Paulo chegou em casa após ter rodado muito. Quase se envolvera em um acidente por estar dirigindo perigosamente e ganhara uma multa por excesso de velocidade. Desembarcou do carro e chutou o pneu com raiva tantas vezes até sentir dor no pé. Diante do olhar confuso e embaçado por causa das lágrimas, Paulo observou os cômodos acesos da casa de Elisabete e finalmente tomara uma decisão digna de um homem. Deixou a chave do veículo na ignição e caminhou resoluto para o quarto. Dentro de minutos, ele apanhou as coisas dele dentro de uma mala, certificou-se de não haver ninguém o observando e abandonou o local.
Já passava da uma hora da madrugada enquanto ele caminhava pela rua deserta e escura quando os faróis de um veículo projetaram sua sombra mais adiante e logo o mesmo veículo parou ao seu lado.
- Quer uma carona?
- Não.
Paulo ignorou o sorriso de Elisabete e continuou caminhando. Ela desceu do automóvel e insistiu:
- Não vim atrás de você para levá-lo de volta, Paulo.
- Então para que veio? – perguntou ele, parando e virando-se na direção dela.
- Para levá-lo para onde desejar. Venha. Sei que está voltando para sua casa e o caminho é longo.
Ele pensou um instante e resolveu aceitar a oferta. Mas sabia que havia algo por trás daquela atitude. Embarcou no lado do passageiro, mas nem olhou para ela.
- Sabe, Paulo, eu não me dou por vencida facilmente, mas quando é inevitável, sei aceitar a derrota.
- Por que está dizendo isso? – ele olhou mais atentamente para ela, que dirigia muito calma.
- Nosso começo foi uma catástrofe porque eu vi em você um desafio e quis me divertir e provar que mais uma vez sou a melhor.
Elisabete olhava para ele com ternura quando podia desviar rapidamente os olhos da estrada. Aquela conversa começou a deixá-lo intrigado.
- Mas eu brinquei com fogo e acabei me queimando. Estou apaixonada de verdade. Nunca senti isso antes na minha vida, Paulo, e me arrependo de fazer você sofrer como sofreu. Eu estou disposta a fazer qualquer coisa para compensá-lo das lamentáveis situações que eu criei.
- Não estou entendendo, Elisabete – Paulo remexeu-se no banco, preparando-se para mais uma tramóia dela.
- Eu amo você, mas não quero que fique preso a mim por obrigação. Já providenciei o cancelamento do contrato de casamento.
- Você o quê?
Elisabete estacionou o Scenic na frente da casa dele e desligou o motor.
- Não é isso que você sempre quis? – falou ela, demonstrando surpresa.
- Sim, mas... Como mudou de ideia?
- Não sei, acho que o amor por você me transformou. Já não sou mais a mesma pessoa. Eu quero que você seja feliz com a Tatiana.
Paulo não acreditou no absurdo que estava ouvindo, porque as pessoas, principalmente Elisabete, não mudam de opinião de uma hora para outra. Ocorreu-lhe que ela não queria que ele a processasse como havia ameaçado. Talvez ela não quisesse sujar sua reputação.
- Não tenho nada com a Tatiana – revelou ele, com cautela.
- Paulo, não precisa mentir, eu sei de tudo.
- Então imagino que saiba que ela me deu o fora – falou ele, ressentido.
- Ela fez isso? – Elisabete demonstrou incompreensão, mas sorriu intimamente. Mais uma vez saíra vitoriosa. Da primeira vez, não conseguira nocautear Tatiana, que sobrevivera por milagre. – Ela está confusa, você deve entender.
- Não, é pra valer.
- Quer conversar? Eu sou boa ouvinte. Prometo que não falo nada. Eu tenho certeza que posso consolá-lo.
Elisabete apagou a luz de teto do automóvel e aproximou-se dele, fazendo carícias que ele não reprovou.
- Que tal entramos? – sugeriu ele.
Eles entraram na casa e Paulo agarrou Elisabete, beijando-a com urgência. Levou-a até o quarto e atirou-a contra a cama, deitando-se em cima dela e beijando cada parte de seu corpo. Elisabete sorriu, satisfeita com a vitória. A partir daquele momento, nada mais poderia aplacar a fúria dele. Enquanto sentia o sabor das carícias que ele fazia, ela ouviu-o sussurrar, mas não entendeu.
- O que você disse, meu amor?
- Que eu perdi muito tempo pensando em uma mulher que não me merecia enquanto eu tinha uma mulher maravilhosa como você.
- Não precisa lembrar disso, meu querido, apenas me faça feliz...
Ele abriu a blusa dela e levantou a saia, enquanto ela gemia de ansiedade. Estava tudo certo como ela planejara e ela não cabia em si de contentamento. Ele tirou a camisa e continuou a beijá-la no pescoço, sussurrando, quando falou:
- Você é muito melhor nisso do que matando. Para assassina você foi um fracasso.
- Você tem razão. Eu errei quando confiei demais em mim mesma e não fiquei para ter certeza do resultado. Mas como sabe que fui eu? – perguntou ela, quase inocente, jogando o jogo dele.
- Você acabou de confessar.
Dizendo isso, ele levantou-se, rindo zombeteiramente. Elisabete ficou enfurecida por ter caído na armadilha dele e levantou da cama atirando nele um objeto que apanhou na mesa de cabeceira.
- Fora daqui, Elisabete! Minha casa não tem lugar para uma assassina.
- Não admito isso, ouviu? Exijo que você termine o que começou!
- Por quê? Vai tentar me matar também? – ele riu, sarcástico.
- Seu... seu nojento! Como é possível que você chegue até esse ponto e pare?
- Eu sou eu – respondeu ele. – Não sou qualquer homem que você coloca na sua cama.
Ela deu uma bofetada no rosto dele, mas Paulo não se moveu do lugar.
- Você está querendo me convencer de que é íntegro – retrucou ela, recuperando o controle da situação. – De que é um homem fiel, leal, cheio de princípios e escrúpulos. Mas quero lhe avisar uma coisa – ela deu uma gargalhada que ecoou na casa silenciosa. – Um homem assim não existe!
- Engano seu, Elisabete – desta vez foi ele que riu. – Esse homem existe. Agora, saia daqui antes que eu tenha que usar métodos não muito sutis para te expulsar.
Elisabete parou diante dele com o olhar fulminando de ódio.
- Você não tem como provar nada, meu bem – falou sarcástica.
- Fora!
Quando ela finalmente saiu, Paulo começou a rir e repetiu:
- Ah, Elisabete, esse homem existe, não se esqueça disso.
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