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Joinville, Santa Catarina, Brazil

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 2ª PARTE



Benedita deixou o automóvel no estacionamento do hospital e caminhou rapidamente na direção dos jovens que a aguardavam.

- Bom dia, crianças! – cumprimentou ela, com entusiasmo. – Desculpem o atraso, mas o trânsito está impossível hoje.

- Não faz mal, professora Benedita. A Vera também não chegou – respondeu Cláudia.

- Ela infelizmente não vai participar hoje. Ela me ligou esta manhã – disse Benedita, com pesar. – A irmã de Ricardo desapareceu ontem de manhã.

- A Patrícia? – perguntou Fernanda, assustada com a notícia.

- O que houve com ela? – indagou Danilo.

- Saiu mais cedo do colégio e não voltou para casa. A mãe dela, a D. Adelaide, pensou que ela estava com as amigas, mas foram elas que telefonaram procurando por Patrícia.

- Será que ela não saiu com o namorado dela, aquele bonitão da polícia? – perguntou Cláudia.

- Creio que não – respondeu Benedita. – Ela sempre avisa aonde vai, mesmo quando sai com ele.

- O coitado do Ricardo deve estar maluco atrás dela – deduziu Fernanda.

- Agora é com a polícia, crianças. É uma pena, mas nós não podemos mover uma palha. Vamos, estamos atrasadíssimos.

Benedita era professora de Língua Portuguesa na universidade e coordenava há algum tempo o projeto “Os Contadores de Histórias”. Ela levava aos hospitais um pouco de alegria com suas histórias adaptadas ou inéditas. Benedita, com sua baixa estatura, de pequena não tinha nada. Era decidida e mansa. Todos os seus alunos a adoravam. Os rapazes gostavam de espalhar seu cabelo curto para vê-la esbravejar e sabiam que no fundo ela gostava dessa intimidade. No começo, ridicularizaram-na por seu hábito de chamar de crianças os marmanjos para quem lecionava, mas com o tempo, ela foi ganhando um espaço especial no coração deles e aos poucos, Os Contadores de Histórias ganhava novos integrantes.

O grupo dirigiu-se ao saguão do hospital. Não era hora de visitas, mas eles foram carinhosamente recebidos na recepção.

- Vocês já conhecem o caminho melhor do que eu – comentou a recepcionista, sorrindo.

Cada funcionário que encontravam os cumprimentava alegremente. Benedita era muito querida por todos.

- Aqui, crianças. Vamos tomar o elevador.

Eles caminhavam rapidamente pelos corredores iluminados e estreitos. Cláudia e Fernanda seguiam logo atrás de Benedita e Danilo. Cláudia observava as pessoas nos quartos e os cumprimentava, pois já os conhecia da recuperação. Subitamente, viu uma moça com ferimentos no rosto, e parou.

- Ela é nova por aqui? – perguntou Cláudia para uma enfermeira que ia passando.

- Sim.

- O que houve com ela? – insistiu a visitante.

- Ela foi vítima de violência... hum... masculina – respondeu a enfermeira, desprovida de emoção.

- E quem é ela? – continuou Cláudia, logo que se recuperou do choque que a notícia lhe causara.

- Infelizmente, não posso dizer. Sua identidade está sendo mantida em sigilo.

A enfermeira se afastou, enfastiada pelas perguntas e Cláudia permaneceu parada na frente da porta.

- Ah, você está aqui! Cláudia, a professora Benedita está uma fera com você! Acho bom você inventar uma boa desculpa – disse Fernanda, puxando Cláudia pelo braço.

- Não dá nada – falou Cláudia, com ar despreocupado. – Nada que uma boa dor de barriga não resolva.

- Você é impossível – respondeu Fernanda, rindo da gracinha.

Cláudia, ainda intrigada, observou o número do quarto e seguiu a amiga.

.......

- ... E o lobo soprou, soprou, soprou e derrubou a casa de palha que o porquinho tinha construído – narrou Benedita.

- Você é muito mau, seu lobo feio! – disse Cláudia, mostrando a língua para Danilo, que interpretava o Lobo Mau.

- Eu vou pegar você, seu porquinho gordinho! E vou te comer no jantar!

As crianças acompanhavam a história cada qual em seu leito e riam, divertidas, esquecendo momentaneamente as suas dores. Algumas haviam sofrido fraturas ou intoxicações e estavam em observação, aguardando alta e eram as que mais se empolgavam. Porém, uma menina de oito anos que também havia sido trazida para participar era portadora de câncer ósseo e ficava imóvel, sem demonstrar interesse pela história. Benedita procurava animá-la, dirigindo algumas perguntas referentes à história, mas a criança continuava impassível.

Antes que pudessem contar o final da história, a menina começou a berrar de dor e pediu ajuda. Uma enfermeira rapidamente injetou uma seringa com medicação no soro, mas a pobre criança se debatia e chorava, provocando nas outras crianças medo e inquietação. Cláudia e Fernanda, por sua vez, não puderam acompanhar o desespero da menina e saíram do quarto.

- É melhor vocês voltarem outro dia – sugeriu a enfermeira, enquanto preparava outra seringa, e Benedita e Danilo obedeceram prontamente, indo encontrar as duas moças no corredor.

- Por que eles não a ajudam? – perguntou Cláudia, com voz sumida.

- Nem sempre é possível – respondeu Benedita, compreensiva, mas também com o coração dilacerado. – Vamos andando. Infelizmente hoje não podemos continuar.

- Calma, professora. – Já passamos por isso muitas vezes, não se lembra? – disse Danilo, procurando amenizar o sofrimento dela, enquanto caminhavam em direção ao elevador.

Benedita pediu que Danilo a deixasse sozinha e entrou cabisbaixa no elevador. Ele não contrariou sua decisão e aguardou Fernanda e Cláudia que finalmente o alcançaram.

- Puxa! Vocês pareciam um furacão! – reclamou Cláudia.

- Desculpem. Vocês sabem como a professora é sentimental. Vamos indo? – perguntou ele, logo que as portas do elevador se abriram. Os três entraram e permaneceram em silêncio até chegarem ao térreo. Danilo ofereceu carona, e antes que Fernanda pensasse em aceitar, Cláudia rapidamente respondeu:

- Obrigada, mas nós duas temos outros planos.

- Tudo bem. Tchau.

Fernanda esperou que Danilo se afastasse e perguntou curiosa:

- Cláudia, que planos nós temos?

- Vem comigo!

Cláudia e Fernanda seguiram pelos corredores até pararem diante da porta de um quarto, onde puderam observar o policial fardado conversando com a moça que se encontrava imóvel no leito.

- Qual é o problema, Cláudia? O que você perdeu aqui? – perguntou Fernanda, um pouco aborrecida.

- Fica quieta, Fernanda. Não consigo ouvir o que ele diz.
   
No quarto, o policial acariciava o rosto da garota e segurava sua mão, enquanto chorava.

- Meu Deus, Paty! O que eu deixei acontecer a você? – perguntava-se, observando os hematomas que a deixaram quase irreconhecível. – Me conte, Paty, quem foi o desgraçado que fez isso com você.

A garota observava-o, mas não emitiu uma única palavra. Apenas chorava copiosamente em um silêncio absoluto e como resposta, fechou sua mão sobre a mão de Antônio.

- Eu vou matar o filho da mãe que causou esse sofrimento a você! – berrou Antônio, tão revoltado com o agressor quanto indignado com sua própria impotência.

- É bom arrumar um bom advogado para sair dessa encrenca, policial Antônio.

Antônio virou-se bruscamente na direção da porta e avistou o delegado acompanhado pelo pai de Patrícia. Este último, cego de ódio, avançou em sua direção, sedento por fazer justiça com as próprias mãos, mas foi controlado por um detetive que acompanhava o caso.

- O que está acontecendo, delegado? – perguntou Antônio, sem entender a situação.

- Recebemos uma denúncia anônima de que você teria espancado Patrícia – disse Ivan –, e o Sr. Ronaldo, o pai da moça, entrou com a acusação.

- Mas que acusação? – perguntou Antônio, cada vez mais perplexo.

- Você está sendo acusado de estupro e tentativa de homicídio. Mas aguardará seu julgamento em liberdade, porque não houve flagrante. Você conhece a lei – explicou Ivan, contrariado com a atitude que estava tomando, porque duvidava que Antônio fosse realmente culpado.

- Ivan, você me conhece – defendeu-se Antônio, tentando esclarecer o mal-entendido. Você conhece os meus princípios e é testemunha da minha integridade. Como pode acreditar que eu tenha agredido a mulher que amo?

Ronaldo não suportou o cinismo, desvencilhou-se do sujeito que o segurava e agarrou Antônio pelo colarinho, ameaçando-o. Apontou a filha encolhida no leito, assustada com a discussão deles, fragilizada pelo tratamento que recebera e, diante do silêncio dela, teve ainda mais certeza de que Antônio era o responsável por seu sofrimento.

- Você não entende como dói para um pai ver sua filha neste estado – finalizou Ronaldo, subitamente cansado, largando Antônio. – Suma daqui, seu delinquente! Só quero vê-lo nos tribunais!

Antônio sentia que o mundo girava enquanto analisava a atitude de Ronaldo, que não fazia questão de ouvir, porque para ele já estava tudo devidamente esclarecido. Antônio seria julgado e condenado injustamente e mesmo a falta de provas não convenceria Ronaldo do contrário. Ainda olhou para Patrícia e resolveu sair para respeitar seu repouso. Andou às cegas pelo prédio, como se não sentisse onde pisava, e finalmente chegou ao jardim, onde encontrou um banco para se sentar. Abaixou a cabeça nas mãos e começou a chorar e soluçar.

Cláudia e Fernanda, que assistiram à discussão, seguiram Antônio e pararam na frente dele. Calmamente, ele ergueu a cabeça e olhou para as duas moças.

- O que querem aqui? – perguntou o homem, com raiva, provocando sobressaltos nelas. – Não sabem que sou um estuprador? Afastem-se de mim!

Elas entreolharam-se e Cláudia tomou a palavra.

- Sabemos que o senhor não é nenhum estuprador, policial.

- É – continuou Fernanda. – Nós vimos que o senhor gosta muito dela.

Antônio respirou profundamente e desabafou:

- Eu a amo.

- Seus olhos confirmam isso – disse Cláudia. E estendeu sua mão, em um gesto de apoio. – Se precisar de ajuda, pode contar conosco.

Ele parou um segundo, absorvendo as palavras de apoio. Surpreendeu-se por alguém estar do lado dele quando nem mesmo Patrícia o defendera e levantou do banco para apertar a mão estendida.

- Obrigado por acreditarem em mim. Mas vocês são jovens demais e não devem se meter nisso. Ouviram?

Fernanda e Cláudia cruzaram os dedos atrás das costas.

- Sim. Prometemos esquecer isso.

Depois de apertar a mão de Fernanda, ele se afastou em direção à viatura, ligando o motor e dando uma arrancada no carro. As moças caminharam caladas até a portaria.

.......

Cláudia e Fernanda voltaram a encontrar Danilo no intervalo das aulas vespertinas. Contaram o caso e ele confirmou as suspeitas.

- Acho que vocês não deveriam confiar nesse cara, porque as publicações todas o acusam.

- Mas, Danilo, ninguém ouviu a versão dele ainda – retrucou Cláudia, inconformada.

- Você ouviu o próprio delegado Ivan confirmar a denúncia. Na mídia saiu que testemunhas viram um sujeito com corpo sarado, de boa estatura, vestido com uniforme da polícia, espancar Patrícia e obrigá-la a entrar na viatura. Eles têm todas as provas e o caso é indefensável – afirmou.

- Mas você sabe que provas podem ser forjadas e se tiver um interesse maior um pouco de propina compra qualquer testemunha...

- Oi, gente – interrompeu a loira que se juntou ao grupo.

- Como está o Ricardo, Vera? – perguntou Fernanda.

- Ele está arrasado.

- Como tudo aconteceu, Vera? – indagou Cláudia.

- Ela saiu mais cedo do colégio ontem de manhã, só que não chegou em casa. A mãe dela achou que ela tinha ficado direto porque tinha trabalho à tarde. Mas quando os amigos da Paty ligaram para perguntar por que ela estava atrasada, a D. Adelaide se desesperou.

- E como foi que encontraram ela? – foi a vez de Danilo, para confirmar o que lera nos jornais.

- Os pais dela ligaram pra polícia. Vocês sabem, lá eles começam a procurar só depois de 24 ou 48 horas, não lembro bem, e não fizeram nada. Mas mesmo assim, D. Adelaide e o Seu Ronaldo conseguiram uma equipe de busca. A Paty foi encontrada inconsciente aqui perto, em um rancho abandonado.

- E como é que eles descobriram que foi aquele policial? – foi a vez de Fernanda.

- Não sei. A Paty gostava dele. Ela me contou um dia que queria se casar, mas o pai dela não aprovava o namoro deles, porque o cara é bem mais velho que ela.

- Agora o pai dela está achando que o policial quis vingança – deduziu Cláudia.

- Mas deixa essa história pra eles resolverem sozinhos. Eu vou à festa da fraternidade hoje – falou Vera, cortando o assunto.

- Mas e o Ricardo, Vera? Com esse problema, ele tem cabeça pra festa?

- Ele não quer mais sair comigo – reclamou Vera. – Nós já tínhamos combinado. Comigo trato é trato. Se ele não quer ir, o problema é dele. Eu vou sozinha.

- Vera?! – exclamou o grupo, reprovando sua atitude.

- Nem vem! Eu sei o que faço. Vejo vocês na festa.

- Nós não vamos, porque queremos ser solidários com o Ricardo.

- Muito bem. Azar de vocês.

Vera afastou-se deles, caminhando atrevidamente ao lado de um garoto.

- Que egoísta! – recriminou Fernanda. – Infantil, cabeça-oca...

- Eu nunca a vi perder uma festa, desde que entrou na universidade – comentou Danilo. – Mas um dia ela vai aprender a não trocar os amigos por festas.

Cada universitário tomou seu rumo. Cláudia e Fernanda encontraram-se com a professora Benedita no corredor.

- A Patrícia estava lá hoje à tarde. Vocês a viram, não foi?

- Sim, D. Benedita. Sentimos muito por ela ter passado essa tristeza.

- Eu sei, queridas. Mas por que não me avisaram? Eu também gostaria de tê-la visitado.

- Desculpe, professora, mas eu não sabia de nada – disse Fernanda. – Fui atrás dessa louca aqui.

- Fernanda, não sou louca! – reclamou Cláudia. – Eu também não sabia que era a Patrícia. Foi coincidência.

- Tudo bem – falou Benedita. – Mas graças a Deus, já descobriram o bandido. Ele está sob custódia.

- Prenderam o Antônio? – perguntaram as moças, alarmadas, porque sabiam que ele era inocente.

- Mas não é justo! Ele ama a Patrícia. Não pode pagar por um crime que não cometeu.

- Vocês estão me surpreendendo, crianças. E me assustando também. Fiquem longe dele. Antônio é um psicopata – alertou ela, franzindo o cenho. Benedita então foi chamada por  outro professor e as garotas aproveitaram a deixa para dar o fora dali.

- Amiga, nós precisamos fazer alguma coisa – falou Cláudia, sem fôlego. – O Antônio vai parar no presídio de segurança máxima se não tirarmos essa história a limpo.

- Cláudia, agora deu para investigações criminais? Não temos nada a ver com essa história. Esquece isso!

- Não posso fingir que não sei de nada! E se você é minha amiga de verdade, vai me ajudar.

- Cláudia, esse papo te subiu pra cabeça. O que nós, simples estudantes, seremos capazes de fazer? Pensa um pouco. – Fernanda estava contrariada.

- Muita coisa – respondeu Cláudia, determinada. – E começaremos agora mesmo.

- Ah, é?

- É. Vamos direto pra delegacia.

Fernanda viu o brilho nos olhos de Cláudia e pressentiu que ela não iria desistir enquanto não provasse a inocência de Antônio. Cláudia sempre fora muito decidida e detestava injustiças. Estava sempre do lado da verdade e do amor. Desde que presenciara a cena no quarto, soube que Patrícia e Antônio se amavam de verdade e faria o impossível para uni-los novamente. Dona de personalidade forte, Cláudia dificilmente fracassava.

Enquanto refletia sobre a atitude que a amiga estava tomando, Fernanda ficara imóvel e nem percebera que Cláudia já estava longe. Sabia que não adiantava tentar dissuadi-la de procurar o delegado e correu atrás dela para prestar todo seu apoio.

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