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Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 10 - PARTE I - DO OUTRO LADO DA LINHA



Na mesma noite, sentada à frente da escrivaninha em seu escritório, Elisabete analisava o papel em sua mão. Amassou-o com raiva e observou a expressão petulante no rosto de Augusto.

- Ela chegou na sua frente, querida.

No mesmo instante, ela ergueu-se da cadeira e derrubou todos os objetos de cima de sua mesa, inclusive o notebook, que se espatifou no chão.

- Aquela maldita! Eu preciso acabar com ela e com aquele bebê de uma vez por todas!

- Não é necessário – disse Augusto, calmamente. – Além de estar com uma incurável amnésia, Tatiana se demitiu do emprego e voltou a morar com os pais não muito longe daqui.

- Seu idiota, é claro que é necessário tomar uma atitude contra esta mulher! – esbravejou Elisabete, enquanto fumava um cigarro após o outro. – Não percebe que ela está fingindo?

- Acalme-se, o desespero não é bom conselheiro...

- Cale a sua boca ou eu mato você também! – ameaçou ela. – Eu preciso agir rapidamente antes que o Paulo fique sabendo sobre o bebê.

- O que pretende fazer?

- Eu vou matá-la, e desta vez, vou me certificar de que ela nunca mais vai atravessar o meu caminho.

- Elisabete, ela está esperando um filho... Você não vai ser insensível a ponto de... – falou ele, começando a ficar preocupado.

- Ela não tinha o direito, entendeu? – Elisabete àquela altura estava berrando, disposta a tudo.

- Pense melhor, Elisabete. A criança não tem culpa...

- E você acha que eu me importo com ela? Eu odeio a Tatiana e aquele bebê que ela espera. Vou dizer o que você deve fazer...

- Você não vai dizer coisa alguma – anunciou Augusto, levantando calmamente da cadeira. Ele apanhou sua valise, arrumou os punhos da camisa e fez menção de sair do escritório.

- Onde você pensa que vai? – perguntou ela, colérica.

- Não vou participar desse jogo sujo, não quando envolve uma criança que ainda nem nasceu.

- Não me faça acreditar que agora você é um homem de princípios. Ou acata minhas ordens ou vou arranjar outro advogado.

- Nesse caso, pode começar a procurar outro. Eu me demito.

Ele saiu do escritório e Elisabete seguiu-o.

- Escute, Augusto, você não disse que me ama? – Ela controlou-se, procurando seduzi-lo. Sabia que o tinha nas mãos. Então, passou os braços em volta de seu pescoço e beijou-o. – Se você me ama de verdade, vai me ajudar, não vai?

Ele olhou diretamente nos olhos dela.

- Se eu te ajudar desta vez, você me promete que vai esquecer o Paulo e ficar comigo? Elisabete, nós podemos ser tão felizes juntos.

- Claro que prometo! – mentiu ela. – Faço tudo o que você quiser. Sabe que o Paulo é um capricho meu. Depois que ele me satisfizer, vou mandá-lo para o olho da rua.

- Você ainda espera conseguir algo com ele, Elisabete? Está se iludindo com um projeto que jamais vai conquistar.

- Do que está falando? – Elisabete percebeu que Augusto ocultara uma informação valiosa e estava usando-a em seu favor.

- Querida, não tente me enganar – ele riu sonoramente, aguardando o momento de revelar seu trunfo. – Acha que em todos esses anos que me dedico exclusivamente a você, não tive a curiosidade de investigar sua vida?

- Pare com isso imediatamente! Você está blefando – ela saiu novamente de controle.

- Eu sei de tudo, inclusive sobre sua obsessão por Paulo – afirmou ele, retirando de sua valise uma encadernação. – Tome.

- O que é isso? – Ela arrancou o volume das mãos dele e folheou rapidamente as páginas, enquanto Augusto dominava a situação.

- Isso, minha querida, é um dossiê completo sobre sua vida. Contém fatos sobre sua infância e adolescência, relata a doença de seu pai e seu falecimento, ainda apresenta um relatório detalhado de como o advogado de seu pai foi morto após o envenenamento, e de como o caso foi abafado na justiça, além de toda a trama que você armou para cima do Paulo.

- Seu crápula! Isso tudo é uma mentira! – Ela atirou o dossiê no chão e ameaçou esbofetear Augusto.

- Não é mentira. Basta eu apresentar esse documento para as autoridades e você será condenada por homicídio.

- Espera que acreditem em um absurdo destes? Você é mesmo ingênuo e não tem provas. – Elisabete riu sem se intimidar com as acusações.

- Aí que você se engana. As provas existem e estão muito bem guardadas. Basta que você se precipite e elas aparecerão.

- Mais um blefe. Pare de me chantagear, doutor. Está se achando o máximo, não é mesmo? Mas vai ter o que merece.

- Não seja estúpida. Eu sou uma bomba-relógio.

- Espere. – Elisabete ficou séria de repente. Tentava articular uma armadilha e ainda não entendia o que ele queria de verdade. – Quanto quer para esquecer tudo?

- Não é uma questão financeira. Eu quero você.

- Esqueça. Eu podia matar você – ela falou, porém, cansada e derrotada, deu as costas para ele.

- E o que está esperando? – Ele abriu os braços. – Você possui uma arma e um silenciador. Acabe comigo agora, só que seu segredo não vai morrer comigo. Eu garanto.

- Ainda acho que você está blefando – insistiu ela, enquanto se virava para ele novamente.

- Quer arriscar?

Ela permaneceu em silêncio, enquanto vagava pela casa. Esperava ter uma grande ideia para enganar o trapaceiro advogado, silenciar Tatiana e obrigar Paulo a manter-se casado com ela. Entretanto, Augusto sempre cuidara da parte suja de seus planos e o que ela não poderia esperar era aquela traição repugnante.

Abalada com a confissão que deixara escapar a Paulo, Elisabete pensou em matá-lo também, pois ele representava tudo o que ela mais repudiava: caráter, senso de justiça, escrúpulos, honestidade e a fidelidade inabalável a seus princípios éticos e moralistas. Para ela a vida não passava de um jogo, em que vence o mais astuto, aquele que não se prende a regra alguma. Desde criança ela aprendera a valorizar o dinheiro em lugar dos sentimentos. Percebera que um ser humano não é nada sem status, que sua mísera vida só ganha proporções à custa do sofrimento alheio. Porém, toda essa concepção se mostrou inoportuna ao comparar forças com aquele homem que no primeiro momento pareceu perfeito.

A lembrança do último encontro com Paulo chegou a aquecer novamente seu sangue. Ela cerrou o punho ao imaginá-lo fazendo amor com Tatiana, a seu modo de ver, uma mulher de poucos atributos. Não tinha mais o que fazer e ela estava decidida a acabar com todos eles, até mesmo com Augusto, pois faria com que revelasse o nome da pessoa que estava acobertando toda sua chantagem.

Ao final do que parecia ter passado uma eternidade, ela reagiu, esbravejando contra todos aqueles que decidiram estragar seus planos, principalmente com Paulo por todas as vezes que a rejeitara. Ela jamais admitira tal atitude e não compreendia seus motivos.

Augusto, que ouvira os desabafos dela em silêncio, aproximou-se com cautela e tocou em seus ombros.

- Elisabete... – sussurrou ele. – Você está infeliz e tudo isso é culpa daquele ignorante que você escolheu para casar.

Ela não o repeliu e manteve-se em silêncio, observando-o como se fosse capaz de sentir algo por ele. Mas admitiu para si mesma que ele estava certo, pois se sentia muito infeliz e negligenciada.

- Augusto, me ajude... – pediu ela, sem desviar seus olhos dos dele.

- Sim, querida, acalme-se. Vai dar tudo certo.

Ele acariciou-a lentamente no rosto e beijou os lábios, que a princípio mostraram não aceitar a iniciativa. Entretanto, mais algumas carícias fizeram-na ceder e eles consumaram o ato sexual de um modo totalmente desprovido de emoção, principalmente da parte de Elisabete, que deixou seu corpo a mercê dos prazeres mundanos e nada mais. Augusto, por sua vez, procurou satisfazê-la, pois sabia que era disso que ela precisava, do prazer apenas, não do amor que sentia por ela. E constatou essa verdade ao fim do ato quando ela se afastou dele após satisfazer seu ego terrivelmente ferido pelas rejeições.

- Suma daqui agora! – ordenou ela, arrependida, mas sem se alterar, enleando-se no lençol e saltando da cama.

- Eu irei, mas antes quero dizer que te amo, te amo muito e faço tudo por você. Eu te quero...

- Sai, sai! – continuou ela, rispidamente. – Amanhã você me contará tudo, mas no momento não estou suportando olhar para sua cara.

- Cuidado, querida... – alertou ele em tom sarcástico, enquanto vestia as calças e tentava disfarçar a mágoa. – Lembre-se de tudo o que falamos.

- Sai! – ela gritou, atirando nele os sapatos. Ele defendeu-se dos ataques, apanhou os sapatos e o restante de seus pertences e seguiu para a porta de saída, mas antes ameaçou:

- Cuidado para não se arrepender, Elisabete – e fechou a porta antes de ser atingido pelo abajur que se espatifou no chão.

- Vamos ver quem é que vai se arrepender aqui, seu idiota – disse ela, deixando escapar uma gargalhada demente que ficou ecoando na casa vazia.

Do lado de fora da casa, Augusto podia ouvir perfeitamente a gargalhada de escárnio da mulher que cegamente teimava em amar. Humilhado e ao mesmo tempo revoltado, ele sentou-se à direção do veículo e digitou alguns números em seu celular.

- Pode dar continuidade ao plano – falou ele com a pessoa do outro lado. Após desligar ele sorriu, falando para si mesmo: – Ah, Elisabete, você ainda vai ser minha. – Em seguida, girou a chave na ignição e foi embora.

Não muito longe dali, um homem desligou o aparelho de celular e oculto pelas sombras da noite, arrombou um armário digital, prosseguindo com algumas alterações nas linhas telefônicas. Em seguida, o sujeito apanhou o badisco, uma espécie de telefone fixo-portátil, e fez uma ligação clandestina.

O telefone tocou e Elisabete saiu do banho para atender. Ao mesmo tempo, no centro de Pirabeiraba, o telefone da delegacia de polícia soou. Um policial de plantão atendeu, mas não estava com a menor disposição para trotes e usou de xingamentos vulgares que o sujeito misterioso ouvia.

- Alô!

Ao perceber que Elisabete atendera sua chamada, ele cruzou as linhas e começou a falar com ela:

- Assassina...

- O quê? Quem está falando?

- Olá, Elisabete, pensou que ninguém iria descobrir seus crimes, não é mesmo? Seu erro é confiar demais em si mesma.

- Já ouvi isto esta noite. Você é o informante de Augusto, está claro. Não adianta me ameaçar. Ninguém vai acreditar nesta história.

- Você é uma assassina! Tentou estrangular Tatiana e eu tenho as provas aqui comigo.

- Como assim? Que provas? – O homem sentiu uma insegurança na voz da mulher que há instantes parecia totalmente controlada. – Você está mentindo. Pare com isso ou acabo de uma vez com sua raça maldita! Alô! Alô!

Enquanto isso, o policial que acompanhava atentamente a conversa, se apressou em anotar o número do telefone no identificador de chamadas. Rapidamente consultou o sistema para verificar o endereço, ao passo que gravava as ameaças de Elisabete.

- Você vai se arrepender por se meter comigo! Acabo com você e com aquela maldita criança!

Ela bateu o telefone e o policial redigiu um relatório.

- É, moça – falou ele consigo mesmo, imaginando uma decolada na própria carreira –, não sei como isso aconteceu, mas você se meteu numa cilada.

O homem no armário digital ouviu tudo e reativou as linhas. Na sequência, fez uma ligação no celular.

- Tudo correu conforme o combinado – anunciou, desligando em seguida.





Assim que a delegada entrou no prédio na manhã seguinte, o policial foi ao seu encontro e, no caminho, relatou o que ocorrera.

- Escute isso, Rosana – pediu ele, ligando o gravador após chegar ao departamento.

- Esta é mais uma de suas brincadeiras, Luiz? Onde conseguiu esta fita? – perguntou ela, recostando-se na cadeira.

- Não sei como aconteceu, Rosana, mas parece que alguém cruzou as linhas de propósito para nos alertar.

- E quem é Elisabete? E Tatiana? E Augusto? Investigou esses relatos?

- Sim, e descobri que o telefone pertence à Elisabete Schroeder, a mesma que causou aquele escândalo porque um instalador de linhas telefônicas teria abusado dela sexualmente.

- Sim, eu lembro do caso, mas e daí? O que uma coisa tem a ver com a outra?

- O delegado que trabalhava neste local não abriu ficha criminal, mesmo após duas acusações da tal da Elisabete.

- Continue.

- Mais tarde, ela retirou as acusações e se casou com o instalador. Não parece estranho?

- Isso está me cheirando a suborno.

- E tem mais: a Tatiana trabalhava na mesma empresa que o Paulo, o marido de Elisabete. Não consegui apurar qual era a ligação deles, mas os registros do cartório indicam que ela iria se casar com ele. E, de repente, a noiva passou a ser a Elisabete. Mais tarde, a Tatiana sofreu estrangulamento, mas sobreviveu e recebeu alta há dois dias.

- E ela prestou depoimento sobre quem tentou assassiná-la?

- Não, ela não registrou nenhum boletim de ocorrência. Parece que perdeu a memória.

- A pessoa que está acusando Elisabete disse que tinha provas. É possível que Tatiana tenha revelado o nome do criminoso para alguma pessoa que esteja chantageando Elisabete em troca de dinheiro – deduziu Rosana, levantando-se de imediato. – Luiz, redija uma ordem de prisão e me encontre na viatura. Temos obrigação de evitar uma tragédia.

- Imediatamente, chefe!

Luiz saiu rapidamente da sala para providenciar os documentos e dentro de instantes já seguia para a viatura onde Rosana o aguardava. Assim que embarcou, ligaram a sirene e partiram.

Elisabete passara a noite em claro, elaborando uma vingança. O telefonema deixara-a ainda mais nervosa e ela decidiu pôr seu plano em execução. Assim que decidiu o que faria, caminhou até a cômoda, abriu uma gaveta e retirou uma arma de dentro de uma caixa. Desta vez queria se certificar de que nem Tatiana nem Paulo sobreviveriam. E Augusto seria o próximo. Guardou o revólver dentro da bolsa e saiu de automóvel.

Assim que o veículo saiu da Rua João Fleith e trafegou na SC 301, passou por uma viatura da polícia civil que seguia velozmente com a sirene ligada. Pelo retrovisor, Elisabete verificou que a viatura atravessava a ponte e seguia pela esquerda na direção de sua casa.

- Já imaginava isso – falou Elisabete, acelerando o automóvel.





Tatiana apreciava a manhã ensolarada de outono enquanto deixava o pensamento voar. Ela estava encostada no tronco da árvore onde seu filho fora gerado, redigindo um novo romance, quando uma folha caiu sobre o caderno, tirando sua concentração. Ela apanhou a folha verde com cuidado e rodopiou-a nos dedos, imaginando o momento mágico em que finalmente estaria com seu filho nos braços. “Meu filho, vou poder contar a você que homem maravilhoso era seu pai”, pensava ela, sentindo-se infeliz por não poder contar com a presença de Paulo. “Vai ter que se contentar com duas tias bajuladoras, um avô e uma avó corujas e uma mãe ainda mais orgulhosa”, falava ela, acariciando seu ventre e acostumando-se à ideia de que dentro em breve seria mãe.

Voltou então a se concentrar em sua história, que nada mais era que o relato de sua própria vida, mas, oposto à vida real, o casal que se amava viveria feliz para sempre com o filho que estava por nascer.

Após reler o penúltimo capítulo, Tatiana se levantou e se espreguiçou e um arrepio percorreu seu corpo que se contorceu em um espasmo. Ela procurou ignorar o súbito pressentimento, mas seu coração acelerara. Ela não costumava ouvir seu coração, pois julgava que o coração não fosse capaz de definir alguma coisa, só que ele gritava “perigo!” e ela começou a ficar assustada.

- A maternidade deve estar afetando meus nervos – deduziu ela. – É melhor eu voltar para casa.

Ela fechou seu caderno e abaixou-se para apanhar a caneta que caíra no chão. Assim, sentiu uma trepidação proveniente da estrada e levantou-se para tentar ver o veículo em meio à vegetação. O som aproximou-se e ela fixou o olhar em uma clareira que dava para a estrada. Quando o veículo passou, imediatamente ela desejou gritar, mas sufocara. Ela largou o caderno na relva e saiu correndo pelo mato, desesperada por chegar em casa e avisar sua família.

Enquanto isso, a brisa brincava com as páginas do caderno, que ficou caído sobre o tapete de folhas secas, à espera da conclusão da narrativa...


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