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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 11º CAPÍTULO - DOWNLOAD DO TERROR – 1ª PARTE




Afonso dirige vagarosamente na estrada de chão batido, desviando os moradores, que caminham nas margens da estrada e desviam as poças de água provocadas pela chuva torrencial da noite anterior. O sol aparece timidamente entre nuvens espessas e as imediações são ainda mais escuras devido às plantações de palmeira real.

Após quinze minutos que lhe pareceram intermináveis, alcança a clínica Reconstruindo Vidas, estacionando o veículo e atraindo a curiosidade dos moradores. Essa região anda movimentada ultimamente e qualquer veículo que pare fora dos dias reservados para visitas significa motivo de apreensão.

Resolve aguardar um instante no carro enquanto avalia as vias do contrato que redigira para Ricardo assinar. O documento é formado por três páginas que especificam a aceitação do proprietário da clínica para receber recursos do governo estadual, bem como da prefeitura. Entretanto, algumas cláusulas amarram o interessado a aceitar reembolsos em casos de famílias carentes. Os tais reembolsos, na verdade, são bônus para legalizar práticas de comercialização de entorpecentes muito bem mascaradas.

A droga está sendo contrabandeada de uma cidade do interior da Colômbia e migra para o Brasil por meio de “laranjas” muito bem remunerados. A pasta-base de cocaína é entregue em uma indústria alimentícia do oeste do Estado de Santa Catarina, onde é embalada em caixas de bombons e transportada por uma distribuidora de fachada na maior cidade do Estado – Joinville, despistando toda a fiscalização. Em seguida, o lucro é revertido em ajudas de custo para a clínica.

Quando Ricardo finalmente suspeitar da lavagem de dinheiro acontecendo bem debaixo de seus olhos, já estará totalmente envolvido com o esquema da quadrilha e encurralado pelas provas plantadas contra ele. Um pequeno incidente com a mensagem escrita com tinta fosforescente para despistar, e então a explosão que deixara vestígios de cocaína, que não passará despercebida nas análises dos peritos. Emergindo situações para o próprio local do crime, torna-o ideal para que a polícia desvie a atenção do verdadeiro golpe: a rede de gás.

Afonso sorri ao calcular mentalmente as somas que receberá e já planeja a compra de uma mansão em Balneário Camboriú, outra em Angra dos Reis, um automóvel de luxo, o jatinho particular e novos investimentos em toda a região. Apenas uma assinatura o separa de seus ideais.

Desembarca e procura pela vítima, com ótimo humor e informando como fora difícil conseguir a tal autorização no legislativo. Homem de muita habilidade com as palavras, convence Ricardo facilmente e explica passo a passo as supostas reuniões que elevarão a clínica à posição de federalizada. Ricardo toma a caneta e assina o contrato sem pestanejar. Ainda convida o criminoso para a refeição matinal, oferecida com grande entusiasmo.

Depois de se fartar e visitar as dependências da clínica, Afonso se despede efusivamente, sem se dar ao trabalho de fingir, pois a satisfação é, de fato, espontânea.

Volta para o fórum onde lavra o contrato e em seguida vai à prefeitura certificar-se de um negócio que envolve uma licitação que lhe renderá uma comissão vantajosa. Ele é responsável pela formação de um cartel e recebe propina para facilitar a participação de três empresas nas licitações da prefeitura: uma do segmento de móveis para escritório, uma do segmento de equipamento de TI e uma papelaria. Quando a prefeitura publica licitação para compra de material de informática, a empresa de TI prepara toda a documentação necessária, recolhe as assinaturas das outras duas empresas e encaminha os três orçamentos, elevando o orçamento das outras duas empresas “concorrentes”. Igual procedimento é realizado pelas outras empresas quando o segmento solicitado em licitação trata-se de móveis ou papelaria. Além de tais intervenções financeiras, Afonso possui negócios rentáveis no ramo imobiliário, desviando o tributo dos aluguéis de salas comerciais.

Entra na tesouraria, cumprimenta os funcionários, senta-se a uma mesa e acessa um microcomputador. Imprime um relatório e sai para uma nova negociata, desta vez com um ex-funcionário da empresa responsável pela rede de gás natural.

Passos estratégicos garantem o sucesso do esquema. O jovem usado para os golpes, bastante ambicioso, nunca questiona nada, apenas cumpre as ordens. Já Pedro poderá ser apreendido devido ao roubo da planta e da carga de dinamite, mas mesmo que levante qualquer acusação, sua vida ilegal traia qualquer depoimento.

A ambição salta aos olhos de Afonso. Sonha ainda conquistar a poderosa e atraente assessora do chefe. Ao pensar em Vera, logo sente entumecer seu desejo e aproveita o dinheiro extra para um programa íntimo.


*****


César analisa algumas evidências do caso do roubo de dinamite. Acessa os vídeos fornecidos pela empresa, relê os dossiês dos funcionários, inclusive o do principal envolvido, Alberto. Há indícios de que o funcionário teria fornecido informações confidenciais e facilitado o roubo. Quando acuado, o homem até enfartara, denunciando culpa, talvez.

No vídeo, um caminhão recebe autorização e entra na empresa. O rosto do motorista não aparece. O caminhão é abastecido por um funcionário que manobra uma empilhadeira de alta capacidade. Após finalizar o carregamento, o condutor da empilhadeira se afasta e o motorista desembarca da cabine, mas mesmo aproximando a câmera, não é possível identificar o rosto do assaltante.

Ele inspeciona a carga, trava as portas e retorna para a boleia. Conduz o caminhão para a portaria e estaciona na cabine do porteiro. Estende uma espécie de bolsa para o guarda, que abre a cancela e libera o caminhão. Em seguida à saída do caminhão, o porteiro desliga todo o sistema de segurança, embarca em uma moto e foge.

Ao analisar as credenciais do funcionário, César verifica que portava documentos roubados e as impressões digitais coletadas não coincidem com nenhuma do banco de dados da polícia. A moto fora encontrada depenada em um ferro-velho da zona sul e o caminhão não possuía rastreador.

A investigação iniciada após o boletim de ocorrência presume que a carga roubada entrara em Joinville por meio do acesso Garuva-Joinville, passando pela região do Rio Bonito. O caminhão passara por identificação na polícia rodoviária de Pirabeiraba e seguira pela BR-101 sentido norte-sul, porém, não deixara outras pistas de seu percurso. Testemunhas do bairro Vila Nova relataram a passagem de um caminhão com identificação estrangeira circulando na área pelas quatro horas da madrugada, e a partir daí, o veículo de carga parecia ter desaparecido no ar.

- César!

Castro irrompe o laboratório. Vera, taciturna, acompanha-o.

- Pronto, capitão!

- Acabamos de receber a denúncia de que a lata de tinta fosforescente encontrada nas imediações da clínica de dependentes químicos foi fornecida por uma loja de tintas da Rua XV. O vendedor conhece o caso porque tem um irmão em tratamento no local.

- E o que o faz pensar que foi a loja em que ele trabalha a fornecedora da lata de tinta? – inquire.

- Ele achou que o comprador estava muito ansioso, e além disso, a compra aconteceu no dia exato da inscrição na parede. Veja, o vendedor registrou o nome do comprador, porque na ocasião, a loja estava com a promoção do sorteio de uma TV.

- Bingo!

César apanha a cópia de um cupom onde consta nome completo, endereço e telefone. Pesquisa no sistema da polícia civil e dentro de alguns instantes, localiza o suspeito. Havia sido recentemente indiciado na lei Maria da Penha. Como última profissão consta profissional liberal. O investigador observa o chefe e a investigadora, e como tomado por um clique, lembra-se do furto da planta do gasoduto. Tomado por crescente euforia, compara as informações e anuncia suas suspeitas.

- Tudo leva a crer que o sujeito que roubou a planta, o cara que escreveu na parede da clínica e o motorista do caminhão de explosivos são a mesma pessoa!

Vera permanece impassível enquanto os homens concluem suas investigações. Precisa trabalhar rapidamente para que Pedro não seja apanhado e delate todo o esquema.


*****


Vanessa prepara alguma coisa para o almoço quando ouve sirenes da polícia. Afasta a cortina e observa, com assombro, duas viaturas mal estacionadas diante do portão, e quatro policiais armados exigindo que ela atenda. Ligeiramente trêmula, ela apanha a chave do cadeado do portão e vai para fora. Quando destranca o cadeado, os policiais imediatamente invadem o quintal da casa.

- Pedro da Silva Fagundes, onde está? – pergunta um policial, rudemente.

- Eu... não sei – gagueja.

- Não tente esconder o elemento, que é pior para você!

Os policiais invadem e reviram a casa sob a alegação de terem um mandato de busca e apreensão. Chocada, ela retorna para dentro da casa, e começa a soluçar.

Castro ouve o choro, contudo, não dá importância, pois tratar com bandidos tirara o pouco de compaixão que lhe sobrara. César, por sua vez, compadece-se da moça e procura acalmá-la. Pega água e oferece para a dona da residência invadida.

- Desculpe, eu não sei mesmo onde ele está – explica. – Depois que eu voltei do hospital, a casa estava revirada, as roupas dele não estavam mais no lugar, alguns eletrodomésticos e o dinheiro que eu tinha guardado tinham sumido.

- Capitão! Precisava mesmo de tudo isso? – revolta-se.

- É assim que se lida com criminosos, detetive – alega Castro, entrando no cômodo com a metralhadora em punho.

- Como é o seu nome? – pergunta César, voltando-se para ela. Quando Vanessa responde, ele lembra-se que ela havia sido corajosa em denunciar o marido e percebe que também ela era vítima e não cúmplice como Castro afirmava.

Castro, por sua vez, posiciona uma cadeira bem em frente à Vanessa, senta e pergunta agressivamente a localização de Pedro. Vanessa fica ainda mais intimidada com a grosseria e desabafa que não deveria ter denunciado o marido se soubesse que iria receber tal tratamento.

- Chega, capitão! – implora César.

- Lágrimas de crocodilo não me convencem. Diz de uma vez onde é que aquele vagabundo está escondido!

- Eu não sei... eu juro! Ele fugiu depois de ter me espancado por causa da porcaria daquele celular!

- Baixa a bola aí, sua vagabunda! Depois de passar uma noite na cadeia, vai resolver contar.

Ao ouvir aquilo, Vanessa foi vencida pela incompreensão e desespero.

César pede para falar a sós com Castro e saem da cozinha para a sala.
- Então é assim que funciona? Vocês invadem a casa de uma pessoa inocente, caluniam essa pessoa sem saber se ela é ou não culpada, ridicularizam uma cidadã trabalhadora que ainda por cima, atura violência doméstica até sofrer um espancamento e quase morrer. É assim que isso funciona? – repete, indignado.

Castro ri da sensibilidade do detetive e confirma que essa é a melhor forma de agir, punindo psicologicamente o cúmplice para que ele delate tudo o que sabe. Continua explicando suas teorias baseadas em sua experiência, quando Vera entra no local.

- Seu detetive está corretíssimo, capitão – afirma. – O que o senhor acaba de fazer aqui é ilegal.

- Ilegal?! Conta outra! Tenho um mandato... – satiriza.

- Coação é ilegal – diz Vera, segura do que alega.

Castro ama Vera, mas a afronta ricocheteia em seu orgulho.

- Esse é o meu jeito de trabalhar.

- Certamente o coronel Macedo vai gostar de saber de que jeito a sua equipe trabalha.

Castro enfurece-se, pois não admite intromissão em seu trabalho.

- Volte lá e conserte as coisas, ou... – ameaça a policial.

Vencido, Castro vai até a cozinha, dissimulando a raiva que crescia.

- O senhor pode me dar pelo menos alguns minutos para eu me vestir? – pede Vanessa, acreditando que seria realmente detida.

- Não se preocupe, dona Vanessa – inicia César. – O Capitão Castro precisa lhe falar.

Castro engole o orgulho e se desculpa com Vanessa, dizendo que há indícios de que o marido dela está envolvido em vários crimes. Vanessa assoa o nariz e pergunta se a invasão foi motivada por sua denúncia na Delegacia da Mulher. Todos quase riram de sua ignorância, mas se contiveram. Mais calma, ela continua, e explica que havia flagrado, sem querer, o ex-marido vendendo drogas, fato que desconhecia até então.

A novidade interessou a todos e subitamente, Castro dá-lhe atenção e o devido respeito. César toma nota do relato dela, das últimas agressões e da filmagem.

Vera irrita-se com a incompetência de Pedro, mas dissimula seu descontentamento.

- Onde está o vídeo? – pergunta César.

- O celular foi destruído, mas um amigo salvou uma cópia. Se quiserem, posso levar pra vocês...

Castro informa-lhe o endereço da delegacia e pede que ela vá prestar depoimento logo no dia seguinte, e é claro que Vanessa não titubeia em ajudar.

Satisfeitos com as novas informações, toda a equipe deixa a casa. Vanessa ainda vê os vizinhos com olhar de desconfiança em sua direção. Olha para as panelas sobre o fogão com olhar de repugnância, pois perdera totalmente o apetite e começa a recolocar as coisas nos lugares.


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