O sol já estava alto e Tatiana tentava lembrar seu passado, porém, exausta de procurar recordações onde não existia começo, nem meio, nem fim, ela fechou os olhos e começou a chorar.
Naquele momento de profunda angústia adentrou no quarto um homem que se identificou como detetive de polícia. Tatiana estava com o rosto molhado, olhos e nariz vermelhos e mal pôde pronunciar bom dia.
- Você está chorando porque alguém tentou te matar, não foi? – aproveitou ele.
- Me matar? – perguntou Tatiana, sobressaltada. – Alguém tentou me matar?
- Claro que sim. Não esconda a verdade da justiça, Tatiana – falou ele, severo. – A quem você está tentando proteger?
- Eu não me lembro... – respondeu ela, cada vez mais assustada com a atitude dele, sua voz entrecortada pelos soluços. – Não lembro de nada...
- Ora, vamos, moça! Não estou aqui para perder meu tempo. Quero o nome ou a descrição da pessoa que tentou matar você!
O homem era de aparência jovem, porém, demonstrava autoridade que não lhe era concedida. Enquanto Tatiana sentara-se na cabeceira, ele sacudiu-a pelos ombros.
- Quero o nome agora!
A servente que trazia a refeição matinal de Tatiana entrou também e presenciou a atitude do homem. Tratou de chamar uma enfermeira, que veio imediatamente. Tatiana gritava de horror e chorava como uma criança pequena.
- O senhor não tem direito de invadir assim um quarto e tratar dessa forma uma convalescente. Peço que se retire – ordenou a mulher. Em seguida, ela ajeitou Tatiana, que se encolhera deitada na cama e soluçava forte. – Fique calma, agora. Já está tudo bem. – A enfermeira apanhou um medicamento, espetou-o com a seringa e em seguida, injetou o líquido na válvula de soro. Aos poucos, Tatiana parou de chorar e ficou sonolenta. Não demorou muito e seus olhos se fecharam.
Paulo sentiu um cheiro estranho no ar e ajeitou-se na cama, abrindo os olhos devagar para habituá-los à claridade que vinha da sacada. A veneziana ficara aberta durante a noite e ele estranhou, pois sempre tomara o cuidado de fechar antes de se deitar. Um sabor amargo predominava em sua boca e provocou-lhe náuseas. Sua cabeça latejava dando a sensação de que havia ingerido uma grande quantidade de álcool.
Subitamente, ele sentiu que seu colchão se movimentou e olhou atônito para o lugar onde uma mulher se mexera, se espreguiçando em seguida. Paulo não acreditou quando viu Elisabete em sua cama e finalmente resgatou da memória os fatos da noite anterior. Ele estava muito confuso e sua primeira reação foi sair imediatamente da cama para fugir do pesadelo. Quando levantou, sentiu-se tonto e deu a volta na cama para ir ao banheiro tateando nos móveis. Viu a fantasia de Elisabete caída no chão ao lado da cama e supôs que ela estivesse nua sob o lençol. Engoliu em seco diante das evidências e sentiu nojo de si mesmo. Alcançou o lavabo e jogou água fria no rosto para afastar o mal-estar, que persistia, apesar da tentativa frustrada de se controlar. Voltou para o quarto e observou o cenário à luz do dia. Em seguida, andou até a sacada em busca de ar.
- Bom dia – disse Elisabete, enquanto ele estava de costas para a cama. – Como está se sentindo?
- Bem – respondeu ele, envergonhado. Continuou olhando para fora, enquanto ela levantava da cama, enrolada no lençol.
- Fico feliz, Paulo, porque ontem à noite você não estava bem, e por isso fiquei aqui.
- É? Para aproveitar-se da situação, você quer dizer – falou ele, em tom frio e distante, sem se irritar. Sentiu que ela se aproximou dele.
- Vou fingir que você não disse isso. É assim que você agradece por eu ter ficado cuidando de você durante a noite? – Ele afastou a cabeça do toque da mão dela.
- Elisabete, escute, eu não lembro o que exatamente aconteceu, parece que fui apagado durante essas horas, mas quero que saiba que eu não estava consciente do que estava fazendo...
- Não precisa se punir assim, meu querido – interrompeu ela, sorrindo para ele. – Não houve nada entre nós dois. Tranquilize-se.
Ele olhou diretamente nos olhos dela e franziu a fronte, cada vez mais perplexo.
- O que está querendo dizer?
- Que eu apenas dormi em sua cama, nada mais.
- Espera que eu acredite nisso? Olhe pra você – ele apontou-a nua enrolada no lençol.
- Eu não podia deitar com aquelas roupas incômodas.
Assim que respondeu, Elisabete foi até o closet e vestiu um roupão.
- Eu realmente não lembro de nada, Elisabete. O que me intriga é que você não está usando isso a seu favor.
- Quero que você me ame de verdade, Paulo, não porque há um contrato que o obrigue a fazê-lo. Quero formar uma família com você. Eu não usaria um truque barato deste tipo para conquistá-lo. – Ela começou a chorar baixinho e sua voz tornou-se um murmúrio. – Não é justo você me julgar assim depois de eu ter me esforçado para cuidar de você.
- Desculpe, Elisabete, não tive intenção de magoar você.
- Não tem importância. Quanto a esta bagunça, fique tranquilo que eu irei reorganizar seu quarto durante o dia.
Quando ficara novamente sozinho, Paulo refletiu sobre as atitudes que Elisabete tomara, mas, apesar de ter certeza de que ela estava tramando alguma coisa, sentiu um pequeno arrependimento por julgá-la.
Depois que se recuperou, Paulo voltou a pensar em Tatiana, que precisava dele naquele momento. Preparou-se e seguiu para o hospital.
Encontrou Tatiana dormindo e se aproximou para acariciá-la. Tatiana sentiu o toque dele e encolheu-se na cama, com medo.
- Vai embora – pediu ela. – Eu não tenho nada para dizer, não me lembro de nada. Vai embora!
- Tatiana, sou eu, Paulo. Deixa eu cuidar de você, por favor.
- Paulo? – Ao ouvi-lo, ela abriu os olhos e sentou-se na cama. – Pensei que era o detetive. Ele queria que eu contasse quem tentou me matar, mas eu não lembro de nada.
- Detetive? Quando foi que ele esteve aqui? – perguntou ele, alarmado.
- Hoje cedinho.
Paulo ficou indignado, porque a polícia havia garantido que não faria investigações.
- Calma, agora me conte como você está.
Tatiana não sentia segurança com ninguém. Imaginou que Paulo poderia ser responsável por ela quase ter morrido e ficou com medo. Naquele instante, algumas imagens surgiram em sua mente, em que Paulo demonstrava antipatia por ela. Ouviu a voz severa dele ao telefone. Lembrou do local em que trabalhava, sem se dar conta de que essa informação tratava-se de parte de sua memória. Outras pessoas apareceram, mas apenas rostos sem nome. As cenas desenfreadas causaram confusão e desespero e ela começou a chorar.
- Sua memória vai voltar, Tatiana, pode acreditar – tranquilizou Paulo, desejando abraçá-la e confortá-la, mas temendo que ela reagisse de maneira negativa caso ele tomasse alguma atitude precipitada.
- Eu tenho família?
- Claro.
- Então, porque meus pais não vêm me ver?
- Você se lembra deles?
- Não.
- E de mim?
- Vagamente.
- Coisas boas? – perguntou ele, ansioso. Ela negou e deixou-o visivelmente decepcionado. – Tatiana, me escute, eu te amo e você também me ama. Precisa deixar eu cuidar de você.
- Não posso confiar em você. Pra mim, você é um estranho.
- Sua memória vai voltar, Tatiana, pode acreditar – tranquilizou Paulo, desejando abraçá-la e confortá-la, mas temendo que ela reagisse de maneira negativa caso ele tomasse alguma atitude precipitada.
- Eu tenho família?
- Claro.
- Então, porque meus pais não vêm me ver?
- Você se lembra deles?
- Não.
- E de mim?
- Vagamente.
- Coisas boas? – perguntou ele, ansioso. Ela negou e deixou-o visivelmente decepcionado. – Tatiana, me escute, eu te amo e você também me ama. Precisa deixar eu cuidar de você.
- Não posso confiar em você. Pra mim, você é um estranho.
Paulo ouviu as palavras duras e não escondeu o quanto elas o machucaram. Tatiana observou a reação dele, mas não sentiu remorso algum em dizer aquilo, porque era verdade.
- Eu vou localizar os seus pais – falou Paulo quando já ia se preparando para sair.
- Paulo – chamou ela. – Eu não sei quem sou, nem de onde vim, nem o que faço na vida. Estou sozinha e neste momento as pessoas que tomam conta de mim são o médico e as enfermeiras. Se não sei nem quem sou, como posso saber o que você é para mim? Eu posso ficar sem memória pelo resto da minha vida e não tenho direito de te dar esperanças, compreende?
Paulo assentiu com um gesto e saiu, cabisbaixo e desconsolado.
À tarde, Tatiana recebeu a visita de Luíza e Paloma e nem toda a descontração delas foi capaz de ajudá-la. Tatiana tinha a sensação de conhecê-las e Natália e Valéria eram apenas nomes sem rostos.
- Isso é angustiante – revelou Tatiana. – É como se eu tivesse nascido agora com este tamanho, já sabendo falar e andar.
- Agora literalmente você "viajou", Tati - admirou-se Paloma. - Mas você deve estar aflita com tantas incertezas.
- Já que vieram, me contem o que vocês sabem sobre o dia em que eu quase morri.
Elas hesitaram, mas decidiram contar o que sabiam. Luíza começou:
- Você e a Valéria tinham acertado que você iria trabalhar após o expediente para compensar as horas. Então, após as 18h nós nos despedimos de você e de Natália... – Luíza fez uma pausa – O resto a Paloma pode contar.
- Nós ficamos algum tempo no pátio da empresa, quando finalmente Natália apareceu. Ela assustou-se com nossa presença, mas disfarçou muito bem e foi embora com a Luíza. Depois eu fui para minha casa. Não sei bem que horas eram quando o telefone lá de casa tocou. Quando atendi, o Fred do Centro de Operações se identificou e disse que você havia passado mal e que ele já havia acionado atendimento médico. Aí avisei a Luíza.
- Quando eu cheguei na empresa e encontrei a Paloma, havia uma ambulância e uma viatura de polícia estacionados no local. A partir daquele momento, começamos a desconfiar de que algo de mais grave tinha acontecido.
- O que exatamente fizeram comigo? – indagou Tatiana, impaciente. – De que jeito eles... eles... – E deixou o pensamento no ar.
- Alguém tentou te estrangular com um pedaço de jump – respondeu Paloma.
- Jump? – A palavra era desconhecida para Tatiana.
- Sim, são aqueles fios de telefone que aparecem nos relatórios que a gente confere e digita, lembra?
Tatiana negou, respirou fundo e levantou da cama por um momento, aproximando-se da janela. As moças não compreenderam ao certo o que se passava na mente dela e permaneceram em silêncio, até finalmente Tatiana olhar para elas.
- Essa Natália... – começou Tatiana, – o que ela é para mim?
- Ela gosta de você e é sua amiga – respondeu Luíza.
- Mas a Paloma falou dela de um jeito... como se ela fosse a culpada – raciocinou Tatiana.
- Não, Tati, você não me entendeu – tornou Paloma. – Eu acho que você contou alguma coisa para a Natália antes de ela sair naquela noite, algo muito importante que pode levar ao verdadeiro assassino... – Paloma corrigiu-se: – Ou assassina...
Tatiana voltou para a cama lentamente e as lágrimas começaram novamente a se formar. Não conhecer a si mesma era, indiscutivelmente, uma tortura para qualquer pessoa que sofresse uma amnésia.
Luíza e Paloma esperavam que Tatiana estivesse em condições melhores para contar a elas quem tentara matá-la, e ficaram visivelmente desapontadas. Imaginaram que a amiga estava com medo e por essa razão usara a amnésia como meio de proteção. Assim manipularam a conversa para se certificarem de que Tatiana dizia a verdade e concluíram que o acidente realmente deixara a sequela.
Tatiana, por sua vez, ficara revoltada com a insistência das garotas e pediu para que se retirassem do quarto, e elas, a contragosto, saíram. Tatiana sentia que todos estavam contra ela, apesar das demonstrações de amor e amizade. Desejou fugir do hospital, mas sabia que não tinha condições de fazê-lo, pois uma mulher sem lembranças não tinha para onde ir. Enterrou a cabeça nas mãos e soluçou.
Naquele momento, uma pessoa abriu a porta com cuidado e entrou devagar, aproximando-se da cama.
- Tatiana, que alegria ver você!
Tatiana teve um sobressalto e imediatamente parou de chorar.
- Quem é você?
- Que é isso, Tati? Não lembra de mim? Sou sua melhor amiga!
- Desculpe, há muitas coisas das quais não me lembro. Mas posso fazer uma tentativa. Diga o seu nome.
- Elisabete. Você não imagina como estou feliz. Levei um susto enorme quando a notícia saiu nos jornais.
- Desculpe, Elisabete, não consigo me lembrar – falou ela, frustrada.
- Calma, amiga, não chore, o pior já passou. Deixa eu te dar um abraço.
Elisabete sentou no canto da cama e abraçou Tatiana, que chorava baixinho e soluçava.
- Desde quando somos amigas? – perguntou Tatiana, sussurrando.
- Não se lembra de nada, mesmo, Tati? Foi no colégio, nós nos formamos juntas. Teve um garoto que estudou com a gente no 2º grau, nós duas gostávamos dele e fazíamos tudo para conquistá-lo. Nessa época, éramos rivais, mas depois que perdemos o gato para a menina mais popular do colégio, criamos uma grande amizade.
- Que pena eu não fazer a menor idéia do que você diz – disse Tatiana, com sinceridade. – Se você é minha amiga, conta como eu era, por favor. Preciso resgatar meu passado.
Elisabete sorriu para Tatiana e tomou uma das mãos dela para acariciar enquanto contava coisas da vida de Tatiana, que havia solicitado ao advogado para investigar. Mentira apenas ao dizer que eram amigas de longa data e a forma como haviam se conhecido. Sentiu que transmitira segurança para Tatiana, que a ouviu com a mesma atenção que uma criança dá para uma história de duendes e fadas. Entretanto, Elisabete não chegara ainda ao seu objetivo, que era levantar a verdade sobre o envolvimento de Tatiana com Paulo. Se Tatiana estivesse representando, Elisabete perceberia ao mencionar o nome dele.
- Recentemente me casei e estou ainda em lua-de-mel. O Paulo é ótimo. Ele é louquinho por mim – disse Elisabete, calando-se para verificar qual a reação de Tatiana.
- Eu estive no seu casamento?
Elisabete parou para pensar, pois aquela interrogação quebrara sua estratégia e ela teve de improvisar.
- É uma pena que você não se lembre. Você estava tão linda naquele dia, que quase foi a atração da festa.
- Verdade? – O rosto de Tatiana iluminou-se.
- Até o Paulo elogiou você.
- Como ele é? – perguntou Tatiana, inocentemente.
“Ela mordeu a isca”, pensou Elisabete, que já estava quase convencida de que a amnésia era real.
- Ah, eu devo ter uma foto dele aqui comigo... – Ela entregou uma fotografia e percebeu que Tatiana o reconhecera, ficando subitamente inquieta. – O que foi, Tati? Está sentindo-se bem?
- Estou... bem – gaguejou ela.
- É uma pena, mas preciso ir – disse Elisabete, fingindo pressa. Afinal, conduzira a conversa de modo admiravelmente articulado e já estava satisfeita.
- Você vem me ver mais uma vez? – perguntou Tatiana, confiando na falsa amiga.
- Claro que sim! Mas agora tenho que ir para casa esperar meu marido. Ah, eu o amo tanto, você não imagina como ele me faz feliz. Pena que você não lembre das minhas confidências, senão saberia como ele é honesto, fiel e companheiro.
Elisabete despediu-se dela e saiu, deixando Tatiana cheia de dúvidas, ao mesmo tempo em que conquistara a confiança dela.
- Coitada da Elisabete – falou Tatiana, sozinha no quarto. – Acredita tanto no marido e ele está tentando me convencer de que me ama. Como ele é insensível...
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