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Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 9 - PARTE I - O SEGREDO

Pela primeira vez em semanas, Paulo pôde dormir satisfeito consigo mesmo. Tomara uma atitude digna e lamentou que demorasse tanto para chegar a tal decisão. Finalmente, Elisabete estava fora de sua vida.

Apesar da sensação de vitória, ele despertou na manhã seguinte com um gosto amargo na boca. Lavou o rosto e olhou no espelho o que sobrara do homem que ganhara a liberdade afastando sua rival e que perdera a mulher que amava, tudo no mesmo dia. Ele sentia-se velho, entorpecido pelos problemas, perdera o brilho nos olhos que era tão comum em sua juventude. Pensou em Tatiana e viu uma lágrima deslizar pela face de sua imagem no espelho. Limpou a gotícula com as costas da mão e foi até a sala onde acendeu um cigarro e sentiu a fumaça penetrando em seus pulmões. Olhou em torno e viu o violão apoiado em um canto. Imediatamente lembrou o dia em que conheceu Evelin. Ela agora era somente uma lembrança, mas lhe fazia falta. Paulo observava mentalmente Evelin e Tatiana, sendo-lhe impossível definir qual delas mais amava. Apagou o cigarro no cinzeiro, apanhou o violão e começou a dedilhar uma melodia. Fazia anos que não tocava. As primeiras notas pareceram-lhe desafinadas e grotescas, mas pacientemente ele conseguiu tocar uma música que cantava junto com Evelin nos cultos de louvor de sua pequena comunidade.

Após cantar, Paulo devolveu cuidadosamente o instrumento ao lugar e ergueu a face para o alto, fazendo uma prece para Evelin. Uma brisa suave soprou em seguida e ele preparou-se para ir para o trabalho e recomeçar sua vida.

Quando chegou na empresa e antes que pegasse seu veículo, seu supervisor chamou-o e com total falta de diplomacia informou que Paulo havia deixado ordens de serviço vencerem, o que prejudicou os indicadores, e por aquela razão estava sendo desligado da Integração. A última obrigação a ser cumprida era passar na sala do coordenador para assinar a rescisão de contrato.

Novamente Paulo sentiu seu mundo ruir. Lembrara-se como Elisabete havia sujado seu nome, mas desta vez não poderia culpá-la e, cabisbaixo, encaminhou-se para a sala do coordenador. Quando se preparava para tocar na maçaneta, a porta se abriu.

Tatiana?!

- Paulo?!

- Está de saída? – Ele observou a bolsa que ela levava pendurada no ombro.

- Eu... acabei de me demitir – respondeu ela, sem conseguir olhar nos olhos dele. – E você?

- Eu estou sendo desligado. Deixei ordens de serviço vencerem.

- Não era para menos, depois de toda essa confusão... – disse ela. – E como você se sente?

- Um perdedor. – Ela olhou rapidamente para ele, mas desviou novamente o olhar. – Mas por que está saindo? – ele quis saber.

- Eu preciso reaprender tudo, Paulo. Além disso, a amnésia provocou um desequilíbrio emocional difícil de ser revertido e eu estou voltando para o campo.

- Lembrou de seus pais? – indagou ele, surpreso.

- Algumas coisas, o suficiente para eu encontrá-los – ela estava nervosa e inquieta e ele percebeu isso. – Eu preciso ir – ela tentou sorrir.

- Tatiana – chamou ele antes que ela sumisse no corredor.

- Que foi? – ela engoliu em seco.

- Eu não estou mais na casa de Elisabete. Agora tenho armas para lutar de igual para igual com ela. E eu te amo. Você vai deixar saudades. Tem certeza de que não posso ter mais uma chance?

- Já falamos sobre isso – respondeu ela, tentando ser forte.

- Eu perdi você pra sempre?

- Você vai ficar bem. Adeus.

Paulo acompanhou seus últimos passos até ela desaparecer na escadaria. Abaixou a cabeça, desconsolado, e entrou na sala do supervisor.

Quando Tatiana desceu as escadas, ela sentia o peito comprimido e só pensou em fugir. Saiu da empresa, embarcou na bicicleta e pedalou o mais depressa que podia, sentindo o vento secar suas lágrimas, grudando-as na face. Paulo perdera até mesmo o emprego e ela estava tirando dele a chance de ser feliz.  Enquanto pedalava sem destino, ela avistou o parque em que Paulo havia confiado suas aflições. Ela parou a bicicleta e sentou-se no banco, observando as crianças brincarem, mas com a mente e o coração condenando-a pela atitude de fazê-lo sofrer. Tatiana recobrara a memória pouco a pouco e demorou algum tempo até que conseguiu organizar seus pensamentos. A primeira abertura de seu passado deu-se quando ela estava saindo do hospital. Quando Paulo mencionou que eles haviam se amado, então, como um flash, ela lembrou dos momentos em que eles declararam seu amor. Dessa forma, o mapeamento de sua memória recebera um ponto de partida. E a conversa que tivera com Natália pouco antes de tomar a decisão de se demitir foi decisiva para Tatiana lembrar de tudo o que ocorrera. Após a reunião dos fatos, ela começou a sentir medo pela vida de Paulo e continuou fingindo amnésia para protegê-lo.

Apesar da decisão que tomara de ocultar a verdade, Tatiana ficou com o coração dividido após receber a comprovação de uma suspeita, que também ajudou na recuperação de suas lembranças. Ela abriu a bolsa e retirou o resultado de um exame médico. Lágrimas afloraram-lhe aos olhos e ela sentiu-se desamparada e solitária. Por outro lado, seu coração dizia-lhe para que ficasse feliz, porque recebera de Paulo o presente maravilhoso que era o filho que crescia em seu ventre. O pensamento trouxe um sorriso aos seus lábios e ela acariciou a barriga, dizendo:

Meu bebê, está na hora de dar a boa notícia aos seus avós.

    Então ela foi para casa e depois de algumas horas já estava em um ônibus com destino ao seu refúgio.




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