A choperia na rua Max Colin está movimentada. Garçons movimentam-se entre as mesas segurando suas bandejas como habilidosos malabaristas. A vozeria acompanhada de exclamações abafadas, gritinhos femininos, risos e gargalhadas tumultua o perfeito entendimento. Não há um só lugar vago. Os pratos, bem preparados, exalam deliciosos sabores. As bebidas que flutuam entre as bocas sedentas, misturam-se ao hálito dos casais que se beijam. Entre eles, Castro aproveita o momento de lazer com uma mulher de pele morena e cabelo cacheado.
Castro possui rosto anguloso e os olhos são de um azul acinzentado; as sobrancelhas são negras e largas, o cabelo repartido para o lado esquerdo, é liso e de um tom de cinza com preto. Está barbeado e perfumado, veste uma camisa social de manga comprida em tom verde água com finas listras em branco. A calça é tipo jeans, o sapato, social com contorno quadrado nas pontas.
- Não vamos falar de trabalho agora, querida...
- Tudo bem, amor.
Tudo indica que estão namorando, aproveitando a noite de quarta-feira. A moça suspira depois de beijada. Castro sorri, satisfeito. Um garçom interrompe o momento íntimo para servir-lhes o prato e mais uma garrafa de vinho.
Diferentemente do dia-a-dia em sua profissão, Castro demonstra romantismo. Beija a mão da garota, serve-lhe mais vinho, fala-lhe baixinho ao pé do ouvido. Faz algum convite indecoroso, pois a garota se afasta dele e ri. Depois de terminada a refeição, pede a conta, que Castro, naturalmente paga, dada a sua educação.
Dá a mão para a namorada e a conduz até um veículo azul metálico, um Xsara. Abre a porta do passageiro, ajuda-a a se acomodar, dá a volta no carro e embarca. Enquanto liga o automóvel, olha para ela com um sorriso provocante e pergunta:
- E então? Na minha casa ou na sua?
- Posso escolher? – Ela desvia-se da resposta e provoca-o, puxando a saia para cima do joelho. Usa saia com cintura alta, uma blusa tomara-que-caia, uma joia no pescoço, salto alto rubro.
- Claro.
- Na sua.
Satisfeito, manobra o Xsara e segue pela mesma rua em direção ao bairro onde mora. Chegando a sua casa, aguarda o portão eletrônico abrir e manobra o carro até a garagem. Sai rapidamente, abre a porta de sua apaixonada passageira, toma-a pela mão, beijando-a com delicadeza. Leva-a até o interior da casa e, depois de trancar tudo, continua a beijá-la.
- O senhor cometeu uma infração gravíssima ao dirigir alcoolizado – sussurra ela.
- Ah, é mesmo? E a senhorita pretende fazer alguma coisa a respeito?
- Vou cumprir a lei – continua, executando um movimento rápido e segurando as mãos dele pelas costas. – Vou prendê-lo. Duvida?
- E se eu for inocente? – retruca, em tom de malícia.
- Bem, terá que provar primeiro.
Castro vira-se e abraça-a. Seus hálitos quentes confundem-se, e a leveza provocada pelo vinho provoca-lhes sensações inebriantes. Ele aponta a escada, a qual sobem apressadamente. No quarto, a paixão se desata e longo tempo depois estão os dois abraçados e nus sobre a cama.
A garota olha para o teto, enquanto acaricia o braço másculo que cobre sua cintura. Não demonstra embriaguez, apesar de também ter bebido. Ao contrário, está atenta e quando percebe que Castro adormecera, levanta-se com bastante cuidado, veste o roupão dele e caminha pelo quarto, observando cuidadosamente cada espaço.
Sai do quarto sem fazer ruído e segue para a sala contígua, onde vê o computador. Há diversos papéis sobre uma mesa e a garota, analisando um a um, procura incessantemente. De vez em quando lança um olhar para a porta para verificar se Castro não acordara.
- Onde está? – pensa alto, mordiscando os lábios.
Esbarra no mouse e a tela do computador reacende. A moça observa o e-mail aberto que alerta Castro sobre os resultados da perícia no centro de tratamento e, minimizado, um documento anexo que detalha o caso. Um sorriso de satisfação perpassa pelo rosto da visitante e ela se apressa a imprimir o documento. A multifuncional silenciosa não se torna problema, apanha o papel e desce. Guarda-o na bolsa.
Subitamente, sente uma mão forte segurando-lhe o braço e se sobressalta. Ofegante, vira-se abruptamente e dá de encontro com Castro, que demonstra desconfiança.
- Você me assustou! – reclama. – Achei que estivesse dormindo...
- O que você está procurando em sua bolsa?
- Eu... – O susto provoca na moça um tremor incontrolável e sua boca está pastosa. – Desculpe, eu vim pegar outro preservativo...
- Ah, bom – Castro sorri e alivia a pressão sobre o braço dela. Enlaça-a e olha-a diretamente nos olhos. – Pensei que você estava indo embora sem me avisar. Não quero que você saia sozinha a esta hora.
- Esqueceu que ando armada? E depois, eu não iria a lugar algum com seu roupão... – Aliviada, suaviza a expressão e entrega-se a novo rompante de paixão.
- Fique comigo esta noite. Hum? Por favor... – ele pede.
- Fico.
Sobem ao quarto novamente. Enquanto o segue, ela tenta dissimular a preocupação e satisfazê-lo de todas as formas.
*****
Castro ergue-se de um salto da cama para atender uma chamada no celular. Enquanto ele conversa ao telefone, inquieto, desconfiado, abrindo a cortina da sacada e logo em seguida fechando o corta-luz, Vera vira de lado na cama. Apoia o peso do corpo sobre o braço direito e observa o homem seminu com interesse. Ombros largos, músculos em destaque, corajoso e inteligente, faz mesmo o seu tipo. Olhar para ele é suficiente para reacender seu desejo. Sorrateiramente, levanta da cama, se aproxima de Castro e enlaça-o pelas costas. Ele desliga o telefone, pega nas mãos dela e desliza-a pelo próprio peito, em um gesto mais de afeto do que de desejo.
- O dever nos chama...
- Algo que não possa esperar mais uma hora... ou duas? – insinua ela, beijando-lhe as costas, mordiscando os lóbulos das orelhas dele.
Ele vira-se de frente para ela pronto para negar em favor do trabalho, porém, Vera cala-o com um beijo longo e cálido.
- Talvez... – começa Castro, sorrindo espontaneamente –, possamos nos atrasar um pouquinho.
Em seguida, ergue-a pelas nádegas e carrega-a até a cama.
Algum tempo depois, ambos começam a se arrumar. Castro toma banho, veste jeans e camisa, ajeita o coldre e confere o revólver. Vera veste a roupa que usara para sair na noite anterior. Ambos saem do sobrado e se despedem com outro beijo apaixonado.
- Espero que goste de flores – comenta ele, abraçando-a com firmeza.
- Por quê? – ela ri baixinho. – Pretende me mandar flores por nosso primeiro encontro?
- Pensei que eu estava sendo criativo... – sorri, evidenciando contentamento.
- Ou romântico – afirma Vera, com voz suave. Precisa conter-se para não estragar seus planos.
- Tchau – despede-se, enquanto ela embarca no táxi que acabara de estacionar e ele fecha a porta.
- Mais tarde a gente se fala – promete.
Tão logo Vera sai, Castro embarca em sua pick-up e segue para o laboratório.
Vera, por sua vez, suspira e procura focar em suas estratégias. Seduzir Castro também fazia parte de um esquema que fora estudado meticulosamente durante meses. Enquanto o táxi trafega velozmente, driblando os outros automóveis, ela repensa na difícil tarefa de conquistar a confiança de Castro. Ele é o inimigo número um de Ivo e o profissional mais visado pela própria polícia federal. Embora nem desconfiasse do que enfrentaria, Castro está sendo monitorado minuto a minuto para impedir que suas investigações cheguem ao traficante e estraguem um trabalho que ultrapassava as fronteiras nacionais.
Vera lida com todo tipo de pessoa. Sabe jogar, enganar, é precavida e engenhosa. Por mais que fosse filha de um tenente da Aeronáutica, habituada à rigidez absoluta do pai e filha de uma mãe de família e esposa considerada ideal, jamais se deixara dominar por ninguém. Ordens, nem do próprio pai cumpria com efeito, a não ser com a recompensa adquirida: aulas de tiro ou defesa pessoal. Enquanto pai e mãe batalhavam para dar a ela uma educação de uma doce e frágil jovem, a rebeldia da garota vencia todos os seus ideais.
Seu pai pretendia que ela debutasse na sociedade carioca, contudo, Vera não se rendeu à ideia de se apresentar meiga e educada e pediu outro presente ao pai: um curso de piloto de helicóptero e jatos particulares. O pai quase enfartou e a mãe passou por um terrível desgosto.
- Por que você não vai à universidade como qualquer jovem da sua idade, tem seus namoricos, quem sabe até encontra algum pretendente e casa, hein? – argumentava a mãe diversas vezes. Como resposta, ela recebia constantemente um sonoro “nunca!”. Jamais baixaria a cabeça para homem algum como a mãe em relação ao pai.
Aos dezoito anos, já fazia sozinha seu primeiro voo e como se não bastasse, não inaugurou nenhuma nave comercial e foi logo pilotando o helicóptero blindado da força aérea brasileira. Foi perfeita e apesar do pai não querer admitir publicamente, se encheu de orgulho das proezas da filha.
Vera queria mais e mesmo submetida a missão de alto risco, não esmorecia. Após 12 anos de constantes treinamentos dentro da polícia, ela foi selecionada para uma missão secreta que dependia de competência, prudência, agilidade e sorte. Sem titubear, já mulher feita, aceitou e foi enviada aos departamentos correspondentes para ser preparada.
O exército brasileiro possuía uma estratégia paralela para evitar que o tráfico de drogas tomasse conta das grandes metrópoles e das cidades emergentes. Juntamente com a polícia federal, pretendia desmantelar uma quadrilha internacional que atuava na maior cidade de Santa Catarina, Joinville, local em franca expansão industrial e comercial, atrativa dos gigantes do mercado e menina dos olhos para criminosos em grande escala.
Vera, designada para trabalhar no DEIC da cidade por todos os seus méritos profissionais, também fora vista como oportunidade pelos oficiais. Como havia um profissional bem conceituado na cidade e a polícia federal não desejava interferências, enviou-a para deter as investigações do policial e ainda se infiltrar na quadrilha que já havia sido investigada e mapeada. Forjaram documentos falsos para Vera.
Coisa com a qual Vera não contava era a natural aproximação com o alvo de sua especulação. Ela não se apegava a ninguém, não possuía pudores sociais que as pessoas acreditavam que manchassem a imagem de uma mulher, entretanto, atração dessa maneira ela não esperava.
Contrafeita com a nova situação emocional, ela busca inspiração nos próprios ideais. Paga ao taxista e entra em sua casa para revisar os detalhes. Apanha as chaves do seu veículo e segue para o destino: o quartel-general de Ivo.
Liga do celular assim que conduz o carro para a frente do portão de aço da residência e logo o portão se abre lentamente. Estaciona o carro na garagem que escurece quando o portão volta a encostar. Apanha a bolsa e desembarca.
Encontra Ivo no sofá da sala com duas mulheres, uma em cada lado, oferecendo ora cigarros, ora bebidas. Logo que Vera surge ele manda que suas amantes se retirem.
- Aqui está – diz Vera, estendendo um papel impresso que Ivo apanha e lê com total atenção.
- Desgraçado! – vocifera. – Como descobriram tudo isso?
- Aquele sujeito que você contratou deixou pistas, mas eu garanto que depois do susto que eu dei nele na praça, ele vá cuidar melhor do que é da responsabilidade dele.
- Hum...
Ivo ergue-se da poltrona e se aproxima de Vera. Tem uma cicatriz no rosto da época em que era combatente do exército, mas ainda é atraente. Sem pedir licença, enlaça-a pela cintura e aperta-a para que ela sinta sua virilidade.
- A sua festinha particular não foi suficiente? – critica, referindo-se às duas mulheres que antes estavam com ele.
- O melhor guardei para você, gostosa...
O hálito dele recende à tequila e à maconha e já são conhecidos de Vera, bem como o potencial dele na cama. Estranhando o próprio comportamento, dessa vez, Vera se esquiva.
- Fez muito bem... – mente ela, para ganhar tempo. Depois da noite com Castro ela não está excitada nem disposta a ceder a Ivo. – Mas não tenho tempo a perder. Tenho outra missão, lembra-se?
Ela volta-se para ele e o toca, fazendo-o gemer.
- Agora...
- Não. – É decisiva. – Quer estragar tudo?
Resignado, ele se vira e faz um sinal com a mão para que ela prosseguisse.
Assim que Vera sai da casa e conduz seu automóvel de volta para a própria residência, ela se sente péssima. Quase se denunciara evitando contato com o chefe da quadrilha, mas uma emoção mais intensa vibrava dentro dela. Surpresa, ela se vê segurando lembranças do encontro com Castro e sente, pela primeira vez na vida, saudade.
Toma um banho demorado e o pensamento que vai e vem chega a lhe irritar. Afinal, o que acontecera à destemida policial Vera? Orgulhava-se por não se ater a sentimentalismos e agora se flagrava tendo saudade de um homem.
Termina o banho, veste-se e segue para o laboratório de investigações, determinada a afastar esses sentimentos que ela julga medíocres. Ao abrir a porta de sua sala, depara-se com um enorme buquê de rosas vermelhas, já dispostas em um vaso. Pretende sumir com isso, mas se detém ante a curiosidade. Apanha o minúsculo cartão em que lê: “Obrigada pela noite mais especial da minha vida. Castro”.
Imóvel, Vera, que nunca soubera o que significava chorar, sente o calor das lágrimas que descem por seu rosto.
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