"Para não perder a rota, é necessário seguir um caminho; se não puder desviar das pedras, ajunte-as e forme uma calçada sedimentada por palavras."
ENGRENAGEM DO CRIME – 6ª CAPÍTULO - PROMOTOR DE AMEAÇAS – 2ª PARTE
Vanessa termina a limpeza de sua área de trabalho, guarda a vassoura e descarta os resíduos nos tambores apropriados de reciclagem. Esgotada fisicamente, mas satisfeita por ter chegado ao fim de mais um dia de trabalho, agradece a Deus pelas dádivas de saúde e emprego e, cabisbaixa devido ao cansaço, segue para o banheiro.
Antes de atravessar o corredor, olha para trás para verificar se nenhuma empilhadeira passa no momento e vê de relance Renato caminhando próximo a ela. Aborrecida pelo fato de ter de passar por ele, adentra apressadamente no toalete.
Encontra as colegas, que se preparam para ir embora, e aguarda até que elas se aprontem. Sai do banheiro em companhia delas e observa que Renato continua por lá. Por educação, cumprimenta-o, e o rapaz acompanha cada um de seus movimentos.
Sentimentos conflitantes invadem-na, porque enquanto fica aborrecida com o atrevimento e insistência dele, por outro lado, quando se lembra do jeito como perscrutava seus olhos e em seu sorriso, sente a respiração entrecortada por sintomas de ansiedade, como descompasso nos batimentos cardíacos, calafrios e espasmos.
Sai da empresa sorridente e bem-humorada. Um bem-estar repentino toma conta dela depois de ter visto o provável interesse de Renato por ela. O sorriso estampado na face não desaparece quando ela chega em casa e procura a chave na bolsa. Repentinamente a porta abre e ela se sobressalta.
- Oi, amor!
Aliviada, Vanessa beija e abraça o esposo. Surpreende-se, pois Pedro dificilmente está em casa quando ela retorna do trabalho.
- Tá com fome? Eu preparei um rango gostoso pra nós dois...
Vanessa entra na cozinha e sente cheiro gostoso de comida recém-preparada. Pedro, feliz, enlaça-a pela cintura e mostra o que cozinhara.
- Estrogonofe de frango, arroz, tomate e, pra completar, sorvete!
- Sorvete? Que maravilha! – Ela fica verdadeiramente alegre com a surpresa. – Tô morrendo de fome!
- Ah, é? Vem cá!
Pedro abraça-a e beija-a com profundo desejo. Observa-a nos olhos e suplica seu perdão. Explica que andava estressado porque seus negócios não davam certo e que enxerga o esforço que a esposa faz. Reconhece que errara ao criticá-la pelas atitudes que tomava.
- Eu sei – ele dizia, – sei que sou eu o errado e não tenho direito nenhum de jogar a culpa nas suas costas. Eu sou um idiota, um imbecil...
- Não é nada disso, Pedro. – Ela acalma-o, colocando os dedos pequenos sobre os lábios dele. – Você é o homem que Deus colocou no meu caminho e eu agradeço por isso. Eu não amo você simplesmente, eu te venero, te adoro. Claro que Deus está em primeiro lugar em minha vida e assim oro para que você chegue a encontrá-lo na sua...
- Queria acreditar nisso como você diz – lamenta.
- Mas a verdade – continua Vanessa, com os olhos marejados de lágrimas de felicidade, – é que sem você constantemente do meu lado, eu tenho somente uma sobrevida. Deus permite que eu viva, mas fez de você, meu marido, o ar que eu respiro...
Pedro chora e abraça-a com agradecimento. Segura a cabeça dela com as duas mãos e encosta a fronte dela com a sua. “Te amo, te amo...” repete.
- Não me deixe sozinha, Pedro. Não me abandone.
- Não vou, não vou.
- Tô com cheiro de fábrica – ela ri, enquanto chora e aceita os beijos ávidos do marido.
- Isso não tem importância.
Pedro pega-a no colo e leva-a para o quarto. O momento de felicidade que ambos vivem reflete em seus semblantes gotas de um precioso orvalho: a capacidade de amarem-se mutuamente mesmo em meio a conflitos e dificuldades. Nessa altura, Vanessa tinha esquecido totalmente o garoto que a abordara, pois obtivera o amor que necessitava. Vanessa e Pedro descansam nos braços um do outro e, mais tarde, almoçam, felizes e satisfeitos com a plenitude alcançada.
Uma indústria de alimentos, cujo carro-chefe é chocolates, que fica no extremo oeste de Santa Catarina está em pleno funcionamento. Empilhadeiras transportam centenas de paletes com caixas de chocolates e os operários cumprem os procedimentos de produção, embalagem, estocagem e limpeza.
Um funcionário aparentemente encarregado de conduzir e chefiar as operações fala ao celular. Retira um bloco de papel do bolso do jaleco alvíssimo e faz anotações. Depois repassa o papel para outro operário e, continuando a falar no celular, encaminha-se para o corredor de acesso à portaria principal.
Abaixa o celular, cumprimenta o vigilante e dispensa-o para levar correspondências até a área administrativa, tarefa que cumpre diariamente pelo menos três vezes. Observa o vigilante se afastar e desliga algumas travas do sistema de segurança.
- Missão cumprida – informa ao celular.
Em seguida, o portão eletrônico começa a se abrir lentamente e dois homens encapuzados penetram sorrateiramente no pátio da fábrica. Depois que o portão faz sua abertura total, uma van com logomarca de um distribuidor de laticínios entra, passa pela cancela içada e é conduzida até a área de expedição. Os dois primeiros homens amarram as mãos do encarregado e amordaçam sua boca. Um deles, orientado pelo suposto refém, reaciona o sistema de segurança. O portão se fecha.
Da van saltam quatro homens com camisetas amarradas na cabeça para disfarçar seus rostos. Portam revólveres e cada um possui um ponto de comunicação no ouvido. O encarregado é enviado na frente e os outros tomam uma pequena distância para dar cobertura.
O vigilante acabara de sair do prédio administrativo quando é surpreendido pelo grupo armado. Imediatamente saca o revólver, mas coloca-o devagar no chão e ergue as mãos. Também é feito refém e sob ameaça, digita a senha para desativar a trava da porta. O grupo avança e dá voz de assalto.
A recepcionista grita, contudo, se cala no mesmo instante em que um dos assaltantes avança para ela. Amedrontada, aguarda as ordens do bandido que grita com ela.
- Me leva até o Freitas!
- Venha comigo, por gentileza.
Acuada, a recepcionista acha imbecil rata-lo com cordialidade e diplomacia, mas não enxerga meio de evitar a tragédia que se antolha. A arma apontada em sua cintura lembra que qualquer ato precipitado poderia alavancar uma chacina.
Chega até a porta e quando faz um gesto para bater, dois assaltantes chutam violentamente a porta que escancara com o estrondo. No gabinete, um casal de idosos levanta-se de imediato e é rendido. Mais dois bandidos invadem o recinto, cada qual com atitude mais ameaçadora.
- O dinheiro está no cofre – confidencia Freitas, temendo represálias violentas dos criminosos. – Levem tudo o que quiserem, mas nos deixem em paz.
- Não queremos dinheiro agora, amizade – responde um dos integrantes da quadrilha, que acaba de retirar o capuz. É um homem forte, de aproximadamente 45 anos, rosto anguloso, cabelo crespo, castanho, bem aparado. – Viemos tratar de negócios.
- Negócios? Não faço negócios com gente da sua laia – sibila Freitas, deduzindo que essa invasão tem outro objetivo, não somente um assalto a mão armada. Ele observa que o bandido que ameaça sua esposa apalpa o corpo dela. A mulher fecha os olhos, apreensiva. – Deixem ela, e então faremos negócio. Do que se trata? – rende-se.
O líder da operação faz um sinal para o capanga se afastar da mulher, depois retira de dentro de um envelope um cd room, que instala no aparelho de DVD que há no gabinete. Um instante após carregar o programa, um vídeo caseiro começa a ser apresentado.
- Raquel?! – Freitas grita, vendo a neta amordaçada em um quarto escuro, sem ventilação. A menina tem dezesseis anos e aparece sobre uma cadeira. Um homem surge diante da câmera e desamarra a mordaça.
- Ela é muito especial, não é mesmo, vovô? – ironiza o homem, cheirando o cabelo da jovem.
- Mas o que fizeram com ela? Por favor, não machuquem minha neta!
- Isso é apenas um sinal da negociação, Freitas. Sua nota promissória é a vida da sua neta.
- Desgraçados! – reage Freitas, imprudentemente. – O que querem para devolver minha neta?
- Ah, agora estamos começando a nos entender – sorri o malfeitor. – Existe uma grande operação de transporte de cocaína que tem o destino em Joinville, no norte de Santa Catarina.
- Continue – pede Freitas, ouvindo atentamente e limpando o suor que ilumina suas têmporas.
- Cem toneladas foram encomendadas da Bolívia e vão ter que atravessar a fronteira sem levantar suspeitas. Você tem uma filial na mesma cidade onde a coca é produzida e queremos a sua sensata colaboração.
- O que devo fazer?
- Fornecer as embalagens de seus produtos para nossa promissora produção.
- Só isso? E quando devolverão minha neta?
- A coisa é simples exatamente do jeito que parece. Sua empresa fornecerá toda a logística, códigos de barra, transporte e distribuição. Assim que a mercadoria for descarregada no destino, terá sua neta de volta.
- Com que garantia? Como posso saber se cumprirão a sua parte no acordo? Quem está por trás disso?
O sujeito não responde imediatamente com o propósito de aumentar a tensão dos reféns. Apanha o controle remoto do DVD, aperta uma tecla e diz:
- Um antigo amigo seu.
Freitas quase desfalece quando vê a imagem do homem. Inspira o ar pesadamente e sente que a sala inteira gira. Freitas é ex-combatente do exército e seu inimigo Ivo – um guerrilheiro venezuelano que lhe jurara vingança.
- Aí está a sua garantia – ri o bandido. – Estamos entendidos?
Freitas sua frio e engole em seco. Não tinha saída senão concordar em colaborar com o esquema e rezar para que Ivo não assassinasse a sua neta.
O bandido veste novamente o capuz e a um sinal, toda a quadrilha sai do prédio, embarca na van e deixa a empresa sem qualquer obstáculo.
*****
Eduardo termina de calçar os tênis e ajeitar uma muda de roupa dentro da mochila. Olha em volta, para os demais pacientes que, como ele, aguardam a visita do médico para receber alta. Uma mulher com cabelos grisalhos aparece na porta e chama-o, porém, ele não se vira.
- Filho! – ela insiste.
Eduardo nem se mexe. Continua sentado na cama, com a cabeça baixa, abrindo e fechando o seu celular modelo gaveta. Sente, de repente, um toque carinhoso em seu ombro. Olha para o lado com tranquilidade e sorri sem alegria para sua mãe. O sorriso vai se apagando até se tornar uma linha fina e quase imperceptível. Enquanto a mãe lhe fala alguma coisa, o médico aparece em sua frente.
- Olá, garoto! – diz o doutor de cabelos brancos. – Vamos ver como é que estão estes ouvidos?
O médico apanha um instrumento e observa o ouvido direito primeiro. Impassível, transporta o instrumento para o outro ouvido, contorce o rosto em uma expressão de preocupação sincera e lamenta:
- A membrana do tímpano direito foi perfurada, já o ouvido interno esquerdo tem uma pequena lesão... Dependendo da capacidade de cicatrização, Dona Sandra, talvez seu filho não perca a audição. Aqui está o encaminhamento para o otorrino amigo meu. Ele vai cuidar com bastante carinho do caso do seu filho. Garotão! – estica os braços na direção de Eduardo, que procura compreender as palavras através de uma destreinada interpretação labial. – Vai dar tudo certo, pode confiar!
Em seguida, o médico toca no ombro de Sandra e encaminha-a vagarosamente para longe do garoto.
- Espero que tenha pensado na minha proposta, Dona Sandra.
- Pensei, sim, doutor – responde, abaixando os olhos.
- E então? Vai denunciar o seu esposo? – o médico fica momentaneamente esperançoso.
- Acho que não – fala Sandra, tartamudeando. – Acho que o pai dele... isto é, que ele não queria ter machucado o filho...
- Tudo bem.
O médico prescreve medicamentos e entrega a receita para a mãe de Eduardo. Despede-se de ambos, bastante contrafeito, pois pensa que o pai de Eduardo merece punição adequada.
- Mãe? Por que o pai me odeia tanto?
Sandra está distraída com a receita e o encaminhamento nas mãos e pensativa quanto à questão judicial que deve conduzir para incriminar o marido. A audição comprometida faz com que o filho pronuncie as palavras de modo estranho e ela pede que ele repita. Na segunda vez, olha profundamente para o filho, sentindo uma dor enorme ao vê-lo indefeso, desprezado, depressivo. O pai comprometera uma possível carreira de sucesso. Sandra reconhece o talento do filho e trabalha pensando na manutenção da casa e mais ainda nele. Por que Alceu provocara aquele acidente?
Intimamente, ela sabe a resposta, e agora é o filho que lhe cobra a resposta tão sofrida. Sandra tem absoluta certeza de Eduardo ser filho de Alceu, mas o marido não acredita. Imagina que o garoto é filho do primeiro namorado de Sandra, que a abandonara pouco tempo antes de Alceu casar com ela. Sandra havia aceitado casar com Alceu porque ele dizia que a amava e que queria um relacionamento sério e constituir uma família. Então, logo no primeiro mês, ela deu a notícia de que estava grávida. O que deveria consistir em momento de extrema felicidade do casal, acabou por trazer vergonha e desconfiança por parte de Alceu, que a partir daquele momento começou a criticá-la, julgá-la, maltratá-la, agredindo-a de formas nada sutis. Eduardo acabara nascendo prematuro após uma agressão física que a mãe sofrera no sétimo mês de gestação. A mãe e o garoto começaram a ter uma vida sofrida, de medo, e o pouco de sossego que podiam garantir era nos longos períodos que Alceu ficava fora, viajando. A vizinhança conhecia toda a história e, como era de se esperar, alguns condenavam Sandra, outros a defendiam. Eduardo cresceu ouvindo injúrias e desafetos, recriminações de todos os tipos pelo pai e nunca compreendeu o motivo de tanta zanga. Agora, adolescente, cheio de vida e de expectativa para desenvolver uma habilidade extraordinária no campo da música, os sonhos quase foram impunemente destruídos com a possível surdez pós-surra.
- Não sei, filho... – lamenta a mãe, incapaz de lhe contar a verdade.
- Eu preferia ter morrido, mãe.
- Não, meu filho, não faça o coração de sua mãe doer mais do que já está. Eu te amo, meu filho, nunca mais diga isso. Você vai se recuperar – e o abraça, o remorso consumindo-a interiormente.
A linguagem inexperiente com a que Eduardo teria que, forçosamente, se adaptar, trazia a mensagem incompleta: “Não-mo-fio, não-facoraço-mãe-dômaisque-te-amo-fio, nu-dio. Você-va-se-recuperá.” Porém, Eduardo sente que a mãe entende o que ele está passando. Ele levanta da cama e acompanha a mãe. Sente-se zonzo, aniquilado e sem vida. Sabe que antes do espancamento tinha a habilidade de qualificar os sons musicais de maneira pessoal e aquele futuro talvez não existisse mais. O sentimento de desejo de ter morrido continua acompanhando-o, apesar da petição de sua mãe. Está acabado. Pra que viver então?
Deixam o hospital e se encaminham ao ponto de ônibus. O mundo silencioso então começa a se apresentar para Eduardo.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário