Sozinha na pequena casa que alugara no bairro Costa e Silva, Tatiana redigia uma trama policial que exigia todo seu raciocínio. Concluiu o capítulo e resolveu parar, porque só então sentira a dor provocada pela caneta que afundara em seu dedo médio. “Lutar por um sonho exige seus sacrifícios”, pensou ela, massageando o calo duro. Depois olhou os raios de sol que penetravam pela janela e decidiu sair para curtir a tarde de domingo do gostoso dia de outono. Assim, apanhou sua bicicleta e pedalou muitos quilômetros, apreciando todos os detalhes.
Depois de uma hora mais ou menos, ela chegou ao parque infantil que ficava próximo do campus universitário no bairro Bom Retiro, onde dezenas de crianças se divertiam e resolveu parar para descansar antes de voltar para casa. Apoiou a bicicleta em um banco e olhou ao redor. Não havia adultos por perto e Tatiana sentiu uma vontade incontrolável de se misturar às crianças. Lembrou de Paloma naquele instante enquanto refletia se seguiria seu impulso, pois a amiga sugeria que Tatiana ouvisse seu coração. “Se o coração nunca se engana, então é isso que ele quer me dizer?” Finalmente ela tomou a decisão e foi até um grupo de meninas que brincavam de pega-pega, onde perguntou se podia brincar. Sorriu após ser aceita no grupo, voltando no tempo e, a não ser pelo tamanho, era novamente uma criança de cinco anos, despreocupada e feliz.
Paulo estava apreensivo quanto à própria reação quando chegou na casa de Elisabete, porque era o primeiro encontro cara-a-cara depois de toda a trapaça armada por ela.
Entretanto, agindo com naturalidade, ela o atendeu, levando-o até um cômodo da casa, onde funcionava um pequeno escritório. Sentado à frente da escrivaninha, um homem vestido formalmente segurava uma pasta de couro.
- Este é o Dr. Augusto Campos, meu advogado – apresentou Elisabete, observando divertida a expressão interrogativa que dançava nos olhos de Paulo. – Ele está aqui para oficializar nosso contrato de casamento.
- Contrato de casamento? – Paulo enrugou a fronte, incapaz de acreditar. – Do que está falando?
- Você sabe muito bem. Você aceitou viver comigo e não irá se arrepender. Eu farei minha parte e trouxe o Dr. Augusto aqui para garantir que você faça a sua.
- Não precisa disso, Elisabete. Já dei minha palavra que...
- Palavras faladas dançam ao sabor da brisa, meu querido. Elas podem mudar de direção a qualquer instante. Palavra no papel, com reconhecimento de assinatura não! Está ali alegando a verdade incontestável do contrato. – Ela percebeu que Paulo se surpreendia cada vez mais e continuou: – Não fique assim, você vai acabar se acostumando, porque terá muitas vantagens e não precisará mais trabalhar.
- Mas eu gosto de trabalhar honestamente. Não nasci para ser gigolô de mulher alguma.
- Não veja as coisas por este prisma. Você será meu protegido.
- Protegido coisa nenhuma! – Desta feita, ele reagiu energicamente. – Entenda uma coisa, Elisabete: eu não amo você, pelo contrário, te odeio e te desprezo. Como acha que poderemos viver sem amor?
- Amor? – Elisabete fez sinal para o advogado e juntos riram sonoramente. Paulo continuou sério, imaginando o que havia dito de tão engraçado. – Admira-me você, um homem sarado, jovem, atraente, falar de amor. Isso não existe. O que existe e vale à pena é o interesse.
- Está enganada, Elisabete. Eu mesmo já vivi o amor com uma pessoa que...
- Ah, é? – interrompeu ela. – Eu já sei que você foi casado com Evelin Cavichiolli durante quatro anos, mas ela nunca foi capaz de te dar um filho e morreu vítima de sua obsessão em engravidar.
- Este é o Dr. Augusto Campos, meu advogado – apresentou Elisabete, observando divertida a expressão interrogativa que dançava nos olhos de Paulo. – Ele está aqui para oficializar nosso contrato de casamento.
- Contrato de casamento? – Paulo enrugou a fronte, incapaz de acreditar. – Do que está falando?
- Você sabe muito bem. Você aceitou viver comigo e não irá se arrepender. Eu farei minha parte e trouxe o Dr. Augusto aqui para garantir que você faça a sua.
- Não precisa disso, Elisabete. Já dei minha palavra que...
- Palavras faladas dançam ao sabor da brisa, meu querido. Elas podem mudar de direção a qualquer instante. Palavra no papel, com reconhecimento de assinatura não! Está ali alegando a verdade incontestável do contrato. – Ela percebeu que Paulo se surpreendia cada vez mais e continuou: – Não fique assim, você vai acabar se acostumando, porque terá muitas vantagens e não precisará mais trabalhar.
- Mas eu gosto de trabalhar honestamente. Não nasci para ser gigolô de mulher alguma.
- Não veja as coisas por este prisma. Você será meu protegido.
- Protegido coisa nenhuma! – Desta feita, ele reagiu energicamente. – Entenda uma coisa, Elisabete: eu não amo você, pelo contrário, te odeio e te desprezo. Como acha que poderemos viver sem amor?
- Amor? – Elisabete fez sinal para o advogado e juntos riram sonoramente. Paulo continuou sério, imaginando o que havia dito de tão engraçado. – Admira-me você, um homem sarado, jovem, atraente, falar de amor. Isso não existe. O que existe e vale à pena é o interesse.
- Está enganada, Elisabete. Eu mesmo já vivi o amor com uma pessoa que...
- Ah, é? – interrompeu ela. – Eu já sei que você foi casado com Evelin Cavichiolli durante quatro anos, mas ela nunca foi capaz de te dar um filho e morreu vítima de sua obsessão em engravidar.
Paulo sentiu a sala girar ao ouvir o nome de sua esposa e de informações tão pessoais. Ele estava disposto a ceder à chantagem daquela mulher sem escrúpulos em troca da liberdade, mas por um minuto, teve o ímpeto de desistir de tudo e voltar para a cela fétida da delegacia.
- Como sabe tanto sobre minha vida? – perguntou ele, respirando irregularmente.
- Solicitei ao Dr. Augusto uma investigação minuciosa sobre você depois daquela reação excêntrica em nosso primeiro encontro. – Ela apanhou o dossiê e estendeu-o para Paulo, que apanhou o documento e leu seu nome na capa. – Está tudo aí: datas, registros, certificados escolares, relacionamentos amorosos, participação religiosa... – Ela fez uma breve pausa. Paulo empalidecera e ela aproveitou para lançar o desafio, pois sabia que após a morte da esposa, ele jamais voltara a tocar seu violão. – A propósito, quero que você toque para mim algum dia destes.
- Eu só toco para pessoas que merecem – argumentou ele, perplexo. Ele atirou o dossiê contra a escrivaninha e fungou como se estivesse chorando. O comentário de Elisabete atingira seu ponto fraco. Ele pigarreou, como era de seu costume quando ficava nervoso e perguntou: – Mas como conseguiram tudo isso?
- Eu e o Dr. Augusto temos nossos meios, não é?
Paulo viu o gesto discreto de Augusto, que indicava dinheiro e deduziu que eles usaram o mesmo artifício para convencer o delegado a retirar as acusações e ainda limpar seu nome diante da sociedade. Como se pudesse ler seus pensamentos, Elisabete prosseguiu:
- O delegado é boa pessoa. Tem filhos pequenos para criar. As contas estavam atrasadas. Um vírus de computador apagou algumas fichas criminais, inclusive a sua. Sabe, as palavras até têm algum valor nestes casos.
- Não posso participar desse carnaval de corrupção!
- Chega de explicações. Dê a ele os papéis, Dr. Augusto.
Augusto tirou os documentos de dentro da pasta, retirou uma caneta banhada a ouro e sinalizou os locais onde Paulo deveria assinar. Este, entretanto, sofreu uma apatia momentânea e não teve forças para tomar qualquer iniciativa.
- Dê-me pelo menos uma chance de ler com calma – pediu ele.
- O que acha, doutor? – Este assentiu e Elisabete permitiu que Paulo levasse os documentos. Ele colocou os papéis no bolso da camisa e já ia se retirando do escritório, quando foi novamente chamado por ela. Sem virar-se, ouviu a voz ameaçadora de Elisabete: – Espero que não seja tolo a ponto de jogar os papéis no lixo. Se isso acontecer, em vez de contrato de casamento, você terá documentos criminais esperando por sua assinatura.
Paulo nada falou e deixou a casa. Sua mente estava em turbilhão e seu corpo enfraquecido. Embarcou no primeiro ônibus que passou e só se deu conta quando o veículo estacionou no terminal João Colin. Embarcou então na linha Bom Retiro e novamente perdeu a noção de tempo e espaço. Quando percebeu, já havia deixado passar o ponto e o ônibus estava chegando à Univille. Sem muito pensar, Paulo desembarcou e inconsolável pelo desequilíbrio emocional que Elisabete criara, se sentou no banco onde uma bicicleta estava encostada e curvou o corpo para frente.
Uma cena curiosa fez com que Paulo esquecesse momentaneamente o desfecho que sua vida estava recebendo. Havia uma moça brincando na piscina de areia juntamente com pelo menos dez crianças com idades equivalentes a quatro ou cinco anos. Ela usava roupas esporte, estava com os cabelos desgrenhados a cair em seu rosto, e os tênis haviam sido descuidadamente jogados do lado de fora da piscina. As crianças a enchiam de areia, tentando moldar bonecos em seu corpo e a moça se divertia, soltando sonoras gargalhadas. A situação cômica trouxe um sorriso aos lábios dele.
Naquele instante, a moça ergueu a cabeça e puxou os cabelos para trás, sorrindo com ar de gratuita felicidade. O olhar dela desviou-se para a bicicleta e depois para Paulo e, surpreso, ele viu tratar-se da moça que trabalhava na área administrativa do Consórcio.
Por sua vez, Tatiana, ao se deparar com ele, sentiu um calor no rosto, notou suas roupas sujas de areia e ficou constrangida. E mais que isso, sentiu medo dele, apesar de acompanhar que Elisabete se enganara ao acusá-lo.
- Acho que você está em apuros – disse ele, com um sorriso conciliador, enquanto aproximava-se da piscina de areia.
- Acho que sim – respondeu Tatiana, levantando-se e provocando um murmúrio de lamento entre as crianças.
Ela saiu da piscina de areia e abaixou-se para calçar os tênis, tomando o cuidado para não perder Paulo de vista. Em seguida, aproximou-se do banco onde estava a bicicleta e sacudiu a areia da camiseta.
- Nunca pensei que pudesse ver você desse jeito – disse ele, voltando a sentar-se.
- Que jeito? – logo perguntou, desconfiada.
- Assim, despreocupada, brincando.
- E suja, você quer dizer.
- Suja? – Ele fez um gesto de surpresa. – Você é a calamidade pública em pessoa!
Tatiana fez um esforço para ficar séria e zangada com ele, mas não conseguiu. Um pouco mais tranquila, ela resolveu sentar-se ao lado dele e observou a expressão séria que surgira em seu rosto.
- Sabe, você salvou o meu dia – falou ele, enquanto torcia as mãos nervosamente.
- Eu? Por quê? – Ela enrugou a fronte, demonstrando surpresa.
Ele calara-se e Tatiana percebeu que ele ficara inseguro. Naquele momento, ele demonstrava ser a criatura mais frágil do mundo e ela não encontrou vestígios de seu temperamento agressivo. Imaginou como ele sofrera com a acusação, mesmo sendo inocente e não encorajou o diálogo. Em vez disso, levantou-se para pegar a bicicleta.
- Não vá embora – pediu ele, gentilmente. – Eu não respondi sua pergunta porque acabei me perdendo em uma viagem alucinante. Desculpe.
Como autora do Manual da Viagem, Tatiana não deixou de se impressionar com o comentário e voltou a se sentar. Sem cerimônia, ela começou a falar sobre suas criações, seus anseios, suas metas. Descreveu, com orgulho, os personagens que ganhavam vida em suas narrativas ficcionistas. Afirmou que a pessoa que se aventurasse a ler suas histórias se envolvia naturalmente a cada página. Também admitiu a forte tendência ao maniqueísmo. Ela acabou sua narrativa e voltou a pensar em como se enganara com a personalidade de Paulo, pois ele a ouvia com atenção e interesse.
Enquanto a ouvia, Paulo recordava o momento em que a encontrara suja de terra, brincando com as crianças. Ficou tão encantado que esquecera o ódio e o rancor que sentia por ela.
- E você? O que tem feito da vida? Ouvi dizer que a Integração vai te contratar novamente – perguntou Tatiana subitamente, imaginando uma resposta casual. Porém, ela se arrependeu de ter perguntado, pois sentiu que ele se fechara outra vez e lamentou por ter sido tão especulativa.
Paulo, ao contrário do que ela esperava, contou toda sua história desde o dia em que conhecera Evelin até o dia de sua morte. Falou da solidão e do remorso, do estresse com o trabalho e ainda pediu desculpas por ter sido grosseiro com Tatiana nas vezes que a encontrava. Além disso, narrou seu envolvimento com Elisabete.
- E foi por essa razão que disse que você salvou o meu dia – finalizou.
- Que coisa mais absurda! Quem ela pensa que é? – Tatiana ficara revoltada. – O que pretende fazer agora?
- Primeiro tenho que tentar entender essa porcaria de contrato – disse ele, retirando o documento do bolso.
Tatiana desdobrou o papel, mas não compreendia muito bem a linguagem jurídica. Apenas entendeu que o contrato assemelhava-se a um contrato normal de trabalho, com a diferença de que Paulo estaria recebendo dinheiro em troca de préstimos que Tatiana preferiu não ler em voz alta..
- Ou assino essa droga ou vou para a cadeia. Você sabe o que vão fazer comigo lá apesar de eu não ser culpado?
- Posso imaginar.
- Eu deveria saber que esta seria sua resposta. Esqueci que estou diante de uma escritora.
O comentário dele soou sarcástico e provocativo e Tatiana ressentiu-se.
- E eu devia ter imaginado que cedo ou tarde você iria se revelar o grosso que é!
Ela levantou-se de um salto e embarcou na bicicleta, mas antes de tomar impulso para pedalar, Paulo agarrou fortemente seu braço. Os olhos de ambos se encontraram e Tatiana sentiu-se hipnotizada. Aquele instante pareceu eterno. Ela desviou os olhos para a mão que segurava seu braço e Paulo soltou-a lentamente, arrependido por tê-la magoado.
- Tatiana, me ajude.
-Se quiser um conselho – respondeu ela, calmamente –, ou melhor, uma recomendação, acho que você devia engolir esse orgulho e aceitar seu emprego de volta. Seu contrato de casamento não o proíbe de exercer uma profissão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário