- 1, 2, 3!
Tatiana ouviu a contagem e sentiu como se estivesse sendo jogada do alto de um outdoor. A imagem do garotinho do aplique retornou ao seu pensamento e ela observou os dois enfermeiros que momentos antes suspenderam-na no ar a fim de transferi-la da maca para a cama. Eles terminaram de ajeitá-la, abriram a janela e Tatiana pôde ver o sol.
- Dentro de uma hora o seu café-da-manhã vai estar sendo servido – informou um dos enfermeiros, antes de se retirar do quarto.
“Uma hora. Quanto pode ser uma hora em um lugar como esse?”. Desejou olhar pela janela e respirar ar puro, mas a fraqueza não permitiu que ela levantasse da cama. Desconsolada, tornou a deitar, tentando organizar seus pensamentos, mas suas lembranças não evoluíam além do aplique que ganhara vida em sua imaginação. Não conseguia se recordar nem mesmo de onde surgira tal imagem. Cansada pelo esforço vão, fechou os olhos e dormiu novamente.
Um estrondo acordou-a e Tatiana encolhera-se na cama. A cortina voava por causa do vento forte. Lá fora, uma tempestade escurecera o dia. A moça sentou-se na cama e observou a refeição sobre a mesa. Confusa e desorientada, Tatiana começou a chorar.
De repente, um homem invadiu o quarto.
- Tatiana! – disse ele, eufórico. – Você nem imagina como eu estou feliz. Pensei que jamais voltaria a te ver.
Paulo tomou as mãos dela e as beijou, demonstrando alegria e paixão com aquele gesto. Tatiana, entretanto, afastou as mãos do contato dele e franziu o cenho, avaliando a situação. “O que este homem faz aqui, dizendo todas essas coisas?”, pensou.
- Tatiana? – Paulo percebeu que ela não o reconhecera e ficou sem saber que atitude tomar. – Você não se lembra de mim?
- Não – respondeu ela, insegura com a presença dele.
A felicidade pouco a pouco desapareceu do rosto de Paulo. Então se afastou e foi até a janela, onde refletiu um minuto, procurando não demonstrar sua decepção. Havia sido alertado para o fato de que Tatiana poderia sofrer uma sequela, mas não se preparara para uma possível amnésia.
- Desculpe – sussurrou ela, torcendo nervosamente o lençol com o qual se cobria. – Não sei o que está acontecendo...
- Essa chuva mudou o clima. Quer que eu feche a janela?
- Quero sim, obrigada.
Após executar a tarefa, Paulo aproximou-se devagar da cama dela.
- Está quase acabando o horário de visitas, mas eu volto amanhã. Tudo bem pra você?
Ela limitou-se a afirmar com um gesto.
- Então, tchau – disse ele, encaminhando-se para a porta.
- Eu devo ter sido especial pra você – disse ela rapidamente. Ele estava com a porta entreaberta, mas girou o corpo na direção dela para responder-lhe.
- Você foi e continua sendo especial pra mim, Tatiana. E eu vou virar o mundo de cabeça pra baixo até fazer justiça.
Após tal afirmação, ele fechou a porta atrás de si, deixando Tatiana solitária em um mundo sem recordações.
Paulo estacionou a pick-up na garagem logo abaixo de seu quarto. Passara o dia investigando o provável envolvimento de Elisabete com a tentativa de assassinato, mas descobrira que a polícia abafara o caso. Lembrou da conversa que tivera com o delegado responsável, mas suas suspeitas não foram levadas em consideração. Cansado e abatido, Paulo finalmente desembarcou do automóvel e encaminhou-se para o seu refúgio. Sentia-se deprimido e vulnerável, pois a amnésia de Tatiana surpreendera-o.
Finalmente chegou na porta de seu quarto. Ao retirar a chave para destrancar a porta, Paulo ouviu uma música estranha e manteve os sentidos alertas. Girou a maçaneta e o som tornou-se mais audível. Entrou cautelosamente.
Paulo estacou na porta, tentando descobrir se errara o endereço. Estava no local certo, mas não no quarto de sempre. Assim que se livrou da paralisia inicial, deu alguns passos enquanto ouvia a música árabe e observava a transformação de seu espaço, onde véus, cortinas e tapetes imitavam a decoração de lares árabes, inclusive a comida e a bebida que ele experimentou. Atordoado com tudo aquilo, seu corpo começou a relaxar e seus olhos ameaçavam se fechar. Aproximou-se de sua cama, afastou o mosquiteiro, sentou-se e tirou os sapatos. Uma onda de calor espalhou-se por seu corpo, e Paulo deitou-se, cruzando os braços atrás da cabeça.
Para completar o ambiente misterioso e inebriante, surgiu uma dançarina, cujo molejo e beleza prenderam a atenção de Paulo, que se permitiu por um instante esquecer todo o mundo a sua volta. Elisabete estava com o rosto oculto pelo véu vermelho escarlate e ele reconhecera-a no mesmo momento.
Enquanto observava o corpo bem delineado, lembrava-se do dia em que a conheceu. Julgara-a uma garotinha na ocasião, mas agora estava diante de uma mulher sedutora, que provocava os sentidos dele.
Ela sorria, porque sabia bem do que era capaz. Quando seu advogado garantira que Tatiana perdera a memória, Elisabete tinha certeza que Paulo estaria arrasado e, portanto, vulnerável a qualquer investida. Por essa razão, apostou nos mistérios das 1001 noites com todo o glamour. Porém, seria cautelosa e não mais exigiria condições. Ela estava certa de que, mudando a estratégia, conquistaria Paulo definitivamente. Não seria mais a Elisabete orgulhosa, impiedosa, vingativa e autoritária. Pelo menos, não na frente dele.
Elisabete então serviu uma bebida para ele, que se encostou na cabeceira da cama para aceitar. Bebeu devagar, sempre observando a mulher que, oficialmente era sua esposa. Naquele minuto toda a rejeição pelo casamento e o ódio que nutria por ela pareceu despropositado. Sua mente ficou confusa e ele não conseguia manter Elisabete em foco. Viu que ela se aproximou e sentou em seu colo. Um outro ritmo musical foi executado naquele instante, como se fizesse parte de uma fria programação. Ele queria encontrar forças para resistir, mas seus sentidos não respondiam aos seus apelos. Elisabete então o beijou e ele não a afastou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário