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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 4ª CAPÍTULO - NA BALADA DO PERIGO – 2ª PARTE




Vanessa ansiava pelo final de semana prolongado do feriado de Páscoa para se dedicar inteiramente a seu marido Pedro.

Depois que volta para casa, come alguma coisa, organiza tudo, lava e estende roupas e ainda vai ao mercado. Havia pagado a conta de seis reais com uma nota de dez e o vendedor, distraído, juntou a mesma nota ao troco.

- Você me deu vinte, não foi?

- Não, não, foi só dez. Depois seu caixa não vai fechar e você vai ter que tirar do seu bolso – diz ela, orgulhosa com a própria honestidade.

- Obrigado – agradece o vendedor.

Retorna, prepara o jantar e então Pedro aparece. Ela corre ao encontro dele e abraça-o com paixão. Ele, cansado, se solta dos braços dela em menos de dez segundos e vai tomar banho. Depois volta à garagem para tomar algumas cervejas e fumar. Vanessa, por sua vez, se senta em uma cadeira e começa a tagarelar.

Pedro fala de seu serviço e da vida difícil que levava. Faz reclamações de que queria crescer para acabar com a inveja das pessoas, que parecia afundá-los em dívidas cada vez maiores.

- Aqui tem algo de errado – ele começa a se alterar, falando mais alto.

Vanessa então levanta e o abraça com carinho, pedindo que mudassem de assunto e que namorassem um pouco. Contrariado, ele se irrita e mostra o cigarro lançando fumaça no ar.

- Você fala o tempo todo que não gosta disso – apontou o cigarro e afasta-se do abraço dela.

- Você que não gosta de carinhos, não é? – arrisca, porém, com a sensibilidade provocando uma ponta de tristeza.

- Adoro, mas isso tem hora e tem lugar. Agora eu tô raciocinando, tô numa sequência boa de ideias...

- Mas, Pedro, eu quero ficar perto de você... – tenta motivar-se, mesmo que a afetividade que procurava pareça inalcançável.

Pedro não dá atenção à queixa quase chorosa e continua reclamando da vida decadente. Lembrou que quando se conheceram, estava muito bem empregado e que se tivesse continuado naquele ritmo, atualmente seriam bem mais felizes. Pedro associava a felicidade às conquistas materiais e firmava-se nessa crença, coisa que Vanessa sempre lamentava, pois para ela a felicidade era alcançada com a presença de seu marido e com o carinho que sempre buscava. Pouquíssimas vezes ele lhe dizia que a considerava uma mulher bonita ou reconhecia o esforço que ela desprendia por amor a ele. Sempre voltava cansada da confecção, mas procurava servi-lo em tudo, ajudando a vender até tarde, mesmo que precisasse acordar de madrugada no dia seguinte. Mesmo indisposta ou deprimida, ela estava sempre à disposição dele, até mesmo quando ele a procurava para a intimidade. Diversas vezes ela quis dizer que não se sentia bem ou que não sentia desejo, mas dava o que seu corpo nem tinha mais para tentar agradá-lo. Depois do ato, Pedro virava-se para o lado satisfeito e dormia, enquanto ela, humilhada, chorava por não ter sentido prazer no que fizera por obrigação.

Um assunto que Pedro comentara fez com que Vanessa mencionasse o equívoco do vendedor.

- E você respondeu que sim, né? – a pergunta, na verdade, uma afirmação, é praticamente gritada.

- Não, claro que não. Fiz o que é certo – ela responde sorridente e satisfeita.

- Mas você é mesmo burra! – vocifera com súbita raiva e Vanessa se encolhe assustada com a reação. – Por isso que você tá assim! A gente tem que levar vantagem quando tem oportunidade! Igual eu, hoje, o cara veio com uma nota de R$ 50,00 para pagar dez lanches. Ficou em dúvida e eu lhe devolvi somente R$ 30,00. Ele nem notou. Vanessa, tem que aprender a ser esperta, Vanessa! Batalha onde você tá. Com esse seu jeito de boazinha não vai chegar a lugar nenhum nunca! E outra coisa: tem que voltar a ser o que era pra gente economizar e sair desse poço. Tem alguma coisa errada, você tá gastando muito...

Vanessa ouve todas as palavras chicoteadas em alta voz e se encolhe com os gestos ásperos das mãos de Pedro, que apontam para ela e se fixam no ar com a violência de golpes secos. Começa a chorar e deseja que se abra um buraco no chão para engoli-la. Pedro não tem emprego fixo e, ainda por cima, bebe latas e mais latas de cerveja e queima quase duas carteiras de cigarro todos os dias. É ela quem paga praticamente todas as contas da casa e lamenta que não possa adquirir nada para si própria. Como é que o marido pode acusá-la de esbanjar dinheiro?

- E você tem que falar desse jeito? Brigando comigo assim?

- Isso não é briga, Vanessa! – ele larga os braços ao lado do corpo, impaciente. – Isso é apenas uma conversa.

- Conversa?! Me xingando desse jeito? Eu só posso trabalhar, não sei mais de que outra forma ajudar a gente...

- Esse é meu tom de conversar...

As exprobrações não haviam encerrado e Vanessa dá as costas para ele, magoada e ofendida. Toma banho e vai deitar sem jantar, soluçando o tempo inteiro. Chora madrugada adentro. Que vida tinha escolhido? Por que Pedro a tratava daquele jeito estúpido? Será que merecia receber um sermão daqueles se estava tentando fazer a coisa certa? Mais uma vez se questionava pelas injustiças e sofria por sua incapacidade de compreensão.


*****


Estéfanie dança sobre uma pista ao lado de pessoas estranhas. As luzes colorem seu cabelo e rosto com vários tons, mas seu semblante não é o de uma jovem que se diverte. Há um quê de preocupação em seu olhar. Ela usa uma blusa preta brilhante e uma minissaia comportada e seus gestos não são extravagantes como das outras garotas que a circundam.


Na escuridão interrompida pelas luzes de neon surge um moço alto, magro, cabelo modelado com gel, sorriso e olhos luminosos. Veste um jeans, de onde pende um acessório em forma de corrente, camiseta justa com frases em inglês e tênis de uma marca famosa. Eduardo aproxima-se de Estéfanie e sorridente inclina o corpo para lhe dar um beijo no rosto, mas desiste do intento. Peter, com seu jeito abusado, chega antes e tasca um beijão na boca da gata. Eduardo, por sua vez, acha melhor não misturar as coisas: banda pra cá, sua admiração por Estéfanie pra lá. O sorriso que momentos antes abrilhantava suas feições comovidas foi trancado pelos dentes que mordiscam os lábios e tremem no espaço dos segundos que paralisaram no tempo.

- Pleft!

Não fosse o som ensurdecedor dentro da danceteria, todos, até mesmo Eduardo que dera as costas e se afastara, teriam escutado a bofetada que Estéfanie dera em Peter. Irritada com a tremenda ousadia de seu companheiro, censura-o até esgotar um vocabulário pouco usual e nada – nada mesmo! – gentil. Peter não se altera. Parece até satisfeito com o tapa e sorri presunçosamente. Percebera há um tempão que Eduardo arrastava a asa pro lado da sua pretendida e gesticula com os dois braços dobrados um sinal de vitória quando vê que o cara se mandara, arrasado. O resultado atingido com a estratégia inescrupulosa e improvisada de avançar sobre a gata deixa Peter orgulhoso de seu triunfo.

Estéfanie esgueira-se na multidão para não olhar mais na cara arrogante de Peter. Essa azaração estava passando dos limites e ela se indigna. Dá o fora antes que Peter pudesse segui-la. Na rua, avista Eduardo, com mãos nos bolsos, encostado no muro da danceteria.

- Finalmente!

Eduardo percorre os olhos pelo corpo dela e estranha sua presença e frieza, pois a tinha visto no maior amasso há minutos. Fica na defensiva.

- Então? – ela coloca as mãos na cintura. Imóvel na frente dele aguarda um cumprimento, um beijo ou simplesmente uma resposta.

- Então o quê?

- Não tem nada pra me contar?

- Contar?! – Eduardo remexe-se. Coloca o pé no muro e cruza os braços. – Contar o quê? Tá viajando?

- A sua conversa com seu pai... – As palavras foram esmorecendo, pois o desprezo com que ele a tratou a espanta. Eram sempre tão unidos. Não havia conseguido conversar com o amigo quando o seguira depois da prova e durante a semana inteira ele se esquivara.

- Ah. Não, tá tudo legal.

- Mesmo?

- Mesmo.

- Conta outra.

- Deixa de se meter na vida dos outros, Estéfanie! Que coisa mais insuportável! – ele perde a paciência. É muito difícil se alterar desse jeito.

- Insuportável? Ora essa! – Estéfanie fica cada vez mais chocada com as atitudes do amigo. – Eu só tô querendo ajudar, Edu...

- Então se manda, vai, vai! Me deixa quieto...

- Não dá outra!  Tô saindo fora – responde ofendida, enquanto dá as costas para Eduardo. – Ah! Só por obrigação, vou dar o recado: o promoter da Mansão Getúlio vai liberar um lance pra gente...

- Como é que é? – Eduardo interrompe-a e praticamente salta sobre ela.

- Ué? Não faz um minuto que você me mandou vazar... – ironiza. – Agora quem não quer ficar sou eu! Fui!

Ao avistar a amiga se afastando em passos rápidos e gestos ríspidos, Eduardo cai em si com a tremenda besteira que provocara. Enquanto lamenta que ela não enxergasse nele o interesse que o ilude, reconhece que Estéfanie é a única que realmente age para divulgar a banda. Considera detestável o próprio comportamento frente à injustiça que acabara de cometer. Ele e os outros vivem se queixando quando ela decide os dias e horários para ensaiar e cobra a presença como se todos devessem seguir uma rotina profissional pra valer. Na cabeça dos garotos, a banda não passa de um passatempo divertido e eles estão comprometidos com a própria curtição e não com a formação da carreira musical. Eduardo leva pouco a sério o talento nato que facilita os arranjos e composições, a sua audição aguçada e a habilidade com a guitarra. O amor que sente pela vocalista é a razão pela qual participa da banda, pois quer simplesmente estar próximo a ela. Peter, um tremendo baixista, daí o motivo pelo qual Estéfanie o atura na banda, não se importa em partir pra cima e tentar conquistar a garota. Vinícius é desajuizado e largadão, paparicado demais pela mãe e não sabe o que quer da vida.

- Sou uma besta! – Eduardo não se conforma e esmurra a própria cabeça para se punir. Pensa em aproveitar a balada até o dia amanhecer, visto que seu pai – um caminhoneiro com mais de vinte anos de profissão, está em viagem, entretanto, os incidentes desse início de noite o desmotivam e ele resolve voltar para casa.


*****


Vinícius fica com uma mulher de cabelo tingido de loiro, sensual, visivelmente mais madura do que ele. Dado o ritmo de seu envolvimento, percebe-se que se conhecem há mais tempo e que boa coisa não há ali. Extrovertida em excesso, a loira não se intimida em descer até o chão no rebolado de um funk. Cigarros e bebidas passam sem cerimônia por suas mãos frenéticas.

- Isso daqui é do melhor! – berra o garoto, para ser compreendido no meio daquele fervo. – Experimenta, gata! Não vai se arrepender...

Ela toma um comprimido da mão dele e engole junto com um gole de uísque. Os efeitos começam a saltar aos olhos dela. Vinícius, por sua vez, fica satisfeito. Gosta da moral que ganha ficando com ela. Seus corpos roçam um no outro, aumentando a energia e provocando em ambos desejos lascivos.

De repente, surgem dois sujeitos encorpados ao lado da mulher e, propositalmente, ela aponta o dedo para o garoto. Ele é menor de idade e havia entrado na danceteria graças à influência dela. Então, cercam-no e, discretamente, ameaçam-no com revólveres. Retiram-no da pista de dança e levam-no até uma sala privativa no mesmo prédio.

Vinícius nem respira. Confuso devido à embriaguez e ao consumo recente de extasy nada enxerga. Há uma lâmpada dependurada no centro da sala sobre uma mesa, que o cega.

- A coisa ficou preta pro teu lado, fedelho!

Forçam-no a sentar e um dos sujeitos brutais afunda os dedos nas bochechas do garoto, que nada distingue.

- Tá fudido! – ameaça outro indivíduo. – Foi cutucar a onça com vara curta e agora vai tomar uma lição!

O segundo sujeito enfia os dedos nos olhos de Vinícius, que urra de dor e urina nas calças.

Duas horas depois, Vinícius é atirado para fora de um carro no portão de sua residência. O automóvel sai cantando pneus, despertando os moradores. As luzes da casa se acendem e os pais de Vinícius, ouvindo os apelos do garoto, correm para socorrê-lo.

- Filho! Meu Deus, filho! – grita a mãe, em desespero crescente. – O que fizeram com você, filho?

- Mãe, eu tô cego, mãe... – soluça.

O pai levanta-o da calçada e carrega-o no colo para dentro de casa.

- Vamos levar ele pro P.A. 24 horas, Leda. Pega a chave e os documentos do carro, rápido!

Algumas horas depois do atendimento, o médico plantonista aparece na sala de espera para dar notícias do estado do paciente para os pais. Informa-lhes que as agressões não haviam provocado cegueira como temiam e o casal se abraçou com alívio.

- Mas há outra coisa... – pigarreia o médico, interrompendo aquele momento de alegria.

- Conte, doutor – pede Leda, subitamente angustiada.

- Os exames de sangue e de urina revelam presença de álcool e consumo de entorpecentes. – O médico observa a perplexidade estampada no rosto dos pais do garoto e verifica que, como imaginara, os pais não tinham conhecimento da vida desregrada que o filho leva. – Ele precisará de internamento urgente para desintoxicação...

Leda choca-se e começa a chorar. O pai de Vinícius, Marcos, limita-se a esfregar a cabeça calva e suspira.


*****


Amanhece e, enquanto o médico conversa com os pais de Vinícius, a mulher loira da danceteria entra sorrateiramente no quarto onde o garoto está internado.

- Olá, Víni!

- Quem t’aí? – remexe-se no leito, retesando-se. Há curativos em seus olhos.

- Sou eu, queridinho... a Vera.

- Sua traiçoeira! Como cê se atreve a invadir meu quarto? Sai daqui!

- Que corajoso... – desdenha. Ela caminha em torno do leito com demasiada vulgaridade e expressa-se através de um dialeto cheio de gírias. – O Ivo mandou uma surpresinha pra t’incentivar... – continua, colocando dinheiro na mão do rapaz.

- Não quero – balbucia. – Leva isso daqui – larga o dinheiro com aversão.

- Vai recusar uma nova oferta do Ivo, querido Víni? – Aproxima-se do rosto dele e seus cabelos roçam no pescoço do garoto. Sopra de leve sobre a fronte logo acima dos curativos e afaga o peito por cima da camisola do hospital. – Você sabe que ele aprova os seus serviços e ainda oferece uma recompensa muito boa. E sabe também que ninguém nega serviço pro Ivo, logo ele, que é tão generoso...

- Vai embora! – ordena o garoto, com súbita impaciência.

- Não sem antes dar todas as informações de que você vai precisar.

Vinícius, embora contrariado, ouve tudo com atenção.

- Até que enfim encontrei você! – exclama a garota que irrompe o quarto com ofegante sofreguidão. – Cara, como é que você tá?

- Fan?! – indaga, sobressaltado e, ao mesmo tempo, contente com a interrupção oportuna. Depois do corretivo que recebera, ele não tinha a mínima intenção de participar dos planos de Vera nem do tal Ivo.

- Eu vim assim que soube do seu acidente. Mas cara, sai dessa logo, eu bem que avisei.

- Então é você a vocalista da banda em que ele toca? – atalha Vera, visivelmente interessada na repentina e propícia informação. Estéfanie afirma, mas não demonstra qualquer desconfiança. Vinícius, por sua vez, limitado com a falta de visão, mas com a audição mais sensível a variações de fala, percebe um sinal de alerta para tal interpelação. – Víni, você não tinha apresentando a gente ainda, que garoto mal-educado – zomba. Trata de se despedir, mas para na porta do quarto. – Tchauzinho, queridos. A gente se vê logo.

Vinícius sua frio e treme. Esconde o dinheiro entre o colchão e o lençol ao alcance de sua mão e começa a passar mal.

- Eu vim dar uma ótima notícia – informa Estéfanie, sorridente e esperançosa. Não se deu conta de que o amigo estava no início de uma crise de abstinência. – Nós vamos tocar lá na Mansão no dia 25 do próximo mês. Por isso, você tem que ficar inteirão...

- O quê?! Mansão? Dia 25? Mas não pode... – delira, dizendo coisas absurdas e desconexas.

Repete o tempo todo que eles não podem se apresentar, que têm que esperar ou encontrar outro evento para aparecer. De repente, os pais do garoto entram junto com uma enfermeira, que logo alerta a equipe para socorrê-lo. O médico retorna e a mãe de Vinícius, em insana revolta, aponta para Estéfanie:

- Essa daí é a responsável por meu filho estar aqui! – Em seguida, grita para que retirem a garota do quarto, alegando que é traficante de drogas. Estéfanie tenta se defender da ira de Leda, mas só consegue enfurecê-la ainda mais. – Nós vamos denunciar você, sua delinquente!

Estupefata, Estéfanie obedece à ordem, embora ofendida e contrariada com a injustiça e as infâmias. O amigo estava recebendo medicações, pois seu organismo estava fora de controle. Apenas nesse instante Estéfanie percebe que Vinícius está mal. Chora logo após ser expulsa do quarto. Ressentida pelas acusações de Leda e preocupada com o restabelecimento de Vinícius, volta para casa, e no quarto entorna no travesseiro toda sua mágoa.

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