, viu-o chorando e essa imagem partiu seu coração. Mesmo assim, ela manteve-se firme ao afirmar que não tinham chance. Paulo parecia esgotado das argumentações e estava visivelmente magoado com a atitude dela. Desistiu de lutar pelo amor dela e saiu. Tatiana fechou a porta e correu para a janela para vê-lo pela última vez. Assim que perdeu a visão do veículo, fechou a janela e atirou-se na cama, chorando convulsivamente.
Paulo, me perdoe – falou ela, agarrando-se ao travesseiro. – Me perdoe, meu amor, mas é para seu próprio bem.

E adormeceu chorando, após ter afastado definitivamente o grande amor de sua vida.


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