Ivo trabalha em uma oficina na edícula da casa. É meio-dia e chove forte, deixando o dia cinzento e o local escuro. O homem prepara fiações em um pequeno aparelho, baixa o capacete de proteção e solda pequenos pontos do artefato. Quando desliga o maçarico, ouve o celular.
Alguém lhe avisa que a encomenda tinha seguido pela fronteira três dias antes e que a previsão de chegada é para as 15 horas. Ivo comunica que o pagamento pela carga estará depositado em conta tão logo receba a compra.
Ivo vai até a cozinha e abre uma garrafa de vinho. Sorri e comemora sozinho.
- Agora é que a diversão vai começar – diz, enquanto telefona para alguém.
Vinícius está no quarto depois de ter almoçado e quase tem um desmaio ao verificar o número que está chamando em seu smartphone. Suas mãos transpiram e ele precisa se conter para atender.
- A... alô... – gagueja. – Sim, Seu Ivo... não, quero dizer, eu sei... a Vera me explicou quando eu tava no hospital... mas, Seu Ivo, eu não posso fazer isso... desculpe, desculpe... não, é só que... quanto?! Cla... claro!
O pânico que o garoto demonstra subitamente se transforma em satisfação. Tanto dinheiro não dá para negar.
O garoto também sabe que caso recusasse, ele já era.
Por volta da 16 horas, Ivo recebe nova ligação. Sinaliza para um empregado pegar um molho de chaves e sai com ele de carro. Dirigem-se para uma rua lateral quase na saída da rua Benjamim Constant com a BR-101, em um galpão alugado, onde uma carreta aguardava. Ivo desce do automóvel, confere a carga e apresenta um comprovante bancário.
O empregado de Ivo abre os portões do prédio e em seguida o portão da plataforma de desembarque de carga. Enquanto isso, o motorista manobra a carreta até a plataforma, e logo em seguida, começam a descarregar caixas de chocolate. Ao fim da operação, Ivo libera o motorista.
Fecham todos os portões e Ivo ordena que o empregado abra uma das caixas de papelão, que armazena as caixas de chocolate. Ele executa a tarefa e entrega uma das caixas para Ivo, que rasga a embalagem plástica, abre a caixa e cheira o conteúdo.
*****
Vera monitora um ponto luminoso que se move no mapa na tela de seu notebook. Quando o sinal atinge a divisa PR-SC, a agente expressa um sorriso de satisfação. Digita algumas teclas em seu iPhone e logo a voz de um homem atende.
- Tudo em ordem? – pergunta. – Ótimo! Quando alcançar o km 25 da BR-101, entre na marginal e siga pela estrada que dá acesso à clínica. Há placas indicando a localização. Não pare e não fale com ninguém. Quando chegar ao destino, você já sabe. Sua gratificação já se encontra na caixa postal do correio que combinamos.
Logo que se certifica da resposta, Vera faz nova ligação.
- Sr. Alberto, por gentileza?
- É ele.
- Aqui é sua cliente da empreiteira Colombo, tudo bem? Temos que fechar o acordo sobre os explosivos pra nossa obra de demolição no...
- Desculpe, senhora, estou afastado do escritório por motivos de saúde, mas vou lhe passar o telefone do responsável que assumiu meus compromissos – responde solícito e já buscando a carteira de cartões de visita.
- Não será necessário, Sr. Alberto, porque eu não pretendo negociar com mais ninguém.
- Então, lamento, realmente não posso ajudar...
- Eu continuo confiando o negócio somente ao senhor. Pode me encontrar para discutirmos? Por favor, eu insisto!
Alberto suspira, já se irritando. Não pretendia se comprometer com qualquer negócio antes de ser liberado pela perícia a retornar para o trabalho, entretanto, aquela cliente iria trazer-lhe bons rendimentos caso fechassem o acordo. É a compradora de uma empresa de grande porte que havia procurado a empresa algumas semanas antes de seu infarto e encomendado uma tonelada de dinamite para implosões. O chefe de Alberto também havia sido claro que ele deveria fechar o negócio o quanto antes porque a empresa já contratara mão-de-obra extra, contando com aquele pedido.
De qualquer forma, não tinha condições de barganhar preço longe do escritório, e tomou a decisão de pedir que a compradora telefonasse para o chefe dele.
- Sr. Alberto, o senhor não entendeu. Eu quero O SENHOR nesta negociação, ou... prefere que eu procure as autoridades para denunciar mais uma de suas falcatruas?
Alberto fica zonzo de repente. “Afinal de contas, do que essa mulher está falando?”, pensa. “Será que faz parte do grupo que está me acusando de roubo daquela maldita carga? Não é possível!”. Diante da evidência de que ele está tratando com uma criminosa, Alberto recua.
- Está bem.
A contragosto, anota o endereço em um post it, destaca e cola dentro da carteira, junto ao documento de identidade, prepara-se e sai de carro.
Enquanto isso, Vera telefona para Castro.
- Castro, tudo bem? Recebi uma denúncia... e pretendo investigar... não... da clínica... isso... gostaria, sim, Castro, pode ser perigoso... claro, aguardo no posto Rudnick. Ok!
Vera observa o ponto luminoso em movimento constante, passando da cidade de Garuva. Fecha o notebook, guardando-o na mochila. Veste o colete a prova de balas e recarrega a pistola.
- Vamos lá, Ivo querido, seus dias de liberdade estão contados.
Coloca a mochila no ombro e segue para a viatura.
*****
O motorista averigua a quilometragem e conforme lhe fora indicado entra na marginal do km 25 e à direita na estrada Canela. Como a informante havia declarado, confirma a existência das placas que indicam o caminho da clínica e prossegue, não ultrapassando uma velocidade superior a 40 km/h. Um caminhão dessa proporção parece não chamar a atenção dos moradores como imaginara o motorista, apenas a curiosidade inocente das crianças que seguem o veículo, e que ficam para trás, envoltas pela nuvem de poeira levantada pelas rodas.
Quase 3 km adiante, o motorista alcança seu destino, estacionando próximo ao portão de entrada da clínica.
Antes de desembarcar, confere a nota fiscal endereçada à Clínica de Tratamento a Dependentes Químicos Reconstruindo Vidas Ltda. Salta do caminhão, abre o portão e caminha até a recepção.
Ricardo prontamente atende o rapaz.
- Tenho uma entrega para descarregar aqui.
- Deixe-me ver isso – pede Ricardo, examinando a nota fiscal. Afonso havia lhe alertado que logo chegaria uma carga de móveis, cestas básicas e itens de cama, mesa e banho aos cuidados da clínica. – Deve haver algum engano – constata. – Não estou esperando um carregamento de bombons.
- Engano nenhum, senhor, recebi instruções claras para descarregar esse material neste endereço.
- Mesmo assim...
- Vou mostrar o responsável pela transação – e estende o cartão de visitas de Afonso. Confuso, Ricardo resolve averiguar e sai do escritório acompanhado pelo motorista, que abre a porta traseira do baú refrigerado. Ricardo examina as caixas devidamente identificadas com seu conteúdo.
- Espere um instante, que vou dar um telefonema.
- À vontade – responde o motorista, desinteressado.
Ricardo retorna ao escritório para usar o telefone fixo, já que a área não possui sinal para celular. Afonso atende e rapidamente explica que ele havia conseguido uma doação, coisa que fez Ricardo desconfiar. De repente, ouve o motor do caminhão e ainda com o telefone na mão, observa pela janela que o motorista manobra o veículo para dentro da propriedade. Desliga e sai rapidamente, gesticulando para o homem retirar o caminhão.
- Você não vai descarregar nada enquanto eu não entender o que está acontecendo aqui!
Nesse momento, Alberto estaciona o carro na entrada perto da recepção onde havia uma vaga indicativa e vai ao encontro de Ricardo.
- Boa tarde.
- Boa tarde – responde Ricardo, tentando dissimular o desconforto da situação anterior. – Em que posso ajudar?
- Uma pessoa marcou comigo aqui, o senhor sabe se ela já chegou?
Ricardo quase explode ao imaginar que sua clínica agora se transformara em ponto de encontro, porém, tenta responder com toda educação que conseguiu recuperar.
- Desculpe, Seu...
- Alberto. – Ele estende a mão e cumprimenta Ricardo, que olha visivelmente contrariado para o homem que se aproxima. Nessa altura, a chegada do caminhão já havia se tornado alvo de curiosidade de todos os pacientes e funcionários.
- Pois é, Alberto, não há ninguém esperando pela sua chegada...
Alberto fica confuso e enruga a fronte em dezenas de filetes sobrepostos. O motorista aproxima-se e aponta:
- É esse cara que fez a compra da carga que eu trouxe.
- O quê?! – Ricardo e Alberto perguntam simultaneamente, entreolhando-se e encarando o rapaz.
- Sim, foi ele, sim. Mandaram a foto pro meu celular pra eu ter certeza, então, tudo esclarecido, vou descarregar...
- Eu não tenho nada a ver com isso! – explode Alberto, justamente.
- É bom explicar o que está acontecendo aqui, senão chamo a polícia!
- Por favor, deve haver um engano, eu realmente não sei de nada.
- Ei! Pare!
Ricardo berra para o motorista, que abrira as portas traseiras e com ajuda dos pacientes, descarregava as caixas e levava para dentro do alojamento principal.
Em meio a esse tumulto, duas viaturas de polícia chegam com as sirenes ligadas. Assim que estacionam, um homem e uma mulher desembarcam. Ricardo reconhece Castro e Vera e sente uma onda de alívio. Encaminha-se para os dois, certo de que o ajudariam a esclarecer aquela confusão.
Vera e Castro empunham as armas e Ricardo sobressalta-se. Alberto, por sua vez, encolhe-se.
- Todo mundo parado! Vocês estão presos!
*****
Renato para o carro na frente da casa de Vanessa. Passa pelo portão e observa que ela não está. Resolve esperar, porque tomara uma decisão importante e torcia para que seus planos dessem certo. Volta para o carro e reflete.
Alguma coisa nele havia mudado depois que conhecera Vanessa e Renato não sabia precisar o que era. Percebera isso quando recebeu um convite para sair com uma amiga de seu colega de trabalho. O amigo exaltara as qualidades da amiga, e era natural que Renato aceitasse a oferta. Renato surpreendeu o amigo e também a si mesmo quando negou o convite.
- Agradeça por mim – Renato ouviu-se responder. – Ela é linda e muito gostosa, mas não faz o meu tipo.
Isso aconteceu há dois dias. E naquele dia, ainda pela manhã, uma “ex-ficante” o abordou, certa de conseguir algo com ele. Renato se lembrava de bons momentos com a mulher, uma exímia companheira de cama e diferente do que acontecia antes, o contato com o corpo dela quando ela o enlaçou em um abraço apertado, nem o cheiro do perfume dela nem o olhar provocante, lhe fizeram diferença. Naturalmente sua ex xingou-o até dizer chega.
Imediatamente, tomou a decisão.
Enquanto refletia, Renato avista Vanessa subindo vagarosamente a ladeira. Carregava um pequeno pacote que parecia ser de panificadora. Ela observa o carro parado diante de sua casa e reduz o passo, só que Renato não percebe que essa atitude poderia ser de alguém com medo. Desce do carro quando ela chega mais perto.
Toda a apreensão que Vanessa sentira ao ver um carro estranho em frente do portão se desvanece quando reconhece Renato. Ela se apressa para abraçá-lo e suspira enquanto ainda está encostada no ombro dele. Como se sentia protegida quando ele estava por perto!
- Acho que comprei pouco pão, tenho que voltar – ri, mostrando o pequeno pacote. – Você me deu um susto! Não sabia que tinha carro...
- E não tenho, eu emprestei de um amigo porque pretendo fazer uma mudança...
- Mudança? Como assim? – sorri, confusa. – Vamos entrar, está me deixando curiosa...
Ela abre a porta, coloca o pacote na mesa e volta-se para Renato, que havia fechado a porta. Percebe que ele havia ficado subitamente nervoso, ansioso com algo que estava a ponto de acontecer.
- Vanessa, quero que você venha morar comigo.
- Como é que é? – Vanessa empalidece. Renato aproxima-se e segura as mãos dela. Olha-a com ternura.
- Eu... quero você perto de mim... quero dormir e acordar com você todos os dias... eu, eu... nunca pensei que isso fosse acontecer, mas eu descobri que te amo, de verdade, e te quero pra toda vida.
Vanessa emudece, mordisca os lábios, olha para os lados, suspira. Os segundos antes da resposta dela são angustiantes para Renato. Ele não esperava que ela hesitasse. Nunca tinha encontrado alguém que amasse de verdade.
- Renato, Renato – murmura –, eu já vivi anos com uma pessoa que eu idolatrava, e percebi o quanto infeliz eu era. – Ela se solta das mãos dele. – Eu gosto muito de você, acho até que também te amo... – faz uma pausa. – Mas não tenho mais coragem para viver com outra pessoa.
Renato sente-se impotente. Toda a felicidade desmorona diante dele.
- Talvez eu perca você e vou sofrer muito se isso acontecer, mas preciso deixar claro que tenho muito medo... ainda mais sendo ex-exposa de traficante desaparecido. Ontem mesmo a polícia bateu aqui e eles queriam me prender. Uma das razões pelas quais não posso sair daqui agora...
- Mas isso não é problema, a gente deixa o meu endereço com a polícia, você não fez nada.
- A polícia me considera cúmplice, Renato. Eles queriam que eu desse o endereço do Pedro, mas eu não sei mesmo o paradeiro dele, e acho até que não me importo mais...
- Então, vem comigo, por favor, eu não vou ficar tranquilo enquanto você estiver aqui sozinha.
- Obrigada, mesmo, Renato, por se preocupar. Acho que eu não sabia mais o que era isso, de outra pessoa se preocupando comigo.
Renato abraça-a com amor e beija-a. Vão até a cama, mas não fazem amor. Apenas ficam abraçados no calor do amor entre os dois.
*****
Alberto assina alguns papéis e se levanta. Ângela faz o mesmo e caminham em silêncio para o carro dela.
Chegam em casa, Alberto vai para o banho e Ângela desaba no sofá. Nunca imaginaria ter de emprestar dinheiro para tirar o marido da cadeia.
Fazia meses que Alberto estava se comportando de maneira estranha. Ele e Ângela estranhavam-se com qualquer coisa banal: atrasos, roupas, visitas, contas. As coisas entre eles estavam longe de tranquilidade e ambos escondiam segredos um do outro, às vezes, para não criar mais conflito, às vezes, por perda do hábito de compartilhar a vida um com o outro.
As visitas da colega de Alberto, cada vez mais frequentes, instigavam a ira de Ângela e, por outro lado, deixavam-na insegura. Quando fora visitar Alberto na primeira vez, encontrara também Ricardo preso pelo mesmo motivo: receptação de drogas. Estranhamente, para Ângela, fora mais fácil acreditar quando Ricardo afirmava inocência, do que confiar em Alberto, com quem convivia há anos e conhecia muito bem o caráter.
Entretanto, Ricardo parecia ter sido envolvido em uma rede de armadilhas, ao passo que o marido, as provas o diziam, era o responsável por armar todo aquele golpe, além do que já estava sendo acusado. Ângela soube somente quando ele ligou para que ela providenciasse um advogado e, naquele momento, não ter sido digna da confiança de saber antecipadamente o que acontecia com o marido abriu uma grande ferida.
Alberto termina o banho e se senta no outro sofá, curvado para frente. Nem o banho fora capaz de apagar as marcas da humilhação que causa a um homem íntegro ser preso e fichado injustamente.
- Obrigado – consegue murmurar.
- Por que não me contou antes? – pergunta, mas não espera resposta. – Podia ter confiado em mim, podíamos encontrar uma solução antes de...
- Eu sei, mas não foi por não confiar em você...
- Foi por que então? – interrompe, sem se alterar. – A Débora sabia tudo. Nela você confiou. Também não sei o que mais você confiou a ela – provoca.
- Eu nunca tive nada com ela, Ângela. Nada.
- Ah, sim, eu acredito, tanto quanto acredito no amor que vejo nos olhos dela.
- Ângela...
- Não se faça de sonso. Ela não iria se oferecer para ajudar, assim, voluntariamente. Ela gosta de você e você sabe disso. Pode até ser verdade que vocês não tiveram algo na cama, mas são tão íntimos a ponto de se trocarem confidências.
Alberto baixa os olhos, sabe que ela está certa e por mais que a ame, não lhe revelou suas encrencas.
- Quando um trai a confiança do outro, não há mais união. Sem união, não há casamento.
Alberto arregala os olhos.
- Chegamos ao fim da linha, Alberto. De agora em diante, cada um vai pro seu lado.
*****
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