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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 9º CAPÍTULO - O CHEIRO DE GÁS – 1ª PARTE




Vanessa sai da delegacia. Cabisbaixa, deprime-se cada vez mais com o remorso. Suspira. Para diante da escadaria e olha para a frente e para os lados, contudo, nada enxerga. Os olhos turvos, aguados, doentes, mergulham-se na irrealidade da memória emergente.

O braço na tipoia, a dor generalizada, o peso na consciência reclinam a uma angústia irremediável. O lábio inchado lateja, a costela trincada mortifica os movimentos mais simples, como respirar.

As lágrimas novamente inundam o rosto consternado. Merece tamanho castigo? Sabe, porém, que não se trata de mérito ou gratidão, e sim, de tragédia da qual não se pode escapar ilesa.

Os flashes espocam diante da visão. Novo suspiro evoca a vida real. Recomeçar parece desafiador demais. O que mais a esperaria?

Os pensamentos negativos submergem e dominam, devastadores, até mesmo cruéis. Remói em seu âmago um sentimento incompatível de traição. Denunciar o homem que amava e com o qual convivia constituía a forma mais sofrida de arrependimento.

A assistente social acompanhara o caso e convencera Vanessa a proceder com a denúncia, certa de que a ação era a mais acertada para a vítima jovem. Encaminhou a moça até a delegacia da mulher, contudo, Vanessa ainda confrontava a veracidade do tráfico de drogas e ocultou a informação da polícia. Em sua ingenuidade, acreditava na regeneração do esposo, mesmo após a agressão que quase causou a própria morte.

Fantasiando um romance, um pedido de perdão, uma mudança de atitude, Vanessa segue para casa. Toma o ônibus e meia hora após desembarca em seu bairro. No caminho de casa, um sorriso de esperança se abre em sua face.

“Cadela!”, grita, subitamente, sua memória. Outros vocábulos perpassam na mente e quando Vanessa pensa em abrir o portão, o coração acelera e um temor incontrolável leva-a ao desespero. Quis entrar, mas as pernas derretiam-se. A casa está fechada, escura. Gotas inundam as têmporas, e a garota começa a chorar, indecisa, solitária. Escorrega na calçada, esquecendo tudo o que não correspondia ao seu desespero.

Escurece enquanto ela dá vazão às lagrimas. A única fonte de luz provém das lâmpadas da iluminação pública. A rua está deserta. Os moradores ainda não haviam chegado do trabalho e não se observava um só movimento humano.

Vanessa, exausta, procura arranjar força para erguer o corpo transformado em um farrapo humano. Onde estaria Pedro? Implicaria mais castigos depois que soubesse do rumo que a vida de ambos tomaria?

O que fazer, então? Estava diante de um dilema. Entretanto, não poderia ceder para sempre àquelas frustrações.

Ergue-se, portanto, para tentar retomar sua dignidade. A coragem – não a tem muito, mas é imprescindível enfrentar os conflitos. Afinal, não está totalmente sozinha; revigorada pela fé, abre o portão e entra na casa. Acende a luz.

Ainda está tudo revirado. Pedro parece ter abandonado o local. A comida que cozinhara dois dias atrás está espalhada pelo chão em meio a cacos de louça. A toalha de mesa está puxada e pende na extremidade da mesa. Caminhando com cuidado no meio do caos, Vanessa imagina onde começar a ajeitar a bagunça. Sorri sem graça, pensando que poderia iniciar por ela mesma.

Esbarra em uma cadeira e seu braço dói. Ajeita-o novamente na tipoia e continua, passo a passo, a redescoberta da última cena de que se lembrava. O quarto traz maior aperto, reação involuntária ao trauma vivido. Na cama, respingos de sangue mancham o lençol. Os travesseiros estão no chão. As portas dos armários escancaradas mostram uma confusão de cores em roupas amontoadas.

Vanessa senta na beirada da cama e um desânimo toma conta dela. Ajunta o travesseiro e deita atravessada no leito. Sono, cansaço e efeito de medicamentos se misturam e rapidamente Vanessa adormece.

Não soube por quanto tempo dormiu. É madrugada provavelmente. Vanessa sente frio e se levanta. Esfrega os olhos. De repente, sente como se nada tivesse acontecido, que sua vida está normal, que Pedro entrará a qualquer momento, que se amariam. Ao atravessar o pequeno espaço entre a cama e o roupeiro, tropeça em alguma coisa que rolou para baixo da cama. Abaixa-se lentamente e apanha o objeto. Constata que era o que sobrara do celular, o pivô de toda essa desavença. O chip fora retirado. Leva um choque de realidade ao ver os fragmentos do que limitou sua felicidade. Impossível esquecer, difícil perdoar. Vanessa vasculha no armário um local onde guardava dinheiro e verifica que não havia mais nada. Lembra-se de olhar a sala. O DVD, a TV, o aparelho de som, haviam desaparecido. O rack também está revirado.

“Assalto?”, pensa, contudo, a ausência de toda a roupa de Pedro denuncia o responsável. “Não é possível! Não é possível!”, repete.

A confirmação de que convivera com um criminoso durante tanto tempo enche Vanessa de repugnância e de revolta. Se Pedro fora capaz de agredi-la, roubá-la, persegui-la, de traficar drogas até para menores de idade, o que mais cometeria?

Jamais se sentira tão só e tão desamparada. Chorar não podia mais. Despe-se e vai para o banho tentar expurgar todas as emoções negativas.

*****


Depois que viu Vanessa naquela maca, Renato saiu do hospital cheio de raiva. Seria capaz de dar uma surra no marido de Vanessa. “Valentões como ele não merecem o prato que comem”, reflete.

Nos dois dias seguintes, a única coisa em que pensava era uma vingança cruel contra aquele sujeito. Qualquer pessoa que se aproximasse era destratada, Renato não media palavras. Poderia parecer que ele estava realmente apaixonado por Vanessa dado o nível de preocupação e estresse que vinha se apoderando dele. Contudo, bastou o sorriso despretensioso da primeira mulher bonita que passou por ele para aflorar seus instintos de conquista. Em menos de meia hora, ele já havia esquecido completamente de Vanessa.

Renato não se limitava a regras de comportamento, nem a princípios de dignidade e moral.

Pudera, acostumado a ver o pai constantemente junto a outras mulheres enquanto a mãe ficava em casa tomando conta dos afazeres domésticos e da educação dele e dos irmãos. A mãe nunca se queixava mesmo tendo conhecimento das contínuas traições do marido e assim, Renato cresceu acreditando na normalidade de um relacionamento como aquele.

O pai de Renato, intransigente e dominador, comandava a família. A mãe sofria com a ausência de amor e com o excesso de trabalho. Tudo dentro e fora de casa ficava por conta dela, desde o serviço doméstico, a educação dos filhos a um pequeno reparo. O marido chegava tarde todos os dias e ainda arrumava algum motivo para cobranças abusivas que terminavam em cenas de raiva, porém, nunca de violência. O marido era cruel com as palavras e críticas, mas jamais provara a própria força sobre mulher alguma.

Às vezes, Renato via o pai chegar alegre em casa e achava que aquilo era bom. Mal sabia que o pai havia gasto todo o salário do mês com noitada regada a bebidas e mulheres. A mãe teria que costurar, cozinhar e lavar para fora para manter o mínimo de alimentação aos filhos pequenos. Sem saber desse lado, Renato enxergava no pai um homem forte, digno de ser admirado. Sua mãe nunca mencionava para as crianças qualquer tipo de comportamento do esposo, ainda lhes pedia para obedecerem, e falava que o pai gostava de ver os filhos bem educados.

Renato admirava seu progenitor com idolatria e não media esforços para ver o pai satisfeito e orgulhoso. Com sete anos, o garoto era obrigado a concluir tarefas que exigiam esforço de adulto, experiência de gente grande e se não cumprisse a ordem do pai, passava uma semana no castigo mais penoso e até mesmo bárbaro. Certa vez, precisava derrubar algumas árvores do terreno e rachar em forma de lenha, tudo até de noite e sem a ajuda de ninguém. O garoto mal conseguia erguer o machado, contudo, fora capaz de terminar o serviço dentro do prazo que o pai estipulara, mesmo à custa de muito suor, lágrimas, calos e sangue. Exaurido, nem podia comer e a mãe esforçava um pouco de caldo de feijão e fazia curativos em suas mãos. Entretanto, nunca ouvira do pai o mais simples agradecimento ou elogio a uma tarefa concluída.

Na pré-adolescência, o pai começou a levá-lo aos lugares que frequentava e assim iniciou o garoto, ainda muito jovem, na prática da intimidade sem apego. A presença feminina na vida do garoto, diferente da mãe, conduzira o rapaz a um mundo de obscenidades propostas e aprovadas pelo pai para “dar um jeito” no filho.

Renato, no percurso dos anos seguintes, conheceu uma garota de 16 anos e fez de tudo para conquistá-la. Aos 18 anos, resolveu morar junto com ela. Sempre fora trabalhador e sustentava estudos, aluguel e despesas com o suor de seu rosto. Em contrapartida, não demonstrava amor nem afeição. Respeitava o compromisso de morar junto, mas não valorizava a união de família. Flertava outras mulheres sem pudor ou remorso e esperava que, a exemplo do que presenciara durante a vida com os pais, sua namorada agisse de forma semelhante, senão idêntica.

Enganara-se, pois, que a mulher com quem convivia aceitasse as traições e o mau procedimento em relação ao compromisso de viverem juntos. Menos de três anos após sucessivas rogativas por parte dela para que ele mudasse, Renato fora abandonado. Desavisado, chegou em casa certo dia e restara-lhe três talheres, um prato, uma xícara e a pia. Em vez de se lamentar, Renato riu às gargalhadas, dado seu desapego emocional. Na mesma noite, fora filar uma refeição na casa da mãe e contou sem qualquer cerimônia, a separação e o sumiço da mulher. O pai apoiara-o, ao passo que a mãe, apesar de não concordar, não dissera uma palavra sequer.

É quase meia-noite quando Renato chega em sua casa. Tivera uma conquista fácil, uma mulher habilidosa, bonita, que satisfizera as suas necessidades físicas. Recordava um ou outro gesto e finalmente o intenso prazer. Passageiro, porém, como tudo em sua vida.

Liga a TV, toma um banho demorado e volta para preparar algo para comer. Na pia ainda havia dois pratos com restos de comida, duas facas, dois garfos e dois copos. A cena talvez tivesse passado despercebida se não houvesse no meio da louça suja um papel amarrotado onde se lia, simplesmente, “obrigada”. Subitamente, Renato flagra o pensamento convergir para a moça que trouxera para dentro de sua residência há dois, três dias atrás.

Por pura coincidência, passava de moto pelo local onde a perseguição de uma garota chamava atenção. Algo de grave acontecera ou poderia acontecer e Renato acelerou a moto para tentar ajudar. Não reconhecera a moça de imediato, mas julgava que se dois homens perseguiam uma mulher, boa coisa é que não era. Ao frear e estender o capacete para a garota, encontrara, de relance, um olhar assustado e indeciso que se dissipou tão logo ela embarcou na moto.

Renato lembrou-se da sensação provocada pelo corpo dela em contato com o seu na moto. Associado ao sabor da fuga, havia ali uma atmosfera de expectativa. Assim que pararam e ela desembarcou e retirou o capacete, Renato reconheceu a garota tímida da confecção onde trabalhava.

As lembranças aumentam a sensação de desconforto. Renato não está acostumado com esse tipo de reação. Seu domínio masculino aparentemente ameaçado o perturba.

Ela chorava pedindo desculpas, cena nada atraente para um homem desapegado de sentimentalismo. Oferecera ajuda naturalmente aguardando uma oportunidade para se aproveitar da situação. Em vez disso, percebera-se auxiliando uma mulher despretensiosamente. Será que perdera o foco de sua virilidade? Enfrentar um conflito como aquele, em ter uma mulher dentro de sua casa e não tocá-la parecia desmerecer a razão de dominador.

A fome sumira ao pensar em Vanessa, tão frágil, tão doce, tão linda, desamparada e de fácil sugestão. Debilitada, era alvo fácil, contudo, evitara tomar qualquer iniciativa. Que súbito escrúpulo nascera nele? Renato lembrou-se de ter ido à casa de Vanessa e a vizinha avisar-lhe de que havia sido socorrida pelo SAMU.

“Ãh? SAMU? Como assim?”, lembrou-se de ter pensado no momento da notícia. Seguira para o
hospital e lá encontrara a garota... espancada.

Um calor momentâneo emerge ao seu rosto ante os pensamentos. Esmurra a pia, chuta a cadeira e vai para o quarto, irritado de verdade com o covarde agressor.

*****


Estéfanie carrega a mochila dependura em um dos ombros e três livros nos braços quando volta da escola. Ao se aproximar de casa, sua vizinha, que parece aguardá-la, chama-lhe. Sorridente, a garota vai ao encontro da bondosa senhora, que gentilmente pediu para que entre na casa.

A senhora caminha o mais rápido que os passos de sua idade permitem e em seus olhos há evidente euforia.

- Vem até aqui, menina – pede, com alegria e entusiasmo juvenil.

Curiosa, Estéfanie empurra a porta do quarto que a vizinha apontara e imediatamente é surpreendida por uma alegria pueril. Com cuidado, a garota avança pelo cômodo iluminado pela luz do dia, um ambiente fresco e convidativo, que cheira a limpeza recente com lavanda.

- Eu quase não acredito! – exclama Estéfanie.

- Gostou, filha?

- Se eu gostei? Eu amei! A senhora arrumou tudo!

- Sim, esse quarto pertencia ao meu filho caçula, que se casou no ano passado, e depois que ele foi morar na casa dele, esse lugar vivia entulhado com coisas sem importância. Dei um jeito nelas para que você tivesse um espaço agradável, só para você.

- Como assim?

Estéfanie toca em seus instrumentos com notável incompreensão.

- Você sabe, estou sempre em casa e aprecio uma boa música. Pode vir quando quiser.

- Eu continuo sem acreditar, Dona Zenaide! Me belisca, isso não é de verdade...

Estéfanie abraça a idosa. Emocionada, agradece, beija a face de Zenaide e se despede, envolvida em felicidade.

- Nosso segredo – pisca Zenaide, com peraltice, enquanto a garota acena do portão.

Exuberante e explodindo de alegria, Estéfanie entra em casa, larga a mochila, troca o uniforme do colégio e vai se preparar para o trabalho.

O celular toca e ela vê que é Eduardo. Ele não está mais indo às aulas por conta da surdez parcial e receio de bullying dentro do colégio. Ansiosa, ela atende.

- O que você queria me mostrar aquele dia, Estéfanie? – perguntou diretamente, sem qualquer cumprimento.

A voz dele está estranha, mas é compreensível. Eduardo fala pausadamente, como meio de não errar os fonemas. Porém, Estéfanie percebe uma maior dificuldade de nasalização.

- Criei uma música muito legal.

- Qual é o título?

- Ah, é... quer dizer, eu nem tinha pensado nisso, mas acho que pode ser “Abandona”.

- Legal. Já tá pronta?

- Não, ainda não. Eu esperava que você pudesse me ajudar com os arranjos...

- Claro.

- Mesmo?! – Estéfanie dá um salto, empolgada. – Mas você falou que não queria mais saber da música, o que houve? Quero dizer, você ter pensado melhor é perfeito por causa do seu talento, mas fiquei surpresa com a mudança.

- Fan, você nem imagina o que eu descobri!

Estéfanie sorri, alegre com o súbito e definitivo entusiasmo do amigo. Pergunta, resfolegante, o que ele havia descoberto.

- Que as notas possuem vibrações diferenciadas a gente já sabe...

- E... – incentiva, ansiosa após a pausa dele.

- Agora que eu perdi parte da audição, essas vibrações são muito mais definidas, mais sonoras...

- Como assim?

- Eu consigo senti-las, Fan, literalmente...

- Quer dizer que...

- ... Eu tenho plena condição de continuar a tocar.

Estéfanie vibra. Faz semanas que os problemas se apresentam em turbilhão em sua vida e de repente, dois momentos de euforia restabelecem inclusive sua autoestima.

Se pudesse abraçar Eduardo fortemente naquele momento, certamente ela o faria. Estava feliz pelo amigo que dava a volta por cima daquele trágico golpe. Deseja ardentemente olhar nos olhos dele e dizer como essa decisão a emociona e de como ele faz falta. Em vez disso, conta a ele o que a vizinha fizera, e estimula o amigo a voltar ao colégio.

Desliga, fecha os olhos e suspira. Sem imaginar que do outro lado, Eduardo repete os mesmos movimentos, sorrindo por deixá-la tão contente.


*****

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