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Joinville, Santa Catarina, Brazil

CAPÍTULO 5 - PARTE II - BEM VINDO


- Atende, droga!

Paulo caminhava nervoso pela casa, necessitando urgentemente ouvir a voz de Tatiana, como se nela encontrasse refúgio para seu tormento. Na noite anterior chegara perto de cometer suicídio, mas quando pensou em Evelin, uma força indescritível o impedira.

Havia trabalhado durante o sábado para cumprir seu plantão e também para adiar o quanto fosse possível o encontro com Elisabete, e desejava falar com Tatiana para revelar a ela o seu amor. Cada vez mais irritado, ele desistiu de tentar ligação.

Não adiantava mais fugir e ele resolveu enfrentar seu destino com coragem e esperança de que, cedo ou tarde, Elisabete iria cansar-se das investidas frustradas e deixaria que ele fosse embora. Paulo, porém, negava a realidade. Mecanicamente arrumou roupas em uma mala e ignorou o celular, que tocava incessante, mostrando no visor o número de telefone residencial instalado na casa de Elisabete. Ele bufou, cansado de tanto pensar, e seguiu para a casa de itaúba.

Chegando lá, Elisabete já o esperava juntamente com um juiz de paz e o advogado. Ela estava vestida com um sensual vestido cor creme e sua beleza era inegável. Paulo subitamente lembrou-se de Tatiana com o vestido branco, tão formosa quanto Elisabete. Após estacionar o automóvel na garagem, ele se aproximou, carregando a mala. A mulher foi ao seu encontro para beijá-lo, mas parou de imediato, avaliando o uniforme de instalador que ele usava.

- Mas o que é isso? – recriminou. – Esperava você bem vestido para o nosso casamento e não com essas roupas miseráveis.

- Vá se acostumando, pois é assim que você vai me ver todos os dias, Elisabete. – Ele usou um tom provocativo e gostou da repugnância que provocou nela. – Eu sou um trabalhador como outro qualquer, que usa um uniforme miserável e cheira mal.

Ela observou-o com desdém, compreendendo as intenções dele. Mas não se deu por vencida e ordenou que todos entrassem. O juiz de paz começou seu discurso, mas foi bruscamente interrompido por Elisabete.

- Vamos assinar os papéis de uma vez, Sr. Juiz.

Ela assinou e passou a caneta para Paulo, que a rodopiou por um instante entre os dedos, mas assinou, enquanto procurava não demonstrar o desânimo que aquela atitude lhe provocava.

- Pronto, está feito – disse ele. – O que a senhora deseja em primeiro lugar?

Ela sinalizou para que o advogado e o juiz de paz se retirassem e só então começou a andar em torno de Paulo. 

- Venha comigo e traga sua mala.

Sem nada responder, Paulo apanhou a mala e seguiu-a por um corredor que dava para os fundos da casa, atravessando o jardim e dirigindo-se a uma edícula de dois andares, também de itaúba, com uma garagem sem portão e, ao lado, as escadas cobertas de trepadeiras e bougavilles levavam até um quarto, onde havia uma cama de casal, um roupeiro tipo closet, criados-mudos com abajures, TV, vídeo e som. Oculta pelo closet, estava a porta que dava acesso ao banheiro e do outro lado da cama havia uma porta-janela que dava para a sacada. 

- Este é o seu quarto daqui pra frente. Fique à vontade.

Ela saiu e fechou a porta atrás de si, deixando-o sozinho para admirar tanto luxo. Paulo constatou que Elisabete literalmente o havia comprado, pois ele poderia trabalhar a vida inteira para obter os móveis que estavam dentro do quarto. Cansado, ele tirou algumas roupas da mala e resolveu tomar banho. Surpreso com o conforto, Paulo se permitiu apreciar o ambiente e relaxar dentro da banheira de hidromassagem.  

Enquanto ele se detinha para fugir da armadilha preparada por ela, não havia parado para imaginar como seria sua vida. Elisabete surpreendera-o com a atitude de preparar um local reservado para ele. Naquele momento, Paulo percebeu que o contrato de casamento se assemelhava a um contrato de trabalho, em que Elisabete solicitaria seus préstimos quando bem desejasse. Não seriam um casal normal, não dividiriam o mesmo quarto ou a mesma casa, o que causou nele uma indescritível sensação de inferioridade.

Muito tempo se passou até que ele caiu em si. Terminou seu banho, vestiu bermuda jeans e camiseta e se dirigiu para a sacada, onde apreciou o frescor da noite. Podia ver a lua refletindo-se na piscina e as estrelas faiscantes.

- Venha jantar, Paulo.

Elisabete aparecera de repente e ele notou a constante presença daquele tom autoritário. Então, ele a seguiu até a sala de jantar. “Que estranho casamento”, pensou Paulo. “Sou obrigado a seguir a dona como se fosse um cachorrinho em busca de alimento”. Ele estava exausto de brigar por sua liberdade e sentia-se um robô: programado para e executar determinadas funções e nada mais.

- Você cozinha? – perguntou ele, quebrando o silêncio.

- Pago uma governanta, que prepara as minhas refeições e depois vai para casa. Detesto empregados fiscalizando meus passos, principalmente agora que tenho um marido.

Paulo ignorou a indireta e arrependeu-se por ter formulado a pergunta. Era óbvio que Elisabete tinha uma equipe para cozinhar, lavar, passar e arrumar. Ele estranhou que nunca se via ninguém na casa, além do advogado, com o qual Paulo se encontrara algumas vezes.

Eles jantaram em silêncio. Apenas lançavam olhares especulativos um para o outro. Ao final da refeição, Elisabete chamou-o para ir à sala tomar licor. Ele não estava acostumado a esse tipo de hábito e pensou em recusar. Entretanto, seu corpo e sua mente pareciam entorpecidos e ele não se sentia capaz de ter qualquer tipo de reação. Assim, se sentou na poltrona da sala e aceitou o licor que Elisabete tratou de servir.

Ela nada falava, enquanto caminhava de um lado para o outro na sala, com o cálice de licor na mão. Seus movimentos eram seguros e femininos, a respiração regular, o olhar confiante, a beleza envolvente. Sua sensualidade era provocante e Paulo percebeu que ela estava planejando se exibir para fomentar o desejo dele. Ele tentou parecer indiferente aos movimentos dela, o vestido transparente revelando o corpo bem delineado.

Elisabete aproximou-se dele com cautela, e ele ficou tenso enquanto sentia as mãos delicadas tocarem seu pescoço. Calada, ela massageou seus ombros e o contato parecia hipnotizá-lo. Ele precisou de todo seu autocontrole para se levantar da poltrona e se afastar dela. Odiou sua fraqueza e admitiu para si mesmo que Elisabete exercia um poder de sedução muito mais intenso do que ele próprio imaginara.

- Não fuja de mim. Sou sua esposa, esqueceu? – A voz dela era doce, cativante. – Qualquer homem no seu lugar estaria orgulhoso de ter-me como sua mulher.

- Não sou qualquer homem – retrucou Paulo, tentando parecer seguro do que afirmava. 

- Eu sei, e é por isso que te escolhi.

Elisabete chegou bem perto dele, encostando seu corpo no dele, mas sem demonstrar ansiedade. Ela não parecia sentir coisa alguma e era isso o que mais o incomodava. Ela manipulava as pessoas como se todos fossem desprovidos de sentimentos. Insistente, ela conseguiu abraçá-lo e beijá-lo. Os lábios dela eram quentes e macios e o corpo uma promessa. Paulo começou a baixar a resistência.

Subitamente, as lembranças do dia em que a conhecera surpreenderam seus pensamentos. As falsas denúncias, a amarga experiência de ficar detido em uma delegacia, a sensação de que todas as pessoas o acusavam, o desespero frente às propostas de Elisabete, que ameaçava arruinar a sua vida, o aparecimento inesperado no cartório, tudo veio à tona. Ele empurrou-a bruscamente para o lado e, sem nada responder, saiu da sala como um tufão. No pátio da casa, ainda podia ouvir as gargalhadas sarcásticas dela. Procurou se refugiar em seu quarto, onde se trancou.

Ela, por sua vez, continuou rindo da atitude dele, pois sabia que cedo ou tarde iria despertar nele o desejo e a carência. Daria um jeito de trancá-lo, faria de tudo, e não esperava a derrota.

- Ele será o meu troféu. Vou exibi-lo e, como todo troféu, Paulo vai acabar indo parar em uma velha e empoeirada estante. – Ainda rindo, ela se limitou a ir para seu quarto aconchegante, enquanto planejava a próxima investida. – Isto está ficando divertido, muito divertido – declarou ela, enquanto se deitava, satisfeita com a perfeita realização de todos os seus projetos.


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