Cláudia terminara de ajudar a mãe com a louça do jantar e fora para o quarto. Já havia trocado de roupa quando escutou o telefone e logo em seguida sua mãe lhe chamou para atender. Resmungando, ela calçou as pantufas e foi até a sala pronta para esbravejar com sua amiga Fernanda.
- Oi, gata! Sabe quem sou?
- Maurício? Como descobriu meu telefone? – perguntou ela, surpresa.
- A universidade. Tenho amigos por lá também.
- Ah, quem?
- Ninguém que me interesse mais do que você. Quando vai sair comigo?
Ela pensou um instante, aborrecida demais com tanta insistência dele e procurou desconversar:
- Não sei. Amanhã eu ligo. Me deixe seu telefone.
- Não, não se incomode, que eu prefiro telefonar pra você.
Silêncio na linha.
- Está me ouvindo, Cláudia?
- Estou.
- Eu liguei porque precisava ouvir sua voz doce e quero dizer que não consegui dormir.
- Por quê? – Cláudia quis parecer casual, mas estava se deixando levar pela conversa. Maurício sussurrava ao telefone e ela se esforçava para entendê-lo.
- Você é tão linda que não me sai do pensamento. Quando não estou pensando em você, estou sonhando com o momento em que você finalmente resolva sair comigo.
- Maurício, você está indo longe demais! Eu não sou nenhuma garota de pro...
- Não! – respondeu enfático. E para consertar o furor inesperado da resposta, continuou: – Não foi isso que eu quis dizer. Desculpe, meu bem, não tive intenção de te ofender.
- Mas ofendeu! – esbravejou ela. – Você está me tratando como uma qualquer! Preciso desligar.
- Não, por favor, deixe ao menos eu me desculpar... É que eu amo você...
Cláudia engoliu em seco. Estava assustada, mas ao mesmo tempo curiosa. Ele parecia romântico e sincero. Ela não disse mais nada e desligou o telefone.
Na manhã seguinte não saiu de casa. Seus pais haviam saído para trabalhar e em pouco tempo a campainha tocou. Cláudia abriu a porta e lá estava Maurício sorrindo para ela. Havia um embrulho em seus braços.
- Bom dia. Eu mesmo vim entregar seu café da manhã.
- Café da manhã? – perguntou Cláudia, surpresa.
- Sim. Não me convida para entrar?
- Ah, claro. Entre.
Maurício entrou e perguntou onde deveria colocar o pacote. Cláudia conduziu-o até a cozinha. Enquanto ela ajeitava as frutas e doces que ele trouxera, Maurício a observava atentamente. Cláudia vestia um roupão por cima do pijama. Ela convidou-o para sentar e tomarem juntos o café.
- Mora sozinha?
- Meus pais acabaram de sair. Minha mãe volta logo.
- Você é uma garota muito popular. Todos conhecem você na faculdade.
- Bobagem. Não sou tudo isso.
- E deve ser excelente aluna. Os professores adoram você.
- É, eles gostam. Mas não sou tão boa assim. Você está exagerando.
- Não estou exagerando. Estou fazendo justiça à sua beleza e inteligência.
Ele beijou a mão de Cláudia, que ficou sem graça. Ela levantou para colocar os pratos na pia. De repente, se viu nos braços de Maurício.
- Ei, cara! Me larga! – ordenou ela. – Vai embora!
Ela tentou se desvencilhar, mas ele não deixou.
- Cláudia, estou apaixonado por você. Por favor, não me ignore. Faço tudo que você me pedir.
- Então vá embora! Você não pode ir me agarrando desse jeito!
- É que eu te desejo muito... Você me deixa...
- Você está forçando a barra e além do mais eu já tenho namorado – mentiu Cláudia. – E ele não vai gostar nada de saber que você está me perseguindo.
Maurício parou de chofre. Em instantes, passou da incompreensão à cólera. Finalmente a largou.
- Essa parada eu vou ganhar, você vai ver – prometeu e saiu em seguida.
Cláudia correu para trancar a porta. Seu coração estava aos pulos dentro do peito, ameaçando saltar pela boca. O estômago doía, a boca estava seca, a respiração custou a voltar ao normal. Telefonou para Fernanda, contando tudo.
À tarde, elas se encontraram na faculdade e tiveram nova surpresa. A professora Benedita contou um novo caso de estupro. Tratava-se de uma universitária caloura com quem Cláudia e Fernanda não tinham muito contato.
- É o mesmo sujeito. Ele começou a trabalhar esta semana. Atacou a moça nesta noite. Só que ela morreu.
Benedita estava horrorizada. Cláudia e Fernanda correram para o telefone público.
- Alô! – atendeu uma voz cansada.
- Antônio, onde esteve esta noite? – perguntou Cláudia.
- Ah, dormindo, ora essa!
- Houve outro estupro. Estão te acusando.
Desta feita, Antônio pulou da cama, pedindo mais detalhes sobre o caso. Agradeceu e correu para a delegacia, entrando à força na sala do delegado. Ivan contou o caso, mostrou fotos. Nas fotos, aparecia a viatura de Antônio ao lado do corpo da moça violentada.
- Como explica isto?
- Não pode ser. Eu deixei a viatura aqui dentro ontem. E fui para casa dormir.
- Ah, dormir? Então esse assassinato foi obra de um sonâmbulo? – Ivan não escondia a raiva. – Você estragou tudo! Dei uma chance a você, mas estava enganado.
- Não, senhor. Eu posso provar. Dei baixa nas chaves às 19 horas. Cheguei no apartamento às 20 horas. O porteiro me viu. Pode perguntar.
- Sabemos disso. Ele também viu você sair às 23 horas. E chegar pela manhã.
- Não, ele está enganado! Eu não saí à noite.
- Está preso, Antônio!
Ele foi algemado e levado a uma cela. Continuou protestando, afirmando inocência. Mas não houve chance. Seu pesadelo estava se complicando.
Mais tarde, seu advogado chegou.
- Boa tarde.
- Não estou tendo nenhuma tarde boa desde que esse pesadelo começou. Não sou culpado. Dr. Peçanha.
- Então, conte. Quero entender o que está acontecendo.
Antônio narrou os fatos, enquanto o advogado o ouvia.
- Há alguém que não gosta de você?
- Não sei.
- Alguém que você colocou na cadeia ou coisa assim.
- Não sei, doutor. Não me lembro de ninguém. Mas acho que tem alguma conspiração por trás disso. Por que haveriam de me incriminar?
- Às vezes, para defesa. O estuprador pode ter planejado tudo para que você fosse suspeito. Assim ele pode passar impune. Entende?
- Sim.
- Você vai responder o processo em liberdade. Já providenciei um habeas-corpus. O segundo crime atribuído a você não tem nenhum nexo. O porteiro acha que viu você às 23 horas.
- Como assim?
- Viu um homem com as mesmas roupas que você usa. Ele não tinha certeza quando a polícia o interrogou.
- Só não consigo entender como o bandido tem a chave do carro – falou Antônio.
- Ele não tem. Seu carro tinha sinais de arrombamento. Vamos, Antônio – disse o advogado, abrindo a porta de ferro da cela. – Você não tem que ficar aqui. Que delinquente seria você de deixar a viatura no pátio da delegacia, dar baixa no relatório de devolução de veículos e depois voltar e arrombar o próprio veículo de trabalho? Não faz sentido algum. E o delegado já compreendeu isso. Descobri que ele foi pressionado pelo pai da moça que continua no hospital. Ronaldo não admitiu seu retorno.
- Por que faria isso?
- Ele está tentando proteger a filha. É papel de pai. Só que o verdadeiro psicopata está solto.
Antônio e Dr. Peçanha entraram na sala de Ivan.
- Não há indícios de que meu cliente tenha responsabilidade neste caso – foi logo dizendo o advogado. – E ainda provaremos que ele não foi o responsável pelo caso de Patrícia.
- Eu sei, eu sei – concordou Ivan, contrariado. – Não vou abrir inquérito contra Antônio, porque acredito nele. Mas preciso ter um particular com meu funcionário, se o doutor não se importar.
O advogado saiu e Ivan voltou-se para Antônio.
- Acredito que este caso deva ter uma solução bastante prática. Foi-me sugerido que você fosse preso, porque não consegui o depoimento da vítima. Ela não tinha condições psicológicas para reconhecer o indivíduo. Portanto, estamos nos baseando nos depoimentos das testemunhas que disseram ter visto você colocá-la na viatura. Você não fica fora de suspeita, só que há uma vírgula nos depoimentos.
Antônio ouviu o delegado com interesse crescente.
- Ninguém viu o rosto do homem.
- Ele roubou um uniforme e parece ter o mesmo físico que o meu – defendeu-se Antônio.
- Sim. Foi o que o seu advogado levantou. Não há provas concretas contra você.
Antônio suspirou aliviado. Estava ganhando um aliado.
- Agora, esqueçamos esses distintivos. De amigo para amigo, vá em frente e prove sua inocência. Vá caçar esse criminoso. Infelizmente, sou obrigado a colocar detetives na sua cola. São as normas. Você sabe.
- Tudo bem.
Ivan sorriu orgulhoso quando Antônio deixou a sala. Ele era seu amigo desde jovens. Conhecia-o muito bem e sabia que Antônio tinha princípios. Entretanto, sabia que para a justiça, ele ainda era um criminoso e Antônio não poderia perder tempo.
.......
No início da tarde, Antônio fora visitar Patrícia e descobriu que ela já havia deixado o hospital. Ele ficara contente, porque ela recebera alta, mas frustrou-se ao saber que não poderia visitá-la na casa dos pais antes de colocar a história em pratos limpos.
Então resolveu entrar em contato com as testemunhas que constavam no inquérito. Parou o carro na casa da primeira testemunha, uma senhora viúva que bateu a porta na cara de Antônio. Ele tentou de novo, mas a mulher estava irredutível.
- Muito bem, se a senhora não me deixar entrar por bem...
- Vou chamar a polícia!
- Eu sou a polícia.
Antônio resolveu desistir e seguir em frente. Mas antes de abrir a porta do veículo, a mulher o chamou.
- Podemos falar aqui na varanda. Por que veio aqui? Quer me subornar ou ameaçar?
Antônio sentou em um banco e não respondeu imediatamente. Ficou observando o jardim tão bem cuidado e deixou escapar um elogio. A mulher o observou e logo baixou a guarda. Antônio conversou com ela durante meia hora, e sua conversa foi interrompida pelo rádio.
- Estou me dirigindo para o local – respondeu ele ao chamado. Em seguida, acenou para a senhora, que bondosamente, sorriu para ele.
- Vá com Deus, meu filho.
A duas quadras havia um assalto em um posto de gasolina. Dois homens ameaçavam uma frentista e mantinham outro homem como refém.
- Larguem as armas! Polícia! – gritou Antônio.
Uma lenta negociação entre Antônio e os bandidos se passou. As ruas encheram-se de curiosos, enquanto outras viaturas chegavam. Antônio procurou acalmar os assaltantes, tentando pedir a libertação dos reféns. Os bandidos tornaram-se ainda mais perigosos quando se viram acuados.
- É melhor vocês se entregarem – disse Antônio, com calma. – Há atiradores de elite que, a um gesto meu, vão encher vocês de bala.
- Você é mentiroso! – berrou o bandido que mantinha a frentista presa. – Onde eles estão?
- Vocês não podem vê-los daqui. Estão escondidos nos prédios e nas casas. Vamos acabar com isso. Vocês se rendem e a Justiça vai baixar a pena de vocês.
Antônio se aproximou devagar. Um dos sujeitos largou o homem e entregou a arma para Antônio. O outro era mais persistente.
- Vamos, a moça aí tem família, tem filhos. Você tem filhos, não tem? – O assaltante olhou para a moça apavorada. Respondeu que tinha um filho pequeno. – Então, você não quer que seu filho perca o pai, não é? Se você matar a moça, eu atiro em você, e atiro para matar.
O assaltante ficou quieto. De repente, começou a chorar e largou a frentista, que correu na direção de Antônio. Imediatamente, o bandido foi algemado por outros dois policiais.
A multidão aplaudiu os policiais. Uma mulher abriu caminho entre o povo e aproximou-se de Antônio.
- Meu filho, Deus me perdoe por eu ter afirmado que você sequestrou aquela pobre moça. Eu reconheço o meu erro e preciso corrigi-lo. O que posso fazer para reparar meu engano?
Antônio sorriu para ela e segurou suas mãos.
- Se a senhora quer mesmo me ajudar, vá até a delegacia, procure o delegado Ivan e diga a ele que a senhora se enganou quando depôs.
- Hoje mesmo, meu filho.
Ela se foi, alegre por poder ajudar. Antônio foi elogiado pelos colegas.
Na universidade, não se ouvia outra coisa.
- Preciso ter uma conversinha com ele – disse Vera, interesseira.
- Pra quê? – perguntou Fernanda. – Quer que ele seja seu herói também? – zombou.
- Sua boba. Não viu que gato que ele é?
- Ele já tem dona.
Enquanto elas conversavam, Cláudia estava longe. Sua atenção foi chamada várias vezes, mas ela não respondia.
- Cláudia! – brigou Fernanda. – Em que planeta você anda?
- Ah, me deixa, Fê. Que saco!
Cláudia separou-se das amigas e saiu bufando pelos corredores.
- O que deu nela? – perguntou Vera. Fernanda não respondeu. Apenas observou que a amiga tinha ar de preocupação.
Cláudia faltou, pela primeira vez, ao grupo de contadores, que estranharam muito sua ausência, pois fora ela que redigira a história infantil e ansiava por chegar o dia em que a contassem às crianças enfermas. Permanecera em casa, assistindo TV, muito embora seus pensamentos estivessem distantes dos programas.
O encontro com Maurício não saía de sua cabeça. Ela tinha lá suas paqueras, mas nenhuma tão estranha quanto o aparecimento de Maurício. Na mesma noite, esperara que ele lhe telefonasse. Ela se deitara, mas o telefone não tocou. Cansada, adormeceu, e sonhou que estava nos braços dele.
Fernanda quis tirar satisfações sobre suas olheiras no dia seguinte. E também sobre a falta no hospital. Cláudia respondeu que tinha outros assuntos para cuidar.
- A Dona Benedita ficou preocupada – relatou a amiga. – Você nunca deixou de participar. Precisava ver como aquelas crianças ficaram maravilhadas com a história...
- É? Que bom – respondeu Cláudia, sem ânimo.
- E o Antônio, você soube dele? – experimentou testar com o assunto que mais interessava a Cláudia. E não é que funcionara! De repente, Cláudia pareceu retomar seu entusiasmo.
- O que houve com ele? Não diga que o prenderam de novo.
- Bom, prenderam e soltaram depois. Mas o que eu queria mesmo contar foi sobre o ato de bravura dele ontem.
- Isso eu já sei. Todo mundo comentou.
- Ah, é, Dona Sabida! – brincou Fernanda, dobrando os braços na cintura. – E você sabia que isso repercutiu nos jornais? Os formadores de opinião publicaram mensagens de defesa e agora o povo faz outro juízo dele. De uma hora para outra Antônio virou herói.
- Fico feliz, Fê. Ele precisava desse reconhecimento. Mas ainda não fica afastada a responsabilidade no caso de Patrícia. Eles precisam acreditar que Antônio a ama. Ele é uma vítima também.
- A propósito, onde Antônio anda?
- Não sei. Espero que procurando provas de sua inocência.
- Vamos, Cláudia! – disse Fernanda, depois de olhar no relógio. – A aula já começou.
As duas se foram apressadas. E nem perceberam que a poucos passos, Maurício as observava.
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