Minha foto
Joinville, Santa Catarina, Brazil

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 8ª PARTE


A casa de Cláudia estava aberta e toda iluminada. O pai dela fumava um cigarro atrás do outro e estava no portão quando a viatura parou.

- Sou da polícia – apresentou o distintivo. Antônio, à sua disposição.

- Cleiton. Prazer. Se não fosse o Seu Ronaldo telefonar para cá, nós nunca íamos saber que a Cláudia saiu de casa desse jeito. Eu não entendo... – sacudiu a cabeça, inconformado.

- Ela não deixou nenhuma pista?

- Não sei... não consegui pensar em nada de tão aflito...

- Posso falar com sua esposa?

- Claro... Sílvia! Pode entrar, a mulher está lá na cozinha.

Antônio apresentou-se para Sílvia, fez algumas perguntas e pediu para ir até o quarto da moça. Quando entrou, observou a cama desfeita e a cortina balançando diante da janela aberta. Tudo indicava que ela tinha apenas saído às pressas, mas ao contrário do que imaginava, ela não parecia ter fugido. Porém, não havia nenhum indício de que a garota saíra para um encontro escondido.

Ligou o abajur sobre a escrivaninha e viu a agenda com o nome de Cláudia bordado na capa. Abriu-a no último registro que Cláudia deixara. Ele leu: “Hoje é o dia mais emocionante da minha vida, porque vou ficar com o Maurício, que já está tentando me conquistar a um tempão. Eu resisti, mas acabei me apaixonando por ele. Nós vamos para a praia antes do amanhecer. O pai e a mãe vão ficar danados da vida, mas preciso viver essa emoção.” Depois de ler, deixou a agenda no lugar e correu para fora.

- Por favor, Seu Cleiton, ligue para o delegado Ivan. A sua filha está nas mãos de um criminoso!

Alarmado, Cleiton correu ao telefone e Sílvia caiu em uma crise de choro. Antônio explicou que precisava voltar à casa de Ronaldo e saiu.


.......


Ronaldo ouviu a sirene da polícia e abriu ligeiramente a porta para Antônio entrar.

- O Maurício levou a Cláudia.

- Como sabe? – perguntou Ronaldo, apreensivo.

- Ela escreveu na agenda que vai para a praia com ele, mas não mencionou para qual... – Antônio estava desesperado. Não tinha pista nenhuma para segui-la.

- Calma, rapaz. Vou avisar o delegado.

- Já pedi para o pai da Cláudia falar com ele, mas se o senhor reforçar o pedido é tanto melhor – respondeu Antônio, andando em círculos dentro da sala. Por fim, debruçou-se sobre uma mesa, esgotado. Teve um sobressalto quando foi tocado por Patrícia.

- Minha querida... queria tanto ter evitado que esse sujeito te fizesse mal... – lamentou.

- Aconteceu, Tony. – Suas palavras eram doces e confiantes. – Talvez fosse uma prova para ver aonde chegava nosso amor. Não sofra com isso. Eu te amo e você também, porque não me abandonou depois que eu fui estuprada.

- Querida, nada me faria abandonar você...

- Eu ouvi a conversa que você teve com meu pai. Nós voltamos a ficar juntos por causa do esforço incessante e da confiança inabalável que ela tinha em você. Procure ela – pediu a moça.

- Não posso... – suspirou, vencido. – Não sei para que praia eles foram.

- Ele também me levou para a praia... – Aquele fora o primeiro comentário de Patrícia sobre o assunto. – Eu acho que sei para onde ele a levou.

- Você sabe? – Ele levantou de imediato. – Diga...

- Me leve com você – pediu a agora noiva, tocando nos ombros dele, como que a suplicar pela permissão. – Também quero ajudar a Cláudia.

- Não, eu não posso permitir – negou Antônio. – Não posso arriscar a sua vida de novo.

- Tony, é sério. A Cláudia está correndo perigo.

Antônio concordou em levá-la e esperava que Patrícia estivesse certa. Avisaram Ronaldo e Adelaide e embarcaram no automóvel.

.......


Cláudia observava os primeiros raios de sol surgirem na paisagem que o automóvel deixava para trás. Já podia sentir no ar outro clima, farejar a maresia, ouvir as ondas quebrando nas pedras. Seu coração palpitava, compartilhando a ansiedade que tomava conta de sua imaginação.

- Arrependida? – perguntou Maurício, enquanto manobrava o veículo para o acostamento. Pousou a mão livre na perna dela e continuou: – Vamos passar bons momentos juntos, eu prometo...

Ela sorriu com doçura, imaginando um momento mágico de envolvimento entre eles. Seu coração avolumava-se dentro do peito que arfava. Eles desembarcaram e ela olhou para o mar, porém, estava prestando atenção em si mesma, naquela sensação sufocante de dúvida, de medo repentino, como um pressentimento de perigo. Mas o que poderia dar errado?

- Quer? – Maurício abraçou-a por trás e lhe ofereceu uísque. Tomou um gole pelo gargalo. – Tome, vamos! – Diante da negativa, ele largou-a e sua voz tornara-se agressiva, o que deixou Cláudia desconfiada. Manteve os sentidos alerta, pois percebera uma sutil mudança no comportamento dele.

- Eu acho melhor você parar de beber, Maurício – pediu ela, vendo que ele estava esvaziando a garrafa. – Você precisa me levar de volta...

- E quem disse que você vai voltar? – comentou Maurício, com ironia, atirando a garrafa para longe. Agarrou-a e beijou-a à força. Cláudia sentiu o cheiro e o gosto do álcool misturado ao hálito quente.

- Você é muito mais linda que a Patrícia – afirmou, malicioso.

Cláudia ouviu a revelação, mas as palavras demoraram a fazer sentido para ela. De repente, sentiu que o mundo havia parado enquanto raciocinava. Seu pensamento voltara à imagem de Patrícia, quase desfigurada, imóvel, sobre aquele leito no hospital. Marcas de cortes e agressões cobriam seus braços e o que mais chocara fora a notícia de que ela havia sido violentada. Até então, crimes como aquele não produziam em Cláudia qualquer efeito, a não ser lembrar sua omissão no passado. A amiga que jamais voltara a ver... Tantos fatos, tantas falhas, tudo passou em sua mente em dois ou três segundos, que pareceram eternos. Suas pernas fraquejaram quando compreendeu o que estava acontecendo. Maurício premeditara o envolvimento com ela, provavelmente era sua estratégia para se aproximar de suas vítimas.
Instintivamente, procurou se desvencilhar e correu para longe dele, para a areia que afundava sobre seus pés.

A perseguição começara: o predador saía à caça de sua presa. Mais forte, alcançou-a, derrubou-a na areia e imobilizou-a. Rasgou sua blusa. Apavorada, Cláudia atirou areia nos olhos do agressor e conseguiu correr para o veículo, onde embarcou e virou a chave na ignição. Mas antes que pudesse colocar o veículo em movimento, Maurício quebrou o pára-brisa com a garrafa de uísque, abriu a porta e arrancou a garota de dentro do automóvel, provocando no braço dela um corte profundo no vidro espatifado. Agrediu-a no rosto e quando percebeu que ela perdera as forças, atirou-a no banco do passageiro, onde ficou desacordada.

Maurício deu uma arrancada no automóvel e sumiu na rodovia vazia.


.......


O tráfego na rodovia estava mais intenso naquelas primeiras horas da manhã e Antônio e Patrícia continuavam seguindo a única pista deixada por Cláudia. Patrícia pediu para Antônio estacionar a beira-mar diversas vezes, pois pensava ter reconhecido o local, mas suas tentativas foram todas infrutíferas. Ela sentia-se no dever de encontrar o foragido, o que provocou ansiedade e nervosismo. Percebendo seu estado, Antônio decidiu levá-la de volta para casa. Parou no acostamento e deu seta para à esquerda.

Contrariada, Patrícia implorou que insistissem na busca, argumentando que a vida de Cláudia dependia deles e que não poderiam abandoná-la. Pediu então para fazer somente mais uma tentativa. Dessa forma, Antônio concordou e seguiram adiante.

Alguns quilômetros depois, Antônio percebeu no acostamento marcas recentes de pneus e cacos de vidro, o que era comum, pois poderiam ser restos de algum acidente. Entretanto, àquela altura tudo deveria ser investigado para tentar rastrear o criminoso. Parou o veículo no acostamento e deu a ré até se aproximar dos vestígios. Desembarcou e examinou o local e encontrou algumas gotas de sangue fresco. Patrícia seguiu-o e ficou olhando para o mar.

- Veja, Tony!

Patrícia viu na praia um trapo e correu para averiguar. Quando percebeu que se tratava de uma blusa rasgada, ela começou a tremer e abraçou Antônio com força.

- Você acha que é da Cláudia? – perguntou ele, aninhando-a protetoramente.

- Eu não sei – disse Paty, quase chorando. – Eu estava desacordada quando chegamos a uma praia. Ele me arrastou para a areia, me agrediu novamente... e depois só me lembro de um lugar horrível, cheirando mal, onde penetravam alguns raios de sol. E aquela sombra monstruosa em cima de mim...

Patrícia ficou nervosa e caiu em prantos. Antônio levou-a de volta para a viatura.

- Vamos, Paty, você já se esforçou demais. Vou levar você pra casa.

Ela estava esgotada e não o contrariou desta vez. Antônio debruçou-se sobre o volante, com uma indescritível sensação de incapacidade. De repente, teve um palpite.

- Eu acho que sei para onde ele a levou – declarou, tocando na mão de Patrícia. – Está preparada?

Ela afirmou com um gesto e seguiram para o temível encontro com o bandido.

.......


Cláudia piscou os olhos, procurando acostumá-los à claridade. Um facho de luz vinha em sua direção e ela sentou-se para desviar do brilho. Sentiu ardência no braço e viu o sangue coagulado. A fraqueza entorpecia seus sentidos e ela custou a se lembrar do que estava acontecendo. Observou os raios de sol atravessando as fendas nas paredes de um rancho, que cheirava a abandono e podridão.

Havia uma porta dependurada apenas na dobradiça superior no lado oposto em que o sol não alcançava e, com muito esforço, Cláudia levantou e caminhou até lá, tateando nas velharias para não tropeçar. De repente, Maurício surgiu na entrada do rancho e ela gritou apavorada.

- Deixe eu ir embora – suplicou.

- Claro. – Maurício derrubou a porta e se afastou para o lado. Cláudia não acreditou na falsa sugestão e tentou correr. Entretanto, a tontura fez com que ela cambaleasse e Maurício facilmente a agarrou. Ele forçou Cláudia a beijá-lo e a empurrou contra a parede.

- Me larga!

- Não. Depois eu vou bater um papinho com aquela sua amiga bonitinha...

- Não, a Fernanda não! – Cláudia gritou, cuspindo no rosto dele. Ele deu uma bofetada em Cláudia, que caiu sobre um monte de entulhos. Jogou-se sobre ela, prendendo-a com o peso do próprio corpo. Cláudia tentou afastar Maurício a todo custo, não queria se entregar, mas estava cansada de lutar.

- Faça de uma vez, seu monstro! – exclamou, dando socos no rosto dele.

- Essas suas agressões são como cócegas. Vou te mostrar como é um soco de verdade...

A força da bofetada atirou Cláudia em um mundo de fantasmas e sons. Imagens embaralhavam-se em sua mente e ela desistira de tentar se salvar. Ficou imóvel e entregue a seu destino.

Uma força interna repentina provocou estalos em sua mente exausta e espasmos no corpo debilitado. Novas imagens e sons se misturaram e um assomo de raiva cresceu dentro dela. Cláudia trincou os dentes e alcançou uma garrafa vazia no meio dos entulhos onde caíra.

- Pare! – gritou Cláudia, espatifando a garrafa na cabeça dele, que caiu de lado.

Cláudia saiu correndo do rancho. A claridade do dia cegou-a nos primeiros instantes, mas ela seguiu um caminho na mata, tropeçando várias vezes enquanto olhava para trás. Cortou o rosto nos galhos, mas o desespero não permitiu que ela parasse. Na descida de uma colina, encontrou um riacho. Pulou sobre as pedras para alcançar a outra margem. Tentou equilibrar-se e acabou perdendo uma das sandálias. A água levou-a no curso do rio.

Chegando à outra margem, Cláudia parou para tomar fôlego. Bebeu um pouco de água, curvando-se na beira do rio. Continuou agachada, respirando com dificuldade. Quando a água parou de balançar, Cláudia viu a imagem de Maurício espelhada.

- Você não vai fugir de mim!

Maurício portava uma arma. Cláudia começou a tremer e fugiu. O bandido atirou, mas não a atingiu, e atravessou o rio para continuar a perseguição.

Cláudia não aguentava mais, mas procurou forças e continuou correndo.

Os raios de sol penetravam tímidos na vegetação fechada. Finalmente, a claridade aumentou no final do corredor da mata. Cláudia sorriu quando avistou os chalés.

- Socorro! Socorro! – ela gritou, mas não havia ninguém no parque aquático.

- Quieta! Eu vou acabar com sua vida... – Maurício surpreendeu-a próximo de uma das piscinas. Agarrou-a pelo braço ferido e mirou o revólver para sua cabeça. Maurício derrubou-a e ela se entregou à exaustão. Seu pulso estava acelerado e lhe faltava ar.

- Não se mexa!

A ordem viera do outro lado da piscina. Cláudia rolou no chão e, no meio da visão turva, reconheceu Antônio. Em seguida, viu Patrícia aproximar-se dele.

- Venha para cá, Cláudia! – disse Antônio, com Maurício em sua linha de tiro. Cláudia levantou-se do chão e seguiu na direção do casal o mais depressa que podia. – Você está preso! Levante os braços bem devagar!

- Preso? Por quê? Não fiz nada. Você não pode me prender por sair com minha namorada – respondeu Maurício, ironicamente desafiador. – A não ser que me prenda por ter me divertido com a sua namorada. – Desta vez, Maurício riu, enquanto observava Patrícia maliciosamente. – Eu sei o que ela tem pra dar. Você, não sei...

Maurício disparou um tiro em Antônio e fugiu. As moças gritaram enquanto Antônio caía no chão. Mas ele se recompôs de imediato, disse para Patrícia cuidar de Cláudia e seguiu na direção que Maurício havia tomado.

- Está tudo bem com você? – perguntou Patrícia, ajeitando o cabelo de Cláudia. – Ele te machucou?

- Me surrou, não fez... – respondeu Cláudia, soluçando nos braços de Patrícia.

- Vem, vamos para o carro.

Minutos mais tarde, Antônio voltara para o veículo. A decepção dominava seu semblante.

- Eu perdi o cara. Droga! – Ele chutou uma pedra qualquer.

- Ele vai voltar, Antônio! Ele vai atrás da Fê! – alertou Cláudia, caindo em prantos.  – Por favor, precisamos avisar ela…

Antônio pediu para que Cláudia relatasse os planos de Maurício e entrou em contato com a central de polícia.

- Câmbio... Antônio... Perdi o sujeito, delegado... Ele vai atacar de novo... Fernanda, outra moça da universidade... câmbio, desligo. – Esfregou a cabeça e voltou-se para as moças. – Vamos para casa.

Embarcaram na viatura e meia hora após estacionavam diante da casa de Cláudia. Os pais dela vieram aflitos ao encontro dela. Não fizeram perguntas, apenas a levaram para dentro.

- Ah, querida! Não sabe a agonia que passamos. Graças a Deus você está bem – suspirou a mãe.

- Muito obrigado, policial. Você salvou a nossa filha – agradeceu Cleiton.

- É o meu trabalho. Recomendo chamar um médico. Não aconteceu nada mais sério a ela, mas talvez Cláudia precise de uma dose de sedativos. Ela precisa de muito repouso. O senhor deve saber disso melhor do que, mas, por favor, não a perturbem com perguntas ou recriminações.

- Tudo bem, Antônio. Agradeço mais uma vez.

- Agora quero sua colaboração.

- Em que posso ajudar?

- Preciso do endereço de Fernanda.

Cleiton escreveu o endereço em um pedaço de papel e o entregou a Antônio. Este agradeceu e voltou para o carro, onde Patrícia o aguardava. Ele percebeu que ela estava muito triste.

- O que foi, meu bem?

- Você deve ter ficado com raiva de mim, depois que ele disse aquilo.

Ele sabia do que se tratava. Sentira muito ódio no instante em que Maurício o desafiara.

- Por que eu sentiria raiva de você, Paty?

- Porque eu não lutei como a Cláudia para me defender dele. Porque eu deixei ele fazer aquilo comigo...

- Pare, Paty. Não pense nessas coisas. O que importa é que você está viva e eu amo você. Minha vida não seria mais a mesma se eu te perdesse.

- Jura?

- Juro. Agora enxugue essas lágrimas. O que seus pais vão pensar se chegarmos lá assim?

Patrícia conseguiu sorrir.

- Fico feliz por que a Cláudia está a salvo.

- Eu também, mas ele está solto. Preciso agarrá-lo, nem que seja a última coisa que eu faça!

Antônio deixou Patrícia em casa. Deu satisfações a Ronaldo e rumou para a casa de Fernanda.

Nenhum comentário:

Postar um comentário