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Joinville, Santa Catarina, Brazil

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 6ª PARTE

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS - 6ª PARTE



No outro lado da cidade, Antônio estava diante de um homem de meia-idade, tomando café em um balcão de bar.

- O que quer aqui, rapaz? Não quero você perto das minhas filhas, tá entendendo? – O homem não lia os jornais, não tomara conhecimento do feito de Antônio.

- Eu só quero tomar um café em seu estabelecimento, senhor.

- Tome o seu café e caia fora – falou o proprietário do bar, sem papas na língua. – Não precisa nem pagar. Fica por conta da casa.

Antônio sorveu o café vagarosamente, observando o homem enquanto este esfregava o balcão e atendia outro freguês. De vez em quando, o homem espiava Antônio de rabo de olho como se perguntasse se ele não iria acabar aquele café nunca mais. Nervoso e impaciente, mexia nos óculos o tempo todo.

- Por que tanta raiva de mim, Seu José? – perguntou Antônio, calmamente.

- Quem disse que meu nome é José? – O homem ficou apreensivo. Começou a coçar a cabeça.

- O senhor testemunhou contra mim...

- E o que quer? Vá direto ao assunto. Se veio aqui para me ameaçar, se enganou, porque eu não tenho medo de policial, não! – retrucou José, enxugando as gotas de suor que se formavam em suas têmporas.

- Mas como o senhor pode ter tanta certeza de que era eu? – insistiu Antônio, levantando-se da banqueta e ficando cara a cara com o dono do bar.

- Eu, eu... vi o que você fez – gaguejou José, ajeitando novamente os óculos.

- Só uma pergunta: de quantos graus são suas lentes?

José não respondeu imediatamente. Ajeitou os óculos, tirou-os do rosto, olhou para Antônio, espremendo os olhos. Esfregou as lentes no jaleco engordurado e tornou a encaixá-los no rosto.

- Então? – Antônio colocou-o contra a parede.

José parou e suspirou, vencido.

- 2,5 na vista esquerda e 4,0 na direita.

- O senhor não usa esses óculos há muito tempo, não é?

- Eu, eu... comprei faz duas semanas.

- Então quer dizer que no dia em que aquela moça estava sendo agredida, o senhor ainda não usava os óculos?

- Não... – A voz de José foi sumindo.

- Ainda garante que me viu, Seu José? – Antônio sorveu o último gole de café, enquanto José mordia os lábios nervosamente.

- Pode ser que eu tenha me enganado... – confessou José, pigarreando.

- O senhor sabia que falso testemunho é crime, Seu José?

- Mas eu não, não queria... – gaguejou o homem.

- Ainda dá pra consertar.

- Como? – José engoliu em seco e quase saltou por cima do balcão quando Antônio lhe fez a proposta. Estava ansioso por se livrar da polícia. Não gostava de tais complicações com a justiça.

Antônio sorriu vitorioso e deu as instruções a José.

- Quanto custa o café? – perguntou Antônio, abrindo a carteira.

- Cortesia da casa, meu rapaz. Sabe, pelo meu engano.

José piscou para Antônio, que agradeceu e deixou o estabelecimento.


.......


Enquanto dirigia, Antônio refletia sobre a atitude das pessoas que testemunharam contra ele sem ao menos terem certeza de que acusavam a pessoa certa. “Achar que viu é muito fácil”, pensou ele. “Falso testemunho também é crime e criminoso é o indivíduo que desrespeita a lei, seja cometendo pequenos delitos, seja maltratando a vítima...”

Subitamente a angústia apertou seu peito e um nó se formou em sua garanta ao imaginar novamente a cena em que a mulher que amava era covardemente agredida. Nada do que Antônio pudesse falar ou fazer por Patrícia apagaria o que acontecera e o destino de seu relacionamento parecia incerto, pois a situação os afastara drasticamente.

Tanto esforço, de repente, pareceu em vão, porque havia inúmeras dificuldades a superar. Antônio, com seu pensamento lógico a tentar equilibrar o que estava completamente fora do eixo, não era capaz de compreender a dor que as famílias que atendera em toda sua carreira sentiram quando uma situação similar ocorrera. “Nunca fui um bom policial”, culpou-se.  “Treinamento de combate nunca me faltou e sob esse aspecto fui um aluno exemplar, bem como me tornar um investigador criminal. Mas reprovei na disciplina Humanidade, achando que as pessoas eram simplesmente criminosas ou vítimas, e não dei o devido valor ao que sentiam. Foi preciso eu passar à vítima para entender o lado delas”.

Ele suspirou profundamente e, ao se lembrar do ditado “Deus escreve certo por linhas tortas” decidiu tomar uma atitude para mudar, pois a transformação ocorria aos poucos, em seu coração que já batia ansiosamente por colocar em prática tudo o que aprendera. Assim, estacionou em frente da casa de Patrícia e tocou a campainha. Adelaide atendeu-o.

- O que faz aqui, Antônio? É muita audácia da sua parte... – falou Adelaide, enfrentando o próprio medo em defesa da filha.

- Não estou querendo enfrentar ninguém, Dona Adelaide...

- Jamais imaginei que faria minha filha sofrer tanto.

- Eu estou sofrendo tanto quanto todos vocês – respondeu Antônio, com a voz fraca.

- Não venha me falar de sofrimento, seu... seu...

- Dona Adelaide, por favor, me dê apenas alguns minutos para ouvir o que tenho a dizer.

Adelaide não permitiu que ele entrasse, porque o marido não a perdoaria, mas o deixou falar.
Enquanto Antônio tentava convencê-la, contando sobre os novos depoimentos que diminuíam as chances de ele ser culpado, Patrícia apareceu na janela e sorriu para ele.

- Paty! – exclamou, enquanto os olhos brilhavam de satisfação.

Antônio aproveitou para entrar na casa, apesar dos protestos de Adelaide, e Patrícia correu para os seus braços, chorando de felicidade. A mãe presenciou a cena e se calou, comovida com a emoção da filha. Naquele momento percebera que Antônio era mesmo inocente.

- Você não deve ficar aqui, Antônio. O Ronaldo está para chegar e... Por favor, me perdoe.

- Tudo bem. Já vou – disse ele, apertando a mão de Adelaide e beijando Patrícia no rosto.

Antônio saiu da casa e quando atravessou o portão, se deparou com Ronaldo, que saltara do carro. Enraivecido por sua presença, agarrou Antônio pelo colarinho.

- Quantas vezes vou ter que avisar que não quero você perto da minha filha? Agora mesmo você vai ter uma lição!

Ronaldo agrediu Antônio, que não moveu um músculo para se defender.

- Lute como homem, seu covarde!

Ronaldo apunhalou novamente o rapaz e cortou o supercílio de Antônio. O pai de Patrícia estava insano de raiva e não respondeu ao apelo de Adelaide.

- Pare com isso! Ele é inocente!

- Inocente uma ova! Ele é um delinquente e precisa ter seu castigo!

Ronaldo golpeou o estômago de Antônio, que se curvou e ajoelhou de dor. Levantou a cabeça e viu Ronaldo pronto para uma nova agressão. Poderia se defender, mas não queria.

Finalmente, um grito estridente surpreendeu Ronaldo.

- Pare, Papai! Você vai matar a única pessoa que realmente se importa comigo!

Ronaldo ficou imóvel ao ouvir a voz da filha pela primeira vez desde o acidente. Patrícia correu para Antônio e ajoelhou-se ao lado dele.

- Oh, Tony, meu amor, por que deixou que papai te machucasse desse jeito? Vem...

Adelaide preparava compressas para os ferimentos de Antônio. Todos entraram e enquanto isso, Ronaldo desabou em uma poltrona e chorou aliviado pela filha ter voltado a falar.

- Minha criança, você finalmente...

- Não diga nada, papai! O senhor se comportou muito mal esse tempo todo.

- Eu só estava querendo te proteger, minha filha... – explicou ele.

- Castigando o grande amor da minha vida? Não, papai, o senhor só estava pensando na sua vergonha e não em mim. Quis que o Tony fosse preso para diminuir sua própria revolta...

Naquele momento, Ricardo entrou e admirou-se ao ouvir a irmã. Entretanto, quando percebeu Antônio, tentou expulsá-lo da casa.

- Não faça nada contra ele, filho. Eu estava cego de ódio e não conseguia enxergar a verdade. A Paty confirmou que ele é inocente.

Ricardo ainda não aceitara a inocência de Antônio e desconfiou que havia algum tipo de ameaça por trás daquela rápida mudança no comportamento de seu pai. Depois de uma série de explicações da irmã e da mãe, acabou se convencendo e pediu desculpas a Antônio.

- Vou agora mesmo retirar a queixa contra Antônio. Espero que um dia possa me perdoar por esse lamentável engano, meu rapaz – disse Ronaldo, apertando a mão de Antônio e o puxando para um abraço. – Toda essa humilhação vai acabar – continuou Ronaldo. – Obrigado por se preocupar com minha filha.

Mais tarde, Antônio podia respirar aliviado. Assim que Ronaldo retirou a queixa os dois apareceram juntos diante dos colegas de Antônio.

- Quero que conheçam meu futuro genro – informou Ronaldo, orgulhoso.

Antônio foi aplaudido, porque no fundo todos sabiam que ele era inocente, mas faltara coragem para apoiá-lo. Agora, com a família de Patrícia ao seu lado, Antônio ganhara força para encontrar o estuprador e assim garantir a segurança não somente de Patrícia, mas de toda a comunidade.

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