Cláudia distanciara-se dos colegas e até mesmo de Fernanda. Recolhera-se em casa, faltara às aulas. Não conseguia esquecer Maurício.
Finalmente, após dias sem qualquer notícia sobre o paradeiro do rapaz, Cláudia resolvera voltar à sua rotina, embora não cumprisse suas obrigações com tanto afinco quanto antes de conhecer o misterioso sujeito.
No primeiro dia que Cláudia retornou à equipe de contação de histórias e enquanto se dirigia para a recepção do hospital, aturava as infindáveis recriminações de Fernanda, mas não a contrariava. A amiga, aborrecida, percebeu que Cláudia nem sequer ouvia o que ela lhe dizia e se calou.
De repente, viu nos olhos da amiga uma expressão inesperada de surpresa e alegria e curiosa com a súbita mudança na fisionomia de Cláudia, olhou na direção que esta fitava e reconheceu Maurício, que aguardava no estacionamento, apoiado na porta do automóvel. Quando se aproximaram dele, Cláudia murmurou um “oi” tímido, totalmente o oposto a sua personalidade e então Fernanda percebeu o motivo pelo qual Cláudia parecia tão avoada ultimamente.
- Desculpem – pigarregou –, eu me esqueci de apresentar vocês dois. Fernanda-Maurício, Maurício-Fernanda.
- Prazer.
- O prazer é meu, Fernanda, mas, se não se importa, tenho um assunto muito importante para tratar com sua amiga.
- Ah – fez Fernanda, colocando o “desconfiômetro” em ação –, tenho mesmo um compromisso muito importante e preciso ir andando. Tchau, gente! – e seguiu até a portaria do hospital.
Maurício continuou olhando para Cláudia, mas ela não disse uma palavra.
- Você está cada vez mais linda – comentou.
- Por que não ligou mais? – perguntou Cláudia, assim que ganhou coragem.
- Eu estava viajando. Sou representante comercial de uma empresa de perfumes. A propósito, trouxe uma amostra para você.
Cláudia apanhou o perfume e experimentou-o. Adorou a fragrância.
- Você sentiu a minha falta? – indagou ele.
- Sim... Eu pensei muito em você – admitiu Cláudia.
- Eu também. Eu me afastei porque achei que você não me queria por perto. Pensei que a havia magoado e...
- Não, não, eu não fiquei magoada e me arrependi por ter tratado você daquele jeito. Olhe, eu queria me desculpar e dizer que...
- Que aquela história de namorado foi invenção sua?
- É... – Cláudia baixou os olhos, envergonhada por ter mentido. – E que você é muito importante para mim.
Cláudia ficou um pouco tensa, aguardando a reação dele. Mas Maurício a abraçou com ternura deu-lhe um “selinho”.
- Foi o que eu esperava ouvir. Eu te amo.
As faces de Cláudia coraram e ela não mais resistiu quando Maurício a beijou novamente. Tinha que admitir que esperava o encontro, que estava apaixonada.
- Venha, querida, vou levar você para casa.
Maurício abriu a porta do carro e aguardou Cláudia entrar e se acomodar no assento. Depois fechou a porta e tomou lugar na direção. Conversaram animadamente enquanto trafegavam e quando estacionaram na frente da casa de Cláudia, ele aproveitou:
- Você ainda está me devendo um encontro – cobrou ele.
- Tudo vem – riu ela. – Você venceu! Você escolhe a hora e o lugar e vem me apanhar.
- Combinado. Tchau!
Cláudia saltou do carro e atravessou o portão de sua casa, voltando-se para acompanhar o automóvel de Maurício se afastar. De repente, uma viatura de polícia interrompeu seus suspiros.
- Oi, Cláudia! – cumprimentou Antônio, alegremente, desembarcando do veículo. – Algum amigo seu?
- Só um conhecido... – mentiu ela.
- Conhecido, é? – Antônio estendeu a mão para Cláudia para cumprimentá-la. Ela confiava nele e contou-lhe tudo.
- Acho que estou apaixonada...
- Você é maior de idade e acho que não preciso avisar para se cuidar.
Cláudia percebeu como Antônio mudara depois que provara sua inocência. Era um homem feliz e seguro novamente.
- Entre, Antônio. Minha mãe logo vai chegar do trabalho. Podemos tomar um café e bater um papo.
- Obrigado, Cláudia, mas não quero incomodar. Tenho um trabalho a fazer.
- Já tem alguma pista do estuprador?
- Ainda não – suspirou ele, exteriorizando uma profunda insatisfação.
- E a Paty? Como ela está? – Àquela altura, Cláudia já havia se esquecido do próprio romance e voltou inteiramente a atenção para Antônio, pois percebera algo estranho em seu semblante.
- Ela está bem... – confirmou, por educação.
- Tem certeza?
- Na verdade... – suspirou novamente. – Na verdade, estou com um problema, sim, e por isso vim aqui para conversar. É que... quando ficamos a sós... – Antônio parecia escolher as palavras com cuidado. – É que... ela confunde as coisas, fica com medo...
- Ah, tá... entendi – respondeu Cláudia, compreensiva. – Você vai ter que ter um pouco de paciência com ela...
Antônio calou-se e observou Cláudia com curiosidade.
- Posso fazer uma pergunta?
- Claro.
- Você fala às vezes como se tivesse experiência no assunto. Por acaso, você já sofreu algum tipo de abuso? – A pergunta pegou Cláudia de surpresa e ela não respondeu de imediato. Ele percebeu que a moça se sentira pouco à vontade e se apressou a consertar a situação. – Desculpe, Cláudia, esqueça o que falei. Foi um comentário idiota e sem propósito...
- Eu... eu... – Cláudia engoliu com dificuldade e não conseguiu proferir as palavras. Algo a atormentava e por um instante Antônio pensou que ela iria chorar. Ela respirava irregularmente e o olhar se perdeu em um ponto distante que Antônio não poderia alcançar. Cláudia, sempre tão valente e tão decidida, mostrara seu lado frágil e desprotegido, o que fez com que Antônio passasse a atuar como profissional em vez de amigo.
- Acho que seria melhor você entrar, Cláudia. Você não parece bem – convenceu-a, segurando os cadernos que ela por pouco não deixara cair. Ela aceitou a sugestão e entraram na casa. Enquanto ela se sentava à mesa da cozinha, Antônio trazia-lhe um copo com água que ela bebeu nervosamente.
Antônio observou mais atentamente sua fisionomia e sentiu remorso por ter provocado aquele quadro de nervosismo. Sugeriu levá-la ao pronto-socorro.
- Não, Antônio. Deixe eu ficar com a parte bonita do hospital – pediu ela, voltando a sorrir para tranquilizá-lo, embora seus olhos demonstrassem o contrário.
- Eu sinto muito – disse ele, sentando em uma cadeira à frente dela. – Não tive intenção de fazer você sofrer.
- Não é culpa sua – respondeu Cláudia, suspirando. – É que eu acho que ainda não superei o que vi acontecer a uma amiga minha...
- Esqueça – interrompeu ele, pacientemente.
- Acho que já é hora de falar sobre isso com alguém – desabafou ela. – Você se importa?
- Sou todo ouvidos.
Cláudia esfregou as mãos e torceu os dedos em atitude quase aflitiva e, pouco a pouco, foi descrevendo a cena que há anos a transtornava. Antônio ouvia atentamente sua narrativa, concentrado nos sentimentos que Cláudia sufocara desde sua infância: incompreensão, revolta, remorso, culpa. Ao final, Cláudia caiu em um pranto soluçante e Antônio abraçou-a com carinho, como amigo.
- Agora entendo porque você me xingou daquele jeito... – comentou ele.
Quando a crise emocional passara e após se certificar de que Cláudia ficaria bem, Antônio saiu da casa, refletindo sobre tudo o que ouvira. Passou a ver com outros olhos o drama de sua namorada. De repente, percebeu como ainda precisava aprender para compreender Patrícia e amá-la com coração puro. Mais uma vez Deus o colocara no caminho da descoberta e era preciso seguir adiante, atrás de novas pistas.
.......
Antônio esforçava-se diariamente para rastrear o criminoso, entretanto, a falta de pistas resultou no arquivamento do caso. Voltara às funções rotineiras, como o patrulhamento, e o fato de não poder dar exclusividade à investigação pessoal o aborreceu. Ainda tentara argumentar com seus superiores, mas seus motivos não os convenceram.
Após terminar o expediente, Antônio se dirigiu a casa de Patrícia, pois combinara dar um passeio com ela. Quando se encontraram, resolveram visitar Cláudia e foram caminhando até a casa dela, que ficava a poucos quarteirões dali.
Ao se aproximarem da casa dela, o casal avistou um automóvel estacionado. Cláudia estava no portão conversando com um homem.
- Oi, Cláudia! – bradou Antônio.
- Oi, Antônio! Patrícia?! – Cláudia sorriu para o casal que chegava e abriu o portão para ir ao encontro deles. – Vocês não sabem como eu fico feliz por ver vocês juntos de novo!
- Nós nunca nos separamos – disse Patrícia, orgulhosa.
- Não vai apresentar seu amigo? – interessou-se Antônio.
Cláudia fez as devidas apresentações. Maurício cumprimentou Antônio com um aperto de mão e repetiu o gesto com Patrícia.
- Que coisa estranha... Parece que já nos conhecemos – disse ela, subitamente desconfiada.
- Impressão sua – respondeu Maurício. – Tem muita gente parecida nesse mundo. Bem, já vou indo. Provavelmente vocês querem conversar.
- Não se incomode conosco – disse Antônio. – Podemos visitar a Cláudia outro dia.
- Que é isso? Eu é que tenho todo o tempo para vir vê-la. Tchau, querida! – Maurício beijou Cláudia e olhou profundamente nos olhos de Patrícia. – Felicidades pra vocês.
- Obrigada – murmurou Patrícia.
Maurício seguiu seu caminho e Cláudia convidou Antônio e Patrícia para entrarem. Eles conversaram sobre muitos assuntos: faculdade, festas, também sobre o grupo de contadores de histórias do qual Patrícia desejava participar. A conversa chegou a Maurício e Cláudia contou como se conheceram. Não poupou detalhes. Afirmou que estava apaixonada e que sairia com ele algum dia.
Depois de uma hora e meia, o casal deixou a residência de Cláudia. No caminho de volta, Patrícia comentou com Antônio a estranha sensação que teve com o sujeito. Antônio, por sua vez, não escondia a preocupação com Cláudia, apesar de saber que era responsável e ajuizada, pois toda vez que ouvia falar de Maurício, farejava no ar algo de suspeito.
.......
Estava quase amanhecendo quando Cláudia atendeu ao telefone. Era Maurício. Ainda sonolenta, ela reclamou por ele ter escolhido aquele horário para falar com ela. Além disso, Cláudia estava apreensiva, porque os pais poderiam ouvir a conversa. Ela sempre fora obediente e não escondia nada dos pais, mas estranhamente fora de seu juízo, Cláudia nada contara até o momento sobre seu envolvimento com Maurício.
- Coloque um biquíni e não esqueça o filtro solar – falou ele, enquanto a garota tentava afugentar o sono e entender o que estava acontecendo.
- Biquíni? Filtro solar? – perguntou ela, sussurrando para não acordar os pais. – Mas do que você está falando?
À medida que Maurício falava a respeito dos planos que tinha para eles naquela manhã, Cláudia ficava cada vez mais confusa e sem reação. Difícil explicar o que sentia, mas era como se Maurício exercesse força de atração sobre seus pensamentos e suas atitudes. Ela conseguira murmurar um breve “aceito” e, totalmente desperta, desligou o telefone e voltou para o quarto para preparar uma mochila. Em seguida, saiu discretamente de casa, sufocando de ansiedade.
.......
Na mesma madrugada, Antônio, que estava de plantão, fora chamado às pressas por Ronaldo. Chegando à casa, presenciou uma crise nervosa de Patrícia e ninguém conseguia acalmá-la.
- Ela está ardendo em febre – explicou Adelaide. – Pobrezinha da minha filha...
Antônio segurou Patrícia, esforçando-se por tentar acalmá-la. Ela gritava desesperada para que Antônio a largasse.
- Me larga! Não me machuque mais!
- Querida, sou eu, Tony. Eu te amo, não se lembra?
Patrícia tranquilizou-se quando ouviu a voz dele. Adelaide aproveitou para dar-lhe um calmante.
- É ele, Tony! – exclamou Patrícia, com olhos arregalados.
- Ele quem, Paty? Você está aqui comigo, não precisa ter medo.
- Tony, você não entende! – Patrícia começou a chorar. – O homem que a Cláudia apresentou...
- O que tem ele? – Antônio juntou as sobrancelhas, pressentindo perigo. Patrícia o abraçou com força.
- Me proteja, amor! Ele prometeu... que faria de novo...
Antônio sentiu calafrios. Subitamente se lembrou de Cláudia.
- Sr. Ronaldo, pode fazer o favor de telefonar para a casa de Cláudia?
- Mas a essa hora?!
- Ela está correndo perigo e precisa ser alertada o quanto antes.
Ronaldo convenceu-se e telefonou para a casa da moça. Quando atenderam, pediu para falar com Cláudia e permaneceu imóvel aguardando nova comunicação. Entretanto, uma conversa estranha se desenrolou. Ele desligou subitamente nervoso.
- A mãe da moça disse que ela saiu antes do amanhecer e que ninguém a viu.
- Meu Deus! – disse Antônio. – Preciso ir até lá com urgência! Paty, querida, você vai ficar bem?
- Vou, Tony, mas eu tenho certeza que ele a levou. Por favor, não deixe acontecer a ela o mesmo que aconteceu comigo...
Antônio beijou-a e correu até a viatura.
- Darei notícias – prometeu, enquanto ligava o automóvel. Arrancou e saiu cantando pneus.
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