O carro de polícia fazia sua ronda no bairro. Lentamente os reflexos das árvores plantadas na calçada atravessavam o pára-brisa.
- Tudo OK por aqui – disse o motorista, através do rádio. – Acabou meu plantão.
Ele recebeu resposta e desligou o aparelho. Ajeitou os óculos escuros e guiou a viatura para uma área mais tranquila, estacionando na frente de uma casa cercada por altas grades de alumínio. Buzinou discretamente e logo uma moça apareceu no portão. Feliz, ela embarcou rapidamente no banco do passageiro e deu um beijo estralado no motorista.
- Oi, Tony. Eu pensei que você nunca mais iria chegar!
- Mas estou aqui. Sou todo seu agora, Paty.
Patrícia beijou-o avidamente, mas ele protestou, aplacando com delicadeza o furor da namorada adolescente.
- O que acha de darmos um passeio?
- Que legal! Eu vou adorar – respondeu ela, alegremente. – Então, aonde vamos? – perguntou ansiosa.
- Surpresa... – disse ele, divertindo-se com a curiosidade que despertara nela. – Mas vou dar uma dica: é bom você levar uma roupa de banho.
- Tá legal. Volto num minuto.
Enquanto ela se deslocava agilmente para dentro de casa, Antônio observara sua energia e vitalidade e suspirou. Estava apaixonado por Patrícia. Sorriu satisfeito quando ela voltou e novamente o beijou.
- Você é impossível, Paty.
- E você, irresistível!
Ele deu a partida no automóvel e seguiu para o local planejado.
Enquanto Antônio dirigia, Patrícia se calou e passara a observá-lo. De vez em quando ele lançava um rápido olhar para ela e sorria. As lembranças então vieram uma a uma e a garota deixou o olhar perdido no homem que amava para mergulhar em seus pensamentos.
..........
Conhecera Antônio no colégio onde estudava, por ocasião de uma campanha de combate às drogas e à violência. O projeto era uma iniciativa da polícia militar e Antônio dava palestras sobre o tema. Devido a seu porte atlético, ele provocava suspiros em todas as adolescentes, mas somente Patrícia sentiu desde o primeiro instante que ele seria o namorado ideal e tratou de lutar pelo amor dele. Antônio, por sua vez, se esquivou de todas as estratégias de conquista desenvolvidas pela garota, alegando a diferença incontestável de idade entre eles. Ele era o tipo de homem íntegro e refletia muito bem sobre todas as atitudes que tomava. Por esta razão, repudiava a ideia de um relacionamento com uma adolescente.
Mesmo assim, Patrícia insistira e casualmente fora criando um vínculo de amizade com Antônio. Ela percebera desde o início que a dedicação ao trabalho era o ponto forte dele e usara aquilo como forma de se aproximar e declarar o amor que sentia. Tanto empenho acabou por derreter o coração de Antônio, até que ele se entregou à paixão que estava crescendo de maneira disciplinada, mas constante.
Finalmente, Antônio estacionou o veículo logo após ter atravessado o pórtico de acesso ao parque aquático.
- Meu amor, que lugar maravilhoso! – exclamou Patrícia, saltando do carro para olhar melhor.
- Eu frequentava este parque aquático quando tinha a sua idade. Claro que, naquela época, nem sonhava em descer de tobogan.
- Como assim, minha idade? Você só tem 34, seu bobo!
- E você 16. Com tantos garotos te admirando, você foi logo escolher um vovô para amar.
- Tony, eu amo você e não os outros! – protestou ela, abraçando-o e cochichou no ouvido dele. Antônio riu alto e pressionou-a contra o peito.
- Não sabe como eu te amo, Paty.
- Ah, sei sim! Pode apostar que sei. E o passeio que você me prometeu?
- Vamos lá – disse ele, oferecendo o braço.
Eles deixaram o veículo no estacionamento e caminharam pela passarela que dava acesso às piscinas e à casa colonial que servia de vestiário, onde entraram para vestir as roupas de banho. Em seguida, continuaram caminhando, observando tudo com interesse crescente.
O parque fora construído em um vale e a paisagem formada pela vegetação nativa e pelos jardins resultava em um visual de rara beleza. Um riacho canalizado acompanhava a passarela, cercada de troncos de árvores pintados de branco, criando um efeito contrastante em relação ao verde da grama e dos cedros. Em alguns pontos do riacho, pequenas pontes fascinavam com a sugestão de trilhas ecológicas. As casas eram pequenas, possuíam várias janelas minúsculas e cada uma possuía um vaso de flores. O acabamento das paredes era branco e rugoso, dando a impressão de que era feito de papel crepom. Acima das janelas, troncos roliços formavam os caibros e as telhas brilhavam com o sol. Da metade para baixo, as paredes eram formadas por pedras incrustadas impecavelmente montadas. Alguns cogumelos de gesso enfeitavam o gramado e o local inteiro estava extremamente limpo, apesar das dezenas de pessoas que ali se encontravam. Ainda havia um moinho desativado, que servia como atração turística.
Finalmente, a enorme piscina onde terminava o tobogan recebia a iluminação solar em meio aos galhos das árvores que a circundavam. Mais adiante, outra piscina ornamental sofria pequenas ondas em sua água límpida. Para a esquerda, subia uma escadaria que dava acesso a uma casa maior, onde residiam os proprietários do recanto. A casa era construída de pedras e troncos de árvores envernizados, e as janelas eram formadas por grades menores com contornos delicados.
Uma roda de carroça dependurada em um tronco por uma corrente delimitava o acesso aos visitantes, que ali apenas tiravam fotos. O equilíbrio entre a natureza e o elemento humano era impressionante, e a leveza de espírito impulsionava as pessoas em sua diversão e relaxamento.
Patrícia procurou imaginar aquele local deserto e silencioso em um entardecer. Era romântico e exótico. Em um piscar de olhos, ela voltou à realidade da poluição sonora provocada pelas pessoas e seguiu o impulso de correr até a piscina.
- O último que chegar é mulher do padre! – exclamou Patrícia, saltando na água.
Antônio seguiu-a e atirou-se na água. Ficou de pé, tirando do rosto o excesso de água. Quando finalmente podia enxergar, exclamou:
- Não, Paty! – Já era tarde demais. Com as pernas magras muito ágeis, ela atirou nele uma cachoeira de água e ria, enquanto ele tentava se defender. – Agora eu vou te pegar, sua danadinha!
Antônio jogou-se sobre ela e levantou-a facilmente no colo, trazendo-a de volta à borda da piscina.
- Viu? Te peguei. Qual é o seu último pedido?
- Fazer amor com você... – sussurrou ela, sensual como uma mulher, mas inocente como a adolescente que era na verdade.
Antônio não respondeu e ficou sério de repente, desviando os olhos para algumas crianças que brincavam perto deles.
- Você é muito jovem, meu bem – respondeu, finalmente.
- Jovem? Só porque eu nunca...
- Não, não é isso. Eu tenho idade para ser seu pai.
- Ah, seu bobo! – protestou ela. – De novo com essa história? Eu estou aqui, estou pedindo... Não sou tão bonita como você gostaria, não é?
- Oh, Paty... – Ele sentiu-se arrependido por estar evitando aquilo. - Eu amo você e quero fazer as coisas do jeito certo. Quero falar com seus pais primeiro.
- Mas, Tony... eles não precisam saber.
Patrícia magoou-se com a rejeição e sentiu súbita vontade de chorar. Ela amava Antônio e seu desejo de se entregar a ele era intenso, quase uma necessidade para provar o que dizia sentir. Assim, ela saiu da piscina e caminhou a passos largos até uma pequena escadaria, onde sentou. Depois de alguns minutos, Antônio aproximou-se do local onde ela estava e ficou de pé, com os braços abertos, sorrindo para ela. Patrícia esperou um segundo para entender a sugestão dele e se atirou nos braços abertos que em seguida se fecharam, aninhando-a, acalmando a tempestade que ela criara.
- Desculpe, Paty. Não tive intenção de magoar você.
- Eu é que peço desculpas. Eu sempre quero fazer as coisas do meu jeito. Mas você tem razão. Quero que meus pais aceitem nosso namoro.
Antônio e Patrícia caminhavam de mãos dadas, conversando alegremente e de vez em quando paravam para se beijar rapidamente. Pararam na ponte e apoiaram-se no cercado, imaginando o mundo quando estivessem juntos, fazendo planos, trocando confidências, expondo desejos.
Enquanto o casal conversava, um sujeito uniformizado que fazia a limpeza próximo da ponte, observava a jovem com visível interesse e algo que pensou contraiu seu rosto em um sorriso de satisfação. Ele ajuntou as folhas secas e disfarçadamente seguiu Antônio e Patrícia quando estes foram ao vestiário. Depois disso, o estranho sumiu no meio dos visitantes.
Mais tarde, Antônio deixou Patrícia na porta de sua casa.
- Estamos de volta.
- Vamos nos ver amanhã? – perguntou ela, com voz chorosa.
- Não, querida. Tenho treinamento na corporação. Mas te dou um alô assim que me dispensarem.
Uma terceira pessoa chamou pelo nome de Patrícia e o casal virou-se abruptamente para a porta de entrada da casa. Parada na varanda e visivelmente contrariada, a mãe da moça chamou-a novamente. Patrícia andou rapidamente na direção de casa e Antônio aproveitou para acenar para a mãe dela com educação. Esta, porém, não retribuiu o gesto e fechou a porta assim que a filha entrara.
Antônio ficara imaginando que Patrícia sofreria nova repreensão, como acontecera todas as vezes que saíra com ela. Tanto a mãe quanto o pai não consentiam com o envolvimento entre ela e Antônio, pois provinham de famílias tradicionais e preconceituosas, em que a educação rigorosa não abria espaço para mudanças nos costumes. Antônio decidiu por se apresentar o quanto antes para os pais da namorada e convencê-los de que suas intenções com a filha eram dignas. Sorrindo com o pensamento, ele ligou o veículo e se foi.
Enquanto isso, Patrícia era severamente repreendida pela mãe, que mesmo ciente de com quem a filha se encontrava, ameaçava contar ao pai sobre a continuação de seu relacionamento com o policial.
- O nome dele é Antônio, mãe! – exclamou irritada com a maneira pela qual a mãe se referia ao namorado. – An – tô – nio! Ouviu?
O desabafo de Patrícia contrariou a mãe ainda mais, e esta obrigou a filha a se afastar de Antônio. Patrícia, ressentida, correu para o quarto, onde chorou.
- Por que eles não entendem? O Tony é a última pessoa que me faria mal.
Finalmente se acalmou e tratou de reunir argumentos para convencer a mãe a aceitar seu namoro. Sua mãe era muito boa, mas o defeito era sua submissão ao pai, que tornava tudo mais difícil. Então, ela desceu, disposta a conversar melhor com a mãe.
- Mãe... – chamou ela, quando entrou na cozinha. – Eu queria falar com você.
- Se quer me convencer a mudar minha opinião, pode esquecer – interrompeu a mãe, secamente.
- Eu sei que você quer o meu bem, mas não tem o direito de me privar da felicidade – começou Patrícia, com doçura.
A mãe largou os afazeres e olhou melhor para a filha. Então tiveram uma longa conversa, que fez Patrícia readquirir ânimo e esperança. Ao final da conversa, a mãe anunciou:
- Muito bem, vou dar uma chance.
Patrícia abraçou a mãe e beijou-a no rosto diversas vezes, agradecendo pela compreensão.
- Mas não se esqueça – tornou a mãe –, você tem apenas dezesseis anos e, portanto, ainda deve obediência a seu pai.
..........
Após uma boa noite de sono, Patrícia se sentia revigorada. Ansiava por um novo encontro com Antônio, entretanto, tinha obrigações para cumprir, como ir ao colégio pela manhã e se reunir com uma equipe de colegas para dar continuidade a um trabalho extraclasse. Ela suspirou e ganhou coragem para enfrentar o dia atribulado.
Mais tarde, quando concluiu a prova, Patrícia foi liberada mais cedo e resolveu ir para casa e adiantar algumas coisas. Ela caminhava distraidamente pela calçada, enquanto pensavam em suas tarefas.
De repente, uma viatura de polícia cortou sua frente quando a garota resolveu atravessar a rua e ela recuou para a calçada. Ela então imaginou que fosse Antônio e aguardou sorrindo, enquanto a porta do motorista se abria. O sorriso foi sumindo de seu rosto quando o policial saiu de dentro do veículo e andou em sua direção. Ele empunhou uma arma de fogo e ameaçou-a, agarrando-a com brutalidade. Ela tentou reagir, mas foi agredida no rosto, perdendo o equilíbrio e a força.
- Entra aí, doçura! – ordenou o sujeito, empurrando-a para dentro do veículo. – Agora nós vamos dar um gostoso e merecido passeio.

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