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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 3ª CAPÍTULO - A PLANTA DO GASODUTO – 1ª PARTE




Os primeiros raios de sol despontam no alto da serra e se projetam através da copa das árvores para incidir nas colinas mais abaixo. A cerração desce pesadamente sobre a região e prenuncia um dia quente e ensolarado. Em meio às brumas, circulam luzes vermelhas das sirenes silenciosas. Faz frio.

A comunidade terapêutica está apinhada com policiais, suspeitos, investigadores, e até a equipe de reportagem de uma televisão local. Dois funcionários da DIC – Divisão de Investigação Criminal, recolhem fragmentos e fotografam a inscrição na parede. Enquanto outra dupla interroga os rapazes que encontraram a mensagem, um casal de idosos se aproxima.

- Ô, Castro! – chama um dos investigadores, logo após trocar algumas palavras com o casal de idosos. – Vem cá, capitão!

Castro é um policial corpulento, que atua no GRT – Grupo de Resposta Tática da polícia militar do município. Usa uniforme camuflado, botas especiais de cano alto e colete à prova de balas. No momento, porém, não porta seu armamento de combate, mas sim, uma prancheta, na qual anota informações junto à equipe técnica.

- O que é? – aproxima-se do investigador.

- Este senhor tem uma informação e é melhor que você mesmo ouça.

- Nóis moramo aqui na outra propriedade e essa noite eu e a minha senhora escutamo uma barulheira danada na estrebaria – inicia Seu Artur, assim que o capitão Castro lhe concede o direito de falar. – Nóis pensava que a nossa vaca tinha se soltado e derrubado os balde de metal que nóis usa pra tirar leite. Eu olhei pela janela e vi um homem correndo do nosso rancho.

- Pode fazer um retrato falado do indivíduo? – indaga Castro, de cara fechada.

- Não, tava muito escuro. Depois que ele correu, a gente só escutou barulho de motor de carro.

- Viram o carro? – Os idosos meneiam a cabeça, entristecidos. – Francamente, César! Achei que você tinha realmente alguma boa informação – satiriza, enquanto cruza os braços, firma os pés e olha com desdém para o investigador da criminalística.

- Espera... – solicita César. – Escuta o resto. – E virando-se gentilmente para a miúda senhora, encoraja: – Continue.

- Enquanto meu marido foi ver se o homem tinha levado alguma coisa do rancho, eu fui pelo lado do curral e encontrei uma lata de tinta jogada no esterco.

- Hum... e...

- Já coletamos o material para análise e enviamos ao laboratório – adianta-se César, antes de Castro perguntar. – Estou seguindo para o laboratório e dou um alô quando sair o laudo – avisa e embarca na viatura.

- Obrigada pela informação... isso vai ajudar – reconheceu Castro.

- Não tem de quê, senhor – respondem os idosos e voltam para casa.

Castro continua rondando a área até que todas as pistas estejam devidamente coletadas e protegidas.


*****


Os estudantes, entediados com a explicação sobre genética vegetal, redirecionam o foco de seu interesse para um bilhete minúsculo que passa de mão em mão na sala de aula.

- Passa pro Edu – pedem, satisfeitos por fazer algo que fugisse da monotonia.

Peter acompanha o vaivém do bilhete com demasiada atenção. Sopra com crescente aborrecimento a mecha de cabelo que cai em seus olhos, pois observara de onde o pedaço de papel partira. “Preciso dar um jeito de saber o que ela escreveu”, pensa o garoto, já extremado pelo ciúme. Vê quando o papel chega ao destino e não esconde a satisfação quando o adversário ignora o recado. Encara Estéfanie, do outro lado da sala, aguardando em vão a resposta que certamente não virá. Volta o olhar para Eduardo, que colocara o papel embaixo do caderno, com uma ponta caída para fora da carteira. Age rapidamente. Levanta-se de seu lugar, esgueira-se entre as carteiras, recebe algumas recriminações dos colegas que se sentem incomodados com a forçada passagem e consegue a atenção da professora. Ergue a mão direita que empunha uma caneta e pede que a professora repita a última explicação. Quando percebe que os olhos de todos estão no braço estendido, tranquilamente apanha o bilhete com a mão esquerda e camufla com a folha que segura.

- E então? Entendeu agora? – indaga a professora, alheia ao estratagema do aluno.

- Tá tudo beleza. Valeu – Peter agradece e volta para o seu lugar.

Satisfeito com sua recente, ousada e vitoriosa peripécia, Peter disfarça e lê o bilhete. Por sorte, não é mais alvo da atenção de ninguém, pois seu rosto fica ruborizado e a fronte enrugada feito um Shar Pei.

Por volta da 9 horas, o professor encerra a aula, mas Eduardo nem sequer aguarda o sinal. Levanta-se com estardalhaço, arrastando a mesa e a cadeira, em um estado visivelmente agitado e intempestivo. Peter continua atento a toda movimentação e surpreende-se por Estéfanie não ter ido atrás do companheiro quando este sai da sala. Quando a garota se levanta, aí sim, ele resolve segui-la.

Estéfanie caminha rapidamente pelo pátio, mas perde Eduardo de vista depois que o vigilante fecha o portão. Peter aproveita a situação e se aproxima dela.

- E aí?

- E aí o quê?

- Quando é nosso próximo ensaio? – Peter tenta uma deixa.

- Ensaio? Você perguntando sobre ensaio? Tô ouvindo direito? – pergunta, usando de uma surpresa sarcástica e descrente. – Quando você não falta aos nossos ensaios, chega atrasado...

- Ô, Estéfanie! Isso é jeito de tratar seu amigo do peito aqui? Tô querendo a mesma coisa que você e o resto dos caras. Quero ser um baixista da hora, superantenado em sucesso...

- Calma aí! – Estéfanie para de andar e olha diretamente para ele. – Pra ser superantenado em sucesso, como você mesmo acabou de dizer, tem que trabalhar, e trabalhar duro – repreende. – Até agora, não vi você tocar uma nota sequer pra acertar nosso compasso!

- Então... é... – tartamudeia, apreensivo. – Então... eu sei disso... eu quero me comprometer de verdade – mente, já que seu legítimo interesse é a cantora.

A garota afasta-se com desdém, atitude que ira o apaixonado rapaz. Ele pega o bilhete de dentro do bolso da jaqueta e lê novamente. Desta vez, trinca os dentes.

- Isso não vai ficar assim!


*****


É terça-feira e Vanessa trabalha na mesa de acabamento. Passa das 11h30 quando a amiga Márcia lhe traz um lote de panos de copa para revisar, cortar as sobras das costuras e embalar.

- Deu tudo certo ontem? – pergunta-lhe Márcia.

- Como? – indaga Vanessa, concentrada no trabalho. – Ah, sim! Tudo certo – afirma, após se lembrar de ter saído mais cedo do encontro com as amigas.

- Você ficou chateada por termos convidado o Renato, né?

- Não, claro que não! – mente.

- Ficou, sim, e eu queria pedir desculpas. É que ele apareceu de repente e a Sandra ficou doidinha por ele. Ela quase se ajoelhou na minha frente para deixar ele ficar lá.

- Não dá nada – responde Vanessa. – Tem coisas que obrigam a gente a ter jogo de cintura. Espero que a Sandra tenha se dado bem...

- Que nada! Depois que você saiu, a gente resolveu ir para a praça de alimentação e a Sandra foi dar uma intimada no Renato. Adivinha o que aconteceu.

- Não faço ideia.

- Ele não topou. Disse que com ela era só amizade. A Sandra ficou furiosa!

Continuam conversando enquanto cumprem suas atividades quando outra colega se aproxima, fingindo aborrecimento porque a máquina de costura tinha trancado e fora obrigada a chamar a manutenção.

- Tô tão triste... – ironiza.

- Olha quem vem aí – alerta Márcia.

Vanessa olha para o lado que Márcia indicara e repara no mecânico que vem ao encontro delas. Toma um susto quando reconhece Renato.

- Desde quando esse sujeito trabalha aqui? – deixa escapar, com os dentes trincados.

- Faz tempo, já. Ele veio do turno da noite – explica Márcia.

Renato para na frente delas e logo encara Vanessa, que trata de dobrar os panos de copa e empacotar. A operária explica o que acontecera com a máquina de costura e ele vai atender. Depois de uns vinte minutos, a máquina retorna à operação normal e ele volta a se aproximar de Vanessa, que trabalha sem olhar para os lados.

- Você me deixou chateado ontem – puxa conversa.

- Eu? Você deve estar enganado... – procura ignorar.

Renato continua sua conversa fiada enquanto Vanessa tenta não se aborrecer. Finalmente, ela reage dizendo que é casada e que ele está atrapalhando seu trabalho. O mecânico, por sua vez, olha-a profundamente nos olhos e não se dá por vencido, avisando que logo a procurará novamente.


*****


Vinícius levanta de mau humor. Ontem o pai havia recriminado diversas de suas atitudes, como falta de compromisso com relação a horários, desobediência às regras da casa, falta de interesse em contribuir com as tarefas domésticas, preguiça e sonolência e mais uma série interminável de exprobrações. O garoto está com a cabeça dando mais voltas do que competição de Fórmula Indy.

Pudera, o pai de Vinícius, sozinho, sustenta a casa, dando um duro danado na construtora. É um pedreiro de mão cheia, nunca lhe falta serviço, chega a trabalhar até dezoito horas todos os dias e é muito bem pago pela sua competência. Exige apenas que a esposa cuide da casa e o filho, dos estudos. Porém, não é adepto à ideia do filho escolher a música como profissão. Aprecia cantores de sua época, mas isso que o filho chama de música não passa, em sua opinião mais antiquada, de barulheira.

Vinícius embarca na bike e segue para a escola, mas, no caminho, pensa na hipótese de gazear aula, pois se lembra de um lance com um camarada que lhe deve uma grana. Ainda lembra de que na quarta-feira tem uma aula importante e ele precisa de nota, contudo, esse motivo não é suficiente para impedi-lo do impulso. Em vez de atravessar o portão da escola, vira o guidom e por pouco não atropela Estéfanie.

- Ei! – chama Estéfanie, sacudindo vigorosamente o braço magro. – Pra onde você vai? – Como ele não a atende, a garota segue junto com as amigas.

Vinícius desvia dos demais alunos que vem no sentido contrário – e correto, que é para dentro da escola, e pedala na direção do Centro.

- Que besteira! Esqueci de ligar pro cara!

Para abruptamente a bicicleta próximo ao ponto de ônibus e uma senhora pergunta-lhe se havia falado com ela. Vinícius, estressado, responde algum desaforo que faz a mulher retorquir com palavras não menos educadas.

- Ô cara! O Ivo tá em casa? – pergunta para alguém no celular. – Não, não... Tô indo pra aí... não esquenta... Dou um jeito de falar direto com ele... esfria tua cabeça, bicho... Tô nem aí pras ameaças dele... ele pensa que é quem, aquele velho remelento? Tá, cara, tá...

Seguindo pela rua Dona Francisca, Vinícius corta caminho à direita, atravessa a rua Prudente de Morais, pedala até a rua Indaial e cruza a Coelho Neto até o final. Passa por uma rua de terra que liga a rua com a Aracaju, e logo avista a casa onde mora o mau pagador de seus favores. Muro alto, portão de ferro totalmente fechado, interfone. Uma verdadeira fortaleza, reflete Vinícius.

Toca o interfone, informa a razão da visita e o portão é destravado. Entra na boca sem cerimônia e larga a bike. Encontra o velho remelento sentado na varanda, enquanto circulam dentro da sala duas mulheres quase nuas.

- Não são pro teu bico – previne Ivo, já que Vinícius não desgruda os olhos das prostitutas. – Tá aqui o teu pagório.

- É muito bom fazer negócio contigo – sorri, estendendo a mão para o pacote pardo que o homem lhe entrega. – Quando precisar, tô às ordens.

- Tô de olho. Fica na tua – ameaça novamente o sujeito.

- Fica frio. Bico fechado não entra mosca. Tô vazando.

Satisfeito, Vinícius dá as costas, pega a bike e segue para fora do portão. Abre o pacote e conta as notas recebidas. Dá para comprar um notebook incrementado com essa grana.

Ivo escorraça as mulheres e estreita os olhos, pensativo. Apanha um papelote e cheira o pó que havia dentro. Não confia no garoto, mas precisa dos serviços dele por mais algum tempo. Permite que o moleque imagine que tem poder de barganha. Sorri sarcasticamente. Dará corda até o momento que julgar oportuno para que o garoto se enforque com a própria soberba.

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