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Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 10 - PARTE III - DO OUTRO LADO DA LINHA


Paulo chegou finalmente ao sítio que Elisabete descrevera. Quando avistou o Scenic, seu coração descompassou temendo que Tatiana estivesse sendo torturada. Desceu do automóvel que emprestara e observou a mata silenciosa, a casa, o rancho. Toda aquela paisagem era desoladora, porque não havia ninguém naquele lugar sombrio. O sol, que brilhava intensamente momentos antes, fora oculto por nuvens escuras de chuva. Uma ventania começara a soprar criando redemoinhos de folhas secas em volta dele.

Então avistou a estrada que parecia levar para dentro da mata e seguiu por aquele caminho até o rio, onde atravessou com cautela, observando a pequena queda d’água que provocava barulho. Subiu a colina e olhou ao redor. Um cheiro de óleo diesel dominava o ar e Paulo deduziu ser proveniente das máquinas paradas ao lado de um barracão. A densidade das nuvens trazia maus presságios  e ele novamente sentiu medo.

Quando se afastou do rio escutou um choro que vinha do barracão e seguiu adiante, esquecendo seus receios.

- Tatiana! Tatiana! – Ele encontrou-a amarrada e amordaçada e correu para socorrê-la. Viu no chão a poça de sangue e a perna ferida e abraçou Tatiana com ternura. – Meu amor, o que foi que ela fez a você...

Tatiana gemia desesperadamente e sinalizava com os olhos para trás de Paulo. Ele se apressou em retirar sua mordaça, mas antes que ela proferisse alguma palavra, Elisabete encostara o revólver na cabeça dele, que levantou vagarosamente seus braços.

- Ora, veja só! Tatiana, não disse que seu herói tentaria salvá-la?

Paulo respirou profundamente, pensando em uma maneira de deixar Tatiana em segurança.

- Elisabete, o que há? – perguntou ele, com calma. – Você me quer, estou aqui. Não acha que podemos parar de brincar de gato e rato?

- Não, está tão divertido...

Ela afastou-se e começou a caminhar cautelosamente em torno dele, que continuava ajoelhado no chão de frente para Tatiana. Paulo sinalizava para Tatiana manter a calma, mas ela chorava copiosamente. Um ou outro soluço cortava o ar e no mais, Tatiana estava em profundo silêncio.

- Isto é entre eu e você, Elisabete – tornou ele, com firmeza. – Envolver mais pessoas não vai resolver nosso impasse.

- Pode ser. – Elisabete caminhava em círculos, observando o casal com atenção. – Mas creio que não tenhamos mais nenhuma chance.

- Vamos, Elisabete, faço tudo o que você mandar.... – Ele abaixou os braços, levantou-se e virou-se na direção de Elisabete, que havia sentado em uma grande pedra afastada do barracão.

- Não se mexa!

- Calma, eu só quero olhar para você.

- Você teve todas as chances do mundo para olhar para mim, mas nunca deu a mínima.

- Não é verdade – retrucou.

- É verdade, sim. Você estragou tudo. – Ela ficou subitamente em silêncio. Abaixou a arma e olhou a paisagem. – Está vendo isso aqui? Foi de meu pai. – Em sua voz havia tristeza, talvez remorso, e Paulo continuou em silêncio observando o momento oportuno para desarmá-la. – Quando ele morreu, eu vendi esse lugar para uma próspera empresa de terraplenagem, onde possuo uma parcela razoável de ações. Meu pai era um homem muito rico, proprietário de metade deste lugar: terras férteis, mata nativa, água em abundância... mas, com toda essa fortuna, eu nunca pude usufruir por causa do advogado dele.

- O que houve? – Cautelosamente, Paulo deu alguns passos na direção dela.

- O advogado conseguiu convencer meu pai de que eu era irresponsável e inconsequente e não saberia administrar a herança, porque eu queria tudo a um só tempo, não refletia sobre a utilidade das coisas que consumia. Então, eu só poderia conseguir a herança quando me casasse e tivesse um filho com meu marido. Eu tentei evitar que essa cláusula tivesse validade, mas quando envenenei o café do advogado com mão branca já era tarde. Meu pai já havia assinado o testamento e este já havia sido lavrado em cartório.

- Você assassinou o advogado de seu pai com veneno de rato? – Paulo sentiu náuseas.

- Sim – afirmou ela, tratando do assassinato como uma banalidade. – Rapidamente contratei o Dr. Augusto, que controlou a situação. Mas não houve jeito de alterar o testamento, mesmo que tentássemos argumentar que meu pai tivesse sido influenciado a tomar a decisão. Assim, eu precisava me casar o quanto antes.

- Aí eu apareci – deduziu ele, sentindo-se parte do jogo sujo. A partir daquelas confissões, ele começou a compreender toda a perseguição que sofreu. – Por que eu, Elisabete? O seu doutor não servia para seus préstimos?

- Não. Desde a primeira vez que te vi me apaixonei loucamente e quis você a todo custo – revelou ela, com amargura. – Mas você nunca me aceitou.

- Você me chantageou o tempo inteiro, Elisabete! Chama isso de paixão?

- Eu ofereci tudo, você poderia ter o mundo a seus pés, mas teve a infeliz ideia de se aproximar desta criatura desprezível!

Tatiana encolheu-se, como se as palavras de Elisabete a tivessem chicoteado.

- Elisabete, escute – continuou Paulo, tentando tranquilizá-la. – Tatiana sofreu um acidente, e não se lembra de nada. Portanto, não representa uma ameaça para você.

- Você acredita mesmo que ela não se lembre de nada? – Elisabete riu, achando graça das próprias palavras. – Vai me dizer que acredita também em anjos, duendes e fadas... – Paulo enrugou a fronte e olhou bruscamente para Tatiana, que baixou a cabeça, evitando olhar para ele. – Vamos, Tatiana, confesse que você o enganou – insistiu Elisabete. – Aproveite também para comunicar sua gravidez.

Tatiana engoliu em seco ao enfrentar o olhar indignado de Paulo.

- Tatiana, é verdade? Você está grávida? – Ele aproximou-se dela e ajoelhou-se em sua frente. – Meu filho?

- Sim, Paulo – afirmou Elisabete antes que Tatiana respondesse. – É essa mulher que você ama? Que escondeu de você toda a verdade e ainda por cima não lhe confiou o filho que está esperando?

- Por que não me contou? – perguntou ele, sacudindo-a. – Por que não me contou?

- Eu quis te proteger – respondeu Tatiana, enquanto chorava.

- Me proteger? Você acha que está me protegendo escondendo meu filho de mim?

Ele levantou-se e afastou-se dela, sentindo-se traído. Tatiana caiu em um choro convulsivo e Elisabete sorria enquanto observava o desentendimento deles.

- É, Paulo – tornou Elisabete, levantando calmamente da pedra, com a satisfação visível em seu semblante –, acho que suas mulheres sempre o decepcionam, não é mesmo? Primeiro sua amada Evelin, agora essa mentirosa da Tatiana.

Paulo respirava profundamente, procurando organizar seus sentimentos. Estava decepcionado sem dúvida nenhuma e os comentários de Elisabete contaminavam ainda mais sua mente.

- Mas fique certo de que todo esse sofrimento tem data e horário para terminar. Quem vai ser o primeiro? Você ou ela?

Elisabete apontou o revólver na direção dele, em seguida apanhou o isqueiro. – Pensando bem, posso acabar com os dois, ou melhor, os três, ao mesmo tempo.

- Não, Elisabete! Não faça isso – pediu ele, voltando a ficar nervoso e angustiado. “Deus, nos ajude por favor!”, implorou ele, acompanhando as reações de Elisabete.

O dia continuava nublado e a aproximação de uma trovoada carregava o ambiente. As árvores deitavam-se com o vento e algumas nuvens que se chocavam entre si lançavam línguas de fogo no céu. Um trovão isolado estremeceu a terra. Elisabete continuou brincando com o revólver e com o isqueiro, ameaçando ora atirar ora atear fogo no barracão.

Subitamente o vento trouxe som de sirenes que tocavam bem longe dali, mas que alertaram Elisabete. Ela permaneceu em silêncio, procurando distinguir aqueles sons que ora se aproximavam ora se perdiam com as rajadas de vento. Quando não mais ouviu as sirenes, Elisabete deu continuidade a sua vingança. Disparou um tiro na direção de Paulo, mas, inexplicavelmente, o tiro não o atingiu e se perdeu na vegetação. Elisabete, sem compreender como errara, ficou atônita.

Naquele momento, som de portas sendo batidas fez com que ela virasse bruscamente, avistando uma equipe de policiais civis e militares e um grupo de resposta tática, o GRT, vindo ao encontro deles. Logo atrás, Augusto os seguia.

- Elisabete – chamou ele –, por favor, se renda ou eles vão matar você!

- Augusto? Como me encontrou aqui? – A surpresa com toda aquela multidão provocou a ira dela.

- Eu já convivo com você há bastante tempo para poder entender sua psicologia – respondeu Augusto, tentando se aproximar dela. – Eu vim para te defender, querida, e te levar para uma clínica de recuperação.

- Clínica de recuperação? Que piada!

Ela correu na direção do barracão e levantou Tatiana do chão. Esta gritou de dor e continuou chorando, implorando pela vida do filho. Paulo foi protegido pelo esquadrão de elite, mas se recusava a se afastar de Tatiana.

- Não podem me prender aqui! – exclamou ele, tentando desvencilhar-se dos policiais que o seguravam. – Ela vai matar minha mulher e meu filho!

- Nós tomaremos conta deles! – informou o comandante da operação, que se dirigiu para o barracão.

- Deu tudo certo! Nós conseguimos alertar a polícia com sua ideia do cruzamento das linhas telefônicas, mas Elisabete fugiu do meu controle – lamentou Augusto, aproximando-se de Paulo.

- Quando me procurou para ajudá-lo a prender Elisabete, você garantiu que não envolveria a Tatiana, seu mentiroso! – Paulo soltou-se dos homens e avançou contra Augusto, pronto para dar-lhe uma surra, mas foi novamente contido pelos policiais.

- Não foi culpa minha, também quero a segurança da mulher que amo...

- Acontece que a mulher que você ama está a um passo de matar a mulher que eu amo! – rosnou Paulo. – E você sabia o tempo todo que ela está grávida!

- Calma, senhor! – interferiu o policial, que se identificou como detetive. – No momento, ela e o bebê estão a salvo, porque Elisabete precisa deles para se proteger. A nossa equipe de resgate possui treinamento para esse tipo de situação. Veja!

Paulo olhou na direção indicada. O lugar estava todo cercado por atiradores. Havia homens armados atrás das retroescavadeiras e sobre o morro que ficava atrás do barracão, ocultos pela vegetação e por grandes monturos de pedras resultantes da exploração do rio. O grupo era controlado por um homem, que se comunicava através do rádio.

- Não façam nada antes que eu dê a ordem, entendido? – alertou o comandante da operação.

Uma dezena de atiradores estava com Elisabete em sua mira, prontos para disparar. Entretanto, Elisabete continuava mantendo Tatiana em seu poder, segurando-a pelos braços amarrados nas costas, com seu revólver apontado para a cabeça dela.

Tatiana, por sua vez, observava toda a movimentação através da visão turva. Estava procurando manter suas forças para proteger Paulo e quando o viu em segurança próximo do grupo de policiais, ela começou a ceder. De repente, devido à dor torturante na perna machucada, ela entregou-se ao cansaço, caindo de joelhos no terreno árido. Elisabete segurou firmemente o cabelo de Tatiana, mantendo sua cabeça levantada e, em seguida, soltou uma gargalhada doentia antes de iniciar a contagem regressiva.

Subitamente, Tatiana teve a sensação de que flutuava, semelhante ao dia que fora estrangulada. A dor sumira, não havia mais nenhum som e nenhuma chance. Sua linha de visão parecia apresentar tudo em câmera lenta, e Tatiana observou assombrada Elisabete acendendo o isqueiro. As forças tinham-na abandonado e ela não conseguiu correr. Assim, fechou os olhos e rezou:

- Deus, precisamos de ajuda! Nos salve!

De repente, ouviu-se um disparo e Tatiana caiu no chão. Paulo gritou seu nome e correu até ela enquanto Elisabete era arremetida contra os tambores de combustível, derramando o restante do conteúdo e causando a primeira explosão.

- Evacuar! Evacuar! – ordenou o comandante enquanto ajudou Paulo a resgatar Tatiana. Carregaram-na para perto das viaturas paradas no alto da colina. Em seguida, sucessivas explosões lançaram pedaços de madeira incendiados para todos os lados e todos se protegeram atrás dos veículos. As chamas ganharam altura por causa do vento forte.

Quando as explosões terminaram, Elisabete correu do local do acidente como uma tocha humana, gritando de horror. Os policiais apanharam extintores de incêndio e socorreram-na.

Tatiana foi desamarrada, mas continuava inconsciente. Paulo segurou-a no colo, afastando o cabelo desgrenhado do rosto sujo de fuligem, terra e sangue. Lágrimas saltaram de seus olhos, pois ele imaginava que ela não tinha sobrevivido. Um dos médicos que acompanhara a operação aproximou-se para examiná-la.

- A pulsação está fraca. Rápido! Precisamos levá-la para a ambulância!

- Tatiana, por favor, aguente firme! – pediu Paulo, chorando muito.

Enquanto ele soluçava, ela abriu os olhos e sorriu para ele.

- Que coincidência... – falou ela, com a voz fraca, inconsciente de onde estava. – Eu estava agora mesmo sonhando com você...

Paulo parou de chorar e abraçou-a, rindo e agradecendo a Deus pelo milagre. Os policiais até então apreensivos, vibraram de alegria e cumprimentaram-se.

- Acabou, meu amor – falou Paulo, acariciando o rosto dela e beijando-a docemente nos lábios. – Está tudo bem agora.

- Não está mais zangado comigo? – indagou ela, seu corpo flexível e sem forças.

- Não, não estou. Eu te amo, nunca se esqueça disso.

- E o bebê... o nosso bebê? – lembrou-se, em pânico.

- Ele também está a salvo... – falou, carinhosamente tocando na barriga dela.

Os paramédicos levaram-na para a ambulância e seguiram para o hospital. Uma equipe continuou no local para terminar de controlar o fogo, ajudada por uma chuva fina que começara a cair na região.


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