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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 5ª CAPÍTULO - MASSACRE MUSICAL




Vera entra em um sobrado no subúrbio do bairro Paraíso. Despe-se e retira a cabeleira loira. Toma uma ducha gelada, tentando suavizar a responsabilidade que lhe enrijecia os músculos e tendões. Esfrega a esponja na pele com vigor, pretendendo renovar a superfície cutânea de seu ser desalmado e grosseiro. Representa um papel importante na novela da vida real, e seu inimigo – um homem de pele clara, corpo sarado e riquíssimo, contracena com ela as estratégias de uma tragédia em massa. Vera adota tal codinome para manter em sigilo sua verdadeira identidade. Filha ilegítima de um empresário joinvilense de excelente nível social, é desconhecida da mídia e por isso pode exercer sua profissão com coragem, determinação e extrema ousadia. Investigadora da polícia federal, formada em direito pela UFRJ, 32 anos, oito de experiência em laboratório de investigação criminal, possuidora de atributos físicos invejáveis como pele morena clara, lábios volumosos, olhos cor de mel, cabelo cacheado quase negro, pernas bem torneadas, excelente preparo físico, Vera tem tudo para ser bem sucedida em qualquer área relacionada à moda ou beleza. Ao contrário, respira patriotismo e é adepta à sentença de morte. Incitada contra alguma ameaça iminente não se intimida, sacando de seu calibre 38 com agilidade, precisão e impiedade. Respeita os cidadãos comuns que necessitam proteção. Ademais, julga e condena sem misericórdia nem arrependimento.

Após tomar banho e se vestir, principia a leitura de um relatório em seu notebook. Uma ligação vem interromper seu momento de ser quem de fato é.

- Olá, querido – inicia nova encenação. Imagina as grandes e respeitadas atrizes brasileiras aplaudindo sua performance. – Em que posso ajudar o meu docinho?

- Convenceu o guri. – Vera estremece, momentaneamente desarmada. Isso não é nenhuma pergunta e ela não pode queimar seu filme logo nessa hora.

- Por enquanto ele não tem condições de agir – responde ela, num tom de voz sério e obediente. – O Marcelão exagerou no susto e colocou o pobre no hospital. Mas tenho um plano.

- Ãh?

- Ele vai colocar aquela garota ridícula na jogada, quer queira, quer não. Senti certa afinidade entre os dois, coisa de irmãos, e eles não vão escapar do esquema.

- Sem erros desta vez. Minha confiança no seu projeto tá por um fio.

A voz rouca e enérgica do sujeito retumba na memória de Vera, que encolhe as pernas, subitamente amedrontada. Não poderia falhar em hipótese alguma. Entretanto, nova onda de entusiasmo lhe arrebata o espírito oprimido pelo peso da violência da qual seria testemunha. Enquanto cumpre ordens para que o terrorista plante a bomba em um ponto estratégico da cidade, Vera trabalha pelo outro lado com a promessa de evitar que o esquema seja desativado a tempo.

- Bem, amanhã vou fazer uma visitinha para minha mais recente amiga – fala Vera para a própria imagem no espelho. Caracteriza-se novamente e sai para a rua com o notebook a tiracolo.



Vanessa passara um final de semana longo, angustiante e solitário, pois mal conseguira falar com Pedro já que ele preferiu ir vender seus lanches a conversar com ela e entender os motivos que a deixam tão magoada.

Pedro exerce uma espécie de tirania em seu lar e o egoísmo fala mais alto, por isso raramente reconhece seus erros ou tenta melhorar o convívio com a esposa. É do tipo que acha que mulher deve trabalhar somente dentro de casa e o fato de o salário mensal da esposa ser o carro-chefe das despesas torna Pedro agoniado, infeliz e frustrado. Deseja mudar de atitude, fumar menos, por exemplo, mas não tem força para vencer o vício. Mas ele sabe que é o errado, aquele que cobra da esposa o que ele próprio não consegue proporcionar. Vanessa imagina que ele jamais pensa no bem dela, mas se engana, porque o rapaz fica o tempo inteiro matutando o que fazer para melhorar a renda familiar. Por essa razão, apareceram alguns caras oferecendo para ele alguns serviços extras, que ele aceitou de bom grado, sem analisar ou prever as consequências de seus atos.

Vanessa, por sua vez, inicia a semana de trabalho destruída em seu íntimo. Imagina ser a mulher mais feia, mais ignorante e a pior esposa do mundo. Pudera, o marido ajuda a baixar sua autoestima a níveis consideravelmente perigosos para uma possível depressão.

Entretanto, Vanessa suporta com paciência todas as suas agruras, pois tem a esperança de que a vida deles melhore, não somente a parte financeira como também a questão emocional de ambos. Os pensamentos vem e vão em uma sucessão repetitiva de imagens e ela já está muito mais angustiada do que antes, pensando que aquele incidente de final de semana irá provocar mais infelicidade e que Pedro não chegará a reconhecer que estava errado e que a ofendera profundamente.

Em meio a tantos conflitos, não percebe que Renato para a seu lado na mesa de acabamento. Quando se vira para guardar a produção embalada na caixa, gela e quase desfalece.

- Não precisa se assustar – Renato abre um sorriso e arregala os olhos como quem diz: Surpresa! Cumpri minha promessa e voltei para te ver!

Ele havia se aproximado demais e tanto atrevimento deixa Vanessa inquieta. Ela fecha a cara e ele, compreendendo o recado mudo, retira-se.

O corpo de Vanessa treme de cima abaixo, o rubor cobre sua face e o coração descompassa. Sem compreender estranha reação, ela procura desviar o pensamento de Renato, que agora a invade seguidamente.


*****

Estéfanie não vai à escola. Volta para casa depois de sair do hospital e sente-se aniquilada por um sentimento destrutivo de culpa. Ninguém lhe explicara que o amigo precisava de um tratamento de desintoxicação e que sofria as consequências do consumo de entorpecentes. Que ele usava droga ela já tinha conhecimento; o que não engole é o fato de ter sido acusada por desencaminhar Vinícius, se é a pessoa que sempre o censura. O fato de se sentir injustiçada machuca sua alma sincera e de boas intenções.

O celular toca. Quando Estéfanie vê que a chamada é do celular de Peter, faz um trejeito de desagrado com o rosto, mas atende mesmo assim.

- Que você quer?

- Onde é que você tá, cara? Tá todo mundo estranhando sua falta...

- Todo mundo falta à escola – responde, zangando-se. – Cuida da sua vida que da minha cuido eu...

- Ô, gata! Calma aí! Tá chateada comigo, tô sabendo. Mas, ó, não esquenta...

Impaciente, ela interrompe a chamada. Peter insiste, mas ela, irredutível na decisão de não atendê-lo, prefere desligar o aparelho de uma vez.

Resolve reagir porque não adianta continuar nessa fossa mesmo. Vinícius está sob cuidados médicos e ela precisa pensar no evento que irá acontecer. Pega o violão, antes encostado ao lado da cama e começa a dedilhar uma melodia. Tenta compor, mas lhe falta motivação, pois os pensamentos negativos parecem querer castigá-la. Canta um pouco, toca. Erra as letras, desafina as cordas do instrumento. Que coisa! Parece que não é para ela fazer isso. Para tudo e inspira profundamente.

Fecha os olhos e, de repente, as primeiras notas começam a flutuar em sua mente. Ouve a melodia tocada em vários instrumentos, que rodopiam, com vida. É como se, em vez de olhar para as coisas que estão diante de seus olhos, ela pudesse olhar para dentro de si mesma. Sente a vibração dos acordes, a sutileza dos tons, pode perceber a amplitude dos tipos diversos de som. Foge do universo tangível para seguir a sua imaginação, esquece os sofrimentos e encara o mundo onde tudo são notas. Cada nota corresponde, na realidade, a sons distintos, porém, no seu mundo, Estéfanie é capaz de atribuir sabor e perfume a casa som. Doces, salgados, acres, adstringentes, suaves. Fragrâncias incomparáveis misturam-se a sons doces e sutis. Assim nasce a música que, na última nota, faz Estéfanie chorar de emoção.

Estéfanie termina de escrever a música na partitura e, contente, liga para Eduardo.

- Edu, depois do colégio você vem pra cá? – A empolgação aparece em sua voz e ela se esquece de que ambos haviam se desentendido no último encontro.

- Claro, dou uma passada lá depois. Mas por quê?

- Preciso mostrar uma coisa muito importante...

Eduardo é a primeira pessoa a quem ela recorre para mostrar sua criação. Estéfanie confia nele porque ele consegue incentivá-la e simultaneamente corrige o que acha: algum arranjo mal feito, sugere outras batidas, outros instrumentos, é seu estimulador. Ela sabe que algum dia a banda fará sucesso. Tem esperança e trabalha para isso.

O promotor de eventos a quem Estéfanie fora apresentada é um sujeito sarado e de boa aparência. Tendo consciência dos seus atributos físicos, é um presunçoso de primeira. Arrogante, fala de um jeito característico, arrastando as últimas sílabas de cada palavra proferida. Estéfanie antipatiza-o logo de cara, porém, precisa engoli-lo, já que é a oportunidade mais tangível até o momento. Fora obrigada a aceitar condições inescrupulosas para fazer o show, uma vez que cedia o cachê para a casa e ainda deveria pagar o equivalente a um ano de salário do pai ou da mãe.

Até aquele momento, de nenhum destes estratagemas do promotor ela desconfiava e só o que imaginava era a noite de apresentação. O difícil era conseguir o dinheiro da extorsão. Os pais não estão ao seu lado, pois são do tipo que acreditava somente na corrupção do meio artístico. Provém de famílias que os educaram de forma a não aceitar que um artista é também um trabalhador. Suas mentes confinam a ideia de trabalho operário, artesanal, profissões anônimas serem as únicas corretas. E desse jeito, a pobre Estéfanie está sozinha em um luta desigual pelo seu espaço nos palcos e dentro de casa.

Às 11:30 apressa-se a preparar o almoço para os pais, que chegarão duas horas após.


*****


Por volta das 13h45, os pais de Estéfanie chegam do trabalho, tomam cada um seu banho e se sentam à mesa junto com a filha para almoçar.

- Gostaram da comida? – pergunta, antes de devorar uma garfada de macarrão com carne moída.

- Está bom – responde o pai, com o esgotamento físico transparecendo em seu semblante.

- Um pouco salgado – fala a mãe, mas, para animar a filha, declara: – Mas o gosto está muito bom.

Estéfanie sorri, satisfeita. Fazia tempo que os pais não a elogiavam. Entretanto, ela fica receosa.

- Filha, eu e seu pai estivemos pensando... – Ih, Estéfanie sentiu uma pontada de ansiedade travando seu esôfago.

- Achamos melhor que você comece a trabalhar.

- Trabalhar?! – Estéfanie não pôde disfarçar sua surpresa. A comida desce atravessada e ela toma um copo de refrigerante em um só gole.

- Isso mesmo! – o pai continua, momentaneamente empolgado. – Até conseguimos um emprego pra você.

Estéfanie tosse, se engasga, toma mais um copo de refrigerante e fica subitamente deprimida. Atendente de panificadora: é só chegar, se apresentar e começar a trabalhar.

- Eu e seu pai vamos sair. Precisamos acertar as contas do mês. Quer vir junto?

Estéfanie leva a louça até a pia, enquanto a mãe arruma a mesa. Explica, com certo receio, que chamara Eduardo para visitá-la, pois sabe que aquilo poderia aborrecer os pais, já que não queriam que ela continuasse a cantar. Um murmurado “comporte-se” que sai dos lábios da mãe provoca grande surpresa para Estéfanie, que enruga a fronte, desconfiada.

- Nós não vamos demorar, filha. Lembre-se que amanhã é o seu primeiro dia de trabalho e deve estar descansada. Tchau.

“Ah, então é por isso que ela tá tão legal”, reflete, desvendando o mistério. Tanto a mãe como o pai queriam há muito tempo arranjar um trampo para ela, pois assim resolveriam dois problemas de uma só vez: Estéfanie teria seu próprio dinheiro, que era a preocupação secundária; e obrigar-se-ia a afastar-se da banda, pois com horários preestabelecidos com escola e trabalho, ela teria pouco tempo e disposição para a música.

*****


Enquanto Estéfanie aguarda o amigo e passa os minutos matutando a respeito da iniciativa dos pais em lhe arranjar uma renda, Eduardo espreguiça-se ao se levantar da cama, após uma sesta. Lembra-se da voz ansiosa de Estéfanie pedindo que ele vá vê-la, e já imagina que o motivo é alguma nova composição. Deita-se novamente, cruza os braços abaixo da nuca e fixa os olhos no teto, como se ali pudesse avistar uma foto imaginária da garota pela qual está apaixonado. Sente calor no rosto pensando nela, em cada detalhe do rosto, na maciez do cabelo, na delicadeza das mãos, no jeito de se vestir, até mesmo nas formas físicas. Imagina que o convite fosse algum tipo de pretexto para se encontrar com ele, que ela também gosta dele, que podem até ficar, mas logo seus sonhos se desvanecem, pois Estéfanie tem o amor de sua vida, um adversário difícil de aplacar: a paixão pela música. Com essa Eduardo não se atreve a concorrer, dada a disputa injusta.

Em tão intensas reflexões Eduardo se perde, nem nota que uma carreta manobra diante da casa e se prepara para estacionar. O motorista guia o veículo com irritação e impaciência. Em sua face nervosa, a fronte divide-se em profundos sulcos, de onde escorrem pesadas gotas de suor. As sobrancelhas unem-se, espessas e compridas, demonstrando raiva crescente. As narinas abrem e fecham seguidamente, inspirando desgosto e exalando ódio. Os lábios formam apenas uma linha reta desproporcional ao queixo anguloso.

Terminada a manobra, desliga o gigante veículo de carga, abre a porta e pula para fora, sem utilizar os degraus. O homem robusto segue para dentro da casa. Passa pela garagem, olhando para todos os lados. A porta de serviço está apenas encostada e ele chega até a cozinha. Bebe um copo de água que retira da geladeira. O silêncio irrita-o mais ainda.

Toda essa movimentação passa despercebida pelo pobre Eduardo, que continua divagando e não imagina em que sua inércia culminará.

- Eu aqui me fodendo pra sustentar vagabundo! – soa a voz rouca, impregnada de ódio e pronunciada entre dentes trincados.

- Pai?! – Eduardo levanta em um salto e ficou de frente para o homem. – Vo... você... o senhor che... chegou? – gagueja.

- Ah, não tava esperando... você precisa de um corretivo, filho de uma...! – rosna.

- Não, pai! Não, pai! – implora, segundos depois era arremessado contra o roupeiro com um safanão na orelha. Eduardo ouve um estouro dentro de seu ouvido e em seguida sente um líquido viscoso descendo pelo pescoço. O zumbido forte confunde-o. Através da visão turva observa o semblante enraivecido com que o pai o enfrenta e um novo estrondo em sua cabeça estonteia o garoto, que cai ao chão, tal qual um pugilista derrotado. O oxigênio não passa pelas vias nasais, totalmente obstruídas por sangue coagulado. O ataque brutal e sem propósito deixa o rapaz a mercê de um destino irremediável.

- Levanta e vai trabalhar! Aqui não tem lugar pra vagabundo!

Eduardo é alto, mas muito fraco perto do pai e fica em desvantagem. Ouve o pai xingá-lo, mas a voz parece vir de quilômetros de distância. A violência implacável anula as possibilidades de defesa e Eduardo pensa que dessa surra não sobreviverá. O zumbido no ouvido atingido toma proporções graves. Subitamente, o pai o larga e Eduardo deixa-se cair ao chão. Recebe um chute na cabeça e, quase inconsciente, pede que Deus o livre desse martírio. As notas da música Ameno, do Era, vem à sua mente. Está praticamente nas mesmas condições do soldado que, entrincheirado e ferido, implora para que Deus o livre de tamanha dor. Olha para o homem a quem chama de pai e pede:

- Pai, me mata de uma vez! O senhor não queria mesmo que eu nascesse! Me mata de uma vez!

Para pronunciar seu derradeiro pedido, o garoto despende toda a energia que lhe resta e perde a consciência. O pai, que se prepara para segundo violento chute, recua inesperadamente. Observa o filho, mas seu coração gélido não busca arrependimento. Sai de casa, embarca no caminhão e se vai, inconsciente do crime praticado.

Caído ao lado do corpo inerte, o celular vibra incessantemente.


*****

Estéfanie aguarda com sufocante ansiedade a chegada de Eduardo. Precisa mostrar-lhe a música e contar sobre suas expectativas quanto ao trabalho que seus pais lhe arranjaram e insiste no celular.

Soa a campainha e Estéfanie corre para abrir a porta da frente.

- Como você demorou, Edu! – queixa-se antes de abrir a porta por completo.

- Olá! Vejo que você estava esperando outra pessoa... tá com uma carinha de desapontada...

- É, mas quem é você? Minha mãe vai demorar um pouco...

- Ué? Você não se lembra de mim, querida? – Estéfanie ensaia uma careta. – Sou a Vera, lembra? Do hospital?

- Ah. – Estéfanie desinteressa-se totalmente por essa visitante inesperada. Vai começar a se desculpar, dizendo que está ocupada, mas Vera adentra a sala mesmo sem ser convidada. – Eu acho melhor você sair. Tô mesmo esperando meu amigo pra gente terminar de compor mais uma música...

- Mas se é justamente sobre seu talento que eu vim falar! O Víni já tinha comentado que vocês estão tentando se lançar. – Vera observa que sua explicação provoca nova reação em Estéfanie, que fecha a porta e se volta para ela.

Estéfanie procura simular empolgação e credulidade absoluta, além de disfarçar sua preocupação com o amigo Eduardo. Há também a sensação indesculpável em relação a Vinícius. Sabe ser esse um ponto fraco e temia que a presença de Vera viesse entornar seus dilemas. Estéfanie possui essa malícia que predomina na maioria das adolescentes. Já andava desconfiada com o assédio do promoter que contratara. Vera não inspira maior confiança do que o primeiro.

- Se queria minha atenção, conseguiu – declara, abrindo um largo sorriso. – Me deixou curiosa.

- Você já tem um empresário, Estéfanie? Ou quem sabe, uma empresária? – Vera contorce-se, perambulando entre os móveis da sala.

- Cuido de tudo sozinha, Vera – responde, cruzando os braços. – Por acaso conhece alguém do ramo? – finge interesse.

- Mas é claro, minha querida. Tenho planos perfeitos para você e sua banda. Em três tempos, vocês vão se tornar a banda número um do Brasil!

Ressabiada, Estéfanie pede para que a prospecta empresária se sente e explique o que planeja. O projeto favorece a banda e Vera diz possuir fontes de renda para a campanha de lançamento. Estéfanie não precisa desembolsar nenhum real antes da estreia e nem se preocupará com nada, pois Vera cuidará de todo o processo.

- Primeiro, a gravadora; mais tarde a agenda de shows – explana.

“Parece fácil demais”, reflete Estéfanie, lembrando-se de que havia marcado sua primeira apresentação. Decidida, recusa a oferta. Vera perde subitamente todo seu rebolado e, sem proferir palavra, gesticula que Estéfanie está louca.

- Uma oferta destas não dá pra desprezar! E você tem que aguardar a opinião dos seus companheiros, não é bem assim...

Estéfanie observa pela janela da frente que sua mãe abre o portão e o pai entra de carro. Depois que fecha o portão, Iracema entra pela porta da frente, estranhando que está entreaberta. Depara-se com Vera, que assumira de imediato uma postura arrogante e pretensiosa. A agente secreta exagera nos ademanes da personagem que representa e coloca Iracema ainda mais desconfiada do que naturalmente é.

- Chegou a mãe que vai ser a mais orgulhosa e a mais assediada do Brasil! – afirma, correndo na frente de Estéfanie ao encontro da austera senhora. Discursa então sobre os projetos que tem com relação à prodigiosa cantora e insinua que Iracema certamente poderia melhorar o guarda-roupa ultrapassado.

Vera se torna o centro das atenções nesses aproximados dez minutos em que usa de um monólogo paradoxal, carregado de frases grotescas, expressões banais, gírias e exageros linguísticos. Suas especulações lançam chamas de impaciência nos olhos de Iracema, que trata de esfriar o entusiasmo da presença inconveniente:

- Eu não quero que minha filha cante para não se tornar uma imoral como você. Agora, dá licença.

Vera é convidada a se retirar e sai com o mesmo ar insolente com que manipulara toda a cena.

- Agora nós duas vamos ter uma conversinha, dona Estéfanie...

O pai aproxima-se das duas com o semblante carregado de repulsa. Ouvira tudo, embora tivesse aguardado pacientemente o final da conversação. Estava convicto de que a filha tinha largado aquela bobagem de se tornar famosa. Pensava que suas recriminações tivessem surtido efeito e que Estéfanie obedecesse, porém, verificara que a filha não tivera respeito algum por suas ordens. Um assomo de raiva enrubesce sua face bochechuda e ele explode uma torrente de implicações altamente ofensivas em direção ao ego abalado da filha.

Estéfanie tenta justificar, respondendo em tom mais ameno, porém, suas explicações em nada aplacam a fúria verbal de seu pai. Ousa revelar que já se antecipara à dramática mulher e que agendara a estreia de sua banda. Com isso, lamentavelmente, desferiu o golpe fatal contra as próprias ambições.

- Proíbo você de voltar a formar banda! Iracema! Joga agora mesmo toda aquela tralha no lixo!

Sem demora, Iracema segue para o quarto da menina e retira todos os instrumentos, aparelhos, pautas e o que tem relação com a música que a filha insistia em manter. Ensaca tudo e coloca no lixo fora do portão. Nem mesmo os protestos pungentes da filha, que parece desfalecer de desgosto, atenuam tanta loucura. Não sobra nada, tampouco a música que acabara de compor. Soluçando desesperadamente, Estéfanie se debruça sobre o saco de lixo na calçada e tenta recolher o que pode. Uma vizinha idosa vem ao encontro da menina, que se esforça para carregar os materiais. De dentro da casa, a voz do pai vocifera a ameaça:

- Se trouxer qualquer coisa de volta, é você quem vai pro olho da rua!

Estéfanie larga o corpo sobre a calçada, dorida, desnorteada, massacrada em seu âmago.

- Não se preocupe, querida – diz a bondosa senhora. – Vou ajudar você. Fique tranquila, porque vou guardar tudo na minha casa.

- Obrigada – consegue murmurar, extenuada.

- Agora entre, tome água com açúcar e vá se deitar. Não enfrente seus pais nesse momento. Fique com Deus.

Estéfanie observa a vizinha levando suas coisas e obedece suas recomendações. Passa cabisbaixa pelo pai, que aguardava na porta e vai para a cama, onde desaba em um profundo e restaurador sono.

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