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Joinville, Santa Catarina, Brazil

OS CONTADORES DE HISTÓRIAS – 11ª PARTE - FINAL


Antônio desligou a sirene quando se aproximou do endereço informado. Cautelosamente guiou a viatura até o telefone público, ao lado do qual estacionou. Manteve os faróis acesos e desembarcou do veículo para procurar pistas em torno do local. A região árida onde se encontrava era precariamente iluminada e tornava a busca ainda mais difícil. Para piorar, havia previsão de chuva forte para aquela noite nebulosa e o tempo já começara a mudar. O vento levantava redemoinhos de poeira e folhas secas e sibilava, como se estivesse prenunciando uma tragédia.


Indiferente à mudança climática, Antônio tentava prestar atenção a qualquer indício. Porém, seu conflito pessoal prejudicava seu trabalho, já que o ódio que sentia pelo criminoso estava sobrepujando seu pensamento racional. Apesar de observar os arredores do cemitério, ele não encontrou nenhuma pista e a ansiedade tomara conta de sua vontade. Cedendo às emoções negativas, acabou perdendo o senso prático de investigador e deixou a raiva ganhar espaço em seu coração. Afinal, a vítima não era simplesmente a refém de um bandido, e sim, a mulher que amava e com quem desejava passar o resto de sua vida.


Encostou-se na viatura, tentando controlar sua revolta. Respirou profundamente procurando equilibrar suas emoções para não perder o foco de sua missão: resgatar a vítima e capturar o sequestrador.


Foi necessário um esforço excepcional para restabelecer seu autocontrole, mas Antônio finalmente recobrou sua razão. Consultou o relógio e verificou que passava da meia-noite. Confiante, apanhou a lanterna, trancou o veículo e caminhou a passos largos por uma estrada secundária.


.......



Maurício observou a mudança repentina do tempo, mas pareceu não dar importância aos fenômenos meteorológicos. Arrastava Patrícia pela rua deserta, determinado a executar seu plano.


Enquanto os raios acendiam o céu, ondas elétricas chocavam-se no cérebro dele, perdendo-se nos labirintos intermináveis de sua memória. O tempo não fora suficiente para apagar as feridas da infância, quando vira a mãe morrer com um tiro a queima-roupa. Lembrara-se do ódio que sentira pelo policial que a atingira e jurou para si mesmo que acabaria com a vida do assassino de sua mãe.


- Me solte, por favor – gemeu Patrícia, exausta. – Não consigo mais ir a lugar algum...


Maurício interrompeu suas lembranças e parou de caminhar. Observou a jovem indefesa e lembrou como a tomara pela primeira vez. Sentira-se um monstro pela forma como a maltratara, mas tinha consciência de seus atos. Usara-a como isca para atrair Antônio e se vingar. Destruíra a vida de ambos e quando imaginara que Antônio seria condenado, as duas garotas apareceram para atrapalhar. Vira-se então obrigado a aumentar o círculo de vítimas, fazendo Cláudia e Fernanda pagarem pela intromissão. Entretanto, elas foram resgatadas e ele cada vez mais exposto, o que provocava ainda mais sua ira.


- Não se preocupe tanto – respondeu ele, acariciando o rosto dela. Patrícia se esquivou, não suportando a ideia de ser tocada outra vez.


- Seu nojento! – exclamou ela, cuspindo no rosto dele.


- Esse seu jeito de fera indomável me excita, você sabe disso... e esses trovões acima de nós completam a atmosfera romântica para nosso reencontro – ironizou.


- Jamais! – esperneou ela. – Prefiro morrer!


Maurício riu alto quando Patrícia encolheu-se com medo dos raios e trovões, revelando que a atitude de mulher corajosa não passava de uma encenação amadora.


Patrícia começou a soluçar. As lágrimas quentes que escorriam por sua face reduziam sua esperança de ser resgatada com vida e aumentavam o pavor que sentia. Seu coração acelerara num ritmo incontrolável e o desespero tomara conta dela. Ameaçou correr, mas foi detida por Maurício, que empunhara novamente o revólver e continuava rindo de sua expressão de terror.


O medo de não ser perdoada por Antônio caso fosse vítima de abuso outra vez lhe intimidava ainda mais. Lembrara-se dos momentos de agonia no hospital, quando desejara morrer a enfrentar sua família. Os hematomas e escoriações foram relativamente fáceis de superar, porém, a culpa era traiçoeira. Ela chegara a desistir de Antônio na época, por julgar que ele também a acusaria. Porém, no momento em que estava se entregando definitivamente à depressão, a visita dele provara que seu amor por ela estava acima de tudo, tudo mesmo. Agradeceu a Deus por poder contar com o amor daquele homem e se fortaleceu. Voltou a ver a vida com alegria, ao lado do homem que amava e pelo qual sempre lutara. Entretanto, a dolorosa experiência estava se repetindo e ela estava certa de que não sobreviveria a uma segunda tragédia.


Maurício parou de rir e empurrou-a. Ela perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Tentou se esgueirar pra longe dele, mas apenas se cansou com a tentativa frustrada. Gritou o nome de Antônio o mais forte que podia, tentando desesperadamente vencer o som da tempestade.


- Pode gritar à vontade, garota idiota. Não há ninguém para te salvar.


Enquanto isso, Antônio ouvira gritos, mas os trovões o confundiram. Começara a chover naquele momento e Antônio não conseguia distinguir de que lado vinha o pedido de socorro. Antônio imaginou que Patrícia estivesse sendo agredida e não se perdoaria jamais em vê-la sofrer novamente. Portanto, ficou imóvel até ter certeza de onde encontrá-la e correu para salvá-la.


- Acabe logo com isso e me mate, seu desgraçado! – vociferou Patrícia, enquanto chorava aguardando o momento da dor lancinante.


- Eu não vou fazer nada antes de seu namoradinho chegar, princesa... quero que ele assista o que vou fazer com você...


- Por quê? – a voz dela não passava de um gemido. – Por quê?


- Ele vai ter que pagar por todo o mal que me fez, bonequinha, porque ele é um assassino!


- Pare, seu desgraçado! – interrompeu Antônio, chegando naquele momento.


- Tony! Me ajuda!


Maurício calmamente levantou, arrastando Patrícia e usando-a como escudo. Engatilhou a arma e pressionou-a na cabeça da moça.


- Que bom que chegou, policial – falou Maurício, sarcasticamente. – Chegou bem na hora de ver a sua noivinha querida em meus braços...


- Larga ela, estou avisando... – disse Antônio, com prudência.


- Muito cuidado com sua ferramenta de trabalho, Antônio. Qualquer movimento seu, ela morre aqui, já.


- Calma... – Antônio baixou a arma.


- Vou ter calma, muita calma – Maurício tocou em Patrícia, desfrutando de cada parte de seu corpo, provocando Antônio. – Quero que você veja tudo e sinta na pele a dor de uma perda...


- Perda? Do que está falando? – perguntou Antônio, sem se alterar.


- Por acaso já contou que você não passa de um assassino?


Patrícia e Antônio engoliram em seco. Ambos sabiam que Antônio provocara a morte de uma pessoa inocente no início da carreira.


- Foi um... acidente – explicou Antônio, com a garganta seca, procurando deduzir a relação entre Maurício e um acontecimento tão antigo.


- Ah, claro. Sempre a mesma desculpa...


Maurício torceu o braço de Patrícia e ela gemeu. Antônio fez um movimento brusco, mas ficou imóvel logo em seguida.


- Jogue essa arma pra cá! – Diante da hesitação de Antônio, Maurício se irritou. – Agora!


Antônio jogou o revólver perto dos pés de Maurício, que o ajuntou em seguida.


- Por favor, solte a moça – implorou Antônio. – Ela é inocente e...


- Inocente?! Minha mãe também era inocente...


Antônio recebeu um choque paralisante e sua visão ficou turva. A culpa acompanhava-o durante todos aqueles anos e subitamente ele voltou no tempo. Estava quase conseguindo capturar um assaltante, quando este tomou uma mulher com um garoto como reféns. Antônio ainda podia se lembrar da negociação que fizera o assaltante ficar desarmado e largar a mulher. Quando Antônio estava certo de que o ladrão iria se entregar, este retirou um punhal e avançou para o menino. Sem parar para pensar, Antônio atirou com intenção de deter o ladrão, mas o bandido se defendeu do tiro usando a refém como escudo. “Não!” gritou Antônio quando percebeu o que ocorrera. A mulher fora baleada no peito e morrera instantaneamente. O ladrão, por sua vez, entrou em desespero e correu para uma avenida, onde foi atropelado por um caminhão e também morreu.


Antônio estava tonto. O passado confundia-se naqueles segundos. Aproximou-se da mulher que estava nos braços do filho, que a balançava em silêncio. O menino erguera os olhos molhados para Antônio. “Assassino!” acusou o garoto, expressando ódio com aquele olhar. “Você matou a minha mãe!” Aquelas palavras ecoaram durante anos na mente de Antônio, apesar de ele ter respondido o processo em liberdade e de ter sido inocentado no tribunal.


As palavras então voltaram a puni-lo e naquele instante, diante de Maurício, foi capaz de reconhecer no homem adulto o olhar de sofrimento e ódio de anos atrás. Ainda atordoado, Antônio compreendeu tudo: o sequestro de Patrícia não passava de um plano minuciosamente calculado. Maurício queria ter certeza de ter destruído a vida dele. Entretanto, o plano quase fracassara quando Antônio e Patrícia se reconciliaram e Maurício, que não desistira da vingança, fora obrigado a atacar com nova estratégia.


- Que tipo de homem é você? – Maurício voltou a falar com o mesmo tom zombeteiro aliado a uma dose relevante de indignação. – Estava fora dos meus planos que você continuasse com a mulher que foi tomada por outro. Só um frouxo age assim.


O comentário fez com que Patrícia voltasse a se sentir culpada e ela olhou para Antônio por trás do cabelo empapado pela chuva.


- Você não deveria ter voltado pra mim, Tony... – lamentou ela, sentindo-se moral e irremediavelmente suja.


- Paty, não ouça o que ele diz – falou Antônio, pouco antes de um estrondo estremecer a terra.


- Vai embora e me largue aqui, Tony! – ordenou ela, caindo em um choro convulsivo.


- Isso mesmo, Tony. Uma mulher como ela não merece a sua pena – jogou Maurício, aproveitando-se da fraqueza emocional de Patrícia.


- Escute, Paty, eu te amo e vou levar você pra casa. Vai dar tudo certo...


Algum tempo se passou enquanto Maurício maltratava o casal. Era como se o bandido fosse uma ponte de ligação entre o passado e o presente, lembrando os traumas vividos por todos. O elo de relação entre os três era forte e o que prevalecia era o sofrimento comum.


Maurício dominava a situação como o leme de um navio. A direção da vida de Antônio e Patrícia estava inteiramente em suas mãos criminosas. Movimentava perigosamente o revólver no corpo de Patrícia, fazendo insinuações obscenas, criando intrigas, despertando dúvidas entre eles.


A tempestade estava cessando e as nuvens vagarosamente se dispersavam. Entretanto, ainda chovia no coração de Antônio e Patrícia, já exaustos das ameaças.


- Eu pensei melhor e resolvi que vou largar vocês bem aqui nesse fim de mundo – anunciou Maurício, subitamente. Patrícia sorriu, mas Antônio desconfiou daquela mudança inesperada de planos. Maurício então riu, jogando Patrícia no chão e mirando na direção dela. – Pensaram mesmo que eu ia deixar as coisas desse jeito, assim, tão simples?


- Tenha calma, Maurício, ainda podemos resolver isso, você e eu... – argumentou Antônio, cautelosamente.


- É claro que podemos resolver isso. Vou abandonar vocês aqui, só que mortos! E ela vai ser a primeira para você saber o que foi que eu senti!


Patrícia fechou os olhos e encolheu-se, mas Maurício não atirou imediatamente, porque foi atraído pelo som alto da música em um carro que vinha se aproximando deles. Maurício ordenou que Patrícia se levantasse e ambos ficassem em silêncio até o veículo passar por eles. Escondeu o revólver atrás do corpo de Patrícia, que ficou de pé em sua frente.


O som no carro estava no volume máximo. O carro aproximou-se devagar e então os faróis foram acesos no ponto mais forte, cegando Maurício.


- Quem está aí? – perguntou Maurício quando o carro estacionou bem na frente deles.


Maurício ficou furioso e empurrou Patrícia para o lado. Caminhou na direção do veículo, parando a cinco centímetros do capô dianteiro. Então apontou o revólver e ameaçou atirar caso ninguém aparecesse.


De repente, o veículo acelerou e atropelou Maurício que ainda atirou no pára-brisa. Antônio correu para tirar Patrícia da direção do carro desgovernado e rolou com ela em um matagal. O carro fazia ziguezague em alta velocidade, mas Maurício ainda se segurava no vidro estilhaçado. Outro tiro foi ouvido e então o carro parou, fazendo Maurício voar contra uma árvore.


- Desgraçados!


Enquanto isso, Antônio abraçou Patrícia e perguntou se ela estava bem. Pediu para ela ficar escondida, porque precisava acertar contas com Maurício.


Antônio correu na direção do carro que parara com os faróis ligados e alarme disparado, com a lataria danificada devido ao atropelamento. Venceu a curiosidade de ver o condutor do veículo e encontrou Maurício estatelado no chão, consciente, apenas atordoado com o impacto.


- Agora é entre nós dois.


Antônio atirou seu distintivo no chão e levantou Maurício pelo colarinho, acertando golpes no rosto e no estômago.


- Calma aí, cara – implorou Maurício, enquanto arcava o corpo para defender-se do novo golpe. – Tenho certeza de que poderemos resolver isso numa boa...


- Pode apostar! – riu Antônio, atingindo Maurício em uma sequência ininterrupta de socos e pontapés.


- Tony, pare!


Antônio virou-se bruscamente quando ouviu Patrícia.


- Paty, eu mandei você ficar onde estava – disse Antônio, irritado e disposto a acabar de vez com o criminoso, que àquela altura já havia caído ao chão, praticamente desacordado.


- Acabou, meu amor – disse ela, correndo para os braços de Antônio. – Você não precisa provar mais nada. O Maurício já recebeu a punição que merecia.


- Tem razão, querida. Eu estava cego de ódio e quis fazer justiça a meu modo.


- Não é preciso. Somente Deus poderá julgar – afirmou Patrícia, docemente como sempre. – Eu te amo e mesmo que tudo isso tenha acontecido, eu nunca deixei de ser sua.


- Paty... – Antônio abraçou-a com ternura. – Eu nunca pensei o contrário.


- Obrigada por me salvar, Tony. Você é a minha segunda asa.


Eles beijaram-se e choraram nos braços um do outro. O pesadelo terminara finalmente e eles tiveram certeza do amor que sentiam um pelo outro.


- A propósito, quem está neste carro? – perguntou ele, lembrando que tinha uma dívida de gratidão com o motorista que os salvara da morte. Assim, continuaram abraçados e se aproximaram do veículo.


Antônio abriu a porta amassada no lado do condutor e olhou surpreso para Patrícia após identificar o motorista e o passageiro. Ambos estavam desacordados e dependurados contra o painel.


- Meu Deus! Tony, estão... mortos? – Patrícia teve o ímpeto de chorar novamente.


Antônio desligou o som e o alarme e naquele momento ouviu as viaturas aproximando-se do local. No minuto seguinte, desembarcava uma equipe policial, Ronaldo e Ivan.


- Tudo bem com vocês? – perguntou Ivan. – Onde está o criminoso?


Antônio apontou para a direção onde deixara o sujeito e os policiais foram algemá-lo. Patrícia correu para os braços do pai, que chorava comovido por ela estar sã e salva.


- Eu e sua mãe tivemos tanto medo, minha filha... – declarou ele, enquanto soluçava.


- Mas eu estou bem, pai. Graças ao Tony e às meninas.


- Meninas? Que meninas? – estranhou Ronaldo.


Então todos se aproximaram do carro para prestar os primeiros socorros para Cláudia e Fernanda, que ainda estavam inconscientes.


- Chamem uma ambulância – pediu Antônio, verificando seus sinais vitais.


Todos permaneceram em silêncio, aguardando a notícia. De repente, Cláudia se espreguiçou, esfregou os olhos, bocejou e falou:


- Anda, Fê! Nós temos nossa história pra contar...


Fernanda também se espreguiçou, escutou os aplausos e vivas e, confusa, declarou:


- Ué, Cláudia! Ainda nem começamos nossa história e já estão nos aplaudindo...


Desta feita, todos riram e o clima festivo tomou conta do grupo. Elas então desceram do carro e só então perceberam o que estava acontecendo. Presenciaram Maurício ser colocado no camburão e Antônio e Patrícia juntos novamente em segurança.


- Isso não vale, Fê! – exclamou Cláudia. – Nós dormimos bem no final da história...


- Falando em final da história – começou Antônio, em tom repreensivo –, eu não disse para vocês ficarem em casa?


- Disse, mas... – falaram as duas ao mesmo tempo em que a preocupação lhes ocorreu.


- Obrigado por não me obedecerem. Graças a vocês, eu e a Paty podemos ser felizes.


- Ah, não foi nada... – disse Cláudia, suspirando de alívio.


- É, nós não fizemos mais do que a nossa obrigação – confirmou Fernanda, modestamente.


Ivan ajuntou do chão o distintivo de Antônio e o devolveu.


- Tenho orgulho de você, meu amigo. – Moveu-se para um policial e ordenou: – Leve-os para casa.


- Obrigado... amigo.


- Não me agradeça. Ainda tenho uma dívida com você. Vá para casa e se cuide, que do resto cuido eu.


Antônio e Patrícia, Ronaldo, Cláudia e Fernanda embarcaram em um veículo e seguiram para casa. Enquanto isso, Ivan voltou-se para a equipe da perícia e procurou um companheiro seu de muitos anos. Ivan acendeu um cigarro, apesar de se recriminar por causa do vício.


- Zé, tenho uma missão pra você.


- Topo qualquer parada, companheiro.

– O pessoal do departamento de direitos humanos vai cair de pau em cima desse caso... sabe como é - falou Ivan, devagar, enquanto tragava a fumaça. - Quero você o tempo inteiro de olho no marginal  até o julgamento.


- Entendo... - balbuciou o colega, com ar de conspiração. - Conte comigo. Afinal, o cara pode ser pego desprevenido, não é verdade?


- Estou devendo isso para um grande amigo meu – declarou Ivan, satisfeito.


Após confirmar a prontidão no atendimento da ordem, embarcou em sua viatura e seguiu na frente da equipe.



........



“... E então, Antônio salvou Patrícia do homem mau e eles viveram felizes para sempre”.


Os contadores de histórias fizeram uma mesura combinada para agradecer os aplausos. Patrícia foi cercada pelas crianças, que queriam beijos e abraços.


- Você foi muito corajosa! – disse uma criança.


- E o seu noivo também! – acrescentou outra.


Benedita não cabia em si de contentamento. Tratava-se da história mais linda e mais importante de toda sua carreira, logicamente adaptada ao universo infantil. Ela contaria a história ainda muitas vezes, como forma de mostrar às crianças do que o verdadeiro amor é capaz.


Ricardo e Vera haviam começado um namoro sério, e olhavam um para o outro com cara de apaixonados.


Danilo colecionava histórias, porque queria estender o grupo a outras instituições. Já tinha adeptos.


Cláudia e Fernanda, felizes como sempre, observavam com encantamento tudo o que acontecia à volta delas.


Antônio fora promovido e usava um traje social. Apareceu no saguão do hospital com flores para Patrícia. Esta se atirou nele para agradecer as flores e ele retribuiu o beijo apaixonado de sua noiva.


- Nós temos uma surpresa para vocês! – começou Patrícia, eufórica.


Benedita, Danilo, Ricardo, Vera, Cláudia e Fernanda entreolharam-se, curiosos.


- Nós queremos dizer que vocês estão todos convidados para nosso casamento! – anunciaram Antônio e Patrícia.


O grupo todo bateu palmas e ovacionou.


- Cláudia, Fernanda... – chamou Patrícia. – Queremos que sejam nossas madrinhas.


- Nós? – perguntaram as duas, ao mesmo tempo.


- Por favor, aceitem – pediu Antônio.


Cláudia e Fernanda entreolharam-se e sorriram.


- Será uma honra para nós – disse Fernanda.


- Nem que eu fosse penetra, mas não perdia esse casamento por nada deste mundo! – exclamou Cláudia.


Todos riram muito e se despediram.


Cláudia e Fernanda caminhavam vagarosamente pela rua.


- Pois é, Fê. Agora nós precisamos arranjar uns padrinhos.


- Nem vem, Cláudia. Você com essas ideias malucas.


- Por que, Fê? Você não quer ir sozinha, quer?


- Ah, sei lá. Em quem você está pensando?


- No meu pai e no seu!


Elas caíram na gargalhada e acabaram esbarrando com dois garotos.


- Ei, eu conheço vocês – disse um dos rapazes.


- E nós também – responderam elas. – Vocês são...


- ... lá da universidade! – disseram todos ao mesmo tempo.


- Eu sou o David, ele é o Rafael.


- Eu sou a Cláudia, ela é a Fernanda. Prazer. – Cláudia piscou para Fernanda. – Acho que já encontramos nossos padrinhos, Fê.


- Padrinhos? – perguntaram os garotos.


Cláudia pegou no braço de David e Fernanda deu a mão para Rafael.


- Ah, é uma história comprida – disse Cláudia.


- Ah, é? Pois me deixou curioso – admitiu David.


- Eu também fiquei curioso – ajudou Rafael.


- E nós vamos ter o maior prazer em contar, não é mesmo, Fê?


- É sim.


- Tudo começou quando nós participávamos do grupo de contadores de histórias. Um dia, quando chegamos ao hospital...


Elas seguiram pela rua, cada uma contando uma parte da aventura, de braços dados com os dois garotos. Cláudia sinalizava para Fernanda e esta ria, divertida.


David e Rafael ouviam a história com atenção e interesse. De vez em quando arriscavam beijos nas mãos e no rosto, ao que as garotas correspondiam, sorridentes.


Subitamente, um carro estacionou na frente deles, praticamente sobre a calçada.


- Cláudia! Fernanda! – bradou Antônio. – Tenho um caso urgente para resolver e preciso da colaboração de vocês.


Imediatamente, David e Rafael se posicionaram na frente das moças.


- Que história é essa? Elas não vão a lugar algum com você! – atalhou David.


- É, isso aí! – enfrentou Rafael, com o dedo em riste.


Antônio apresentou o distintivo. Cláudia e Fernanda, até então protegidas pelos garotos, tomaram a frente deles.


- O dever nos chama... – respondeu Cláudia, com um ar maroto dançando no rosto.


- Até a próxima! – despediu-se Fernanda.


Elas embarcaram na viatura sob os olhares confusos dos dois garotos.


- Você entendeu essa, Rafa?


- Não. E eu que pensei que elas só estavam fazendo média.


Cláudia olhou pelo retrovisor, observando a expressão de incredulidade dos garotos e sorriu para Fernanda. Enquanto isso, Antônio ligou a sirene e eles sumiram no tráfego fervilhante.



FIM. 

ENGRENAGEM DO CRIME - SINOPSE


A sua cidade está segura? Você tem certeza de que na­ sua vizinhança há pessoas idôneas? E quando você tem um grande sonho e sua família não apoia? E se um filho seu se envolve com drogas? Ou você ama uma pessoa que age com violência contra você? Quando menos você esperar, alguém poderá destruir a sua tranquilidade, armando uma verdadeira, completa e destrutiva engrenagem do crime.

Estéfanie é vocalista de uma banda que almeja cantar profissionalmente, e divide seu sonho com os companheiros Vinícius, Peter e Eduardo.

Peter é um adolescente presunçoso, que continua na banda devido a sua paixão pela cantora; e Eduardo possui um talento nato para a música. Já Vinícius é um garoto rebelde, com inclinação para meter-se em confusão.

Ivo é um homem misterioso, que projeta um cruel plano com Vera¸ contra os habitantes da cidade de Joinville. Ambos mantém parceria com Afonso, um funcionário público que lhes garante informações confidenciais sobre a prefeitura.

Ricardo é o fundador e mantenedor de uma clínica para tratamento de dependentes químicos. Conhece Ângela, que por sua vez, é casada com Alberto, que se revolta com acusações injustas e, consequente, abala o próprio casamento.

Castro é capitão da polícia militar responsável pelo departamento de investigação criminal em Joinville e sua equipe formada por César e, nada mais nada menos que Vera (!), investiga três casos: o roubo de uma planta – o mapeamento da tubulação de gás natural na cidade; a ameaça à clínica de recuperação de dependentes químicos de Ricardo, e um caso que envolve um assalto à indústria de explosivos, onde Alberto exerce a função de vendedor. 

E ainda há Vanessa, uma jovem que vem sendo agredida fisicamente pelo marido Pedro, e a quem ama, apesar de tudo, e que também tem sua vida enredada pela criminalidade.




OS CONTADORES DE HISTÓRIAS – 10ª PARTE


Antônio pegou Cláudia em casa e retornaram ao hospital para buscar Fernanda, que já recebera alta. Deixou as garotas na casa de Fernanda e seguiu para o trabalho. Cláudia teve o bom senso de telefonar para os pais, avisando que passaria a noite na casa da amiga.

- Cuide-se bem, filha – recomendou sua mãe.

- Eu vou estar bem, mãe – respondeu Cláudia, desligando o telefone. E virou-se para a amiga, que se ajeitava na poltrona. – Ô, Fê? Eu posso ligar pra Patrícia? Eu quero ver se o Antônio foi para lá.

- Não precisa nem perguntar, sua boba. Mas o que quer falar com o Antônio que não pode esperar?

- É que ele anda meio esquisito e eu quero ver se ele tá melhor.

- Por quê? Ele tá doente? – perguntou Fernanda, arrumando as almofadas para se acomodar melhor.

- É por causa dessa obsessão... Opa! Tá chamando – interrompeu Cláudia.

Patrícia atendeu a ligação no telefone sem fio, que estava sobre os livros que ela estudava.

- Alô.

- Oi, Patrícia! Aqui é a Cláudia. Tudo bem com você?

- Tudo. Fico feliz por você ter ligado. Estava me sentindo tão sozinha.

- Ah, o Antônio não está com você?

- Ele esteve aqui, mas já foi embora. Ele ainda não levou você ao hospital, Cláudia?

- Sim, eu tô com a Fernanda na casa dela. Talvez até você possa me dizer como ele está. Eu achei o Antônio meio esquisito hoje.

- Quando ele chegou aqui, ele estava mesmo diferente. Mas... Cláudia, eu vou te dar o número do celular dele. Ele tem plantão hoje à noite.

Cláudia fez sinal para Fernanda arranjar papel e caneta. Fernanda esticou-se para apanhar os objetos na mesa de centro e entregou para Cláudia.

- Pode falar, Patrícia. Nove, nove... tá... tá... Obrigada, Patrícia.

- De nada, Cláudia. E a propósito, você está melhor?

- Eu?

- Só um minuto, Cláudia. Acho que os meus pais esqueceram a chave e estão tocando a campainha. Está mesmo na hora de eles chegarem. Vou lá ver...

Cláudia estranhou que os pais dela tocassem a campainha em vez de chamar, mas ficou na linha. Enquanto isso, Patrícia levava o telefone sem fio e despreocupadamente abriu a porta. De repente, gritou, e o aparelho foi atirado para longe.

- Patrícia! Patrícia! Responde! – berrou Cláudia, pelo telefone. Ela sentiu a respiração ofegante de Patrícia, ouviu o barulho da porta e escutou o grito. E no instante seguinte, a ligação caíra.

Cláudia desligou o telefone e procurou se acalmar. O grito de horror de Patrícia ecoava em sua mente.

- É ele, Fê! Pelo amor de Deus, Fê! O Maurício tá com a Patrícia!

- Mas do que você tá falando, Cláudia? Calma!

- Eu tô calma! Eu tô calma! – dizia ela, apesar de o corpo todo tremer. – Meu Deus, Fê! Precisamos salvar a Patrícia!

- Mas como? – perguntou Fernanda, tão apavorada quanto Cláudia.

- Pensa, Cláudia, pensa! – gritava Cláudia, para si mesma. – O celular! O celular do Antônio!

Cláudia imediatamente ligou, tentando controlar seus nervos.

- Fora de área! Que merda!

- Tenta de novo, Cláudia!

- Tenta você, Fê! Eu não consigo ver nada na minha frente.

Fernanda digitou os números devagar e na primeira chamada, Antônio atendeu. Cláudia arrancou o fone da mão de Fernanda e contou tudo para Antônio.

- O Antônio já vai pra lá – anunciou Cláudia, ofegante. – Fê, nós temos que ir até lá!

- Mas de quê? Bicicleta, por acaso? Você tá vendo meu pai por aqui? – gaguejou ela, tão nervosa quanto Cláudia.

- Mas o carro dele tá aí, não tá?

- Sim, mas...

- Vamos!

- Mas você não tem habilitação, Cláudia! – protestou.

- Que se dane a habilitação! Precisamos salvar nossa amiga!

Fernanda viu o brilho dos olhos de Cláudia. Aquele brilho de decisão voltara a aparecer. Então pegou a chave do automóvel no quarto dos pais e entregou-a para Cláudia. Escreveu um bilhete para os pais e seguiu a amiga.

Antônio chegou na casa de Patrícia e desesperado encontrou os pais dela.

- Meu filho... – disse Ronaldo. – Onde está minha filha? Quando chegamos, encontramos a porta escancarada.

Antes que Antônio pudesse responder, ouviu um barulho na calçada. Imediatamente sacou o revólver e correu na direção do som. Cláudia e Fernanda gritaram e levantaram os braços.

Antônio não as distinguiu de imediato, porque elas haviam deixado os faróis do carro ligados.

- Somos nós, Antônio.

Ele guardou a arma, desapontado.

- O que fazem aqui? É perigoso.

- Perigo é o que a Patrícia tá correndo. Onde ela tá?

- Não está aqui.

Antônio entrou na casa, observando a existência de sinais de arrombamento ou violência. Não havia nada. Encontrou o telefone sem fio danificado jogado em um canto da sala.

- Ela estava falando com Cláudia quando tudo aconteceu, Seu Ronaldo, e é por isso que sabemos que ela foi sequestrada.

- Meu Deus! De novo, não!

Ronaldo sentou-se no chão e chorou, inconsolável. Antônio bateu no ombro dele.

- Eu vou encontrá-la. Prometo para o senhor e para mim.

Ronaldo levantou a cabeça devagar. Seus olhos demonstravam um sofrimento que o remoía por dentro.

- Encontre a nossa menina, meu filho. E quando encontrar aquele desgraçado, acabe com ele! – falou da boca pra fora, soluçando.

O sofrimento dele atribuiu mais força ao ódio de Antônio. Cláudia e Fernanda acompanharam a troca de palavras e assustadas, reconheceram nelas também um ressentimento perigoso.

Antônio foi até a frente da casa procurar pistas. As moças seguiram-no. No meio da rua, Cláudia encontrou um objeto e mostrou-o a Antônio.

- Era a tiara que ela usava no cabelo hoje quando saí...

E Antônio também chorou. Fernanda, que era muito sensível, chorou com ele. Cláudia aproximou-se dele e quis dizer-lhe algumas palavras de consolo, mas antes que pudesse falar, o celular de Antônio tocou e ele o atendeu prontamente.

- Alô, camarada!

Antônio ficou mudo ao ouvir a voz irônica. De repente, o sangue sumiu de sua face.

- Desgraçado! Onde está a Patrícia? Responda ou eu...

- Você o quê? Vai dar voz de prisão por telefone?

A gargalhada foi ouvida até mesmo por Cláudia e Fernanda, que acompanhavam as reações de Antônio.

- Onde está a Patrícia? O que fez com ela? – berrou Antônio, chamando a atenção de Ronaldo, que veio até a calçada.

- Calma – continuou Maurício. Não precisa se preocupar. Ela está aqui comigo, sã e salva. E quanto a fazer... estou esperando o momento certo, sabe?

- Seu filho da mãe! Quero a Patrícia aqui! Agora!

- Não, ainda não. Fale com ele, gatinha. Diga como está feliz nos meus braços. – Maurício arrancou a fita adesiva da boca de Patrícia e ela gemeu.

- Tony! Cemitério Mã...

Antônio ouviu a voz dela e em seguida o grito de dor.

- O que fez com ela? – Sua voz enfraqueceu. – Por favor, não a machuque.

- Claro que não. Eu vou cuidar muito bem de você, meu amor, igualzinho a primeira vez...

Maurício deixou o telefone público pendurado e arrastou Patrícia pela rua deserta.

- Não! Pare! Me diga o que quer... – Antônio desesperado desligou o aparelho e passou a mão na cabeça.

Ronaldo compreendeu o perigo no gesto de Antônio.

- Onde está minha filha?

Antônio não respondeu. Olhou na direção de Cláudia.

- O que está acontecendo? – perguntou Cláudia, com medo da resposta.

- Ele está com a Paty – disse Antônio, com a voz quase sumida.

- Mas... não disse onde? – perguntou Fernanda.

- Não. Isto é, não exatamente. Ela disse cemitério. Acho que ele vai... matá-la.

- Escute, Antônio – disse Cláudia. – Não creio que ele vá matar a Patrícia. Talvez ela tenha dito a localização deles.

- Não, ela só disse isso... – Fraquejou novamente. – E mais nada. Não ouvi mais a voz dela. Senhor...

- Mas vamos ficar aqui parados enquanto a minha filha corre perigo? – Ronaldo estava revoltado.

- Estou de mãos atadas – falou Antônio. – Se ela morrer, eu vou morrer junto.

À medida que os minutos passavam, a agonia deles aumentava. Cláudia e Fernanda cochichavam e gesticulavam muito. De repente, elas saltaram do meio-fio onde estavam sentadas e aproximaram-se de Antônio e Ronaldo.

- Antônio, a Fernanda teve uma ideia – disse Cláudia, com uma pequena esperança.

- O celular – começou Fernanda, – ele não memoriza as chamadas recebidas?

Antônio imediatamente pegou o celular e pressionou algumas teclas.

- Claro! – sorriu ele. – Como é que eu não me lembrei disso antes?

Ele ligou para a delegacia. O policial de plantão se prontificou a verificar a informação.

- Vai logo, companheiro! – implorou Antônio, ansioso. – Endereço? Ahã, tá. Valeu, cara! – Antônio virou-se para Cláudia, Fernanda e Ronaldo. – Era telefone público, próximo ao cemitério municipal. Preciso ir.

Antônio correu para a viatura.

- Vou com você! – exclamou Ronaldo.

- É melhor o senhor ficar. Posso precisar de sua ajuda.

- Tudo bem.

Cláudia e Fernanda embarcaram sem perguntar nada.

- O que querem aqui? – indagou, com olhar severo para as duas.

- Vamos com você...

- Nada disso! Desçam!

- Mas, Antônio...

- Desçam! Isso é trabalho pra polícia. Vamos, estou perdendo tempo com vocês. É uma ordem!

Cláudia e Fernanda desembarcaram contra a vontade. Elas viram Antônio desaparecer na esquina.

- E agora, Cláudia?

Cláudia puxou fôlego.

- Temos uma solução melhor.

Fernanda engoliu em seco, tentando imaginar o que a amiga tinha em mente. Pela primeira vez, duvidou das boas ideias de Cláudia, mas resolveu segui-la, pelo menos, para tentar evitar que ela se envolvesse em mais confusão.