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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 10º CAPÍTULO - TPM – 1ª PARTE


Raquel trabalha com estagiária no departamento de exportação de uma indústria de vestuário, e apesar de formada em comércio exterior, ainda estuda teatro, pois ama encenar.

Seu rosto anguloso bem poderia levá-la à carreira de modelo, mas a estatura não ajuda. Contudo, possui carisma e assim, inscreve-se em todo teste que aparece e mesmo que não seja escolhida, não esmorece. Seu vibrante espírito de vitória a impulsiona a acreditar em seu potencial.

Certo dia, ao passar pela portaria da universidade, um sujeito que estava distribuindo algumas senhas chamou-lhe a atenção. Logo descobriu que ele era um “olheiro” de uma empresa de teatro e estava procurando novos artistas para uma peça. Ela tomava todas as precauções antes de ir aos endereços e ia sempre acompanhada por alguém mais velho, como a tia com quem mora ou algum professor, já que sua família mora no interior do oeste de Santa Catarina.

Ao chegar ao local indicado, apanhou a ficha de inscrição com a prancheta e preencheu. Havia diversos atores tentando algum papel na peça. Todos se reuniram em um estúdio e acompanharam os testes.

O ator ou atriz encenaria o papel de um sequestrado torturado por uma milícia. Encapuzado, deveria responder às ameaças demonstrando desespero ao ser retirado o capuz. Raquel nunca havia participado de cena semelhante, mas se esforçou porque queria a ponta na peça.

Todos os testes eram filmados pela equipe e o dela não foi diferente. Mais alguns participantes atuaram e após o encerramento dos testes, a equipe reuniu todos os concorrentes novamente no estúdio informando que telefonariam para avisar a cada um em caso de resposta positiva ou não.

Raquel apanhou a ficha de inscrição e destacou o comprovante do teste. Saiu confiante como muitos dos demais atores.

Assim que os candidatos deixaram o estúdio, a equipe começou um trabalho ainda mais intenso. O cinegrafista apagou todos os testes a não ser o de Raquel e levou para a mesa de edição.

O vídeo foi editado e algumas cópias realizadas. O produtor finalizou o trabalho e telefonou para alguém.

- Pode vir buscar.

Dentro de aproximadamente meia hora, um motociclista aparecia para apanhar as cópias. Em torno de mais quarenta minutos, Ivo recebia o material.

Acendeu um cigarro, apanhou o celular e digitou um número.

- Tô com o material. Faz aí o que mandei.

Nem Raquel nem os demais nunca chegaram a ser avisados sobre o resultado do teste. O telefone que constava no comprovante de inscrição não existia. O estúdio fora desativado. A companhia de teatro era falsa.

Passara-se dois meses e o vídeo finalmente fora usado. Freitas, avô de Raquel, não suspeitava de nada e cedeu às chantagens de Ivo.

Após quinze dias da invasão da fábrica, Raquel telefona para o avô.

- Filha! Onde você está?!?

Ele expressa tanto entusiasmo com a ligação que Raquel acha engraçado, mas obedece prontamente para viajar. Chegando em sua casa após o desembarque na rodoviária, fica boquiaberta com a represália sofrida pelo avô. Sem acreditar, ela lembrou de que tudo se tratara de um truque para envolver sua família no tráfico de pasta-base de cocaína. Incrédula, Raquel não sabe como agir e aceita a sugestão do avô de permanecer escondida por uns tempos para a própria segurança.


*****


Alberto escuta o toque insistente do celular, mas devido ao efeito dos medicamentos, não consegue se mover de imediato. O som se propaga em sua mente de forma vaga e abafada, e ele custa a sair do estado de semi-vigília.

Os pesadelos ainda continuavam, mesmo que ele já estivesse com os olhos abertos, esforçando-se para recuperar os sentidos. Lembra-se com dificuldade das coisas mais triviais. “Até quando vai isso?”, pergunta-se.

“O celular”, lembra. Ergue-se e encosta-se na cabeceira da cama. Sente-se atrofiado, mal consegue esticar o braço para alcançar o aparelho. “O que a Ângela esqueceu dessa vez?”, resmunga.

“Número restrito”. Alguns pares de palavras inadequadas saltaram sem cerimônia de sua boca.
A ligação desconhecida o perturba e ele logo recorre ao calmante que o médico receitara. O peito formiga outra vez.

Enquanto ele tenta manter a calma e aguarda o efeito do medicamento, o celular chama novamente e, aflito, Alberto atende.

- Oi, Alberto – cumprimenta a voz feminina. – Estou na frente da sua casa. Posso fazer uma visita?

- Ah, oi, Débora – Alberto sente alívio e desconforto simultaneamente. – Já vou abrir, só um momento.

Ele levanta, calça os chinelos e segue para a porta da frente. Aciona o controle remoto do portão eletrônico e vê Débora desembarcar e trancar o veículo. Logo ela atravessa o portão.

- Boa tarde, como você está? – pergunta formalmente, estendendo a mão.

- Horrível – admite, apertando a mão dela. – Chega aí.

Leva-a até a sala de visitas e aponta o sofá. Débora entende o recado e senta sem se apoiar no encosto. Tenta dissimular a tensão cutucando as unhas.

- Então – começa –, como você está? Quero dizer... de verdade.

- Péssimo, já disse. O que esperava encontrar?

- Eu sempre estive do seu lado, se não se lembra... – ela ignora o sarcasmo, já conhecia o temperamento do colega e imaginava que ele a trataria daquela maneira. Ignorava totalmente seu afeto desinteressado por ele. Desde que o conhecera na empresa, tornara-se admiradora dele, entretanto, conhecia perfeitamente seu lugar e nunca se atrevera a tomar alguma atitude.

Alberto, ainda zonzo pelo efeito do calmante, especula o motivo dessa visita inesperada. Débora procura dissimular que sente atração por ele, mas Alberto já percebera há muito tempo, então mantinha contato unicamente profissional com ela. Ela é magra, muito bonita, contudo, não detém nada que o atraia. Alberto é um homem sério, que respeita a esposa acima de qualquer coisa. Outra mulher de fato não o interessa.

Sente sua cabeça leve, porém, o corpo dele parece revestido de chumbo. Ao se mover da poltrona, perde o equilíbrio. Débora prevê o acidente e levanta-se para ampará-lo.

- Espere, você tem que se deitar, vem.

Ela passa o braço dele em volta de seu pescoço e o conduz para o quarto. A preocupação com Alberto não bloqueia seu instinto. Está sendo difícil tocar nele, sentir o cheiro dele, ficar tão próxima, contudo, ela resiste. Com cuidado, leva-o até a cama, mas ambos se desequilibram, ela tropeça e cai sobre o corpo dele.

- Desculpe, Alberto, desculpe – fala, ainda sobre ele. O cabelo comprido escorrega no rosto dele e Alberto sente o cheiro dela. Não sabe se está são ou sonhando, pois tudo é nebuloso.

Ela morde os lábios, mas não se move. Fica olhando para ele em um misto de embaraço e confusão. Alberto mexe-se sob o peso dela, mas não a afasta. Débora, por sua vez, esquece todos os seus conflitos internos e beija-o nos lábios. Alberto não se esquiva e abraça-a com força, virando-a na cama.

Débora retoma consciência de seus impulsos e levanta.

- Eu... desculpe... não devia... – está totalmente sem jeito. – Só quis ver como você está...

Alberto também se levanta, mas o movimento brusco provoca nova tontura e ele volta a sentar.

- Alberto? Alberto? Tudo bem? – aflige-se. – Vou buscar água pra você...

Ainda embaraçada, Débora apanha água e oferece para ele. Quando Alberto devolve o copo vazio, ouvem uma porta se fechando.

- O que que é isso?!?

Com os acontecimentos imprevistos, eles nem notaram a chegada de Ângela. Débora, sem graça, estende a mão para cumprimentá-la, mas a esposa de Alberto não retribui o gesto.

- Que merda tá acontecendo aqui? – Ângela torna, com súbita ira.

- Na... nada – gagueja a visitante. – Eu vim só fazer uma visita em nome do pessoal do escritório...

- Ah! E tinha que ser logo você a representante da equipe? Conta outra!

- Já vou indo... com licença.

Débora baixa a cabeça e passa rapidamente por Ângela, que, desconfiada, quis tirar satisfação com o marido.

- Não acredito que essa moça teve o atrevimento de vir aqui enquanto eu não estou em casa!!! – exclama, implacável. – Não bastava a visita no hospital?

- Tá, Ângela, ela já foi, tá contente agora? Nada de escândalo, por favor! Ela só me ajudou a vir para o quarto... – justifica, ainda zonzo.

- Ah, sim, e você ficou mal justo com ela aqui dentro de casa... – ironiza. – Acha que eu sou idiota?

Alberto ignora a indignação de Ângela e como estivesse de fato com mal-estar, deita. Enquanto a esposa expurga toda a indignação com o ocorrido, Alberto flagra-se lembrando do contato com Débora. Atordoado com a própria reação, sorri interiormente.


*****


Vera veste a jaqueta de couro e ajeita o revólver no coldre. Apanha a chave do seu automóvel e aciona o alarme. Embarca, liga o motor e arranca, tudo em décimos de segundos.

No primeiro semáforo para no sinal vermelho e aproveita para estudar a análise da perícia que Castro lhe entregara. Precisa trabalhar rapidamente para realizar o serviço. O sinal abre, ela cruza e segue pela rua XV de novembro até pegar a BR101 sentido Curitiba.

Algum tempo depois, ela dá sinal para a direita, logo após a passagem pela polícia rodoviária de Pirabeiraba, e segue para o viaduto do bairro Canela. Alcança a via dupla de desaceleração e toma a estrada de chão. Deixa um rastro de poeira, pois se vê apressada em concluir sua missão. Dois quilômetros adiante, estaciona na clínica de recuperação.

Apanha na bolsa o estojo de maquiagem e faz um retoque rápido. Também ajeita o cabelo com cuidado.

Observa um cachorro aproximar-se do veículo e alguns homens com olhar curioso. Desembarca e ao primeiro morador que lhe pergunta, apresenta o distintivo. Imediatamente é conduzida até o escritório de Ricardo.

- Boa tarde – cumprimenta.

- Você aqui? O que é agora? Vem me agredir novamente? Me responsabilizar por coisas que eu não sou culpado?

Ricardo continua abalado com o interrogatório.

- Você está falando com uma autoridade – lembra. – Espero que assuma a responsabilidade pelas suas palavras.

- Do que você tá falando? Estou farto disso! Eu só quero resolver as coisas por aqui...

- Ninguém está aqui para acusar – interrompe –, mas investigar. Preciso coletar o DNA de todo o pessoal que frequenta sua clínica.

Com um gesto de desagrado, porém, resignado, Ricardo leva-a até o salão de refeições e pede para um dos enfermeiros reunir todo o pessoal.

Vera coleta as amostras, identifica-as e pergunta se havia mais alguém. Ricardo confirma que todos haviam se apresentado, e Vera, fechando a maleta com as amostras, apanha o envelope com os primeiros indícios.

- Ricardo, receberá um relatório detalhado assim que todas as amostras forem analisadas. Até logo!

Ricardo deixa Vera ser afastar e então segue para o escritório.

- Posso ver você? Por favor... – pede, ao telefone. – Tudo bem, pode ser. Vou esperar lá.

Suando frio, Ricardo desliga e retoma seus afazeres.


*****


Enquanto Vera se acomoda no automóvel, o celular toca.

- Oi, Ivo. Estou indo.

Em meia hora, entra na residência de Ivo.

- Linda!

Não é a primeira vez que Ivo lhe elogia e Vera mostra-se indiferente. Por vezes, tentara assediá-la, e ela camuflava muito bem um lado sedutor com o de leal capanga. Ivo conhece o limite, mas sempre tenta ultrapassá-lo. Esgueirando-se pelo cômodo, ele a observa com desejo. Vera sabe disso e aproveita para jogar a seu favor.

- A explosão no sítio foi bem propícia para meus planos – inicia ele, com a fala carregada por um sotaque latino. – Você foi perfeita, minha querida Vera!

Ivo aproxima-se, perscrutando as reações da agente. Paira os olhos sem cerimônia no decote da blusa por baixo da jaqueta e estende a mão para acariciar o seio. Antes de alcançar o peito, Vera agarra com força o pulso dele. Sem desviar os olhos do criminoso, ela baixa o braço dele vagarosamente para sua cintura, mensagem direta da limitação que impunha.

- Gosto disso. Linda e traiçoeira. Destemida, confiante.

- Não foi para falar de meus atributos que você me chamou aqui e eu não tenho o dia todo.

- Preciso de outro servicinho, encomenda grande...

- Desenvolve – diz, impaciente.

- O garoto da banda gosta de...

Vera ouve atentamente e sai.

Ela sente-se pressionada por todos os lados. Ivo continua com as investidas, fato que lhe causa náuseas. A Polícia Federal aguarda o relatório das últimas investigações e ela ainda precisa se oferecer novamente para a garota da banda. Ela liga para Castro.

- Missão cumprida!


*****

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