Ainda era muito cedo e a recepção do hospital estava fechada. Mesmo assim, ele entrou sorrateiramente pelo pronto-socorro e subiu as escadas até a UTI. Quando parou diante da porta, seu coração bateu com mais força e ele tocou no trinco.
- Você não pode entrar aí agora, rapaz.
Sobressaltado, virou-se bruscamente e deu de encontro com uma mulher de aparência zangada, vestida com uniforme verde-água.
- Por favor, minha esposa foi internada e eu estava em viagem... – mentiu ele.
- Não sei, pode complicar o meu lado – falou a mulher, aparentemente zangada. – Mas, tudo bem.
Paulo finalmente entrou. A ansiedade apertara sua garganta e sua cabeça latejava com violência, arremessando-o em um mundo de ilusões à medida que observava um a um e preparava-se para o encontro tão aguardado.
Tatiana estava irreconhecível, com tubos de respiração, máscara de oxigênio, fios grampeados em um dos dedos que Paulo acompanhou até vê-los conectados ao monitor sonoramente melancólico, que previa mais a ausência de vida do que a recuperação em si. Lágrimas toldaram-lhe a visão diante da visão funesta. Paulo teve o ímpeto de arrancar Tatiana daquele lugar e tomá-la nos braços, mas controlou-se porque sabia que sua vida dependia dos aparelhos. Ele aproximou-se e beijou sua testa. Passou então a ler as informações que constavam em um formulário sobre uma prancheta, mas os dados técnicos não fizeram qualquer sentido para ele.
Paulo revoltou-se ainda mais quando viu Tatiana naquele estado e dentro dele cresceu a certeza de que Elisabete havia contratado algum capanga para assassinar a moça. Pela mente dele transitavam emoções negativas, onde aumentava o ódio por Elisabete, a revolta consigo mesmo, a sensação de culpa e o medo de perder Tatiana para sempre. Sua mente começou a girar novamente e ele teve vontade de sumir, como se a fuga o libertasse de seus problemas e apascentasse suas aflições. Ele ergueu as mãos e chamou por Deus, pedindo para morrer.
Subitamente, uma onda de calor espalhou-se por seu corpo, envolvendo-o. Um sopro na nuca despertou sensações tão intensas que, por um minuto, Paulo esqueceu suas dores e passou a acreditar que ele próprio possuía potencial para reverter a situação e lutar pelos seus princípios e ideais. Naquele minuto, ele refletiu o quanto havia sido fraco e covarde, por vezes escondido atrás de sua irritação e extremismo, que nunca o levaram a lugar algum. Após a morte de Evelin, Paulo fechara-se em sua concha, evitando olhar para as pessoas ou ajudá-las, porque se julgava o único ser humano digno de comiseração. Tinha pena de si mesmo e esquecera-se de lutar contra suas barreiras emocionais. O mundo tornara-se seu inimigo e tudo o desagradava. E agora lamentava que a pessoa que mais amava precisasse sofrer para que ele finalmente aprendesse a lição. Mas estava disposto a resgatar a vida de Tatiana e punir Elisabete adequadamente por todos os atos desumanos que ela praticara.
Desta forma, ele despediu-se momentaneamente de Tatiana e saiu à procura do médico que a atendera. Depois de alguns minutos de investigações, ele descobriu que o médico trabalhava no plantão noturno. Como não tinha tempo até a noite, Paulo continuou pesquisando, até conseguir o endereço da clínica, para onde se dirigiu imediatamente.
Natália chegou à empresa, mas não pôde trabalhar, porque a sala havia sido isolada em virtude do crime sucedido na noite anterior. Todos os funcionários estavam inquietos, mas ninguém sabia, ao certo, o que havia acontecido. Somente quando Luíza chegou, contou os fatos e todos ficaram revoltados. Natália caiu em prantos.
- Não chora, Natália...
- Ela tava tão feliz ontem – soluçou Natália, enxugando as lágrimas. – Não é justo...
A equipe da perícia trabalhou no departamento durante algumas horas pela manhã e assim que terminou as investigações, liberou o local. Paloma esteve na sala de Valéria e relatou o que sabia, porém, ocultou suas suspeitas e voltou ao setor, aproximando-se da mesa de Tatiana, onde encontrou Luíza.
- Precisamos avisar o corte – disse Luíza. – Você pega uma folha, eu pego o resto.
- Luíza, Natália, eu liguei para o hospital – começou Paloma.
- E então? – Natália estava ansiosa.
- Ela está em coma e não está reagindo à medicação.
- Meu Deus...
Luíza sentiu-se momentaneamente zonza e teve dificuldade para respirar. Imaginando a cena onde Tatiana fora surpreendida pelo ladrão, sentiu calafrios. O ambiente estava pesado, como se ali tivesse acontecido uma batalha sangrenta que deixara morte e destruição. Era como se a alma de Tatiana ainda estivesse por ali, presa no local de tortura, sem definição de vida ou morte...
- Luíza!
Luíza voltou repentinamente ao papel que segurava e uma corrente gelada de ar aguçara sua sensibilidade. Paloma estava rindo dela, perguntando se ela não tinha se perdido na “viagem”.
- Luíza, eu te chamei quatro vezes! Você foi longe...
- Paloma, como você pode rir assim depois de toda essa tragédia? – censurou Luíza, franzindo as sobrancelhas e desaprovando a atitude da amiga.
- A vida continua – respondeu Paloma, ressentida. – Então não podemos mais rir?
- Não nesse momento. O mínimo que podemos fazer é sermos solidárias. Tome, avise o corte enquanto eu vou à sala da Valéria.
Luíza entregou o relatório do corte e saiu em seguida. Natália observou a cena e perguntou:
- O que deu nela, Paloma?
- Sei lá. Acho que toda essa história deixou ela impressionada.
- Todo mundo ficou apreensivo, afinal, ninguém sabe o que aconteceu.
Paloma, que andava desconfiada que Natália pudesse saber de alguma coisa, não perdeu a oportunidade e fez especulações sobre os fatos do dia anterior enquanto Natália digitava. Dotada de uma aguçada sensibilidade e um apurado raciocínio, Paloma lançou hipóteses, esperando que Natália confessasse algo. Entretanto, sentiu que ela suspeitara de suas intenções ao responder cautelosamente suas inquisições. Insatisfeita, Paloma comentou que Paulo pedira o endereço onde Tatiana passava as férias e discretamente ameaçou revelar para a polícia que a última a conversar com a vítima antes do crime fora Natália. Esta compreendeu a indireta e imediatamente parou de digitar.
- Eu não estou entendendo aonde você quer chegar com toda essa conversa, Paloma. Só falta você querer me acusar de ter estrangulado a Tati antes de encontrar vocês duas lá fora.
- Não, claro que não – falou Paloma, entretanto, continuou cismada.
Paulo chegou à clínica neurológica na Rua Orestes Guimarães, mas as atendentes não permitiram que ele fosse atendido por mais que implorasse para falar com o médico. De repente, um casal saiu de dentro de um consultório e estava se despedindo do médico que Paulo procurava.
- Você não pode entrar aí! – bradou a atendente, mas Paulo já se encaminhara para o consultório.
- Por favor, preciso de informações a respeito de Tatiana, que está na UTI do hospital São José.
- Desculpe, amigo, mas não tenho condições de dar informação nenhuma.
- Como não tem? – Paulo agarrou o médico pelo colarinho e encostou-o contra a parede.
Uma das atendentes telefonou para os seguranças do prédio e, enquanto se comunicava com alguém, observou que o médico lhe fazia sinal para ter cautela.
- Solte-me e então poderemos conversar civilizadamente – disse o médico.
Paulo soltou o homem e pediu desculpas. O médico perguntou seu nome.
- Paulo, entre por favor.
- Doutor Roberto, sinto muito ter feito isso. Eu mesmo não gosto de resolver nada na base da violência, mas é que preciso saber como Tatiana está.
- Ela é sua esposa? – perguntou o neurologista, com curiosidade. Diante da negativa, ele continuou: – Então deve ser uma mulher muito especial. Mas, vamos ao que interessa, Paulo. Como eu disse antes, eu não posso afirmar nada quanto ao estado dela, porque não cheguei a ler os exames. Você deve me entender. Vá ao hospital hoje à noite a partir das 22h e me procure. Prometo que vou avaliar primeiramente o caso dela.
- Doutor, ela vai sobreviver?
Roberto olhou para o homem diante dele, tão apreensivo quanto esperançoso e, escolhendo as palavras, respondeu:
- Ela tem chances de sobreviver, mas ainda não sabemos em que condições, entende?
Paulo respirou fundo e saiu do consultório, com lágrimas aflorando em seus olhos. Não era justo. As lembranças novamente o surpreenderam, provocando-lhe ainda maior revolta.
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