Algumas libélulas voavam sobre a água do riacho que borbulhava nas corredeiras. A mistura de vozes de pássaros, como sabiás, tico-ticos, quero-queros, rolas, eram subjugadas pelo forte canto de uma cigarra barulhenta que estendia sua voz como uma motosserra em atividade constante. As galinhas cacarejavam e um cachorro corria em torno do cercado, tentando estabelecer ordem às aves tagarelas.
Sentada em um banco de madeira na varanda da casa de enxaimel, estava Tatiana. Em seu colo, havia um gato que ela afagava, enquanto conversava com uma senhora de cabelos grisalhos, sentada ao seu lado no banco.
- Isso é tudo, mãe.
- Ele é importante pra você? – perguntou a mãe, em tom casual, depois que a filha havia terminado sua narrativa.
- Muito, mãe. Eu amo o Paulo. Nunca senti nada assim por ninguém.
A mãe ficou em silêncio, observando a filha. Ainda não havia se dado conta de que Tatiana agora era uma mulher e havia deixado para trás o ar infantil para conquistar o mundo e até desejar um homem. Escolhendo com cuidado as palavras para não magoar a filha, ela disse:
- Tatiana, penso que se você me contou tudo isto, você quer minha opinião e meu conselho.
- Claro, mãe.
- Não quero que você sofra, minha filha, e acho que este é um caso encerrado, pois aquele rapaz já casou e está vivendo com outra mulher. Não ensinei você a estragar casamentos...
- Mas, mãe – protestou Tatiana –, ele odeia aquela mulher. Ele foi obrigado a casar, porque senão ela acabaria com a vida dele.
- Eu acho que você foi inconsequente quando aceitou se casar, mesmo sem saber o que ele prometeu para aquela mulher.
Não adiantava argumentar e Tatiana resolveu caminhar para espairecer. Largou o gato no chão e saiu andando a passos largos na direção da rua, deixando a mãe falando sozinha. As lágrimas toldavam-lhe a visão e a ideia de nunca mais ver Paulo deixava-a ainda mais infeliz.
Tatiana tentava a todo custo convencer seu coração de que sua história com Paulo estava encerrada e que não adiantava nada sofrer por ele. Perdida em lembranças e imaginando diversas maneiras de superar sua crise emocional, ela continuou caminhando na estrada deserta. Parou em uma reta e lembrou quando antes existia a arrozeira de seu avô no lado esquerdo da estrada e o tanque de peixes no lado oposto. Olhou para as serras à sua volta e imaginou que mundo enorme poderia existir além daqueles dois picos que ficavam ao norte. Lembrou também quando seu pai contara que aquela estrada, Canela, tinha projeto para ser aberta e ligar o bairro Rio Bonito à Estrada do Pico na época do vereador Guilherme Zuege. Tatiana antes lamentara que o projeto nunca saíra do papel por causa da antiga balança rodoviária que existia na BR 101, pois como seu pai havia explicado, se a rua fosse mesmo aberta, os motoristas de caminhão desviariam a balança que ainda estava em atividade naquela época. Essa lembrança fez com que ela imaginasse novamente Paulo e Elisabete a uma pequena distância de sua casa e agradeceu que a rua ainda continuasse como há vinte anos. Novamente seu coração doeu e ela começou a soluçar.
Subitamente, o ronco do motor de um automóvel a tirou de seu devaneio. Ela procurou enxugar seu rosto para tentar distinguir o veículo que se aproximava e resolveu voltar para casa. Sua mãe sempre alertara para tomar cuidado com pessoas de má índole e Tatiana, lembrando-se das recomendações, sentiu medo e começou a correr.
O automóvel a estava alcançando, mas ela não olhou para trás. Ficara confusa devido a seu descontrole emocional e entrou em pânico. Ouviu o veículo parar e alguém bater a porta e, cada vez mais desesperada, Tatiana embrenhou-se pela passagem entre os eucaliptos nas terras de seus pais para pegar um atalho e chegar em casa a tempo. Porém, esgotada pelo esforço físico, reduziu a corrida até parar embaixo de um pé de chorão, onde se apoiou. Uma brisa sacudia as árvores suavemente, e as folhas que caíam das diversas árvores formavam um tapete de folhas secas no chão.
- Tatiana! Sou eu, Paulo!
Ouvindo aquilo, ela olhou para trás e viu Paulo se aproximando. Suas pernas fraquejaram e ela sorriu, quase sem acreditar. A emoção de revê-lo arrancou novas lágrimas de seus olhos e Tatiana teve o impulso de se atirar nos braços dele. Paulo ficou imóvel diante dela, incerto sobre sua reação.
- Tatiana – sussurrou ele. – Eu te encontrei finalmente.
- Você estava me procurando? – indagou ela, enquanto sufocava a ansiedade e a esperança.
- Sim, eu precisava muito te ver. Só não imaginei que você iria fugir de mim.
- Desculpe – ela baixou a cabeça. – Não sei o que houve. Sabe como a minha imaginação é fértil. Eu me desesperei, achei que fosse um desconhecido. Aqui acontecem tantas coisas ruins...
- Então é ruim eu ter aparecido? – Em sua pergunta havia um tom de decepção e tristeza.
- Não, nunca! – Tatiana ergueu seus olhos e fitou-o, revelando os olhos vermelhos e inchados.
- Andou chorando? – perguntou Paulo, tomado de uma súbita preocupação. – Acho que é culpa minha, não é?
- Mais ou menos...
- O que foi que eu fiz de errado?
- Nada. Eu é que estou me iludindo...
- Por quê?
- Ai, Paulo, eu não aguento mais. Eu te amo e dói muito saber que te perdi...
Ao escutar a revelação, a face dele contraiu-se em um sorriso. Ele abriu os braços e ela o abraçou com força, encostando a cabeça no peito dele. Riso e choro misturaram-se.
- Tatiana, meu amor... eu fui tão egoísta com você, tão covarde. Estava tão preocupado comigo mesmo que, quando fui capaz de enxergar seu amor por mim, pensei que já era tarde demais.
- Por favor, Paulo, não me deixe... não sei mais viver sem você.
Paulo beijou-a pela primeira vez e ela se rendeu, indefesa. De repente, os segundos pareceram horas e seus corpos giravam ao sabor da brisa que refrescava suas peles ardentes. Aves, em bandos, cantavam para eles, e junto do farfalhar das árvores e dos tímidos estalidos de gravetos e folhas secas, compunham uma sinfonia inigualável. Ao final dos últimos acordes, um gemido silenciou a mata.
Tatiana abriu os olhos e sorriu, após um suspiro profundo. Acomodou sua cabeça sobre o braço dele e fitou-o. Paulo alisou o rosto dela, deslizou os dedos pelos lábios, afagou os cabelos e girou-a para cima dele, provocando uma chuva de folhas secas.
- Te amo, te amo, te amo... – repetiu ele, beijando-a diversas vezes e fazendo-a soltar risinhos de contentamento. – Hoje sou o homem mais feliz deste mundo!
Durante longo tempo permaneceram em silêncio, aproveitando o momento. Entretanto, os pensamentos aguçados convergiam para a mesma incerteza. Paulo reclinou o corpo de encontro às raízes do chorão e Tatiana ajoelhou diante dele. Seu sorriso aos poucos foi se apagando enquanto ela traduzia seus sentimentos em palavras:
- Como vai ser daqui pra frente? Você tem suas obrigações para cumprir...
Ele não respondeu, pois a realidade o machucava e a insegurança se projetava em seu olhar. Compreendendo o silêncio, Tatiana levantou-se e ficou de costas para ele, enquanto arrumava suas roupas. Inconscientemente ela se preparou para se despedir, mas amá-lo pelo menos uma vez já a confortava. Paulo, entretanto, a enlaçou pela cintura, beijou seu rosto e balançou seu corpo como se a estivesse ninando. Ela deixou-se levar pelo embalo para sentir-se mais próxima dele.
- Agora que eu sei que você me ama, sou capaz de tudo. Não tenho medo de mais nada.
- Mas e a Elisabete? Ela agora é sua esposa, não é? – Tatiana deixou escapar.
- Somente no papel.
- Como assim? – Ela ficou confusa. – Já faz tantos dias que você assinou seu casamento...
Ele explicou que não tinha consumado o casamento porque amava Tatiana, que sorriu agradecida e beijou-o desejando-o novamente. Mas sabia que não podia tê-lo, porque ele pertencia a Elisabete. Apesar de realista, ela não se rendeu ao sofrimento e procurou abraçá-lo para sentir seu calor mais uma vez. Paulo observou no sorriso dela um misto de encantamento e tristeza. Naquele momento ele jurou para si mesmo que enfrentaria Elisabete para viver com Tatiana.
Eles despediram-se e Tatiana permaneceu imóvel até vê-lo sumir em meio à vegetação. Tomou o caminho de casa totalmente enternecida com as recordações daquele momento único.
Paulo voltou para casa e atirou-se sobre a cama, onde permaneceu por muito tempo pensando em Tatiana. Ainda podia sentir o cheiro dela e a maciez do corpo que o recebeu sem nada exigir em troca.
Subitamente, o motor de um caminhão guincho atraiu sua atenção e Paulo foi até a sacada onde viu um veículo sendo transferido do reboque para a garagem. Quando voltou para dentro, Elisabete surgiu na porta semi-aberta.
- Apanhe isto! Seu presente acabou de chegar – disse ela, lançando para ele as chaves de automóvel que ele agarrou no ar. Imediatamente imaginou que ela pretendia conquistá-lo com bens materiais e sorriu, irônico, pois não se corromperia por causa de um presente.
- Espero que goste de pick-up. Escolhi uma Pajero para combinar com seu estilo – continuou Elisabete, pretensiosa.
- Estilo? Você se refere a playboy ou gigolô? É esse o estilo que está querendo que eu interprete? – argumentou ele, sarcástico.
Cada encontro com Elisabete culminava em explosão de sensibilidade, mas Paulo não chegara, desta vez, a nenhum rompante de ódio. Pelo contrário, manteve-se calmo e distraído, o que enfureceu a mulher.
- O que há com você? – gritou ela, no ápice de sua paciência. – Você está brincando comigo e eu não admito isso! Nós casamos, temos um contrato, e você não chegou a cumprir os termos desse acordo.
- Peça o cancelamento do matrimônio, então. Você mesma cobrou que eu não cumpro meu papel de homem, está lembrada? – A calma impertinente dele irritava-a cada vez mais. Ele levantou-se tranquilamente da cama e postou-se bem à frente dela. – Se você ainda não percebeu, eu não tenho a menor vocação para homem-objeto.
Ela deu uma bofetada no rosto dele, que se contraiu em um sorriso desafiador. Trêmula de ódio, Elisabete lançou um olhar fulminante que Paulo sustentou.
- Eu amo outra mulher, Elisabete. Tenho nojo de você! Não há contrato de casamento nenhum deste mundo que me faça ir pra cama com uma criatura desprezível como você!
- Você tem outra mulher, Paulo? Diga quem é ela, para eu acabar com a vida dela! – Elisabete não conteve seu ódio, sua derrota, seu orgulho corroendo-a de inveja.
- Você está blefando, Elisabete – continuou Paulo, baixando o tom de voz e rindo da mulher enfurecida à sua frente. – Você perdeu, entendeu? Perdeu! Deixe-me ir, não quero nada com você.
- Somente sobre o meu cadáver! Vou conseguir você a qualquer custo! E quanto à mulher que você diz que ama, vou dar uma lição da qual ela jamais se esquecerá! Eu até já sei de quem se trata. É aquele noivinha que você inventou para fugir do compromisso comigo. Como é mesmo o nome dela?
Paulo subitamente empalideceu e perdeu a voz. Havia provocado a ira de Elisabete, mas não desejava envolver Tatiana naquela discussão. Procurou mudar a expressão e parecer convincente de que Elisabete estava enganada. Apesar de sua tentativa, a mulher já havia lido em seus olhos que estava certa. Com um sorriso vitorioso saiu do quarto e dirigiu-se ao escritório para fazer alguns contatos.
Paulo ficou sentado ao pé da cama, temendo pela segurança de Tatiana. Depois, pensou melhor e resolveu negociar para amenizar sua fúria. Enojado com a própria ideia, ele seguiu até o escritório.
- Elisabete, quero falar com você. Deixe Tatiana fora disso e eu cumpro com meu papel de marido.
- Até que enfim estamos falando a mesma língua! – respondeu ela, aparentemente satisfeita com o acordo. – Muito bem, ela não fará mais parte de nossas vidas. Quanto as suas responsabilidades, acho que podemos começar...
Paulo engoliu em seco e reagiu:
- Primeiro quero ter certeza de que você vai cumprir a sua parte no acordo.
Dito isto, ele se retirou do escritório, apanhou a chave do veículo de trabalho e saiu da casa. Ela girou na cadeira, observando-o através da janela e, sorridente, pronunciou:
- Pode apostar que eu farei a minha parte, meu querido.
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