Uma enfermeira que acompanhava a recuperação de Tatiana abriu um sorriso ao verificar que a paciente estava reagindo à medicação. Cumpriu os procedimentos e alertou um dos médicos da equipe que a atendera, e este autorizou a retirada do oxigênio e a transferência da paciente para o quarto. Tatiana, contudo, continuava em um sono profundo, apesar dos sinais vitais estarem se normalizando e o médico, prudentemente, adiou a alta da UTI.
- Mantenham a medicação – sugeriu ele. – Vamos ver como ela se sai daqui pra frente.
Enquanto seu organismo lentamente se reabilitava, Tatiana viajava em seu subconsciente, experimentando uma atmosfera lúdica de redescobrimento. Assim, resgatou a imagem do outdoor com aplique em forma de garotinho que ela vira descrito em uma revista quando era criança. Sonho e realidade confundiram-se e o garotinho do aplique ganhou vida e levantou, espreguiçando-se sobre o outdoor. Depois, caminhou pé ante pé de uma extremidade a outra, equilibrando-se para não cair. Esticou o bracinho curto para segurar a colher que estava dentro da bandeja de iogurte impressa. Mexeu e levantou a colher no ar. Perdeu o equilíbrio e caiu dentro do pote de iogurte, onde ficou mergulhado, mas emergiu em instantes para segurar-se nas bordas do pote. Escalou o outdoor e sentou bem no alto balançando as perninhas. O garotinho estava todo lambuzado e soltou uma gostosa gargalhada...
Tatiana abriu os olhos, ainda escutando bem distante a gargalhada. Ela moveu a cabeça lateralmente e estalou a língua algumas vezes, achando graça do próprio sonho. Entretanto, foi surpreendida pela tontura que parecia jogá-la de um lado para outro, como um brinquedo de parque de diversões, e agarrou-se com força nas bordas da cama. Ao mesmo tempo, sua nuca parecia pesada e dava-lhe a sensação angustiante de falta de equilíbrio e dormência. As glândulas salivares aumentaram o ritmo e em sua garganta um nó se formara, aumentando o mal-estar. A fraqueza tornava seu corpo mole e produzia a ilusão de que flutuava no ar. A sala girava como um carrossel e Tatiana fechou os olhos com força, respirando irregularmente. Procurou conter-se para não expelir o êmbolo em sua garganta e quando se recuperou tornou a abrir os olhos sem se mover.
Olhou o teto de laje onde lâmpadas fluorescentes formavam pequenos espectros. Onde estaria? Ela se perguntou e em seguida ouviu aparelhos que emitiam sinais sonoros semelhantes a bips cadenciados. Sopros muito fortes concorriam com os bips e a curiosidade dela foi ficando aguçada. Moveu a cabeça alguns centímetros para a direita e encontrou pendurada a bolsa de soro. Seus sentimentos modificaram-se ligeiramente, cedendo o lugar da curiosidade a um assombro quase desesperado. Levantou uma das mãos e viu sua pele perfurada por um tubo fino fixado à veia por um esparadrapo. Seguiu, com os olhos, outros fios que estavam presos em outras partes de seu corpo e notou que alguns se conectavam atrás da cama, embutidos na parede, os mesmos que emitiam aqueles sons ritmados e melancólicos; outro tubo descia a cama e continha algumas gotas amareladas que, naquele instante de nervosismo, aumentaram a sequência até se transformarem em um filete.
Tatiana então ouviu algumas pessoas dando instruções e olhou para o lado, onde acompanhou o atendimento de um senhor cujo corpo convulsionava devido aos choques elétricos em seu peito. Em seguida, o aparelho emitiu um único bip contínuo e a sala ficou novamente em silêncio. Tatiana fechou os olhos e duas lágrimas se formaram para em seguida rolarem por sua face.
O relógio marcava 22:05 e Paulo aguardava o diagnóstico de Dr. Roberto, que analisava atentamente os resultados do eletroencefalograma. O interesse do médico era visível e Paulo torcia as mãos nervosamente, temendo um resultado desanimador.
- O cérebro dela não sofreu nenhuma lesão – revelou, finalmente, o doutor.
- Verdade? Então ela vai ficar bem?
- Não posso garantir nada até que ela saia do coma.
- Quero vê-la.
- Hoje o horário de visitas acabou. Espere até amanhã. Agora preciso ver outros pacientes, ok? – disse o médico, estendendo a mão espalmada para Paulo, que saiu assim que a apertou.
A enfermeira trocou a bolsa de soro e substituiu o tubo de ligação com a veia, porque havia sangramento.
- Ai, ainda preciso disso? – gemeu Tatiana, sobressaltando a enfermeira. – Não quero mais ficar aqui.
A enfermeira retirou a máscara do rosto e sorriu para Tatiana, que lutava contra o poderoso efeito dos sedativos. Escutou a mulher informando para outro enfermeiro que chamaria o doutor e depois do que Tatiana pensou ter passado horas, apareceu um senhor diante dela, felicitando-a pela surpreendente recuperação.
- Você nasceu de novo, menina – disse o médico, alegremente.
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