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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 2ª CAPÍTULO - A COR DA AMEAÇA – 2ª PARTE




Ângela encosta seu carrinho de compras em um balcão de frutas e escolhe os legumes, verduras e hortaliças de que precisava. No balcão das maçãs, seleciona e coloca as frutas dentro do pacote plástico. Quando pega a última, coloca sua mão sobre a mão de outro comprador, que também escolhera a mesma maçã.

- Desculpe... – encabulada, ela retira a mão.

- Pegue, é sua – diz o homem, gentilmente, oferecendo a fruta para Ângela, que de tão envergonhada, cora subitamente.

- Não, não... é... imagina... você escolheu primeiro – gagueja.

- Não se preocupe, pois há muitas outras. Para mim basta o que já tenho no meu carrinho – continua.

Ângela observa o carrinho repleto de grandes quantidades de alimentos e fica imaginando que o sujeito poderia ser dono de um restaurante.

- Puxa! – exclama, erguendo suas sobrancelhas. – Sua família deve ser grande...

O sujeito observa-a com mais atenção e sorri com benevolência.

- É, até que você não está tão enganada. Eu sempre faço compras para a comunidade terapêutica da qual tomo conta, que é, por assim dizer, o prolongamento da minha família biológica.

Ângela fica em silêncio por um instante, fitando-o com curiosidade. Os olhos castanhos muito claros desse homem brilham e a luz própria atenua as pequenas rugas que se formam em sua face quando sorria. A calva inicia um pequeno vão no topo da cabeleira lisa penteada para o lado direito. Talvez pese 80 quilos distribuídos em uma altura próxima dos 1,80 m. Veste camisa polo de cor vinho com bolso, bermudão jeans e chinelos tipo Havaianas. É um sujeito totalmente normal, mas a simpatia e generosidade despertam os sentidos de Ângela.

- Muito prazer. Ricardo. – Ele oferece a mão para um cumprimento formal.

- Ah, sim, desculpe. Ângela. O prazer é meu. – Ela sai da inércia com movimentos estabanados e a maçã que ambos disputaram anteriormente rola para longe, embaixo de outro balcão.

- Espere, pego outra pra você. – Ele escolhe cuidadosamente outra maçã e oferece para Ângela, que aceita educadamente.

- Obrigada. Bem, tenho que ir andando. Tudo de bom.

- Igualmente. Ãh? Ângela?

Ela havia apoiado as mãos em seu carrinho e volta-se ao ouvir seu nome.

- Não, nada. Eu só queria memorizar o seu nome. Vou deixar o folder da comunidade terapêutica. Será bem vinda para conhecer o local. Até breve.

Ele encaminha o carrinho para outro corredor do supermercado, saindo da linha de visão dela. Ângela olha para o folder, mas na verdade não enxerga nada. Sentira atração por aquele sujeito, algo diferente de quando conhecera o próprio marido. Alberto. “Nossa, o Alberto vai me pegar às cinco!” Já passa das cinco da tarde e ela se dirige para o caixa. Sua azáfama trai todo o seu interior. Enquanto passa suas compras, olha de soslaio para o caixa onde se encontra Ricardo. Ele acena desinteressadamente e ela, por sua vez, suspira temendo as próprias reações.

Empacota tudo e segue para o estacionamento onde logo avista o marido do lado de fora de seu carro. Fuma cigarro após cigarro. Ela empalidece porque sabe que ele detesta circular de carro após às 17h30min, no horário de pico. Segue até o carro, direciona o carrinho de compras no sentido do porta-malas, vai até Alberto e ele, amuado, esquiva-se do beijo dela. Ela reconhece que aquele gesto não representa boa coisa. Quer pedir desculpas ou inventar algum motivo para o atraso, porém, reflete que se fizer isso, provocaria maior desconfiança no marido. Afinal, não cometera nenhum crime.

- Precisava comprar o mercado todo? – indaga sarcasticamente. A secura abala levemente o sistema nervoso de Ângela, que procura controlar suas manifestações de defesa.

- Na verdade, nem trouxe tudo o que falta. O mercado está lotado – responde, tentando sorrir despreocupadamente.

Guardam as compras, embarcam no veículo e mantém silêncio absoluto durante o caminho de casa. Ao chegarem, Ângela armazena os mantimentos e começa a preparar uma refeição rápida para eles enquanto Alberto vai para o banho.

Aquele clima pesado surgia frequentemente no relacionamento do casal e ameaçava uma precipitação explosiva de sentimentos. Bastava estarem alegres e satisfeitos com a união e, sem aviso, aparecia uma pequenina desavença para escurecer seus sorrisos. E a situação de silêncio perdurava, porque Alberto se afastava de qualquer desentendimento. Detestava quando Ângela começava a dizer que precisavam discutir a relação. O problema é que, agindo dessa forma, abria espaço para suposições incorretas, ciúmes, desconfianças que afetavam o ambiente familiar, fazendo com que ambos sofressem por motivos presumidos, fruto da falta de diálogo.

Ângela havia se transformado após o casamento. Por amor a Alberto, abandonara as baladas, os comportamentos levianos e atitudes obscenas. Trocara o guarda-roupa sensual por roupas mais adequadas à nova situação civil. Pensava ter acertado na escolha, pois Alberto era um verdadeiro cavalheiro, um homem trabalhador e responsável, marido fiel e zeloso e um bom amante. No início da vida a dois, ele se tornara a prioridade da vida dela. Não tinham muitas economias, mas viviam bem e satisfeitos e, durante alguns anos de convívio absoluto, alguns problemas começaram a aparecer.

Ângela é uma mulher bonita, alta e esbelta, bem arrumada, cabelo castanho escuro encaracolado, rosto bem definido. Cuidava da aparência com apurado esmero, chegando aos limites de uma espécie de compulsão. Parecia sempre saída do camarim de uma estrela, sempre perfumada, bem vestida e maquiada. Enquanto caminhava atraía olhares indisfarçados e isso a orgulhava. Arrumava-se com o objetivo de ser vista e apreciada. Sentia-se a tal. A arrogância assumida logo se percebia em seus maneirismos, diálogos, narrações. Os rapazes disputavam-na, mas ela só ficava com aquele que lhe trouxesse mais comodidade, que lhe servisse para comentários invejosos no dia seguinte.

Extremamente materialista, alimentava o desejo de ter luxo, dinheiro e poder. Oferecia seu corpo delineado sem escrúpulos e encontrava prazer nos atos mais extravagantes e lascivos. Tinha necessidade de aparecer em público, reservando toda sua energia para arrasar.

Tais características eram encontradas nela antes da união. Então conhecera Alberto e tudo, subitamente, mudara. Aquela vida desenfreada perdera a emoção e os atos delirantes que praticara envergonhavam-na. Aceitara ser a esposa dedicada, recatada e isso lhe fazia feliz. Entretanto, como Alberto era extremamente caseiro, detestava multidões e barulho, algo dentro dela ficava sempre insistindo com sugestões enganosas sobre esse comportamento. Algo que fomentava o orgulho de Ângela, dizendo que ela era muito bonita para ficar trancada em casa, que o marido não a valorizava e não a merecia. Por menor que fosse o desentendimento, aquela voz interior consumia Ângela em pensamentos negativos, egoístas e mundanos. Porém, ela tentava lutar contra tais sugestões, que ameaçavam a sua estabilidade moral.

Alberto não a esperara nessa noite. Deitara-se cedo e adormecera. Enquanto ele ressona, Ângela não consegue dormir e se frustra. Pensa em Ricardo e no encontro fortuito. O episódio da maçã fora-lhe bastante sugestivo e o corpo dela incendeia-se. Não praticara nenhum ato para desrespeitar o marido, mas não é capaz de conter seus pensamentos e necessidades físicas.


*****


Enquanto trabalha, Vanessa imagina o que teria acontecido com o carrinho de lanche. Conjectura diversas possibilidades e acaba se conformando com a sugestão de Pedro ter levado o equipamento para a oficina.

Volta para casa, come um sanduíche e cuida da roupa e do jantar de Pedro. Passa das 17 horas quando termina seus afazeres e então se prepara para sair. Ela quase não se divertia e Pedro havia concordado que ela fosse passear com algumas colegas de trabalho.

Vestira calça jeans e uma blusa leve com mangas, scarpans e acessórios discretos. Quando chega ao shopping no Centro da cidade, logo avista as colegas tagarelando na escadaria principal do estabelecimento. Ela acena, aguarda o semáforo abrir para pedestres e atravessa a rua. Cumprimenta as seis garotas, elogia seus looks e encaminham-se para a escada rolante.

- Espera, gente! – pede Márcia. – Olha aí quem vem chegando!

Todas observam o rapaz que vem ao encontro de Márcia. Tem idade aproximada de 25 anos, magro, estatura em torno dos 1,75m, cabelo negro e barba por fazer. Veste jeans, camisa e sapatos sociais, e foi logo cumprimentando a amiga com um beijo no rosto.

- Esse é o Renato, meu amigo.

Renato cumprimenta todas com um beijo no rosto e logo é assediado por uma amiga solteira de Márcia. Ele ignora o comentário atrevido e continua cumprimentando as demais. Vanessa não gosta de beijo no rosto por ser casada e estende a mão, de longe, gesto que o rapaz ignora por completo, beijando-a também no rosto. Antes de se afastar, ele observa-a nos olhos durante alguns segundos, coisa que deixa Vanessa desconfortável. Então ele se vira para as outras e pergunta-lhes aonde vão. É de se esperar que a amiga da Márcia, que logo de cara havia se interessado pelo moço, convide Renato para fazer um lanche com elas. Vanessa pouco gosta dessa inoportuna presença, mas precisa ceder por pura educação. Ela deixa que as outras subam na frente. Renato conversa com a amiga, mas lança olhares especulativos para Vanessa, que sente vontade de ir embora antes mesmo de chegar.

Uma das amigas resolve entrar em uma das lojas de departamentos e todas seguem-na. Vanessa prefere ficar para trás, disfarçando interesse por uma peça de roupa.

- Pode levar, vai ficar perfeito em você.

Ela vira-se abruptamente na direção de voz e flagra Renato sorrindo para ela. Olha-a diretamente nos olhos outra vez, e Vanessa se afasta sem responder. Procura as amigas e inventa que recebeu uma ligação e precisava voltar para casa. Todas lamentaram, mas não se opuseram. Vanessa despediu-se delas e saiu apressadamente do shopping.

Ao chegar à sua casa, vê que o carrinho de lanche está no lugar e se tranquiliza. Imagina que Pedro já está dormindo, pois a casa está às escuras. Sorridente, vai até o quarto, mas a cama continua arrumada do jeito que ela deixara. Procura-o pela casa e como não o encontrasse, sua preocupação aumenta.


*****


São 23 horas e Ricardo acaba de apagar as luzes de seu quarto. Apenas pensa em orar a Deus em agradecimento por mais um dia, é interrompido com as batidas insistentes à sua porta.

- Seu Ricardo! – alguém chama.

Em um pulo, Ricardo levanta-se e abre a porta. Está com cara de sono e fica de mau humor.

- O que foi?

- Seu Ricardo, desculpe, mas o senhor precisa ver uma coisa.

Nessa altura, Ricardo perde totalmente o sono. Segue o rapaz que o buscara pelo facho de luz da lanterna que segura.

- Por que não acendem as luzes? – resmunga, após ter chocado a perna em algum móvel.

- Não dá pra ver... tem que ser no escuro.

- Se isso for alguma brincadeira, todos vocês vão se ver comigo – resmunga, continuando atrás do garoto, que caminha para o lado externo do alojamento principal.

- Garanto que aqui não tem ninguém querendo rir, Seu Ricardo...

- Mas... pra que tanto mistério? – Essa expectativa provoca o sistema nervoso de Ricardo, que não tolera brincadeiras de mau gosto e detesta que testem sua paciência.

- Olhe o senhor mesmo.

O rapaz ilumina a parede do alojamento, revelando palavras escritas com tinta fosforescente. Ricardo coça a cabeça e gela. Imagina tratar-se de uma brincadeira sem graça de algum deles e se enfurece. Começa a esbravejar, o que atrai mais pessoas para o local.

- EU QUERO SABER QUEM FOI O IRRESPONSÁVEL QUE FEZ ESSA MERDA AQUI! – Ele olha de um em um na escuridão e move-se com extrema impaciência. – VAMOS! NINGUÉM AQUI É MACHO O SUFICIENTE PRA ASSUMIR ESSA PORCARIA?

Todos permanecem em silêncio, sem compreender. Ricardo continua vociferando, julgando e condenando antes mesmo de analisar os fatos. Saindo da inércia, um dos dependentes químicos em tratamento anuncia:

- Depois dessa eu não fico mais aqui!

A afirmação provoca um estado nervoso nos demais e todos murmuram, repetindo que desejam ir embora. Ricardo, por sua vez, cede o lugar da sua cólera para um abatimento lúgubre. A barba por fazer e o cabelo desgrenhado dão-lhe maior ar de prostração.

- Escutem. – Desta feita, ele pede com educação. Sente-se como que desfalecendo após um mal súbito. – Vocês não podem abandonar o tratamento, estão quase todos vencendo a dependência. Eu lhes peço: não façam isso...

- Temos medo, Seu Ricardo – adianta-se um jovem galego. – Isso aí na parede parece coisa de filme de terror.

- Israel, entendo seu medo – fala, afagando o ombro do garoto. – Mas você se lembra de como chegou aqui e percebe como está hoje?

- Eu sei, mas...

- Não decepcione as pessoas que confiaram em você, cara – argumenta, calmamente. – Eu sou uma delas.

Israel baixa os olhos e tenta balbuciar alguma queixa que não consegue articular. Pensa melhor e acha que Ricardo tem mesmo razão.

- Eu não vou me entregar, Seu Ricardo – declara depois de alguns segundos.

- É isso aí, garoto! – comemora Ricardo.

Em seguida, ele pede desculpas por todas as acusações que fizera minutos antes. Em um gesto de confraternização, os quase cinquenta homens dão as mãos uns aos outros. De qualquer maneira, Ricardo decide chamar a polícia para investigar, pois essa frase pode representar claramente uma ameaça. “Mas por que razão?”, pensa Ricardo, enquanto lê e relê a inscrição dezenas de vezes:

“QUEM PERMANECER AQUI VAI MORRER.”


*****


É quase meia noite quando Vanessa acorda devido ao rangido da porta da cozinha, que dá acesso à garagem. Mesmo com toda a preocupação por não ter visto o marido o dia inteiro, fora vencida pelo cansaço e adormecera enquanto o esperava voltar para casa.

Ele entra no quarto escuro e começa a despir-se. Vanessa observa nele um brilho alaranjado que corta o ar em riscos rápidos, acompanhando os movimentos dos braços apreensivos.

- Oi, amor – fala sonolenta.

- Desculpa, não queria te acordar – responde ele, enquanto se deita. E para amenizar: – Quis chegar mais cedo, mas o negócio tava bombando hoje...

- Que bom! – faz ela, com interesse. O carrinho tava em casa quando eu cheguei do shopping... onde é que você tava?

- Eu... ah... fui até o mercado comprar os itens dos lanches...

- Ah, é verdade. Tinha me esquecido. Trabalhou com tinta hoje? – pergunta despretensiosamente.

- Tinta?! – Ele emudece e demonstra ter prendido a respiração. – Ah! Quase ia me esquecendo, é que fui fazer teste pra um emprego hoje à tarde. É num negócio que trabalha com sinalização de trânsito.

Vanessa não percebeu o pigarro nervoso no fundo de sua garganta e, crédula, parabeniza o marido por tamanha energia.

- Finalmente você vai conseguir um emprego fixo! – alegra-se, arrimando o corpo no dele. – Isso merece uma comemoração, não acha?

Aliviado, Pedro enlaça-a e fazem amor.



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