Uma semana depois, quando tudo parecia ter se acalmado e Cláudia retomado a sua monótona vida de estudante, lá estava ela, debruçada sobre a mesa, com olhar vago e pensamento distante da aula que assistia.
- E então, quem pode responder a minha pergunta? Cláudia, sua vez.
Fernanda cutucou Cláudia, que parecera acordar de um sonho.
- Ãh? O que a senhora disse?
- O que me diz sobre André Breton?
- Ah, ele é ótimo! Gosto muito dele. É um excelente ator.
A turma explodiu em riso, enquanto Benedita, perplexa, observava Cláudia.
- Querida, estamos na aula de literatura e até onde eu sei André Breton não vive mais há um bom tempo...
Cláudia desculpou-se e saiu da sala. Fernanda seguiu-a, preocupada.
- O que aconteceu, Cláudia?
- Nada. Dormi mal.
- Você está preocupada demais com os outros, isso sim. Tem que dar tempo pra você.
- É, eu não estou com cabeça pra nada hoje – desabafou.
- Eu sei. Já marcaram o julgamento do Antônio, não é? – adivinhou Fernanda.
- É. E a Patrícia é a única que pode ajudá-lo, mas ela se nega a falar.
- Como você sabe?
- Minha mãe visitou a Dona Adelaide essa semana. Dona Adelaide diz que Patrícia sofreu um trauma e por isso não reage. É como se fosse desprovida de sentimentos.
- Deve estar sendo sedada o tempo todo, Cláudia.
- Eu sei. Fui eu quem causou isso, está lembrada? Mas deixa eu ir. Preciso ficar sozinha.
Fernanda suspirou enquanto observava a amiga desaparecer no corredor.
Cláudia foi a pé para casa, aproveitando a caminhada para espairecer. Lembrou que, em um dos dias que fora ao hospital contar histórias, perguntara para a enfermeira sobre o estranho aparecimento de Antônio no hospital. A enfermeira disse que um policial fardado havia invadido o quarto de Patrícia, por volta das 20h30min e só não prejudicou a moça ainda mais porque a enfermeira de plantão apareceu. Cláudia estranhou que esta enfermeira tivesse dado depoimento dizendo que era Antônio, porque ela não o conhecia.
Tudo estava muito confuso. Antônio dissera ter sido liberado às 21 horas. O delegado afirmara 20 horas. Quem estaria mentindo? Por mais que Cláudia pensasse, não chegava a lugar algum.
Aproximando-se de sua casa, um homem esbarrou com ela, derrubando suas coisas no chão. Eles abaixaram-se para ajuntar os livros e o homem fixou os olhos nela.
- Desculpe, eu estava distraído – disse ele, sorrindo, enquanto ficava de pé para acompanhar o movimento rápido de Cláudia.
- Eu também estava. Eu é que peço desculpas – falou ela, retribuindo o sorriso, mas momentaneamente insegura. Ele tinha olhos claros perturbadores e especulativos.
- Fico feliz por ter esbarrado em uma garota tão bonita.
Cláudia ficou sem graça.
- Gostaria de dar um passeio comigo hoje à noite?
Surpresa com a audácia do convite, Cláudia balbuciou uma negativa disfarçada por um pedido de desculpas, que não convenceu o estranho. Usando todo seu charme, o homem insistiu e por pouco ela aceitou. Resolveu evitá-lo, dizendo:
- Quem sabe a gente se encontra por aí.
Cláudia entrou na casa e observou pela cortina. O homem havia desaparecido. Ficou intrigada com aquele encontro supostamente casual e registrou o ocorrido no diário.
.......
Desde que Cláudia e Fernanda se envolveram no caso de Antônio, não tiveram momentos de sossego devido à dedicação excessiva e quase suspeita de Cláudia em resolver o caso. E como era de se esperar, Cláudia levantara agitada naquela manhã do primeiro julgamento de Antônio. Praticamente madrugara e, ao telefonar para Fernanda sentia uma apreensão crescente. Combinara tudo com a amiga no dia anterior, mas não podia permanecer em casa só aguardando o momento do julgamento. Recebeu uma boa bronca de Fernanda por ter ligado tão cedo, mas conseguiu que a amiga se encontrasse com ela na frente do fórum dentro de uma hora.
- É muito cedo, Cláudia, mas pelo menos passamos o tempo conversando e não colocando minhoca na cabeça.
Mais tarde, quando entraram no tribunal e acomodaram-se nas cadeiras, presenciaram a entrada do réu, um inocente, como afirmava Cláudia. Só então Cláudia se deu conta do aspecto abatido de Antônio frente a tanta humilhação.
Cláudia e Fernanda observaram o pai de Patrícia com olhar fulminante sobre Antônio. Ricardo amparava a mãe e torcia pela condenação do suspeito.
O promotor fora cruel e enfático na acusação. Manipulou habilmente as testemunhas, de modo que elas se confundiam nos depoimentos. Mesmo assim, o julgamento fora suspenso por falta de provas, o que dava a Antônio algum tempo para trabalhar em favor da própria defesa. Ao mesmo tempo em que Antônio enfrentava o drama de ser preso injustamente, sentia ódio do sujeito que praticara a maldade contra sua namorada. Desejava vê-la, falar com ela, mas enquanto o processo estivesse em andamento, ele não tinha liberdade para visitá-la. Soube por meio de outras pessoas que Patrícia não reagia ao tratamento. Estava cada vez mais magra, mais pálida e sofria calada, preferindo o silêncio como forma de consolo.
Pouco antes do julgamento, o delegado Ivan havia estado no hospital para tomar depoimento.
- Boa tarde, Patrícia – disse ele, em tom carinhoso inicialmente. – Sabe, a polícia precisa da sua ajuda para que o homem que te estuprou seja preso. Você quer ajudar, não quer?
Patrícia olhou para Ivan sem responder. Não havia dito uma palavra sequer desde que a encontraram inconsciente. Ivan caminhou para o lado da cama, um pouco impaciente pela falta de resposta.
- Querida, pode confiar em mim. Você é uma moça muita bonita e tenho certeza de que é inteligente também. Preciso de seu testemunho para incriminar aquele cafajeste.
Patrícia permaneceu impassível.
- Veja bem, Patrícia. Não quero que me conte o que ele fez a você. Você tem todo direito de não querer falar. Eu falo, e você responde com um gesto. Combinado?
Ivan não tinha tempo a perder com ela. Tinha uma filha da mesma idade de Patrícia e doía-lhe ver aquela moça naquele estado. Tomar o depoimento de uma jovem naquelas condições não era de sua vontade, mas o pai de Patrícia o colocara contra a parede, pois queria a todo custo prender Antônio, logo o melhor da equipe, o mais humano. Ivan ainda custava a crer que Antônio a tivesse maltratado. Queria investigar mais, entretanto, Ronaldo afirmava que Antônio era o culpado. E havia provas contra Antônio. Ivan suspirou e decidiu por arrancar da moça o testemunho de que tanto necessitava.
- Eu sei ser muito bom, Patrícia. Mas estou perdendo a paciência. Diga, foi Antônio?
Patrícia não ajudou.
- Responda, moça! Sua vida depende disso. Não posso deixar o malandro solto!
Ivan sacudiu-a com firmeza e a primeira reação foi o choro. Em seguida, o desespero. Patrícia gritou, esperneou, não tinha condições emocionais para depor.
Os enfermeiros vieram socorrê-la e a mãe aparecera no mesmo instante.
- O senhor não tem vergonha do que fez? Não tem coração? Não pensou que podia ser sua filha a tomar o lugar dela? – Dona Adelaide, de tão nervosa, expulsou Ivan do quarto de recuperação.
Ivan esfregou a cabeça e saiu sem dizer palavra.
O assunto chegou à universidade. Todos se revoltaram. Os amigos de Patrícia resolveram acompanhar o assunto mais de perto. Foram solidários com Antônio, com exceção de Ricardo.
- Vocês têm que colocar na cabeça que poderia ter acontecido com qualquer uma de vocês! Por isso, esse criminoso tem que ir pra cadeira! – exclamou Ricardo.
- Não o culpo – disse Fernanda. – Afinal, é sua irmã.
Depois de acompanharem o primeiro dia de julgamento, Cláudia e Fernanda se encontraram com Antônio em uma lanchonete.
- Vocês não sabem como é duro para mim. Às vezes, penso que vou enlouquecer. Tenho tanta saudade da Paty.
- Antônio, como eles podem ter tanta certeza se você estava em treinamento no dia do ocorrido? – perguntou Cláudia.
- Não tenho álibi, porque no dia eu saí para comer um lanche, só que o dono do carrinho de lanche, que poderia me inocentar, não foi mais localizado.
- Mas, Antônio... – continuou Cláudia. – Você não está reagindo. Tem que fazer alguma coisa para se ajudar...
Ele não respondeu, porque sabia que a recém amiga estava com a razão. A vergonha e a revolta pareciam profundamente impregnadas em seu ser e no coração havia amargura e desistência de lutar. A resistência inabalável que apresentava diante dos casos que resolvia tornava-o um homem seguro e com domínio da situação. Já havia acompanhado casos de violência sexual e lamentava pela vítima. Entretanto, quando passou a fazer parte da situação, vivendo na pele um dilema como aquele, perdeu toda a autoconfiança. Baixou os olhos para o copo de suco, envergonhado por não saber lidar com tudo aquilo.
- Não pode se abalar... – ajuntou Fernanda. – Patrícia precisa do seu empenho.
- Eu sei – suspirou ele. – Mas por que ela não me defende? Ela sabe que não fui eu.
- Ela pode estar sendo ameaçada – refletiu Cláudia, no mesmo momento que a ideia lhe ocorreu. – Lembra que te acusaram de invadir o hospital?
- Mas não fui eu. – Antônio olhou-a com desconfiança.
- Eu sei. Não se preocupe. Sempre acreditei que você é inocente.
- Eu também – reforçou Fernanda.
- Vocês podiam fazer um favor para mim? – pediu Antônio.
- Não nos metermos no caso? Infelizmente, você terá problemas. Nunca vamos cumprir esse acordo – respondeu Cláudia, sorrindo.
- Não era bem isso. Não sabem como agradeço por estarem do meu lado. Vocês são minhas únicas esperanças.
- Bobagem... – disse Cláudia. – A verdade vai aparecer. Mas diga o que quer.
- Se vocês visitarem a Paty, queria que dissessem a ela tudo isso. Que eu não fugi, mas que estou sendo acusado. E que a amo. E que sem ela não sei viver.
- Combinado.
Eles despediram-se. Fernanda acompanhou Cláudia até a casa dela. O sujeito misterioso reapareceu.
- Oi, gata! Trouxe uma surpresinha para você! – falou ele, alegremente, enquanto estendia um generoso buquê de rosas vermelhas na direção de Cláudia. Ela, por sua vez, apanhou o presente e agradeceu.
- É um presente para a garota mais linda do mundo! – continuou ele, empolgado.
- Eu não mereço esse título...
- Merece, sim. O convite para sair ainda está de pé.
- Obrigada, mas... eu nem sei ainda o seu nome.
- Maurício. Muito prazer. – Ele beijou a mão dela, o que deixou Fernanda maravilhada.
- Cláudia. O prazer é meu.
- Quando se decidir, estarei aqui.
Maurício foi embora e Cláudia ficou imóvel, segurando o buquê, tentando entender o jeito fácil de Maurício aproximar-se de alguém. “Que tipo de relacionamento começa assim?”, pensou Cláudia, tentando impedir que a situação criasse maiores problemas. Fernanda, no entanto, estava entusiasmadíssima.
- Cláudia, quem é esse gato?
- Foi um cara que esbarrou comigo outro dia.
- Ah, e você não me contou nada? Que espécie de amiga pensa que sou?
- Eu não o achei tão interessante.
- O quê? Esse deus grego?! E ainda está super apaixonado por você.
- Pára, Fê. Vai devagar.
Elas entraram na casa de Cláudia para estudarem juntas, mas o ocorrido não lhes deu espaço para pensarem em outra coisa. Quando Fernanda finalmente se despediu e foi embora, Cláudia passou o restante do dia suspirando por Maurício.
.......
Passava das 10 horas da manhã do dia seguinte ao julgamento quando Antônio entrava na delegacia. Incentivado pelo otimismo e confiança que as duas garotas depositavam nele, finalmente se decidira a procurar Ivan para levantar maiores informações. Antônio já previa que sua chegada seria motivo de reprovação e a movimentação dos policiais de campo e internos levou à confirmação de sua teoria. Os poucos passos que precisou dar para chegar à sala do delegado pareceram interminavelmente torturantes.
- Fui informado de que você estava vindo – falou Ivan, num tom formal. Estava debruçado sobre a escrivaninha analisando alguns boletins de ocorrência. – O que faz aqui?
- Vim em paz, quero conversar – explicou Antônio, engolindo em seco, mas tentando parecer mais à vontade do que realmente se sentia.
- O que espera conversar? Você é o suspeito número um de um crime hediondo que abalou uma comunidade – alegou Ivan, levantando-se de seu lugar e guardando uma pasta dentro de um arquivo metálico do outro lado da sala. – Quem sabe quer um café? – ofereceu Ivan, com uma ironia irritante.
Antônio respirou profundamente e explicou que desejava ele mesmo descobrir o autor do crime e provar que não havia outro envolvimento que não o amor entre Antônio e a vítima. Sabia que Ivan não o condenava, mas estava sendo pressionado a desistir da investigação.
- Não posso fazer o que me pede, Antônio – desculpou-se Ivan, andando em círculos na sala.
- Eu só quero uma chance de limpar meu nome, delegado – insistiu Antônio. – Só assim poderei pegar o verdadeiro criminoso.
Ivan suspirou, coçou a cabeça, andou em volta de Antônio, parou diante da janela.
- Muito bem. A partir deste momento está reintegrado na equipe. Mas vou avisando que vou ter problemas por sua causa. – Ivan estendeu a mão para Antônio e sorriu. – Bem vindo, policial. – Antônio retribuiu o gesto. – Ao trabalho!
- Sim, senhor!
Antônio deixou a sala e retomou suas atividades, não longe do preconceito alheio. Procurou com companheiros atualizar-se sobre os casos. Em seguida, pegou a chave da patrulha e saiu assobiando, ignorando as dúvidas que pairavam no ar.
.......
Cláudia e Fernanda caminhavam na calçada, prontas para atravessar a rua, quando viram a patrulha parar logo adiante. Antônio desembarcou e convidou-as para entrar. Já acomodadas, elas fizeram mil e uma perguntas de uma vez só. Antônio não cabia em si de satisfação.
- Para onde vocês estão indo?
- Para o hospital, onde a... – começou Cláudia, sem concluir a frase.
- Sei. Vou para lá também. – Cláudia e Fernanda pouco entenderam. – Sabiam que a ordem de não permitir minha entrada foi suspensa?
- Jura? – perguntou Cláudia, arregalando os olhos, contente com a notícia.
- E graças a vocês.
- Como assim? – perguntou Fernanda, desconcertada.
- Enquanto todos estavam contra mim, vocês acreditaram na minha inocência o tempo inteiro. Vocês foram minha salvação.
Ele manobrou o veículo para passar pela portaria. Em seguida, parou no estacionamento.
- Preciso ver a Paty.
- Ficamos felizes por você, Antônio.
- É. Torcemos por você e Paty.
Elas foram ao encontro de Benedita na ala pediátrica. Antônio cumprimentou o policial na entrada do quarto de Patrícia. Apresentou o distintivo e entrou.
Ele caminhou vagarosamente até Patrícia. Ela já tinha um aspecto melhor, mas ainda parecia sedada. Antônio beijou uma das mãos dela.
- Paty, eu te amo tanto... – sussurrou ele.
Para sua surpresa, Patrícia reagira. Moveu vagarosamente a cabeça na direção dele, tentando afastar a sonolência e a confusão inicial. Em seguida, sorriu para Antônio.
- Paty, minha querida. Eu tive tanto medo de não poder mais ver você...
Comovido Antônio chorou. Patrícia levantou o braço com soro e limpou o rosto dele.
- Eu prometo que vou acabar com o cara que fez você sofrer tanto.
Patrícia teve nova reação. Inquieta, movimentava a cabeça para os lados, tentando se comunicar.
- O que foi, Paty? Não fique assim, querida. Acalme-se, vamos.
Patrícia sentou-se na cama e abraçou Antônio. Acariciou o rosto dele, mas não proferiu uma palavra sequer. Em seus olhos, porém, se percebia uma grande agitação.
- Querida, você sabe que não fui eu, não é? – Ela fez um gesto afirmativo. – Quem foi, Paty? Eu preciso prender aquele canalha!
Ela chorou silenciosamente e o abraçou mais uma vez. Sabia que o namorado também estava sofrendo.
- O que aconteceu pra você não querer falar? Se você pudesse falar, poderia me inocentar, e eu me livraria deste processo – desabafou, enquanto afagava os cabelos e o rosto dela e segurava a mão dela entre as suas.
Observou a ternura em seu olhar e acomodou-a no travesseiro. Deu-lhe um beijo na fronte e saiu do quarto um pouco mais aliviado por ver que ela estava se recuperando. Apesar disso, sua cabeça estava a mil por hora, decifrando enigmas de fragmentos dos depoimentos. As acusações, a humilhação, as mentiras, o sofrimento da mulher que amava, tudo, tudo o torturava incessantemente.
Esperou no estacionamento por Cláudia e Fernanda. Estas o encontraram chorando.
- O que aconteceu, Antônio? Não deixaram você ver a Paty? – perguntou Cláudia, assustada.
- Não... pelo contrário, eu a vi, sim. Falei com ela. Expliquei tudo. Depois que saí, percebi que fui um canalha com ela.
- Do que você está falando, Antônio? Não me diga que você enganou a gente... – disse Cláudia, com medo da resposta.
- Eu a amo, amo como jamais pudesse sentir coisa igual. Mesmo assim, não fui capaz de protegê-la. Não cometi a violência contra ela, mas é como se tivesse sido responsável, porque fui eu quem não cuidou dela.
Cláudia e Fernanda tranquilizaram-se. Ele também estava sofrendo.
- As coisas acontecem – começou Cláudia. – Poderia ter sido com qualquer uma de nós.
- Eu sei. Mas a Paty tinha tantos sonhos. Ela pediu o meu carinho e o meu amor várias vezes, e eu neguei. Quis fazer tudo certo, com pedido de namoro ao pai dela. No fim das contas, quis fazer do meu jeito. Fui um egoísta. Deixei a Paty cair nas mãos de um psicopata.
- Não se culpe, Antônio. Você a ama, e é isso que vale. É importante ela saber que depois de tudo o que aconteceu, ela ainda pode contar com o seu amor – ajudou Fernanda.
- Será? – perguntou Antônio, esfregando os olhos.
- Você está querendo desistir dela?
- Talvez.
- Mas isso é o cúmulo! – exclamou Cláudia, repentinamente zangada. – Você está com pena de você mesmo, cara! Está com seu orgulho ferido, arrependido de coisas que não estão ao seu alcance. Será que as coisas acontecem por acaso? Ou é destino, ou será que Deus quis testar o amor que você diz sentir pela Paty?
- Cláudia... calma. O Antônio já tem sofrimento que chega – Fernanda tentou argumentar.
- Ah, sofrimento, é? – continuou Cláudia, sarcástica, gesticulando. – Sofrimento é o que aquela moça que você afirma amar passou e está passando. Sofrimento é você ser violentada sem poder fazer nada para se defender. Gritar e ninguém te ajudar. Levar surras, ser massacrada e ficar jogada até alguém aparecer para procurar. Isto sim é sofrimento, Fê! E o Antônio não sabe o que a Paty está sentindo. Humilhação, vergonha, está se achando culpada quando não é. Prefere morrer quando imagina que as pessoas estão sabendo de sua agonia. E pra esse tipo de sentimento, o Antônio não dá a menor importância.
Cláudia olhou bem nos olhos dele.
- Vamos, Fê! Melhor deixar o Antônio aí, morto de pena dele mesmo.
Antônio ficou imóvel, vendo as se moças afastarem. Não tinha forças para mais nada naquele dia. As palavras duras de Cláudia deixaram-no ainda mais deprimido.
Voltou para a delegacia, onde entregou a viatura e resolveu caminhar pelas ruas escuras à procura de consolo.
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