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Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 6 - PARTE III - SOPRO DE VIDA


Tatiana não respirava mais. Aos poucos sentia que o sangue parava de circular e seu corpo frio perdia quase toda a atividade vital. Seus olhos fixos perceberam que o teto se aproximava e subitamente ela soube que estava morrendo. “Deus, já chegou a minha hora? Então não tenho mais medo.” Ela não sentia dor nem angústia, apenas estava se sentindo levitar e alcançar o teto, que começara a girar, aumentando gradativamente a velocidade. De repente, ela teve a impressão de que despencara de um precipício e seu corpo antes imóvel voltara a se mexer.

Após alguns segundos ela compreendeu o que havia acontecido e agradeceu. “Deus me deu uma chance!” ecoava em seu cérebro atordoado, que recebia um filete mínimo de ar para continuar em atividade. Com muito esforço, ela virou-se de lado no chão, sem conseguir forças para levantar-se. Sua visão turva misturava o rosto de Elisabete com as imagens dos pés da mesa e as rodas da cadeira giratória. “O telefone!” Ela viu o fio do telefone e tentou esticar o braço para segurá-lo. “Vamos, está tão perto”. Finalmente alcançou o fio e puxou o aparelho que estourou no chão ao lado de sua cabeça. Suas forças restantes estavam abandonando-a, mas algo dentro dela queria lutar. “Vamos, você não pode morrer, eu preciso de você”. Então, um a um, ela digitou os números de um ramal, que prontamente atendeu.

- Alô – falou a voz no outra lado da linha. – Aqui é o Fred. Alô!

- So... corro – ela conseguiu murmurar.

- Alô? – Fred estava irritado e achou que era trote. – Fala de uma vez antes que eu desligue!

- Ta...ti...a...na...me...a...ju...de...


O esforço de falar findou suas forças e ela deixou cair seu braço e fechou os olhos. Novamente a sensação de leveza invadiu seu corpo e finalmente ela dormiu.




Uma brisa gélida movimentava as árvores, que perdiam suas folhas e o farfalhar de seus galhos produzia som contínuo de atrito. A lua cheia que iluminava a cidade cedia lugar à névoa que, pouco a pouco, ficava mais densa.

As luzes da sirene de uma ambulância giravam silenciosas no meio da noite e atraíam uma multidão de curiosos para a fachada do prédio de tijolos à vista. Um veículo da polícia chegara e alguns homens entraram no prédio.

Luíza desceu de um automóvel e procurou conter seu desespero para encontrar Paloma no meio da multidão. Suas mãos frias transpiravam e ela nervosamente as esfregava na calça jeans.

Luíza, estou a horas fazendo sinal para você! Tá pensando que eu sou uma ilusão de ótica? – perguntou a moça que se aproximou.

- Paloma, graças a Deus – ela abraçou a amiga. – Desculpe, eu realmente não te vi.

- Oh, amiga, parece que não me conhece, não sabe que eu preciso brincar para amenizar a situação – esbravejou Paloma, tão nervosa quanto aflita.

- Será que a Tati está... – Luíza suspirou, deixando seu pensamento no ar.

- Não, claro que não, ela está bem, você vai ver.

- Estou com medo, Paloma. Quando o Fred me ligou, ele não parecia nem um pouco esperançoso...

- Olha lá, Luíza! Eles estão trazendo ela!

Elas aproximaram-se, com dificuldade, da ambulância e observaram com assombro Tatiana na maca com a máscara de oxigênio. Assim que ela foi transferida para o interior do veículo, o paramédico que a atendia dirigiu a palavra para as garotas:

Vocês a conhecem?

- Trabalhamos com ela – respondeu Luíza.

- Podem acompanhá-la até o hospital?

- Claro – disse Paloma, incentivando Luíza a embarcar na ambulância. As sirenes foram ligadas e o veículo partiu.

Ao chegar ao Hospital Municipal São José, Tatiana foi imediatamente encaminhada para exames. Enquanto Luíza e Paloma aguardavam, lembraram de telefonar para Paulo.

Você acha que ele vem, Paloma? Você sabe que agora ele não decide sobre a vida dele...

- Avisar não custa. E ele vem sim, sem dúvida.

Luíza assentiu e telefonou para o celular dele. Dentro de vinte minutos ele apareceu no corredor, perguntando sobre Tatiana. As garotas, entretanto, ainda não tinham notícias. Aflito, ele dirigiu-se ao balcão de atendimento, mas somente ficou irritado com a má vontade dos atendentes. Voltou ao local onde as garotas aguardavam, mas não sentou.

O que afinal aconteceu a ela? – indagou ele, enquanto andava de um lado para outro.

- Só sabemos que foi encontrada inconsciente e com sinais de agressão física – respondeu Paloma.

- Mas quando aconteceu?

- Depois das 19:30, acho.

- Mas o que ela fazia lá, sozinha a essa hora? – Sua voz soou agressiva e autoritária.

- Ah, você sabe – foi a vez de Luíza –, compensação de horas.

- A empresa e seu maldito banco de horas! – vociferou ele.

- Calma, Paulo! Não é hora para ficar xingando todo mundo – Paloma franziu a fronte, irritada com a atitude dele.

- Calem a boca vocês dois! Estão me deixando mais nervosa – exclamou Luíza.

Muitas horas se passaram até que um médico procurasse pelos parentes de Tatiana. Paulo imediatamente se identificou.

Amigo, você precisa ser forte – disse o médico, em tom impassível.

- Como assim?

- A paciente ficou sem respirar durante muito tempo e isso pode ter comprometido o cérebro, mas somente saberemos com precisão após o resultado do eletroencefalograma. No momento ela está na UTI. O meu palpite é de que ela sofra morte cerebral.

- Mas... – Paulo empalideceu subitamente. – O que houve com ela?

- Melhor você mesmo verificar com a polícia. Preciso ir.

O médico desapareceu no corredor sem dar maiores detalhes, enquanto Paulo olhou bruscamente para as garotas, que sofreram o mesmo choque. Ele imediatamente lembrou da ameaça de Elisabete, mas lhe custava crer que ela levaria ao extremo sua vingança. Uma sensação de culpa dominou-o naquele instante, porque fazia dias que ele estava esquivando-se de cumprir o acordo em troca da segurança de Tatiana. Lágrimas afloraram aos seus olhos e ele sentiu desprezo da própria falta de atitude. Luíza e Paloma, imaginando que aquela reação fosse exclusivamente por medo da morte de Tatiana, tentaram consolá-lo.

Vamos, Paulo, agora ela está nas mãos de Deus – disse Luíza, com voz suave, embora persuasiva.

- Sim, só nos resta esperar – ajudou Paloma. – Não há mais nada que possamos fazer aqui.

Sem contrariar, ele seguiu as garotas em direção da saída. Estava transtornado e por dentro seu corpo inteiro tremia. O ar frio da madrugada provocou um choque em seu organismo, que pareceu reagir. Então, ofereceu-se para levar as garotas para casa e conduziu-as para a pick-up Pajero. Assim que embarcaram, Luíza, que estava impressionada, não deixou de comentar sobre o automóvel.

Pertence a Elisabete. Tomei o carro emprestado por esta noite.

Elas calaram-se e seguiram primeiro até a casa de Luíza. Assim que a viu entrar, Paulo rumou para a casa de Paloma.

Paulo, posso fazer uma pergunta?

- Claro – respondeu ele, sem tirar os olhos da estrada.

- Você foi procurar a Tatiana depois que eu dei o endereço dos pais dela?

- Por quê?

- Porque a Tatiana não tem inimigos. Mas pode ter despertado o ódio de uma mulher.

- Não sei do que está falando.

- Não se faça de sonso, Paulo. Quem teria interesse em assassinar a Tatiana senão a sua esposa? – Paloma estava revoltada.

- Ela não é minha esposa! – ele exclamou. – Eu amo a Tatiana. Não vou suportar perdê-la – respondeu ele, estacionando o carro na frente da casa de Paloma.

- Desculpe, não tive intenção de te ofender. Mas se você ama mesmo a Tatiana do jeito que acabou de me dizer, então vai ter que enfrentar as coisas das quais você tem medo.

Ela desceu do carro e entrou. Paulo observou no horizonte os primeiros raios de sol despontando, mas a névoa continuava baixa. As últimas palavras de Paloma ecoavam em sua mente e ele finalmente se deu ao direito de chorar. Engatou a marcha e retornou pela estrada, disposto a voltar ao hospital. Novamente ele se sentiu responsável pelo crime, mas, ao contrário do que deixara acontecer a Evelin, decidiu não medir esforços para salvar a vida de Tatiana. Entretanto, sua mente entrara em turbilhão e ele não conseguia raciocinar para encontrar soluções. Já seu coração indicava que ele fosse ao encontro de Tatiana. De alguma maneira, ele sentia que havia um vínculo muito forte com ela e não queria perdê-la.






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