Paulo testou o telefone de Elisabete na central e não encontrou defeito algum. Também fez uma preventiva no jump e testou os pares e não detectou nenhum dano. Seguiu para a casa da assinante, imaginando que o defeito estaria em seu aparelho.
- Você veio afinal – disse ela, com a insolência habitual.
- Bom dia, Elisabete – cumprimentou ele, casualmente. – Posso dar uma olhada no seu aparelho telefônico?
- Claro, entre.
Ele testou o aparelho e aparentemente não havia qualquer defeito. Informou Elisabete a respeito e pediu para que ela telefonasse novamente para a Central de Atendimento ao Cliente caso o defeito voltasse a acontecer.
- Não precisa ser tão profissional, Paulo. Fique mais à vontade e relaxe.
- Durante o horário de trabalho eu tenho a obrigação de ser profissional. Seria anti-ético desrespeitar a regra. Não tenho direito de ficar à vontade e nem posso relaxar, porque tenho metas a serem cumpridas, entendeu? – respondeu em tom seco, embora educado, para evitar que ela, na condição de assinante, o acusasse por mau atendimento.
- Tudo bem, mas obrigada por verificar o defeito que eu inventei.
- Como assim, inventou?
- Sim, inventei. Eu precisava de um motivo para falar com você novamente.
- Você me fez perder todo esse tempo e ainda tem a audácia de admitir que inventou? – Ele procurou controlar-se, mas sentiu o sangue ferver.
- E tem mais – continuou ela, rindo zombeteiramente. – Não preciso de Central de Atendimento, porque já tenho o número de seu próprio celular.
- Não acredito em você.
Enquanto o observava desafiadoramente, Elisabete digitou algumas teclas em seu celular e o celular de Paulo tocou no mesmo instante. Ele curvou as sobrancelhas e hesitou em atender.
- Atenda – encorajou ela. Ele apertou um botão e escutou a voz dela. – Acho bom você rever seus conceitos.
- Como descobriu meu número?
- Serviço de busca automática, meu querido. O Siga-me é muito útil.
- Atenda – encorajou ela. Ele apertou um botão e escutou a voz dela. – Acho bom você rever seus conceitos.
- Como descobriu meu número?
- Serviço de busca automática, meu querido. O Siga-me é muito útil.
Paulo poderia perder seu emprego caso a administração da empresa descobrisse que ela possuía o número do celular dele, porque era contra as regras da empresa. Ninguém nunca acreditaria que ele estava caindo em uma armadilha. Respirou profundamente e saiu da casa. No carro, ele pensou o que aquela mulher pretendia ao envolvê-lo naquele jogo sujo.
Elisabete esperou que ele saísse e só então prosseguiu com sua estratégia, discando para a Central de Atendimento.
- Bom dia, Central de Atendimento ao Cliente – atendeu Tatiana, já que Paloma estava ocupada com outra ligação.
- Aqui quem fala é Elisabete Schroeder e eu tenho uma denúncia a fazer contra um instalador de vocês, que veio até minha casa me ameaçar. O nome dele é Paulo Alves.
- Bom dia, Central de Atendimento ao Cliente – atendeu Tatiana, já que Paloma estava ocupada com outra ligação.
- Aqui quem fala é Elisabete Schroeder e eu tenho uma denúncia a fazer contra um instalador de vocês, que veio até minha casa me ameaçar. O nome dele é Paulo Alves.
Tatiana engoliu em seco. Outra vez Paulo se metera em confusão. A assinante parecia segura do que dizia e Tatiana imaginou tratar-se de uma grosseria ou coisa semelhante.
- Em que posso ajudar, Elisabete?
- Quero entrar em contato com o representante legal de sua empresa, pois desejo abrir um processo contra este funcionário, a minha pessoa na condição de vítima de atentado ao pudor.
Tatiana ficou tonta: “Atentado a o quê?”.
- Quando aconteceu?
- Agora a pouco, por volta das 10h30min.
- Aguarde um minuto, por favor.
Tatiana apertou no aparelho de telefone a tecla de função sigilo, respirou profundamente e explicou a situação para Paloma, que acabara de desligar o outro aparelho. Esta arregalou os olhos e sacudiu a cabeça, tentando entender a informação que recebera.
- O que eu faço, Paloma? – Tatiana estava pálida.
- Pede pra ela ligar na central e entrar em contato com o Sr. Laércio – instruiu Paloma.
- Alô, Elisabete? – disse Tatiana, assim que tirou o aparelho do sigilo –, peço que ligue no telefone de nossa central e entre em contato com o Sr. Laércio, que é nosso diretor geral. Certamente ele irá ajudá-la.
- Ah, sim. Eu já tenho o número, obrigada.
- O que eu faço, Paloma? – Tatiana estava pálida.
- Pede pra ela ligar na central e entrar em contato com o Sr. Laércio – instruiu Paloma.
- Alô, Elisabete? – disse Tatiana, assim que tirou o aparelho do sigilo –, peço que ligue no telefone de nossa central e entre em contato com o Sr. Laércio, que é nosso diretor geral. Certamente ele irá ajudá-la.
- Ah, sim. Eu já tenho o número, obrigada.
Assim que desligou, Tatiana saiu da sala para buscar água, porque ficara impressionada com a ocorrência. Como já sentisse uma certa antipatia por Paulo, julgou-o no mesmo instante.
Enquanto instalava um telefone, Paulo ouviu o seu celular e verificou que era seu supervisor. Atendeu prontamente.
- Paulo, quero que você venha urgente na sala do Mauro.
- Não posso. Estou no meio de uma instalação e...
- Dê um jeito, mas venha agora mesmo! – ordenou Francisco, desligando o aparelho sem esperar resposta.
- Paulo, quero que você venha urgente na sala do Mauro.
- Não posso. Estou no meio de uma instalação e...
- Dê um jeito, mas venha agora mesmo! – ordenou Francisco, desligando o aparelho sem esperar resposta.
Paulo ligou para a plataforma de serviços e jogou o telefone na pendência, recolheu o material e seguiu imediatamente para a empresa, já esperando o pior.
- Droga! Bela hora para perder meu emprego – praguejou, enquanto conduzia o veículo.
- Droga! Bela hora para perder meu emprego – praguejou, enquanto conduzia o veículo.
Ele chegou na recepção e Andréia disse para subir à sala do coordenador imediatamente. Após subir as escadas, entrou na sala, onde se encontravam Francisco, Mauro e Laércio. Seus rostos demonstravam nitidamente que havia algo sério no ar.
- Onde esteve hoje por volta das 10h30min? – perguntou Mauro, com voz áspera.
- Eu estava fazendo o meu serviço – respondeu Paulo, inocentemente.
- Ora, vamos! – exaltou-se Francisco. – Que raio de resposta é esta! O que o Mauro quer saber é onde você esteve e não o que esteve fazendo, entendeu?
Paulo pensou um pouco e procurou se controlar, pois se irritar com seu supervisor poderia agravar ainda mais sua situação.
- Eu estive tirando um defeito do telefone de uma assinante que ligou no 0800. O nome dela era...
- Elisabete Schroeder – pronunciou Mauro, pausadamente. Paulo teve um sobressalto e seu gesto de surpresa foi mal interpretado pelos três homens.
- Você sujou o nome de nossa empresa, Paulo – a acusação fora feita pelo Sr. Laércio, que olhava para o instalador com visível repugnância. – Além de demiti-lo por justa causa, a empreiteira vai processá-lo por danos morais.
- Processado?! Mas por quê?
- Não seja hipócrita, cara!
Paulo ouviu a exclamação incontida e foi dominado e traído por sua incapacidade de auto-controle.
- Eu não fiz nada! – defendeu-se, ainda sem compreender o real motivo das acusações. – Não sei o que aquela desgraçada disse a vocês, mas é mentira. Ela armou pra cima de mim...
- Cale-se e dê o fora daqui antes que eu me arrependa e chame a polícia! – ordenou Laércio, sem dar a Paulo uma oportunidade para se defender.
Após ser expulso da sala, Paulo desceu cambaleante até a recepção, onde se encontrou com Tatiana, que olhara desconfiada para ele. O olhar que ela lançou acusava, julgava, condenava, e tal atitude o deixou perturbado. Já na rua, ele ligou para Elisabete.
- Sua maluca! O que pretende me mandando pra cadeia?
- Era essa atitude que eu deveria esperar de um maníaco sexual mesmo. – Elisabete choramingou, como se realmente tivesse enfrentado a situação que criara e denunciara. – Acha pouco o que fez comigo?
- Mas você sabe perfeitamente que eu não fiz nada! O que foi que disse a eles?
- Está tentando me ameaçar agora que contei toda a verdade?
Paulo parou no meio da rua e esfregou o rosto para tentar se tranquilizar. Voltou a falar com ela:
- Eu não faço ideia do que está acontecendo, mas é bom você tratar de consertar tudo.
- Vou dizer o que é bom, seu psicopata. Pare de me ameaçar porque a polícia acabou de instalar uma escuta telefônica nesta linha.
- Pra que isso?
- Eles imaginaram que após ser indiciado, você voltaria a me importunar.
- Que denúncia? Meu Deus! Você é doente!
- Você que é doente – retrucou ela. – Além de tentar me violentar, quis acabar com minha vida.
- Violentar? Eu nunca encostei em você! – replicou ele, cada vez mais incrédulo.
Ele rendeu-se ao desespero e desligou o celular. Tentou acalmar seus nervos e continuou andando. Quando chegou em sua casa, ligou novamente para ela.
- O que você quer? – perguntou ele, cansado.
- Ah, acho que agora estamos progredindo.
- Não venha com tolices, Elisabete. O que quer para consertar toda essa encrenca?
- Você.
Paulo engoliu em seco e prendeu a respiração. O que aquilo significava?
- Não.
- Você não está entendendo, meu bem – falou ela, enquanto estava tranquilamente sentada na varanda fumando um cigarro. – Você será julgado e condenado por um crime que não cometeu e apodrecerá em uma prisão fétida por pelo menos vinte anos. É uma pena desperdiçar assim um homem tão atraente como você.
- Por que está dizendo essas coisas? Não acabou de me inocentar? E as escutas?
- Eu blefei – ela riu.
- Retire a acusação, Elisabete.
- E perder a chance de ter você aqui comigo? Nunca!
- Elisabete, escute. Não sei o que você viu em mim, mas garanto que não sou nada do que está pensando. Não tenho nada que possa te interessar.
- Aí que você se engana. E então? Posso te esperar hoje?
- Não!
- Então, adeus!
No dia seguinte, a polícia bateu na porta de sua casa e Paulo foi levado para a delegacia da mulher para prestar depoimento e foi indiciado por crime de tentativa de abuso sexual e homicídio. Como negasse veemente a autoria dos crimes dos quais estava sendo acusado, sofreu tortura e ficou preso por dois dias. Ainda assim, continuou recusando a investida de Elisabete, quando esta lhe telefonou após ser libertado.
- Muito bem, Paulo, vejo que você quer mesmo perder a liberdade. Só quero avisá-lo de que seu julgamento será amanhã.
- Amanhã?! Mas como? Esses processos duram semanas, às vezes, até meses.
Eu sou uma mulher influente, não se esqueça. E então? Mudou de idéia a meu respeito?
Paulo permanecera em silêncio, tentando encontrar uma saída. Refletiu que não valia à pena perder a vida inteira se Elisabete queria-o por apenas uma noite.
- Mudei – respondeu, cansado.
- Ótimo! – exclamou ela, com ar vitorioso. – Você já pode ir se preparando para mudar para cá.
- Mudar? – Ele sentiu o chão sumir de seus pés.
- Ou isso ou o presídio masculino. Você escolhe.
Após uma pausa, ele perguntou:
- O que vai fazer pra me livrar?
- Primeiro eu vou reconhecer o sujeito que me atacou. Vou dizer que me enganei. O homem que me agrediu não foi você, mas tinha roupas e crachá com seu nome, por isso, julguei que fosse você.
- Nunca perdi meu crachá. Não vão acreditar em você.
- Falsificação, meu bem – comentou ela, com ar natural. – Depois de alguns dias, quando eles estiverem procurando um outro criminoso qualquer, falaremos mais de perto, você e eu. – Silêncio na linha novamente. – Ah, Paulo, sem truques, tá? Senão posso voltar a acusar você.
Ele assentiu e desligou o telefone. Os resultados do tratamento policial faziam-se sentir em todo seu corpo e, cambaleando, Paulo seguiu para o quarto, onde se deitou para uma noite de sono sem sonhos.
Dois dias depois, Paulo estava novamente diante de Mauro, que lhe pedia desculpas em nome da empresa na pessoa do Sr. Laércio pela acusação indevida.
- A própria Elisabete se desculpou conosco e fez questão de que você fosse reintegrado à equipe. Além disso, a empresa irá ressarci-lo pelos danos morais através de uma generosa indenização.
- Aceito o dinheiro – disse Paulo, até então calado ouvindo os esclarecimentos –, quanto ao emprego, preciso pensar.
Ele deixou a sala e saiu da empresa, mas mesmo depois de Elisabete tê-lo inocentado, persistia a sensação de que todos olhavam-no com desprezo e discriminação. Paulo lembrou-se da esposa e imaginou como ela ficaria decepcionada se estivesse viva. Sentiu-se repugnante e cuspiu no chão, enquanto seguia para a solidão de sua casa, onde procuraria refúgio, embora não pudesse se esconder de sua própria consciência.
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