A produção, normalmente monótona, batia o recorde de tédio naquela manhã. Paloma conferia as ASLA’s; Natália digitava todo o movimento conferido; Tatiana avisava o corte de rede e de vez em quando tentava ligação com Paulo para verificar o defeito apontado por Elisabete no dia anterior; Valéria cuidava do controle de material; Luíza atualizava a planilha de abastecimento.
Depois de ter telefonado para cerca de duzentos assinantes, Tatiana rendeu-se à exaustiva tarefa do aviso de corte, que nada mais era do que avisar os assinantes de uma localidade afetada por projetos de expansão e manutenção, que o telefone poderia ficar mudo temporariamente. Essa ação tinha o objetivo de os assinantes não abrirem reclamação no 0800 da Sul Telefonia, e consequentemente, onerarem os indicadores.
Resolveu descansar e passou a ler alguns textos que criara. Assim lembrou do “Manual da Viagem”, que fora tão comentado no encontro do final de semana. Tatiana aceitara o desafio de Paloma e Luíza, que lhe chamavam constantemente a atenção em seus momentos de delírio, e escreveu um manual ensinando como “viajar”:
Resolveu descansar e passou a ler alguns textos que criara. Assim lembrou do “Manual da Viagem”, que fora tão comentado no encontro do final de semana. Tatiana aceitara o desafio de Paloma e Luíza, que lhe chamavam constantemente a atenção em seus momentos de delírio, e escreveu um manual ensinando como “viajar”:
“MANUAL DA VIAGEM
Se você está cansado (a) da realidade e deseja “viajar” em espaços desconhecidos, como, por exemplo, outras galáxias que existem eu seu subconsciente, observe os procedimentos a seguir e... Boa “Viagem”!
- Concentre-se em um foco: pode ser uma lembrança, um sonho que você deseje tornar realidade, ou ainda o que bem entender.
- Selecionado o objetivo, comece a pensar. Imagine pessoas, lugares, sinta perfumes, lembre o sabor das coisas, deixe sua imaginação guiá-lo (a).
- Não se preocupe para onde vai, apenas imagine.
- Não perca a concentração, senão você corre o risco de ter que começar tudo de novo.
- Certamente, enquanto estiver se projetando para dentro de si mesmo, algumas coisas chamarão a sua atenção. Pense nestas coisas, em fatos antigos com os quais elas poderiam se encaixar.
- Viu? Não é difícil, não é mesmo? Ah, esqueci de avisar que você não deve preparar mala alguma. Vá sozinho (a), sem contrapeso, sem objetos que poderiam firmar seus pés no chão.
- Seja autêntico (a)! Não deixe que os outros interrompam a sua “viagem”! Esqueça o mundo ao seu redor.
- Se você for muito longe, não se desespere. Você nem vai perceber.
- A política da qualidade da “viagem” é a seguinte: A viagem dedica-se a atender exclusivamente o Id e o Ego, seus clientes diretos, através da criatividade exacerbada e de um complexo controle de concentração que vise aprimorar continuamente seu talento imaginativo.
- A missão da “viagem” é transpor as barreiras da coerência. Portanto, “viaje”! O seu mundo interior aguarda você de braços abertos.”
Tatiana leu o texto, alterando alguns vocábulos e voltou mentalmente para o momento em que o escrevera. Simplesmente, uma chave parecia ter sido ligada em seu cérebro naquele dia e ela fez um mapeamento de uma das suas “viagens”, conseguindo, portanto, reunir informações para traduzir em texto a sua “habilidade”. Observou novamente a palavra “autêntico” na sétima sentença. Pelo seu significado linguístico o termo não era apropriado naquela frase, mas Tatiana respeitou uma brincadeira que ela e Luíza haviam criado certo dia. Na ocasião, Tatiana fizera uma pergunta cuja resposta era óbvia por não existir uma segunda alternativa e, Luíza, impaciente, respondera de maneira curta e direta. Tatiana então quis chamá-la de grossa ou algo semelhante, mas errou o termo e exclamou: “Sua autêntica!”. A exclamação gerou risos e dali nasceu a brincadeira.
As colegas enxergavam suas “viagens” como uma fuga e, apesar de rirem, desdenhavam do seu talento. Todas sabiam que Tatiana sonhava em ser romancista, mas somente Natália acreditava verdadeiramente na criatividade da amiga.
- Você vai chegar até a Academia Brasileira de Letras, você vai ver – profetizou Natália, certa vez em que conversavam no refeitório.
- Fala sério, Natália! Eu ainda nem consegui publicar minhas histórias – respondeu Tatiana, considerando a ideia mais absurda que já ouvira.
- Você vai chegar até a Academia Brasileira de Letras, você vai ver – profetizou Natália, certa vez em que conversavam no refeitório.
- Fala sério, Natália! Eu ainda nem consegui publicar minhas histórias – respondeu Tatiana, considerando a ideia mais absurda que já ouvira.
De repente, Tatiana ouviu seu nome e sentiu como se tivesse caído de uma montanha. O grito abafado por causa do susto gerou nova torrente de gargalhadas. “Elas realmente não entendem”, pensou Tatiana, enquanto atendia a solicitação de Paloma e voltava ao insensível mundo real.
Por volta das 10h Tatiana finalmente conseguiu contato com Paulo e comentou sobre a reclamação feita por Elisabete.
- Estou indo para lá – disse ele, com jeito de falar friamente profissional.
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