Alvorece e a claridade tênue que se espalha pelo quarto desperta Alberto. Confuso, observa o relógio, imaginando que dormira demais. Senta na cama, boceja e esfrega o rosto. Sente a saliva amarga e adstringente. Observa Ângela deitada com o rosto para o lado de fora da cama, toda encolhida. Parece doente e seu estado causa uma súbita preocupação em Alberto. Toca na cabeça da esposa e verifica que sua temperatura parece mais alta que o normal.
- Me deixa... – ela sussurra, embora não tivesse acordado.
- Vou buscar o termômetro.
Alberto vai até o banheiro, lava o rosto, observa as olheiras profundas produzidas pela noite mal dormida, apanha o instrumento dentro do armário e volta para medir a temperatura de Ângela. – Só um pouquinho, querida... – Ele afasta o cobertor e instala o termômetro na axila. Aguarda o tempo necessário e verifica que a esposa tem febre. – É melhor você tomar um antitérmico.
- Me deixa... – balbucia, delirante. – Me deixa morrer...
- Faz um esforço, meu bem. Levanta. Vou ajudar você a se vestir e vamos ao pronto-socorro.
- Não quero... não consigo... – explica. Ela mal consegue manter-se sentada na cama e Alberto fica ainda mais apreensivo. Veste-a com um conjunto de moletom, levanta-a e ampara-a para caminhar até a poltrona. Em seguida se veste e leva-a até o automóvel. Acomoda-a no banco, coloca-lhe o cinto de segurança, sempre preocupado com a prostração que a domina.
- O que você tá sentindo? – fala com doçura.
- Tô fraca...
Leva-a até o P.A. Norte, deixa-a sentada em uma cadeira na primeira fila e preenche a ficha de atendimento. Impacienta-se com a demora e, quando finalmente chamam-na para a triagem, irrita-se com a enfermeira, que pretende impedi-lo de acompanhar a esposa.
- Você não tá vendo que ela não tem nem condições de andar? – esbraveja. A enfermeira pensa melhor e autoriza o acompanhamento. Ângela mantém a cabeça apoiada no ombro de Alberto, bastante debilitada. Após duas horas e meia, vão até o consultório e o médico a examina e diagnostica amigdalite. Prescreve injeção e medicamentos e libera-a.
Depois de mais quarenta minutos de espera para a injeção, Alberto e Ângela voltam para casa. Ele leva-a no colo até a cama, ajeita as cobertas e vai preparar algo para comerem, já que se aproxima do meio-dia. Telefona para a loja, avisando que ela não irá trabalhar.
Alberto leva a refeição para a esposa, que não tem apetite, porém, esforça-a para se alimentar. Ajeita os travesseiros e oferece sopa às colheradas até que ela termine o prato.
- Ângela, me escute. – Ela evita olhar para ele, mas Alberto, dotado de extrema paciência, afaga o cabelo e o rosto dela. – O que houve para você ficar desse jeito? Eu sei que você queria meu carinho ontem à noite e você sabe que eu te amo.
Ela engole em seco e morde o lábio inferior, tentando conter o choro. A debilidade física e emocional lhe esgotara demasiadamente e ela não tem força para replicar.
- Meu amor, eu sei que eu não sou aquele cara que você espera. Eu sei que você tem vontade de sair, de se divertir, mas é o meu jeito preferir o nosso cantinho. – Ele sorri compreensivo. – Não é bom ficar aqui juntinho, só nós dois, na nossa casa? Você não precisa mais se exibir, pois eu já encontrei você e não quero que você se arrependa de ter ficado comigo...
Ângela solta as primeiras lágrimas. Não esperava que Alberto lhe tratasse tão bem e o arrependimento começa a puni-la.
- Nunca subestime o meu amor por você, querida. Você sabe que é tudo pra mim. Se nosso relacionamento fosse como um projeto, você seria minha estrutura. Não fica assim – os soluços sacodem o peito dela e Alberto abraça-a, enquanto aguarda a vazão de sua tristeza. Afasta-a delicadamente e aponta para a própria aliança. – Veja, isso aqui é um orgulho pra mim, eu não uso isso aqui por bobagem. Quero envelhecer ao seu lado.
- Alberto, eu... é que eu me senti tão desprezada. Parece que você nunca repara em mim.
- Você me faz de gato e sapato quando quer – responde ele, em tom de brincadeira. – Qualquer dia desses, você vai me virar do avesso!
As lágrimas são entremeadas de risos e Ângela melhora de saúde.
- Me desculpe, vai...
Abraçam-se e ela também se desculpa pela agressividade da noite anterior. Reforça que o ama e que não quer perdê-lo, e ainda que procurará se tornar mais paciente, compreensiva e controlada. Agradece a preocupação e o cuidado que ele tem por ela, coisa que ela ignorava até então. Reconhece que as dificuldades de seu destempero emocional provocam aquele clima de distanciamento, e salienta que jamais se arrependerá por ter casado com Alberto.
- Eu estava tão bonita ontem... – lamenta.
- Não, você não estava bonita – retruca Alberto, sobressaltando-a. – Você é bonita, ou melhor, você é linnnndaaaa todo dia!
Enlançando-a pela cintura, Alberto beija-a ardentemente. De repente, lembra que ela não está totalmente recuperada da febre e interrompe o momento de paixão.
- Desculpe... você precisa melhorar mais um pouco...
- Mas... mas eu tô me sentindo bem...
- Xiii – ele cala-a com carinho. – Temos o dia todo e a vida inteira para ficarmos juntos. Vem, deita aqui.
Ângela contesta a interrupção, mas o aconchego do peito do marido a desarma. Suspira e logo adormece.
Alberto beija sua fronte e permanece com ela, satisfeito por terem se entendido novamente. Por outro lado, imagina que a falta ao trabalho poderá provocar um incidente no dia seguinte. De qualquer forma, agiu conforme seus princípios, pois valoriza a família, colocando-a em primeiro lugar.
*****
Vera desembarca de um automóvel em frente de um prédio no centro da cidade. Ajeita os óculos escuros que cobrem grande parte de sua face morena e, em seguida, caminha até a portaria do estabelecimento que está fechado a essa hora, pouco depois das dez da manhã.
Toca o interfone. Não recebe qualquer resposta e tenta novamente. Desta vez, uma voz impaciente é ouvida pelo aparelho:
- Atendimento de fornecedores somente a partir das três da tarde!
- Não sou fornecedora. Sou compradora – afirma, tranquila e segura de si.
- O que quer? – A voz masculina não demonstra real interesse, avalia Vera. Levanta os óculos e fixa-os no cabelo.
- Oferecer a você um excelente negócio.
- Entre.
Um sinal de alarme soa, destravando a porta, pela qual Vera adentra. No primeiro momento, o contraste entre a luminosidade da rua e a escuridão dentro do prédio provoca em Vera uma sensação de desconforto. À medida que os olhos se acostumam, é possível visualizar o ambiente e o homem que se aproxima.
- Do que estamos falando? – O sujeito parece cauteloso. Observa a visitante com cuidado, explorando cada detalhe de sua silhueta elegante. Vera usa uma micro-saia jeans, blusa com decote profundo, saltos altos e movimenta-se de forma provocante e sedutora.
A garota aproxima-se do rapaz bombado. A camiseta justa mostra os bíceps salientes e o tórax desenvolvido, e a calça jeans apertada oferece um convite a um relacionamento mais próximo. Ela anda em círculos com uma bolsa no ombro nu. Seu olhar lança a promessa de prazer absoluto.
- Tenho uma proposta imperdível para você...
- É mesmo?
- Gosta de dinheiro?
- Quem não gosta... – fala ele, provocante. – Vamos, estou ansioso.
O rapaz segue para o bar e convida-a para sentar na frente do balcão. Enquanto ela se acomoda, dá a volta e prepara um drinque. Vera aceita de bom grado, bebericando um pequeno gole.
Você prometeu ajudar certa garota a se lançar em troca de um determinado valor.
- Anda bem informada. E o que isso tem a ver com você? – pergunta, subitamente interessado.
- Ofereço o dobro para que você impeça o show dela.
O proprietário do estabelecimento ouve a argumentação da garota com atenção. Já imaginava que a garota da banda não conseguiria levantar o dinheiro que ele exigira e também não estava nem um pouco disposto a abrir a casa para uma banda anônima. Topa o trato com Vera e esta imediatamente lhe paga a soma prometida.
- Como faço pra encontrar você? – indaga, bebendo seu conhaque.
- Eu apareço, pode esperar.
- Fechado.
Vera sorri, apanha sua bolsa e se dirige para a porta de entrada. Volta-se para ele e fala:
- Desculpe, esqueci de pagar meu uísque...
- É por conta da casa! – exclama, sorridente.
Vera dá as costas, abre a porta e sai. Satisfeita, entra no veículo, pois mais uma parte de seu plano tinha sido concluída.
Enquanto o promoter conta e reconta o dinheiro obtido sem qualquer esforço, lembra-se da garota que o procurara dias antes. Estéfanie é bonita, interessante, determinada, tem um corpo que o seduzira no primeiro instante. Alimentando pensamentos obscenos em relação à adolescente, o sujeito resolve aproveitar-se duplamente da situação.
Estéfanie copia a matéria passada no quadro quando percebe a vibração de seu celular. Discretamente pede licença para sair da sala e atende a ligação.
- Quando é que você vai dar o sinal pelo show?
- Quê? Como assim? – Estéfanie confunde-se com a estranha voz.
- Se liga, garota! Você veio me procurar pra eu lançar a sua banda e o combinado foi você me dar o sinal. Caso contrário, não posso me mexer pra fazer propaganda.
- Cara, tá viajando? Ninguém acertou nada naquele dia... – Estéfanie está perplexa, mal consegue raciocinar.
- Você não lembra que assinou uma promissória com o valor que vou cobrar de você? Já tá vencendo o prazo.
Ela aspira profundamente. Realmente havia assinado um papel, mas não lembra se aquilo se referia ao pagamento antecipado, pois o promotor de eventos não havia explicado o caso com exatidão, apenas fornecera esperanças para ela.
- Olhe, eu desisti – ela responde, apreensiva. – Os meus pais não me autorizaram, apesar de eu ser maior de idade. Eu já ia ligar pra avisar você.
- Quê? Vai me fazer de palhaço? Você pensa que está falando com quem? Já tô com os folders prontos pra distribuir – ele mentiu, contradizendo-se. – A vinheta nas rádios também está pronta. A ponta nos principais jornais tá pra sair. TUDO ISSO CUSTA DINHEIRO E EU PRECISO RECEBER! – ameaça.
- Mas...
- Quero meu dinheiro!
- Mas eu não tenho! – ela começa a se desesperar.
- OU VOCÊ ARRANJA O DINHEIRO OU VOU COM A POLÍCIA ATÉ A SUA CASA PRENDER OS SEUS PAIS POR ESTELIONATO!
- Meus pais? Não, por favor! Eu... dou um jeito. Mas não mete meus pais nessa enrascada, por favor! Não tem alguma maneira de eu pagar as despesas sem envolver meus pais? – ela está assustada.
O sujeito sorri, vitorioso. Articulara o plano e chegara até o ponto em que desejara. A menina tinha mordido a isca. Ameaçou mais um pouco para manter a pose de superior e quando percebe que ela está totalmente acuada, oferece para que ela trabalhe para ele no bar da danceteria.
- Desse jeito vou levar anos pra pagar – lamenta. – E os meus pais arrumaram emprego pra mim, de domingo a domingo. Eles não me deixam mais sair de casa. Como é que eu vou poder trabalhar pra você?
- Te vira, garota! Ou isso, ou a polícia!
O promoter desliga o telefone e Estéfanie treme dos pés à cabeça. Chorar não consegue, tamanho nervosismo a domina. Subitamente, uma mão amiga toca seu ombro.
- O que você tem, Fan? Tá gelada.
- Peter. – Estéfanie suspira a agonia de sua desventura. Precisa desesperadamente desabafar com o amigo Eduardo, que está fora de área há um tempão. Em Peter, porém, não tem confiança.
- Não, não é nada. Só uma dor de cabeça forte.
- Preciso conversar com você. Que tal se você for almoçar na minha casa?
- Peter... – ela duvida do interesse inesperado.
- Nada de mais, eu só quero que você me fale mais sobre seus planos pra gente tocar.
- Olha, é muito bom da sua parte procurar conhecer isso, mas é meu primeiro dia de trabalho e eu não posso me atrasar, senão meus pais vão ficar ainda mais estressados. Deixa pra outro dia...
Peter olha bem nos olhos da garota e fala de forma suave, porém, severa, que Estéfanie havia se tornado egoísta com os progressos da banda. Exige sutilmente que ela compartilhe os projetos da mesma forma que o faz com Eduardo. Argumenta que também faz parte da banda, que não é apenas um baixista e que também alimenta o sonho de fazer carreira na música.
Estéfanie expira o pouco ar que circula em seus pulmões num gesto cansado e com prostração. Demasiadamente preocupada com o andamento de suas pretensões artísticas, que nesse momento, foram acorrentadas com grilhões de pedra indestrutível, ainda há a ameaça do promotor de eventos para resolver e Peter cobrando-lhe companheirismo sob o aspecto profissional. Sente vontade de gritar com Peter para que ele a deixe em paz. Entretanto, dado seu profundo desânimo, aceita o convite para o almoço.
- Beleza! Vou cozinhar um macarrão do tipo pra nós!
Voltam para o final da aula que assistiam, apanham as mochilas e seguem para a casa de Peter. Preparam a refeição enquanto conversam e logo após almoçarem, continuam falando a respeito dos planos que Estéfanie tem. Ela sugere convocar uma reunião com o grupo para então contar-lhes o que de fato provocara, procurando o promotor de eventos. Liga para Eduardo, o que deixa Peter irado de ciúme.
- Oi, Edu! Edu? Quê? Por quê?
Confusa, Estéfanie atende o pedido de Eduardo, que diz, com a voz bastante engrolada, que ela envie uma mensagem. Escreve: “Reunião amanhã na casa do Peter às 12:00 h.” Por sua vez, Peter pensa: “Que droga! Ela não me enxerga!” Lembra-se do bilhete e fecha a cara, contrariado.
- O que foi, Peter? – Estéfanie repara que ele ficara subitamente aborrecido.
- Nada, não – ele começa, mal-humorado. – É só que eu acho que você devia olhar pro lado, porque a banda não é formada só por uma pessoa importante... – Peter arrepende-se no mesmo instante pelo que falara, pois acabara revelando o que lera no bilhete.
- Como assim? – Estéfanie franze as sobrancelhas em atitude de defesa. Ele repetira as palavras que ela escrevera em um papel para melhorar a autoestima de Eduardo. – Peter! Quando é que você vai parar de cuidar da vida dos outros? – exaspera-se. – Tá na hora de você crescer, garoto! – Levanta-se, apanha a mochila e vai a toda para a porta, mas para abruptamente e olha na direção de Peter. – Outra coisa: a reunião tá cancelada. Obrigada pela gentileza de me convidar para o almoço, mas agora decidi que, caso eu continue com a banda, chegou a hora de substituir o baixista.
Sai sem ouvir a resposta e Peter se debruça na mesa de centro, resmungando a sua derrota.
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