Cláudia e Fernanda seguiram o sentinela através de um corredor escuro e úmido. Todas as celas estavam lotadas e os detentos lançavam olhares especulativos sobre as duas garotas, além de desrespeitarem-nas com insinuações maldosas. Fernanda enrugou a testa e cochichou algo com Cláudia, mas a amiga pouco se importava com as frases mal feitas ditas pelos homens. Mesmo assim, Fernanda reclamou:
- Cláudia, que furada que você meteu a gente! Eles pensam que nós duas somos da vida, e com razão, porque o que mais haveriam de pensar sobre duas garotas aqui nesse lugar...
- Eles podem pensar o que quiserem sobre a gente – falou Cláudia, sem se alterar. – Somente nós sabemos o que somos de verdade.
Elas aproximaram-se cautelosamente de uma cela menor, onde Antônio estava isolado. “Ele não merece isso”, pensou Cláudia. “Está sofrendo por Patrícia, sendo corroído pela culpa de não a ter protegido e ainda para completar a catástrofe de desentendimentos, fica aí, separado dos outros, como se fosse um criminoso de verdade.”
- Tem certeza de que desejam entrar? – perguntou o carcerário, interrompendo Cláudia em sua reflexão. – Ele é culpado por um crime hediondo – declarou o homem, orgulhoso de seus conhecimentos. Cláudia reafirmou sua decisão e após o homem ter destrancado a porta enferrujada, ela e Fernanda tomaram lugar no cômodo minúsculo.
- Oi – cumprimentou Cláudia. – Viemos visitar você.
- Como está? – Fernanda indagou, assustada com o aspecto de Antônio.
- Estou curtindo umas férias, não estão vendo? Estou preso nesta masmorra, e apesar disso, ainda posso ter o prazer de receber a visita da família real.
Elas engoliram a ironia e se aproximaram dele.
- Vão embora!
- Não. Queremos conversar com você. Não se lembra de nós? Somos amigas.
Antônio observou Cláudia por trás do olho roxo.
- Puxa, quem te machucou desse jeito? – perguntou Cláudia, tentando quebrar o gelo.
- Mandaram o Mike Taison para um amistoso comigo. Já sabem quem venceu?
“Outro sarcasmo”, pensou ela. Mas havia uma maneira de chegar até ele.
- Viemos trazer notícias da Paty.
- Como ela está? – perguntou Antônio, movendo-se rapidamente na direção de Cláudia. – Por favor, diga como ela está!
- Posso me sentar? – pediu Cláudia. Antônio apontou o catre. – Tentamos falar com ela, mas Paty não responde. Olha assustada pra nós e se não fossem as dores acho que correria de nós. O psicólogo disse que é uma atitude normal para o caso dela. Mas ainda penso que ela está escondendo a verdade por uma razão muito óbvia – afirmou Cláudia, enquanto estudava atentamente a expressão de Antônio, que tentava absorver as palavras.
- Neste lugar nada me parece mais óbvio do que a injustiça – desabafou Antônio, baixando a cabeça.
- Eu posso imaginar como você se sente. Mas não desanime, porque tudo vai ser esclarecido, você vai ver.
- Isso mesmo – continuou Fernanda, procurando o que dizer, embora não estivesse muito convicta de sua atitude. Ainda achava tudo aquilo uma loucura. – Essa história de vocês merece um final muito feliz.
Conversaram ainda durante alguns minutos e Cláudia pôde deduzir que a razão para o silêncio de Patrícia seria uma possível ameaça. Cláudia encerrou a conversa quando se deu conta da presença do carcereiro alertando sobre o término da visita.
- Tchau, Antônio – disse Fernanda.
- Tchau, amigo. Se cuida – disse Cláudia.
Antônio segurou a mão de Cláudia e ela surpreendeu-se com as lágrimas dele.
- Obrigado – murmurou ele, engolindo as lágrimas.
- Eu estava certa – Cláudia sorriu para ele e olhou para Fernanda, que também observava a esperança nos olhos dele se confundindo com a tristeza. – Você não é nenhum psicopata. Agora sei por que a Patrícia te ama tanto. Vamos, Fernanda!
Elas deixaram a cela e Antônio deitou-se no catre, dando vazão a sua tristeza.
.......
Na manhã seguinte, Cláudia e Fernanda resolveram visitar Dona Adelaide para consolá-la. Encontraram-na abatida, cansada e revoltada com a situação da filha.
- D. Adelaide, nós sentimos muito, muito mesmo. Nós sabemos como tudo isso é doloroso.
- Obrigada – respondeu a mãe de Patrícia, com o rosto envelhecido pelo sofrimento. – Preferia que isso tivesse acontecido comigo, mas não posso perdoar aquele maníaco! Eu gostava dele, achei que a Paty estaria bem nas mãos dele. Agora me arrependo amargamente de não ter dado ouvidos ao meu marido.
- Não chore, D. Adelaide – disse Fernanda, correndo para ampará-la. – Nós temos boas notícias para a senhora. O Antônio não é o culpado.
- E como sabem disso? – perguntou ela, desconfiada.
- Intuição – respondeu Cláudia. – Ele ama a Patrícia. Jamais faria nada que a magoasse ou ferisse.
- Mas quem foi então? – perguntou Adelaide, quase desesperada.
- É isso o que pretendemos descobrir. Agora a senhora nos dá licença, temos muito trabalho a fazer.
- Eu também vou tratar de me arrumar um pouco e ir ao hospital para cuidar de minha filha – anunciou ela.
Cláudia e Fernanda despediram-se de Adelaide e deixaram a casa, caminhando com tranquilidade pelas ruas do bairro.
- Espero que não tenha esquecido nosso encontro com a D. Benedita, Cláudia.
Cláudia parou de chofre.
- Ah, meu Deus! Vamos chegar atrasadas de novo! – disse Cláudia, olhando no relógio e correndo para alcançar o ônibus que parara no ponto.
........
Benedita batia o pé nervosamente no chão, à espera das duas estudantes, até que avistou as moças correndo pela portaria. Cláudia e Fernanda chegaram ofegantes e cumprimentaram-na meio sem graça.
- Pensei que teria que cancelar o conto hoje. Danilo tinha outro compromisso no emprego, Ricardo não tem cabeça para nada – nada mais justo, e Vera me telefonou avisando que estava com enxaqueca. E vocês...
- Estávamos na casa da Dona...
- ... Alci – interrompeu Cláudia, piscando para Fernanda. – Tínhamos dúvidas com a dinâmica de História. Acabamos nos atrasando. Desculpe.
- Tudo bem, mas procurem se esforçar para não deixar isso acontecer mais uma vez. Vamos andando.
Logo que chegaram, contaram a história dos Três Porquinhos para as crianças. Felizmente, elas puderam ouvir até o fim. Benedita, Cláudia e Fernanda receberam uma salva de palmas no final.
- Obrigada – agradeceu Benedita. – Na semana que vem tem mais.
Elas caminharam em direção ao quarto em que Patrícia estava de recuperação. Entretanto, um policial não as deixou entrar.
- Mas queremos vê-la. Somos amigas...
- Infelizmente não podem entrar. Ordens do delegado.
- Mas por quê? – perguntou Cláudia, indignada.
- Discutam o caso com o delegado. Eu tenho ordens para cumprir.
Benedita, incrédula, fez sinal para que as moças obedecessem. No pátio, Cláudia não se deu por vencida.
- Tem alguma coisa errada.
- Claro que tem, Cláudia. É a sua paranoia! – resmungou Fernanda, aborrecida. – Pra mim, chega! Eu vou pra casa.
Fernanda atravessou a portaria e se perdeu no tráfego fervilhante. Benedita ofereceu carona para Cláudia, mas esta recusou.
- É que... já tenho carona, D. Benedita – desculpou-se a moça.
- Já sei, já sei. Não precisa explicar. Vou embora para não deixá-la constrangida quando seu namorado aparecer.
Cláudia nada respondeu e esperou que Benedita saísse do hospital. Quando a perdeu de vista, começou a caminhar, decidida.
Foi parar na delegacia, procurando pelo delegado Ivan. Com muita insistência, conseguiu vê-lo.
- O que há, mocinha? Tenho muito que fazer – declarou ele, observando entediado a garota.
- Quero saber por que há um de seus homens evitando a entrada das visitas de Patrícia – ousou ela, sem qualquer constrangimento.
- Mas é muita audácia da sua parte querer interferir no trabalho de um delegado de polícia! – ralhou, impaciente. – Mandei e está acabado! E não vou ficar aturando uma adolescente mimada.
Cláudia não se ofendeu com a grosseria de Ivan. Imaginou que Ivan fosse um delegado corrupto que aceitava dinheiro em troca de pequenos favores. Poderia muito bem estar sendo pago por alguém para condenar Antônio. Entretanto, suas suspeitas teriam que ser melhor investigadas e ela preferiu evitar um confronto direto e inútil e apenas declarou:
- Vou convencer o senhor que isso não é o melhor a fazer.
Ivan suspirou, cansado.
- Você é muito petulante, mocinha.
- Meu nome é Cláudia.
- Muito bem, Cláudia. O policial está lá pela seguinte razão: o advogado de Antônio conseguiu um habeas corpus e Antônio foi libertado. Em seguida invadiu o hospital e ameaçou a moça. Para controlá-la, ela foi sedada.
- Mas eu e a minha amiga estivemos com o Antônio ontem, aqui na cela. Como ele podia estar em dois lugares ao mesmo tempo?
- Ele foi liberado às 20 horas, saiu daqui e foi direto para o hospital.
- Mas não pode ser...
- Não se iluda, garota. Ele é um marginal. Agora me dê licença.
Cláudia, tomada de uma incapacidade de reação, caminhou até a porta e parou para atender o chamado de Ivan.
- Eu recomendo que você pare de brincar de detetive. Ou poderá se machucar... como Patrícia.
- Farei isso – respondeu Cláudia, tentando engolir o nó que se formara em sua garganta.
Faltava pouco para o meio-dia quando Cláudia chegou em sua casa e telefonou para Fernanda.
- Ele me enganou, Fernanda. Eu tinha tanta certeza... É, você tinha razão, sim... Vou escutar você nas próximas vezes. Tchau.
Mesmo que as evidências levassem a crer na culpa de Antônio, Cláudia tinha suas dúvidas. Desabafou com a amiga, mas ainda havia algo dentro dela que não a convencia. O impacto com as novas acusações causara-lhe desapontamento, mas depois que Cláudia refletiu, imaginou que o plano para tirar a liberdade de Antônio tinha muito mais armações do que poderia prever. Teria que ser muito mais cautelosa se quisesse realmente ajudar Antônio e Patrícia a enfrentar a crise. Decidiu cuidar de sua simples vida de estudante, enquanto não prosseguisse com a investigação particular.
À tarde, ela encontrou-se com Fernanda na universidade e com a turma. Discutiam sobre um projeto acadêmico. Vera, por sua vez, mal escutava o que diziam.
- Algum problema, Vera? – perguntou Fernanda, quando percebeu que a colega estava com o pensamento distante.
- Ela levou um fora ontem – respondeu Danilo, antes que Vera sequer abrisse a boca para uma desculpa.
- Do Ricardo? – foi a vez de Cláudia.
- Eu tô pouco me importando com o Ricardo! – explodiu Vera. – E querem saber, eu quero que ele morra!
Vera abandonou o grupo, andando com falsa grandeza.
- Ih... foi um fora daqueles – deduziu Cláudia, avaliando a reação de Vera. – Mas o que ela queria? Foi sozinha na festa, ficou com todo mundo, bebeu, aprontou, foi o centro das atenções. É claro que ia cair nos ouvidos do Ricardo.
- A propósito, a irmã dele já melhorou? – perguntou Débora, outra colega. Eu soube o que aconteceu. Meus pais me contaram ontem à noite. Recomendaram umas mil vezes para eu não me aproximar do pessoal da polícia.
Cláudia permaneceu em silêncio. Fernanda tomou a frente.
- A Patrícia está sedada e só pode receber visita dos pais dela e de mais ninguém.
- Coitadinha – disse Débora. – Tchau, gente, tenho que ir. Meu pai já deve estar me esperando. A nova mania agora é me buscar.
Fernanda e Cláudia permaneceram na sala.
- Fernanda, você vai comigo até o hospital? Eu esqueci meu livro de histórias ontem.
- Vamos lá – disse Fernanda, sorrindo.
Quando chegaram ao hospital, elas perguntaram sobre o livro na recepção. A recepcionista permitiu que entrassem para pegá-lo em um balcão de atendimento de outro andar do prédio.
As moças passaram na frente do quarto de Patrícia e Cláudia logo notou a falta do policial.
- Vem, Fernanda.
Entraram no quarto e fecharam a porta. Aproximaram-se de Patrícia, que dormia profundamente. Cláudia tocou carinhosamente na mão de Patrícia.
- Eu estava curiosa para vê-la – disse Cláudia.
- Eu também – respondeu Fernanda, roendo as unhas.
Fernanda afagou os cabelos da moça e esta abriu os olhos, moveu a cabeça lentamente e tentou falar, mas parecia embriagada e as visitantes não a compreendiam.
- Calma, Paty. Você vai melhorar. Não precisa se preocupar com nada – falou Cláudia.
- To... tonhi... Tony...
- Não se preocupe, Paty. Eles vão mandar o Antônio para a cadeia – afirmou Fernanda.
Patrícia tentava lutar contra o efeito dos sedativos e reagiu assim que entendeu o que aconteceria. Ficou agitada e em seus olhos havia medo. Encolheu-se na cabeceira da cama, movimentando a cabeça numa negativa desesperada.
Assustadas, Cláudia e Fernanda procuraram acalmá-la, sem sucesso. De repente, uma enfermeira entrou no quarto e arregalou os olhos.
- O que estão fazendo aqui? Essa moça não deve receber visitas! Vejam só o que fizeram! Fora daqui! Saiam imediatamente ou chamo a polícia!
Cláudia e Fernanda prontamente deixaram o quarto.
- Estamos numa enrascada, Cláudia! – reclamou Fernanda, ainda atordoada com a reação de Patrícia.
- Viu como ela ficou? – Os olhos de Cláudia brilhavam e ela parecia não ter se dado conta da gravidade da situação. – Foi só você falar do Antônio na cadeia e ela reagiu!
- Sabe o que isso significa? Que ela não pode ouvir o nome dele! – Fernanda estava zangada e gesticulava nervosamente, enquanto quase corriam pelos corredores. – E provavelmente o efeito dos sedativos passou. O que acha que ela faria? Queria que nos contasse tudo o que aconteceu? Cai na real, Cláudia!
- Não, Fernanda, me escuta. Isso significa que ela não quer que ele seja preso, porque não foi ele. Ah, eu sabia!
Cláudia podia pular de alegria. Chegaram ao balcão de informações e pegaram o livro esquecido.
- Esperem! – chamou a recepcionista antes que elas pudessem se afastar. – A diretora quer falar com vocês. Venham comigo.
Cláudia e Fernanda olharam uma para a outra e seguiram a recepcionista até uma sala de reuniões.
- Aguardem aqui um minuto que ela já vem.
Não demorou muito para a diretora aparecer.
- Boa tarde – disse ela em tom pouco amistoso. – Ficaria feliz em vê-las caso os motivos fossem outros.
Fernanda e Cláudia não escondiam a ansiedade.
- Dra. Carola, o que houve? – perguntou Cláudia, apreensiva.
Dra. Carola era uma senhora de baixa estatura, magra e de cabelos brancos. Sua presença no hospital era constante, apesar da idade avançada. Normalmente era bondosa e compreensiva, mas a ocasião ameaçara sua paciência e ela fora obrigada a assumir uma postura autoritária e intransigente. Exigiu explicações das garotas que ainda não haviam compreendido o motivo da repreensão. Finalmente, Dra. Carola revelou que a visita proibida havia causado sérios danos à saúde da paciente, que tivera seu sistema nervoso amplamente alterado e recebera doses extras de sedativos.
Após o esclarecimento da diretora, Cláudia sentiu um súbito mal-estar, semelhante a uma agulhada em seu cérebro, porque se sentira terrivelmente culpada pelo agravamento do quadro clínico de Patrícia. Percebera que estava levando sua tarefa muito mais longe do que imaginara, porque ao contrário de ajudar – como era seu desejo –, ela prejudicara a moça. Para terminar o sermão, Dra. Carola disse:
- Se não fosse a grande estima que tenho por sua coordenadora, a Benedita, mandaria vocês agora mesmo para dar satisfações ao delegado Ivan.
Cláudia e Fernanda quase pularam da cadeira.
- Mas, como eu disse, em consideração à Benedita, vou fingir que nada aconteceu e explicarei aos pais dela que Patrícia teve uma reação emocional muito forte. Entenderam? – Elas responderam e quase correram da sala. – Mais uma destas e o delegado vai saber de tudo.
As adolescentes procuraram acalmar os nervos e saíram do hospital. Na rua, Cláudia quase foi atropelada.
- Tá no mundo da lua, garota? – irritou-se o motorista.
Elas chegaram finalmente na casa de Cláudia e refugiaram-se no quarto. Cláudia ainda sentia o dissabor de ter trocado os pés pelas mãos e os “choques” em seu cérebro continuavam, a intervalos regulares.
- Viu? O que vamos fazer agora?
- Calma, amiga. Não precisa me dar essa bronca. Eu vou ligar pra delegacia. Quero ver se informam o endereço do Antônio – explicou Cláudia, tentando esquecer as ondas elétricas que faziam seu corpo tremer. – Eu estraguei tudo, mas quero consertar a situação. Nós não temos tempo a perder.
Antes mesmo que Fernanda contestasse, Cláudia já estava na linha com a delegacia. Anotou o endereço no caderno e desligou o telefone.
- Fernanda, vem comigo.
- O quê? Aonde? Na casa daquele safado? Não vou me arriscar. E nem você.
- Mas, Fê...
- Nada disso. Fim de papo. Tá ok? – afirmou Fernanda, encerrando a conversa.
A campainha tocava seguidamente, espalhando o som irritante pelo apartamento. Antônio reuniu toda sua força de vontade para levantar do leito e abrir a porta e ficou contrariado ao rever Cláudia e Fernanda.
- O que fazem aqui? – perguntou ele, impaciente.
- Queremos visitar você, ora.
- Vocês não desistem, não é? Entrem.
Cláudia e Fernanda entraram no apartamento desleixado. Um tufão parecia ter passado por ali.
- Desculpem a bagunça. Não imaginei que receberia visita – falou ironicamente.
- Por que você foi ao hospital ameaçar Patrícia? – perguntou Cláudia, de supetão, observando a expressão pouco amistosa de Antônio. Ele pareceu aborrecido com o julgamento precipitado e andava de um lado para outro da sala esfregando as mãos no rosto envelhecido pelo sofrimento, talvez pelo remorso, coisa que Cláudia não soubera avaliar.
- Isso parece um pesadelo. E vocês sempre aparecem para tornar tudo mais difícil.
- Não é verdade. Queremos ajudar – falou Cláudia, quase se desculpando.
Finalmente Antônio sentou na poltrona e após alguns esclarecimentos, deduziram que o delegado mentira ao afirmar que Antônio fora liberado às 20 horas. Na versão de Antônio, sua saída da delegacia dera-se às 21 horas.
- Olhem, moças. Não sei o que está havendo aqui, mas há uma conspiração contra mim. Eu acho que vocês devem se afastar desse caso, antes que seja tarde demais.
- Por que está todo mundo nos dizendo isso? Alguém tem medo que a gente descubra alguma coisa – reclamou Cláudia.
Até então calada, Fernanda ouvia o depoimento de Antônio incerta sobre o tipo de pessoa que Cláudia insistia defender. Não achava seguro fazer toda aquela investigação por conta própria, mas diante do sofrimento que testemunhara vendo Antônio tão depressivo e inseguro, o oposto do policial forte e valente que conhecera antes de tudo acontecer, aceitou definitivamente a inocência dele. Lembrou-se da cena que presenciara no quarto do hospital e da dor que saltava aos olhos de Antônio enquanto conversava com Patrícia. “Tudo isso o machucou demais”, pensou Fernanda, subitamente envergonhada pelos seus preconceitos pueris e julgamentos precipitados. Ela não sabia ouvir a voz do coração como a amiga, que desde o primeiro instante se mobilizara para ajudar o casal. Fernanda então resolveu assumir a nova posição para a qual as reflexões a encaminharam e, com doçura no olhar e na voz, falou:
- Escute, Antônio, eu acreditava que você era culpado, mas agora vejo que estava errada. Peço desculpas pela minha atitude.
Cláudia sorriu orgulhosa para Fernanda.
- Isso mesmo, Antônio. Já disse isso uma vez. Pode contar conosco! – anunciou Cláudia, eufórica. – Agora, que tal uma melhorada no aspecto desse lugar?
Antônio observou uma a uma e imaginou se elas poderiam compreender a angústia que o fazia perder a vontade de viver. A ameaça não estava em provar sua inocência, mas no fato de aceitar a situação, recuperando a saúde e o amor de Patrícia. Entretanto, ele se deu ao direito de voltar a sonhar com a solução de todos os problemas. Agradeceu a confiança e, alegremente, começaram a pôr ordem no apartamento.
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