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Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 6 - PARTE I - BANCO DE HORAS


Após três semanas de férias, Tatiana voltou ao trabalho. Entrando no setor, apressou-se a abraçar Natália, com cuja amizade sempre pudera contar.

- Como está, Tati? 

- Eu estou tão feliz, Natália! Tenho uma coisa muito importante para dizer.

- Dá pra ver que você está mesmo feliz. E aí, “viajou” muito nas férias?

- Sim, mas desta vez eu fui até o céu – disse Tatiana, transbordando de felicidade.

- Ãh? Como assim? – Natália curvou as sobrancelhas diante do comentário enigmático. – Tati, você está muito misteriosa... o que aconteceu?

- Você nem imagina...

- Fala logo...

- Eu encontrei o...

Luíza e Paloma entraram na sala, interrompendo a conversa, e logo foram dando as boas vindas para Tatiana, que as abraçou amistosamente.

- Depois falamos – disse Tatiana a Natália, que aguardava a revelação. – Ei, meninas, a Valéria já chegou?

- Ainda não – respondeu Luíza. – Parece que ela vai participar de um treinamento na matriz hoje e amanhã.

Tatiana não ficou muito satisfeita com a notícia, porque desejava falar com a supervisora sobre a compensação de horas da semana que ela tirara para se recuperar do suposto choque emocional com o casamento e pretendia zerar seu banco de horas o quanto antes. Assim, resolveu conversar com Luíza e esta telefonou para Valéria. Dentro de instantes, Luíza informou que Valéria estaria na empresa antes do meio-dia devido à prorrogação da data do treinamento de líderes na matriz da Optical. Tatiana agradeceu e retomou seu trabalho, embora as atividades que ela realizava dentro da empresa estivessem muito distantes de seus ideais, pois ela sonhava em ser uma romancista de verdade e publicar as histórias que escrevia. Como mera auxiliar administrativa, ela se via na obrigação de contar com o que tinha. Suspirou e começou a avisar o corte de rede, telefonando para cada assinante dos 120 telefones apontados em seu relatório. Aquela atividade não lhe animava, pois, tal qual uma gravação, repetia a mesma informação tantas vezes quantas fossem necessárias.
À tarde, Tatiana encaminhou-se para a sala da supervisora e combinou o horário para compensação de horas. Quando passava das 18 horas, ela estava exausta. Em seu primeiro dia enfrentar uma jornada de trabalho de doze horas não era tarefa fácil.

- Tati, tem certeza de que quer ficar? – perguntou Paloma, enquanto desligava seu computador.

- Claro, já conversei com a Valéria e está tudo acertado para eu trabalhar até as 21 horas de hoje até quinta.

- Então tá, tchau.

- Eu também queria ficar para adiantar o serviço, Tati, mas você sabe, eu tenho curso – explicou Luíza.

- Não precisa me dar satisfações. Eu estou cumprindo a minha obrigação – respondeu Tatiana, com naturalidade.

- E você, Natália? – perguntou Luíza, observando que ela ainda continuava digitando. – Ainda não vai?

- Eu vou ficar mais um pouco, porque quero terminar esse lote – argumentou Natália, apontando para a pilha de documentos que aguardavam lançamento no sistema. – Tem algum problema?

- Não, mas não se esforce muito. Precisa prevenir a LER (Lesão por Esforço Repetitivo), tá bom?

- Tá legal.

- Tchau pra vocês. Vamos, Paloma!

Assim que as garotas saíram do departamento, Natália aproximou-se de Tatiana. 

- Que bom que você ficou – alegrou-se Tatiana, sorrindo para a amiga. – Eu preciso muito conversar com você. Senta aqui!

- Então me conta tudo, não esconda nada – brincou Natália.

Tatiana riu e começou a falar do amor que sentia por Paulo e narrou o encontro. Cada palavra fazia seus olhos brilharem e sua felicidade contagiou Natália, que sorria emocionada.

Enquanto isso, Luíza e Paloma seguiam pelos corredores na direção da saída, acenando para os companheiros dos outros departamentos que também encerravam o expediente. Pouco a pouco a empresa foi ficando vazia e às escuras. Na porta de saída elas encontraram-se com Valéria, que aguardava alguma coisa.

- Você, já de saída? Vai chover... – brincou Luíza, porque sabia que Valéria estava sempre ocupada com o cumprimento das atividades solicitadas pela matriz.

- O Ernesto vem me buscar... – explicou Valéria. – Olha ele aí!

- Hum... – fizeram as meninas, enquanto Valéria embarcava no automóvel que acabara de estacionar. – Vai namorar...

- É isso aí! Tchau, garotas! Cuidem-se.

Luíza e Paloma permaneceram algum tempo no pátio da empresa. Enquanto isso diversos instaladores deixavam os veículos no almoxarifado e se despediam delas, inclusive Paulo, que as cumprimentou alegremente, surpreendendo-as com sua atitude.

Do outro lado da rua e oculto pelas sombras, uma pessoa com uniforme da empresa acompanhava toda a movimentação. Olhou o relógio e resmungou:

- Que droga! Ela ainda não saiu.

Assim, continuou sua vigília, aguardando o momento oportuno para colocar seu plano em ação.


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