Minha foto
Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 4 - PARTE II - A IDEIA BRILHANTE

Tatiana estava deitada em sua cama, agarrada ao travesseiro. A luz do abajur da mesa de cabeceira estava acesa e seu livro continuava do jeito que ela deixara à tarde antes de sair. Era hora do jantar, mas ela perdera o apetite. Perdera até mesmo a noção da hora, enquanto extravasava sua tristeza. Finalmente aprendera a escutar seu coração, porém, já era tarde demais, porque o futuro de Paulo já estava decidido.

Ela tratara-o mal tantas vezes e, naquele momento, arrependera-se amargamente por tê-lo ofendido, pois passara a conhecer o sofrimento que ele carregava dentro de si. Jamais pudera imaginar que ele se sentia responsável pela morte da esposa a quem amava acima de tudo. Em período algum poderia prever o destino que o aguardava. Quando ele pedira sua ajuda, Tatiana não deu importância ao gesto, mas lembrava-se dos olhos suplicantes à procura de paz.

Ela tranquilizou-se e releu mentalmente o contrato. Não havia o que contestar. Acusar Elisabete de fraude seria inútil, porque ela, com sua influência, reverteria a acusação a seu favor.

“Me ajude...”, ela lembrava, mas parecia um caminho sem volta, uma armadilha que jamais seria revelada. “Eu vou ajudá-lo”, pensou, transmitindo para si mesma firmeza e determinação. Tatiana lembrou de tudo o que ele havia mencionado e sentiu pena pelo fato de Paulo ser viúvo.

De repente, ela sentiu o coração bater mais forte. Poderia haver uma saída e ela correu para o telefone, querendo falar com Paulo sobre as possibilidades de seu plano. Para sua infelicidade, ouviu a mensagem “celular fora de área ou desligado” e resolveu esperar até o dia seguinte para telefonar-lhe, torcendo para que não fosse tarde demais. A expectativa era tão grande que ela mal conseguiu dormir.




Na manhã seguinte, ela consultou o sistema para encontrar o telefone da casa dele. Decepcionou-se ao constatar que o telefone convencional estava retirado. Lembrou de ligar para a Zilda do RH, mas o número do telefone que constava na ficha era o mesmo.

- Não pode ser – resmungou.

Tentou novamente o celular, mas continuava informando fora de área.

- Tem bloco de ASLA?

Ela levou um susto enorme. O rapaz de uniforme chegou de repente e ela estava sozinha na sala.

- Paulo?! O que faz aqui?

- Segui sua recomendação.

Ela recuperou-se do susto e rapidamente falou a respeito da ideia que tivera. Ele ouviu-a com atenção, enquanto ela explicava que ele não poderia casar com Elisabete se já estivesse casado com outra mulher. O casamento falso duraria o tempo que fosse necessário para esfriar a obsessão de Elisabete.

- Tatiana, os proclamas levam dias para correr e eu não tenho tanto tempo – protestou.

- O tempo é você que faz – respondeu Tatiana, quase sufocando de ansiedade. – Então não há um minuto a perder! Agora só falta uma mulher para ser a sua cúmplice.

- Eu não tenho ninguém a quem recorrer, Tatiana. Só se você...

- Não, Paulo, eu não posso – interrompeu, adivinhando o que ele queria dizer.

- Tatiana, por favor, você é a minha única chance... – implorou ele, com olhar suplicante e triste que ela aprendera a respeitar.

Mesmo que seu coração negasse, ela se convenceu a ser a esposa de mentira dele.

- Vamos precisar de testemunhas – declarou ele, enquanto sorria, na expectativa de ver-se livre de Elisabete.

- Deixe isso comigo. Vou pegar seu bloco de ASLA.

Paulo passou por Paloma, Natália e Luíza quando saiu da sala e as garotas entreolharam-se curiosas. Tatiana pediu para falar com elas e explicou tudo, inclusive a ideia de oficializar um casamento de mentira.

- Da nossa parte está tudo bem – falou Luíza. – Mas e você, como vai resistir à ideia de morar na mesma casa que o homem que ama e sem sequer tocar nele?

Tatiana sentiu o rosto arder e, perplexa, perguntou:

- Mas eu... eu não... Você está enganada.

- Não precisa se explicar. Tá na sua cara!

- Mas eu sou tão transparente assim?

- Não, imagina! – Elas riram para descontrair.

- Então vão me ajudar?

- Claro, só tem um problema: como vamos explicar pra Valéria que duas de nós precisamos sair do setor ao mesmo tempo? – indagou Luíza, preocupada.

- Simples: vamos contar a verdade pra ela – falou Tatiana, serenamente.

- O quê?! – indagaram as três garotas ao mesmo tempo.

- Só nós cinco vamos saber que o casamento vai ser falso, mas para o resto do mundo tem que parecer tudo real.

- Tem razão – concordou Natália. – A Valéria não pode te proibir de escolher a Luíza e a Paloma como testemunhas.

Dessa forma, tudo ficou combinado e Tatiana ligou para Paulo, que prometeu buscá-las para ir ao cartório de registro civil.

Valéria chegou às 10h30min, porque toda segunda-feira ela vinha dirigindo o próprio automóvel de sua casa em Florianópolis. Ela alugara um apartamento próximo da empresa e ali passava a semana. Logo que entrou no departamento, Luíza comentou:

- Valéééria... tenho um babado pra te contar...

- E o que é? – perguntou Valéria, interessada.

- Sabe quem vai casar?

- Ai, fala logo, não vou aguentar de curiosidade.

- A Tatiana e o Paulo, aquele instalador de L.A. (linha de assinante).

Valéria vibrou e abraçou Tatiana.

- E eu nem sabia que vocês estavam namorando...

- Faz pouco tempo, mas é o suficiente para tomarmos esta decisão – respondeu Tatiana, enquanto agradecia os cumprimentos. Ela lançou um olhar triste para Paloma, Luíza e Natália enquanto ainda estava abraçada a Valéria, e as garotas sinalizaram que ela mantivesse a calma e demonstrasse alegria. Então, Tatiana sorriu para Valéria e confirmou a verdade incontestável: – Eu o amo e só o que quero é ficar com ele pra sempre.

Valéria ficou satisfeita com os esclarecimentos e ofereceu ajuda.

- Preciso de ajuda, sim. Deixa nós três sairmos hoje para darmos entrada nos papéis? 

- Você três quem? – ela logo perguntou, prevendo algo de errado.

- Eu, a Paloma e a Luíza, que eu escolhi como testemunhas.

Valéria verificou se a produção estava em ordem e permitiu. Tatiana pulou de alegria, abraçando-a novamente.

- Eu gostaria que você e o Ernesto fossem meus padrinhos. Aceita?

- Mas é claro que sim!

À tarde, como combinado, Paulo apanhou-as na portaria da empresa. Paloma e Luíza sentaram-se no banco de trás e começaram a cutucar Tatiana e Paulo.

- Comportem-se como noivos, vocês dois! – disseram elas, tentando atenuar a situação embaraçosa que os dois estavam vivendo.

Paulo perguntou para Tatiana o quanto da história as garotas sabiam e não escondeu o desagrado diante da resposta de que elas conheciam todos os detalhes e seriam suas aliadas.

- Elas são minhas amigas, Paulo. Não fique perturbado, porque confio nelas.

- Não há como não ficar perturbado, Tatiana.

- Você deve tentar ficar tranquilo. Além do mais, é preciso que você tenha muitas testemunhas da cilada que foi preparada por Elisabete.

- Tem razão.

Eles encaminharam o registro de pacto antenupcial, registraram assinaturas e depois de encaminhar toda a documentação, marcaram o casamento civil para sexta-feira, no final da tarde. Voltaram para a empresa e informaram Valéria para se preparar, e esta desconfiou:

- Tatiana, me conta uma coisa: você está grávida?

- Eu? Claro que não! – Tatiana arrependeu-se por ter respondido depressa demais e tentou emendar: – Mas eu quero ficar grávida logo.

Valéria soltou uma gargalhada e tranquilizou-se.

Para não levantar suspeitas, o falso casal optou por uma cerimônia rápida e um jantar com poucos convidados. Os pais de Paulo eram falecidos e Tatiana não queria que seu pai e sua mãe compactuassem com aquela mentira. Além disso, não haveria tempo para prepará-los. Aliás, tempo era um detalhe com o qual eles não podiam contar.

Tatiana passou a semana inteira aflita cuidando dos preparativos. Olhou para um álbum onde ela aparecia com os pais e pensou: “Pai, mãe, me desculpem, mas estou fazendo isso por amor. Não gostaria que fosse dessa forma, e logo eu vou visitar vocês e contar toda a verdade”.

Paulo mergulhou no trabalho para evitar qualquer contato antecipado com Elisabete. Em casa mantinha-se escondido e durante o expediente prendia a respiração cada vez que o celular tocava. Porém, na sexta-feira, Elisabete ligou em um momento de grande tumulto com uma instalação que o assinante, exaltado, rejeitara.

- Já assinou os papéis, Paulo?

- Já – respondeu ele. – Mas voltei a trabalhar e não tive tempo de falar com você.

- Para que trabalhar, querido? O contrato garante sua vida...

- Mas não me impede de exercer uma profissão – atalhou ele.

- Paulo, você está me fazendo de palhaça! Quando é que você vai vir?

- Amanhã, Elisabete, amanhã – respondeu ele, tentando ganhar tempo. – Pode marcar com seu advogado, que estarei aí amanhã à noite.

- Ótimo.

Ela pareceu satisfeita e desligou. Paulo respirou aliviado.




Nenhum comentário:

Postar um comentário