Tatiana segurou firmemente a mão de Paulo enquanto aguardava ansiosamente a decisão do juiz. Outras audiências haviam acontecido durante as semanas que se passaram, mas aquela audiência era decisiva.
O juiz, um senhor já experiente e respeitável por sua boa reputação, leu mentalmente a sentença, refletindo antes de anunciar o veredicto. Observara mais uma vez a ré e sentiu pesar, porém, analisou a votação dos jurados que, por unanimidade, decidiram a vida da acusada e, optando pela justiça, acima de qualquer circunstância, finalmente anunciou:
- As denúncias levantadas e comprovadas neste tribunal contra Elisabete Schroeder são gravíssimas e o júri decidiu, por unanimidade, que a ré é culpada! Mas, tendo em vista seu atual estado de saúde, cumprirá pena de vinte anos em regime semiaberto em local apropriado para sua reabilitação física e moral.
Tatiana e Paulo abraçaram-se aliviados pelo fim da perseguição e foram cumprimentados por todas as pessoas presentes, inclusive os representantes do Consórcio Optical e Integração. Paloma, Natália, Luíza e Valéria vibraram e, enquanto o recinto estava em clima de festa, Mauro e Laércio aproximaram-se para cumprimentar Paulo.
- Parabéns, Paulo – falou Mauro, apertando firmemente a mão de Paulo.
- Obrigado.
- A justiça foi feita, afinal! – afirmou Laércio, enquanto cumprimentava o ex-funcionário. – Estamos aqui para fazer uma proposta. Estamos precisando de um novo supervisor de L.A. Então, nos lembramos de você.
Paulo surpreendeu-se com a facilidade com que uma pessoa muda de lado e pensou um instante, tomado de um súbito orgulho. Ao seu lado Tatiana aguardava, sorrindo tranquilizadoramente. Paulo então, observando-lhe o ventre levemente dilatado, sentiu que havia chegado o momento de optar pela família que desejava formar, e aceitou o emprego de volta.
Elisabete, por sua vez, estava sentada na cadeira de rodas, com o rosto e as mãos totalmente coberto por ataduras. Havia tido lesões de terceiro grau, perdera quase todos os dedos das mãos, o cabelo caíra, as pernas e braços ficaram atrofiados e seu rosto agora estava irremediavelmente deformado. Pela primeira vez ela chorou, odiando ter sobrevivido. Como se não bastasse, meses após o acidente, fora julgada e condenada e nem todas as cirurgias plásticas ajudariam a restabelecer seu rosto desfigurado.
- Vamos, querida – falou Augusto, empurrando a cadeira de rodas. – Vamos apelar da sentença. Vai dar tudo certo.
Ele sorriu. Sabia que Elisabete não poderia oferecer mais nada, mas mesmo assim, ele decidira tomar conta dela até seu último dia de vida, pois o amor que sentia superava o aspecto horrível causado pelo acidente. Discretamente saiu da sala de audiência com Elisabete sendo conduzida por um policial.
Enquanto isso, Tatiana observava Elisabete até ela sumir pelo corredor e ficou momentaneamente triste.
- Não está contente? – perguntou Paulo, subitamente preocupado com ela.
- Sim e não. Acho que ela não merecia tanto...
- Ela apenas colheu o que plantou. Não se preocupe mais com ela, combinado?
- Sim.
Paulo, Tatiana, a família e os amigos formavam um grupo eufórico e tagarela e tomaram o corredor que dava para a saída. Quando chegaram à saída do prédio, foram barrados por uma senhora com aparência distinta, que pediu um momento para falar com Tatiana.
- Meu nome é Joana d’Ávilla e sou editora. Soube de seu trabalho, Tatiana, e gostaria de conhecê-lo melhor – explicou a mulher, com cortesia.
Tatiana ficou paralisada com a surpresa e ficou imaginando de que forma aquela senhora chegara a conhecê-la, pois jamais tinha divulgado seu trabalho antes. Ainda em silêncio, Tatiana sondou o rosto de Paulo e como se pudesse ler os seus pensamentos, sorriu para ele, entusiasmada:
- Foi você? Mas, como?
- Isso é um segredo – disse ele, com ar casual.
Paulo sorriu para ela e se sentiu grato quando ela lhe abraçou comovida. As lágrimas que rolavam em sua face naquele momento eram lágrimas de esperança, um presente para uma pessoa que mereceu conquistar a vitória, porque batalhou pelo sonho. As dificuldades apareceram, mas ela não desistiu nunca.
Natália, muito contente e orgulhosa, foi ao encontro de Tatiana para lhe dar os parabéns e contar que passara para um cargo efetivo dentro da empresa. Paloma, que acompanhava a cena em silêncio juntamente com as outras amigas, refletiu como o sonho de Tatiana era importante. Sentiu-se arrependida por não ter dado o devido valor às “viagens” da amiga e sorriu, envergonhada. “Afinal, viajar faz mesmo parte de sua alma”, pensou ela.
Paulo pousou o arranjo de flores sobre a lápide de mármore, e leu a inscrição onde constava o nome de Evelin e uma mensagem de saudades. Afinal, agora ele se sentia feliz novamente, livre do remorso e mais preparado e disposto para aproveitar a nova chance que recebera. Conquistara não somente uma carreira profissional, como também ganhara uma nova esposa e um filho que tanto desejara. Então abraçou Tatiana, que permanecia calada, tentando compreender os sentimentos dele.
- Se ela estivesse viva, hoje seria seu aniversário – disse ele, suspirando, – mas quem ganhou o presente fui eu.
Tatiana olhou para ele com curiosidade.
- Como assim?
- Deus me deu uma família. – Ele tocou na barriga saliente e sorriu, enquanto segurava a mão de Tatiana e brincava com a aliança. Havia deixado seu passado para trás para viver uma nova vida, definitivamente reencontrando seu equilíbrio, acreditando sempre em sua dignidade e agradecendo por todas as experiências enfrentadas e por tudo que conquistara.
- Isso vai render uma bonita história – comentou Tatiana, com tranquilidade. – Eu sou incorrigivelmente favorável a um final feliz.
Paulo sorriu, concordando, pois naquele momento acreditava realmente no que ela afirmava e acrescentou:
- Não somente a um final feliz, mas também a um novo começo.
Abraçaram-se e caminharam lentamente lado a lado, enquanto conversavam e faziam planos para sua nova vida.
Fim
Nenhum comentário:
Postar um comentário