Faltavam algumas horas antes da cerimônia. Tatiana estava uma pilha de nervos e não via a hora de acabar com aquilo. Preparou uma mala com algumas roupas e pertences para levar para a casa de Paulo após o casamento que não iria se consumar. Ela nem conseguira comer. Vestiu o vestido branco de voal, penteou-se, calçou as sandálias e maquiou-se, tudo com o coração apertado de dor. Quando ela terminou de se arrumar, Valéria apareceu no portão, chamando por ela. Tatiana respirou fundo, apanhou a mala, apagou as luzes e despediu-se de seu lar tão estimado. Trancou a porta e seguiu para a rua, onde Valéria e Ernesto aguardavam-na. Ernesto colocou sua mala no porta-malas e Valéria abraçou-a.
- Você está linda! – exclamou ela. – Ainda não me conformo que você não vai casar na igreja para desfilar com um maravilhoso vestido de noiva.
Tatiana sorriu e entraram no carro. Dentro de minutos chegaram ao cartório. Ernesto conduziu-a até a sala onde se encontravam Paulo, o juiz de paz, Luíza, Paloma, Natália e os respectivos namorados. Paulo segurou suas mãos e beijou sua fronte.
- Tatiana, você nem imagina o quanto eu te agradeço – disse ele, sorrindo pela primeira vez em semanas.
- Não me agradeça, Paulo. Estou fazendo isso por amor.
As palavras escaparam-lhe dos lábios e ela arrependeu-se, por um momento, de tê-las proferido. Abaixou os olhos rapidamente sem coragem de encará-lo, mas ele, delicadamente levantou seu rosto e sorriu para ela como se tivesse compreendido.
O juiz de paz começou a cerimônia. Leu as informações civis e fez um breve comentário acerca da escolha feita pelo casal. Tatiana olhou para Paloma e Luíza, que sorriam para ela, dando-lhe força, e observou também Natália, que parecia sofrer junto com ela. Paulo tirou as alianças do bolso do terno e entregou para o juiz de paz. Este prosseguiu a cerimônia com a pergunta de praxe:
- Se existe algum impedimento para a união de Tatiana e Paulo, que fale agora ou se cale para sempre!
Houve silêncio no recinto e o juiz prosseguiu com a troca de alianças. Entretanto, antes que Paulo pudesse colocar a aliança no dedo de Tatiana, uma mulher apareceu dizendo:
- Eu tenho um impedimento, Sr. Juiz. Com todo respeito, aqui estão os papéis que provam que este homem está comprometido comigo.
- Isto não é verdade! – alegou Paulo, sem conter seu desespero.
Elisabete caminhou com segurança até Tatiana e falou-lhe sarcasticamente:
- Sinto muito, mas você não vai se casar com ele, querida.
O juiz de paz verificou os papéis e anunciou que eles eram legítimos. Paulo tentou negar, argumentando que o cartório não poderia errar. Se existisse algum registro anterior, não haveria possibilidade de anunciar seu casamento com Tatiana. Derrotado, ouviu a voz severa do juiz:
- Isso é um equívoco lamentável que verificarei pessoalmente e tratarei de punir.
Tatiana recebera uma espécie de choque paralisante e não reagiu quando Paulo seguiu Elisabete. Subitamente, um mal-estar generalizado tomou conta de seu organismo e ela perdeu os sentidos. Os convidados, que ainda estavam perplexos com a ocorrência, se apressaram a socorrê-la.
Após alguns minutos, Tatiana abriu os olhos e, confusa, observou as pessoas à sua volta. Tomou um gole de água com açúcar, que pareceu entorpecer seu corpo. Precisou de alguns segundos para lembrar onde estava e passado o momento da crise, ela levantou-se, necessitando urgentemente ficar sozinha.
- Você está bem? – perguntou Valéria.
- Estou.
- Vou levar você para minha casa. Que cafajeste esse Paulo te iludir desse jeito!
- Não – Tatiana murmurou cansada. – Quero ficar sozinha.
- Mas você precisa se recuperar...
- Se quiser mesmo me ajudar, me leve até minha casa, por favor... – pediu Tatiana, enquanto lágrimas desciam por seu rosto.
- Você está bem? – perguntou Valéria.
- Estou.
- Vou levar você para minha casa. Que cafajeste esse Paulo te iludir desse jeito!
- Não – Tatiana murmurou cansada. – Quero ficar sozinha.
- Mas você precisa se recuperar...
- Se quiser mesmo me ajudar, me leve até minha casa, por favor... – pediu Tatiana, enquanto lágrimas desciam por seu rosto.
E assim, ela voltou para a solidão de seu quarto e deitou-se na cama como se uma força invisível tivesse arrancado toda sua energia. Apenas a memória continuava ativa, retrocedendo a fita de sua vida e voltando até o instante decisivo.
Já era madrugada quando, finalmente, Paulo fora liberado pelo advogado de Elisabete, após assinar o contrato. Paulo passara por uma espécie de treinamento pré-nupcial e foi orientado a voltar no dia seguinte. Exausto de lutar sem alcançar seus propósitos, voltou para casa e refletiu o quanto fora fraco ao se resignar com a tramóia. Sua consciência o acusava, exigindo que abandonasse tudo. Em seu corpo pesava a angústia, a fraqueza, o ódio por Elisabete, a descrença em Deus.
Ele sentiu-se sufocado e abriu a janela. O luar atingiu sua face e o ar fresco da noite atenuou seu mal-estar. Não era de seu hábito, mas ele observou as estrelas faiscantes no firmamento e visualizou mentalmente o rosto de Tatiana, quando esta lhe revelou: “Estou fazendo isto por amor”. A lembrança daquelas palavras era como um bálsamo para sua alma sofrida.
Paulo passou as duas mãos na cabeça e esfregou os olhos para impedir que as lágrimas fluíssem. Tentou controlar o impulso de ir até Tatiana e saber como ela estava. Desejou ardentemente tomá-la nos braços e provar que também a amava. Assim, caminhou confiante até a porta e virou a chave. Entretanto, resolveu não agir conforme seus instintos, porque não seria justo com ela. Ele refletiu que não tinha o direito de envolvê-la ainda mais em sua vida. Girou novamente a chave e rumou para a cozinha, disposto a qualquer loucura. Abriu uma gaveta e retirou uma faca afiada. A lâmina brilhava, convidativa. Um brilho macabro surgira repentinamente nos olhos dele e Paulo sorriu. Enfim, encontrara um meio para fugir do pesadelo.
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