"Para não perder a rota, é necessário seguir um caminho; se não puder desviar das pedras, ajunte-as e forme uma calçada sedimentada por palavras."
CAPÍTULO 10 - PARTE II - DO OUTRO LADO DA LINHA
A delegada Rosana e o policial Luiz invadiram a casa de itaúba à procura de Elisabete. Revistaram os cômodos e encontraram o dossiê jogado no chão, perto da porta. Também observaram os objetos quebrados no escritório.
- E agora, delegada?
Rosana voltou rapidamente para a viatura e comunicou-se pelo rádio.
- Acione todas as viaturas e mande que interditem as saídas principais da cidade. Estamos lidando com uma assassina em potencial e é preciso ter cautela. Mande uma equipe para vigiar esse lugar. – Ela virou-se para o policial e continuou: – Fique aqui até a equipe de investigação chegar. Preciso tomar algumas providências.
- Certo, delegada!
Tatiana chegou ofegante à casa dos pais e percebeu que não se enganara ao ver o Scenic estacionado próximo do portão de entrada. Ela respirou profundamente, procurando coragem para enfrentar Elisabete, e então entrou.
- Elisabete! Que surpresa! Veio me visitar? – perguntou Tatiana, tentando representar.
- Sim, querida Tati! Aproveitei também para conhecer sua família. Eles são adoráveis.
Tatiana olhou para a mãe e o pai e as duas irmãs para se certificar de que estavam bem.
- Ela disse que é sua amiga – declarou a mãe, inocentemente.
- Ah, claro mãe. Ela é minha amiga, sim.
- Exatamente, e como amiga vim aqui para oferecer alguns cuidados indispensáveis para a futura mamãe.
- Futura mamãe? Do que está falando? – Tatiana sentiu o mundo girar.
- Ora, meu bem, não precisa disfarçar. Eu já sei de tudo.
Tatiana olhou assustada para sua família, imaginando que eles tivessem contado o segredo para ela e ficou ainda mais zonza quando todos negaram com um discreto balançar de cabeça. Elisabete então continuou, mudando drasticamente seu tom de voz:
- Além disso, não precisa mais fingir a amnésia. Sei que é farsa sua.
- Mas então o que quer? – Tatiana sentou-se em uma cadeira, tentando controlar seus nervos.
- Como eu disse, a sua família é muito querida e eu não gostaria de fazer mal a eles – ironizou, enquanto retirava o revólver da bolsa e apontava na direção da irmã mais nova que se encolheu com medo.
- Não! Por favor, não atire! – implorou Tatiana, levantando-se e parando em frente à arma engatilhada. Seus olhos encheram-se de lágrimas. – Deixe-os em paz, eu faço tudo que você quiser...
- Ah, agora estamos nos entendendo. Venha comigo, Tatiana! – ordenou ela, apontando para o veículo. – Depressa, entre no carro! E quanto a vocês, espero que fiquem bem quietinhos. Eu vou levar a filha e o neto de vocês para dar um longo passeio.
Impotentes, os pais de Tatiana viram-na ser levada e quando o veículo sumiu no horizonte, todos entraram em desespero.
Tatiana estava imóvel em seu lugar no banco do passageiro, rezando para Elisabete não disparar a arma que mantinha apontada o tempo inteiro para ela enquanto dirigia pela estrada rural. Não fazia a menor ideia para onde estava sendo levada e observava com temor constante e crescente as plantações intermináveis.
Elisabete cantarolava a música que tocava em seu aparelho no automóvel e mantinha a guarda em Tatiana. De vez em quando lançava um olhar fulminante para a moça. Sua segurança inabalável provocava em Tatiana pânico ainda maior.
- Para onde estamos indo, Elisabete?
- Você já vai saber.
Elisabete desligou o som e parou o carro em uma casa abandonada no final da estrada. A casa estava depredada e o mato tomara conta. Limoeiros e pessegueiros dividiam lugar com a vegetação que crescera assustadoramente. Um tanque de pesca ficava há alguns metros da casa e a cerca de arame que o circundava servia de apoio para maracujazeiros carregados de frutas verdes. Atrás da casa, um rancho abrigava alguns equipamentos agrários e ferramentas enferrujadas.
Assim que Tatiana desceu do veículo, pode ouvir o som de cachoeiras e sentiu calafrios.
- Onde estão os moradores deste lugar?
- Não se preocupe, meu bem. Ainda não chegou a pessoa que vai testemunhar a sua morte. Vá andando!
- Porque você me trouxe para cá, afinal? Se vai me matar, porque não acaba com isso de uma vez?
- Nossa, que corajosa – zombou Elisabete, conduzindo a prisioneira para o rancho onde apanhou uma corda para amarrar as mãos de Tatiana. – Você vai ser a minha isca.
O sol estava aproximando-se de seu horário de maior incidência, mas as árvores o ocultavam à medida que as mulheres adentravam na floresta. O barulho do rio ficava mais audível e a mata parecia apinhada de olhares curiosos de pássaros e animais silvestres. Alguns metros adiante a estrada terminava na beira de um riacho raso.
- Atravesse! – ordenou Elisabete e Tatiana deu os primeiros passos dentro da água gelada, tentando equilibrar-se com as mãos amarradas.
Assim que chegaram à outra margem e subiram uma colina, avistaram duas retroescavadeiras que estavam inoperantes. Ao lado, uma construção precária abrigava alguns galões de combustível. O sol voltara a bilhar sem nenhum obstáculo na área devastada da vegetação nativa. Elisabete obrigou Tatiana a sentar-se do lado de fora do barracão e amarrou-a em uma pilastra.
- Está preparada para ser devorada pelos abutres, querida? Finalmente você vai sair do meu caminho.
- Tenha piedade, Elisabete. Eu imploro! – Tatiana começou a respirar sofregamente e gotas de suor formaram-se em suas têmporas.
- Piedade? – Elisabete riu. – Mas vamos ter ainda muito tempo para conversar. – Ela fez uma ligação no celular. – Olá, meu bem! Escute quem está aqui comigo... – Elisabete acocorou-se ao lado de Tatiana, pressionou a arma em seu pescoço e encostou o celular no rosto da garota. – Fale, sua imprestável!
Tatiana transpirava e mal podia engolir, pois o cano de metal feria sua garganta. Ela respirava irregularmente, mas se recusou a falar quando ouviu a voz de Paulo no aparelho.
- Fale! – Elisabete engatilhou a arma e pressionou-a contra o ventre de Tatiana. – Senão ele morre primeiro!
- Paulo – disse ela, com voz trêmula.
- Tatiana? – Do outro lado da linha, Paulo teve um sobressalto. – Tatiana, você está bem? Onde você está?
- Não sei – respondeu ela, enquanto continha o choro. – Paulo, desculpe...
Elisabete afastou-se dela e voltou a falar com Paulo.
- Viu? Agora acredita em mim?
- Elisabete, é a mim que você quer, não machuque a Tatiana – pediu ele, engolindo em seco.
- Pode deixar.
Elisabete aproximou o aparelho do revólver e disparou. Tatiana deixou escapar um grito estridente. Paulo ouviu o disparo e andou às cegas pela casa.
- Não! – gritou ele. – Elisabete, você não...
- Calma, querido. Esse foi só o começo. Ela ainda está viva.
- O que quer que eu faça? – Ele levou as mãos à cabeça tentando conter seu desespero.
- Venha buscá-la. Se demorar muito, pode chegar aqui e ter uma surpresa.
- Onde?
Ele rapidamente rabiscou as coordenadas em um pedaço de papel.
- Sem truques, Paulo. Venha sozinho, entendeu?
- Sim, mas deixe eu ouvir Tatiana mais uma vez.
Ela aproximou-se novamente de Tatiana, que gemia de dor.
- Satisfeito? – Em seguida, ela desligou o aparelho.
- Elisabete? Alô, Elisabete? Droga!
Paulo cobriu o rosto com as mãos e imediatamente fez uma ligação.
- Escute – falou ele ao telefone –, nós não temos mais tempo. A Elisabete sequestrou a Tatiana.
Paulo informou a direção para onde Elisabete havia levado Tatiana e desligou o aparelho. Em desespero, esfregou os olhos para conter as lágrimas, levantou os braços para o céu e orou. Depois que a esposa havia falecido, ele se revoltara contra Deus e praticamente abandonara sua fé. Sentindo culpa, responsabilizava o Criador pela solidão e dificuldades que vivia constantemente. Entretanto, naquele instante ele percebeu que Deus havia dado a ele uma nova chance quando conhecera Tatiana e pediu perdão por todos os seus erros. A comoção invadiu seu ser e, aliviado, Paulo chorou, pedindo ajuda para salvar a mulher que amava. Em seguida, confiante e com nova coragem, saiu correndo para o lugar indicado.
Enquanto aguardava a chegada de Paulo, Elisabete rondava o lugar e torturava psicologicamente sua prisioneira, que ficava cada vez mais abalada e mais fraca devido ao ferimento na perna.
- Que romântico – dizia ela, ironicamente. – O seu herói virá salvá-la.
- Elisabete – Tatiana estava ofegante. – O que pretende?
- Você é muito curiosa e está me irritando. Aliás, você é insuportável. Mas não vou precisar olhar para você por muito tempo. Quando ele chegar, aí a família estará completa e eu poderei dar meus parabéns.
Ela bateu palmas devagar enquanto sorria, ironicamente. Depois colocou o revólver no cós da calça jeans e seguiu para o barracão. Arrastou um dos galões e deitou-o, enquanto olhava divertida para o líquido espalhando-se no chão. Ela rolou o tambor para perto de Tatiana, observando com divertimento o medo estampado no semblante dela.
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