Minha foto
Joinville, Santa Catarina, Brazil

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS – 10ª PARTE


Antônio pegou Cláudia em casa e retornaram ao hospital para buscar Fernanda, que já recebera alta. Deixou as garotas na casa de Fernanda e seguiu para o trabalho. Cláudia teve o bom senso de telefonar para os pais, avisando que passaria a noite na casa da amiga.

- Cuide-se bem, filha – recomendou sua mãe.

- Eu vou estar bem, mãe – respondeu Cláudia, desligando o telefone. E virou-se para a amiga, que se ajeitava na poltrona. – Ô, Fê? Eu posso ligar pra Patrícia? Eu quero ver se o Antônio foi para lá.

- Não precisa nem perguntar, sua boba. Mas o que quer falar com o Antônio que não pode esperar?

- É que ele anda meio esquisito e eu quero ver se ele tá melhor.

- Por quê? Ele tá doente? – perguntou Fernanda, arrumando as almofadas para se acomodar melhor.

- É por causa dessa obsessão... Opa! Tá chamando – interrompeu Cláudia.

Patrícia atendeu a ligação no telefone sem fio, que estava sobre os livros que ela estudava.

- Alô.

- Oi, Patrícia! Aqui é a Cláudia. Tudo bem com você?

- Tudo. Fico feliz por você ter ligado. Estava me sentindo tão sozinha.

- Ah, o Antônio não está com você?

- Ele esteve aqui, mas já foi embora. Ele ainda não levou você ao hospital, Cláudia?

- Sim, eu tô com a Fernanda na casa dela. Talvez até você possa me dizer como ele está. Eu achei o Antônio meio esquisito hoje.

- Quando ele chegou aqui, ele estava mesmo diferente. Mas... Cláudia, eu vou te dar o número do celular dele. Ele tem plantão hoje à noite.

Cláudia fez sinal para Fernanda arranjar papel e caneta. Fernanda esticou-se para apanhar os objetos na mesa de centro e entregou para Cláudia.

- Pode falar, Patrícia. Nove, nove... tá... tá... Obrigada, Patrícia.

- De nada, Cláudia. E a propósito, você está melhor?

- Eu?

- Só um minuto, Cláudia. Acho que os meus pais esqueceram a chave e estão tocando a campainha. Está mesmo na hora de eles chegarem. Vou lá ver...

Cláudia estranhou que os pais dela tocassem a campainha em vez de chamar, mas ficou na linha. Enquanto isso, Patrícia levava o telefone sem fio e despreocupadamente abriu a porta. De repente, gritou, e o aparelho foi atirado para longe.

- Patrícia! Patrícia! Responde! – berrou Cláudia, pelo telefone. Ela sentiu a respiração ofegante de Patrícia, ouviu o barulho da porta e escutou o grito. E no instante seguinte, a ligação caíra.

Cláudia desligou o telefone e procurou se acalmar. O grito de horror de Patrícia ecoava em sua mente.

- É ele, Fê! Pelo amor de Deus, Fê! O Maurício tá com a Patrícia!

- Mas do que você tá falando, Cláudia? Calma!

- Eu tô calma! Eu tô calma! – dizia ela, apesar de o corpo todo tremer. – Meu Deus, Fê! Precisamos salvar a Patrícia!

- Mas como? – perguntou Fernanda, tão apavorada quanto Cláudia.

- Pensa, Cláudia, pensa! – gritava Cláudia, para si mesma. – O celular! O celular do Antônio!

Cláudia imediatamente ligou, tentando controlar seus nervos.

- Fora de área! Que merda!

- Tenta de novo, Cláudia!

- Tenta você, Fê! Eu não consigo ver nada na minha frente.

Fernanda digitou os números devagar e na primeira chamada, Antônio atendeu. Cláudia arrancou o fone da mão de Fernanda e contou tudo para Antônio.

- O Antônio já vai pra lá – anunciou Cláudia, ofegante. – Fê, nós temos que ir até lá!

- Mas de quê? Bicicleta, por acaso? Você tá vendo meu pai por aqui? – gaguejou ela, tão nervosa quanto Cláudia.

- Mas o carro dele tá aí, não tá?

- Sim, mas...

- Vamos!

- Mas você não tem habilitação, Cláudia! – protestou.

- Que se dane a habilitação! Precisamos salvar nossa amiga!

Fernanda viu o brilho dos olhos de Cláudia. Aquele brilho de decisão voltara a aparecer. Então pegou a chave do automóvel no quarto dos pais e entregou-a para Cláudia. Escreveu um bilhete para os pais e seguiu a amiga.

Antônio chegou na casa de Patrícia e desesperado encontrou os pais dela.

- Meu filho... – disse Ronaldo. – Onde está minha filha? Quando chegamos, encontramos a porta escancarada.

Antes que Antônio pudesse responder, ouviu um barulho na calçada. Imediatamente sacou o revólver e correu na direção do som. Cláudia e Fernanda gritaram e levantaram os braços.

Antônio não as distinguiu de imediato, porque elas haviam deixado os faróis do carro ligados.

- Somos nós, Antônio.

Ele guardou a arma, desapontado.

- O que fazem aqui? É perigoso.

- Perigo é o que a Patrícia tá correndo. Onde ela tá?

- Não está aqui.

Antônio entrou na casa, observando a existência de sinais de arrombamento ou violência. Não havia nada. Encontrou o telefone sem fio danificado jogado em um canto da sala.

- Ela estava falando com Cláudia quando tudo aconteceu, Seu Ronaldo, e é por isso que sabemos que ela foi sequestrada.

- Meu Deus! De novo, não!

Ronaldo sentou-se no chão e chorou, inconsolável. Antônio bateu no ombro dele.

- Eu vou encontrá-la. Prometo para o senhor e para mim.

Ronaldo levantou a cabeça devagar. Seus olhos demonstravam um sofrimento que o remoía por dentro.

- Encontre a nossa menina, meu filho. E quando encontrar aquele desgraçado, acabe com ele! – falou da boca pra fora, soluçando.

O sofrimento dele atribuiu mais força ao ódio de Antônio. Cláudia e Fernanda acompanharam a troca de palavras e assustadas, reconheceram nelas também um ressentimento perigoso.

Antônio foi até a frente da casa procurar pistas. As moças seguiram-no. No meio da rua, Cláudia encontrou um objeto e mostrou-o a Antônio.

- Era a tiara que ela usava no cabelo hoje quando saí...

E Antônio também chorou. Fernanda, que era muito sensível, chorou com ele. Cláudia aproximou-se dele e quis dizer-lhe algumas palavras de consolo, mas antes que pudesse falar, o celular de Antônio tocou e ele o atendeu prontamente.

- Alô, camarada!

Antônio ficou mudo ao ouvir a voz irônica. De repente, o sangue sumiu de sua face.

- Desgraçado! Onde está a Patrícia? Responda ou eu...

- Você o quê? Vai dar voz de prisão por telefone?

A gargalhada foi ouvida até mesmo por Cláudia e Fernanda, que acompanhavam as reações de Antônio.

- Onde está a Patrícia? O que fez com ela? – berrou Antônio, chamando a atenção de Ronaldo, que veio até a calçada.

- Calma – continuou Maurício. Não precisa se preocupar. Ela está aqui comigo, sã e salva. E quanto a fazer... estou esperando o momento certo, sabe?

- Seu filho da mãe! Quero a Patrícia aqui! Agora!

- Não, ainda não. Fale com ele, gatinha. Diga como está feliz nos meus braços. – Maurício arrancou a fita adesiva da boca de Patrícia e ela gemeu.

- Tony! Cemitério Mã...

Antônio ouviu a voz dela e em seguida o grito de dor.

- O que fez com ela? – Sua voz enfraqueceu. – Por favor, não a machuque.

- Claro que não. Eu vou cuidar muito bem de você, meu amor, igualzinho a primeira vez...

Maurício deixou o telefone público pendurado e arrastou Patrícia pela rua deserta.

- Não! Pare! Me diga o que quer... – Antônio desesperado desligou o aparelho e passou a mão na cabeça.

Ronaldo compreendeu o perigo no gesto de Antônio.

- Onde está minha filha?

Antônio não respondeu. Olhou na direção de Cláudia.

- O que está acontecendo? – perguntou Cláudia, com medo da resposta.

- Ele está com a Paty – disse Antônio, com a voz quase sumida.

- Mas... não disse onde? – perguntou Fernanda.

- Não. Isto é, não exatamente. Ela disse cemitério. Acho que ele vai... matá-la.

- Escute, Antônio – disse Cláudia. – Não creio que ele vá matar a Patrícia. Talvez ela tenha dito a localização deles.

- Não, ela só disse isso... – Fraquejou novamente. – E mais nada. Não ouvi mais a voz dela. Senhor...

- Mas vamos ficar aqui parados enquanto a minha filha corre perigo? – Ronaldo estava revoltado.

- Estou de mãos atadas – falou Antônio. – Se ela morrer, eu vou morrer junto.

À medida que os minutos passavam, a agonia deles aumentava. Cláudia e Fernanda cochichavam e gesticulavam muito. De repente, elas saltaram do meio-fio onde estavam sentadas e aproximaram-se de Antônio e Ronaldo.

- Antônio, a Fernanda teve uma ideia – disse Cláudia, com uma pequena esperança.

- O celular – começou Fernanda, – ele não memoriza as chamadas recebidas?

Antônio imediatamente pegou o celular e pressionou algumas teclas.

- Claro! – sorriu ele. – Como é que eu não me lembrei disso antes?

Ele ligou para a delegacia. O policial de plantão se prontificou a verificar a informação.

- Vai logo, companheiro! – implorou Antônio, ansioso. – Endereço? Ahã, tá. Valeu, cara! – Antônio virou-se para Cláudia, Fernanda e Ronaldo. – Era telefone público, próximo ao cemitério municipal. Preciso ir.

Antônio correu para a viatura.

- Vou com você! – exclamou Ronaldo.

- É melhor o senhor ficar. Posso precisar de sua ajuda.

- Tudo bem.

Cláudia e Fernanda embarcaram sem perguntar nada.

- O que querem aqui? – indagou, com olhar severo para as duas.

- Vamos com você...

- Nada disso! Desçam!

- Mas, Antônio...

- Desçam! Isso é trabalho pra polícia. Vamos, estou perdendo tempo com vocês. É uma ordem!

Cláudia e Fernanda desembarcaram contra a vontade. Elas viram Antônio desaparecer na esquina.

- E agora, Cláudia?

Cláudia puxou fôlego.

- Temos uma solução melhor.

Fernanda engoliu em seco, tentando imaginar o que a amiga tinha em mente. Pela primeira vez, duvidou das boas ideias de Cláudia, mas resolveu segui-la, pelo menos, para tentar evitar que ela se envolvesse em mais confusão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário