"Para não perder a rota, é necessário seguir um caminho; se não puder desviar das pedras, ajunte-as e forme uma calçada sedimentada por palavras."
ENGRENAGEM DO CRIME – 1ª CAPÍTULO - O SABOR DO XIS-SALADA – 3ª PARTE
Vinícius espreguiça-se na cama, coloca os pés para fora, esfrega energicamente a cabeça e, sentindo um súbito mal-estar, apressa-se a ir ao banheiro na outra extremidade do corredor. A boca está azeda e seca, a cabeça dói, o aparelho digestivo desregulado se agita após um período razoavelmente longo de jejum alimentar. Lava o rosto e enquanto tenta resistir à zonzeira que lhe acomete, escuta sua mãe chamá-lo para jantar e fica ainda mais confuso. “Como que ela quer que eu vá jantar se eu ainda nem tomei o café da manhã?” Volta ao quarto e vê que está escuro lá fora. “Mas que dia é hoje?”, pergunta-se, incapaz de raciocinar. Tecla o celular e olha a data e o horário: sábado, 18h30min. Nada parece fazer sentido. Caminha com dificuldade até a cozinha e se senta à mesa. O cheiro da comida parece-lhe agradável e desperta seu apetite. A mãe enche-o de mimos, ao passo que o pai, distraído, mastiga seu alimento.
- Filho, como foi o show ontem? – o pai sai do silêncio absoluto e puxa conversa.
- Foi super irado, pai! – responde Vinícius, animado. – Os caras são fera!
Em sua linguagem extremamente informal, descreve a apresentação da banda, da qual é fã. Depois comenta que ele e os companheiros da Engrenagem estão procurando um empresário que facilite a estreia da banda em alguma balada da cidade.
Sua mãe, orgulhosíssima, parabeniza-o e garante total apoio. Após o término do jantar, informa-lhe que Estéfanie telefonara enquanto estava dormindo.
- O Eduardo e o Peter também ligaram – continua.
- Ah, decerto vamos ensaiar. Vou ver o que eles querem...
- Um minuto! – Vinícius havia se levantado, mas volta a sentar. Percebe que seu pai não parece nada satisfeito. Quando lhe pergunta o que seu velho quer, este deposita sobre a mesa o que restara de um baseado. – Isto foi encontrado no bolso de sua bermuda. Como você explica isso, filho?
Vinícius sobressalta-se quando vê que tinha esquecido o cigarro no bolso e tenta se defender, argumentando que desconhecia aquele troço e não tinha a menor ideia de que jeito aquilo viera parar em sua roupa. As explicações ambíguas do garoto não convencem o pai, que resolve castigá-lo proibindo-o de sair de casa.
- Pai, você não pode fazer isso com um futuro artista! – protesta. – Depois, eu já tenho dezoito, portanto, sou maior de idade...
- Maior de idade e ainda no ensino médio – recomeça o pai, extenuado com os protestos –, você deve aprender que ter dezoito, vinte ou trinta anos pouco importa se você mesmo não desenvolver seu caráter e assumir as responsabilidades pelas atitudes que toma. A vida é sua, viva como quiser, mas entenda que eu, na qualidade de seu pai, tenho a obrigação – discorre, enfatizando as últimas palavras e repetindo-as –, obrigação de alertar pra você não se meter em fria.
- Que fria que nada, pai! Chega de mijada, tá? Não sô mais criança. Além disso, tô com uma puta dor de cabeça... tá sendo injusto!
Enquanto Vinícius debanda da cozinha, resmungando, o pai balança a cabeça, preocupado. Andava desconfiado a algum tempo de que o filho está se envolvendo com drogas e deduz que só podia ser culpa das companhias daquela banda barulhenta, cujo som irritava seu gosto musical, que preferia um bom “sertanejo raízes”. Ouve a porta do quarto do garoto ser batida fortemente em sinal de insatisfação com o castigo e alimentou a esperança de que o filho mudaria de comportamento após o afastamento daquelas péssimas influências. A esposa, até então calada, murmura algumas palavras amenizadoras e começa a recolher a louça do jantar.
*****
Peter é o único que não toma bronca pelas trapalhadas da noite anterior. Pudera, seu pai e sua mãe haviam viajado para uma cidade do interior de São Paulo para mobiliar a casa onde passarão a morar e o garoto está largado em casa, sossegado e livre para aprontar quando bem entender. Os pais bem que tentaram persuadi-lo a se mudar, mas ele negou terminantemente, alegando que podia cuidar de si mesmo.
- Ah! Tem também nossa banda... – lembrou aos pais no dia em que eles optaram pela mudança de cidade.
Passa das 19 horas e Peter telefona para Estéfanie e insinua que deseja ficar com ela essa noite. Ele gosta dela pra caramba, mas é muito vacilão quando se trata de azarar a gata. Acaba levando o maior fora dela, que avisa que não pode sair de casa. Indignado, desliga o telefone, cogitando se aquela história de castigo não passava de pura desculpa para evitá-lo. “No mínimo, a gata tá de rolo com outro”, fantasia, mal-humorado.
Já está quase telefonando para Eduardo, mas nem se arrisca, porque sabe que o pai do cara não é brincadeira. No mínimo, tinha enchido o filho de porrada depois de ter sido convocado pela patrulha para recolher o amigo da rua. Com Vinícius Peter não quer muita conversa, porque o cara só se mete em furada e ferra todo mundo.
Em um estado crescente de irritação, Peter liga o aparelho de som no volume máximo, tocando um funk de baixíssimo nível. Podia convidar alguns amigos e dar uma festa, mas está sem inspiração. Aí lembra que Vinícius o convencera a cheirar um negócio irado e ele se sentiu a mil. Procura ligeiramente o papelote que tinha sobrado e, nessa empolgação de arranjar uma curtição para o final de semana, acaba desperdiçando o “pó mágico de alto astral”. “Que ideia mais besta!” julga, repetindo as palavras que inventara na hora para caracterizar a eficácia do pó estimulante. De repente, sente como se algo dentro de seu organismo ameaçasse se romper ao lembrar a sensação experimentada ontem. Sente urgência por aquele bem-estar passageiro que aparentemente beneficiará seu organismo.
Sôfrego, Peter desliga o som e só então ouve o telefone tocar. Quando atende, foi como se Vinícius tivesse adivinhado seus pensamentos. Do outro lado, mesmo de castigo como acabara de informar, Vinícius tinha seus truques e é bem de uma “mágica” assim que Peter precisa nesse momento para aliviar a tensão e afastar o baixo astral causado pela solidão.
*****
São aproximadamente 21 horas quando Vanessa termina seus afazeres domésticos e resolve sair para encontrar o esposo na Praça do Bosque, onde ele prepara e vende lanches rápidos a R$ 0,98. Arruma-se um pouco, disfarçando as manchas que aparecem nos olhos e sobe a rua Inambu até o ponto mais alto. Depois desce pela escadaria e segue até a praça.
Ao longe, Vanessa avista Pedro atendendo os fregueses – garotos menores de idade na maioria, e sente uma pontada de arrependimento, pois ele está lá se dedicando, trabalhando honestamente. Um serviço informal, verdade, mas ajuda no orçamento doméstico, embora no início faturasse mais. Ultimamente carrinhos muito mais equipados, como vans adaptadas com fogareiro e chapa, tomam espaço. Seu marido ainda monta uma barraca e prepara tudo com um carrinho de empurrar.
- Oi... – cumprimenta, com um pouco de receio e pudor.
- Oi! Chegou bem na hora de me ajudar – alegra-se, como se nada tivesse acontecido.
Ela está exausta depois de meio período na costura e mais meio período na faxina da casa, mas se prontifica a ajudá-lo com o preparo dos xis-saladas. Vanessa então procura o avental, prende o cabelo e calça as luvas plásticas descartáveis, recomendações de Pedro, que sempre se compromete com a higiene.
- Isso mesmo, minha linda! – elogia, como se tivesse lido os pensamentos da esposa.
Trabalham ainda por quase duas horas até que o último lanche é vendido. Enquanto Pedro guarda os materiais, Vanessa senta no banco um instante para descansar e fica pensando em tudo o que ocorrera na madrugada anterior. O marido tem mesmo essa capacidade de esquecer as desavenças. Ela, ao contrário, remói as mágoas, se iludindo ao pensar que a autocompaixão pode beneficiá-la. Estranhamente se sente culpada por ter provocado aquela briga. Cobrava dele mais ajuda no serviço doméstico, pois ela andava cansada e abatida com a dupla jornada.
Ela e Pedro moram juntos há quase dois anos. Formam um belo casal e se compreendem mutuamente. Vanessa jamais poderia imaginar que ele chegaria a agredi-la fisicamente na primeira contrariedade. Sente-se confusa e desiludida, pronta para dizer que não quer mais morar com ele. Entretanto, observando o marido, que age naturalmente, procura ver onde ela própria errara.
Enquanto se condena, Vanessa observa dois garotos se aproximarem de Pedro e cochicharem ao seu ouvido. Pedro, apesar de já ter guardado tudo, continua falando com os dois e de vez em quando olha em volta com preocupação. Cautelosamente retira do bolso do jaleco minúsculos embrulhos e entrega um para cada garoto. Vanessa não dispõe de ângulo para perceber que Pedro recebera algumas notas em troca, mas ficara curiosa e resolve se aproximar. Os garotos somem na rua escura quando ela aparece ao lado do marido.
- O que eles queriam? – pergunta, casualmente.
- Queriam lanche, mas expliquei que já tinha acabado – seu tom é ríspido e não encoraja novas indagações. Vanessa decide esquecer o assunto. – Vamos indo.
- É verdade, precisamos estrear o DVD.
Ela acompanha o marido, que empurra o carrinho em silêncio durante o trajeto, dando a volta em outra rua porque o carrinho não tem acesso por meio da escadaria. Quando chegam em casa, Pedro se ajeita na cama e adormece imediatamente. Vanessa troca de roupa e, fatigada, também cai no sono.
*****
Ângela espia pela janela da cozinha os fundos da casa do vizinho, de onde se propaga som alto desde a madrugada, uma mistura de música eletrônica com pagode e funk, ritmos que Ângela desconsidera, pois era fã de pop rock. Os vizinhos são pessoas de respeito, mas ela soube que haviam conseguido trabalho em outra cidade e se arrepia em pensar nos transtornos que enfrentaria com a música ensurdecedora que o filho do casal – um rapaz de 17 anos, aprecia e faz questão de compartilhar com todo o quarteirão de moradores.
Contudo, o som é o que menos aborrece Ângela, que vive preocupada com suas ambições, anseios, desejos íntimos. A monotonia dos afazeres domésticos desmotiva-a, pois não se sente recompensada. Anseia trocar esse marasmo por algum entretenimento, como uma viagem ao lado do marido, saírem juntos para experimentar algum prato diferente em um restaurante da moda, marcarem presença em alguma choperia, frequentarem o cinema. Ele, entretanto, não se importa com a vida social. Ângela, por sua vez, almeja luxo e riquezas, sonha com bens e prestígio, quer conforto e ostentação acima de tudo. O casamento mudara sua vida, porque ela ama o marido e ele sempre está presente nos seus sonhos mais extraordinários. Espera também acolhimento nos braços do companheiro a quem jurara fidelidade, amor, compreensão, tanto nos bons momentos como nas horas incertas, na saúde ou na doença. Todas essas promessas estão sendo cumpridas por ambos, mas então, se ela se casara com um bom homem, de excelente caráter, trabalhador, que até cozinhava melhor do que ela, o que está faltando para ela ser feliz de verdade? Filhos? Ainda não tocaram no assunto. Melhores rendimentos financeiros? Pagam dívidas como todo mundo. Resolvem pacificamente os problemas que normalmente surgem e quando não há nada com que se inquietarem, inventam novos motivos de preocupação, bobagens como fumaça, que se desvanecem rapidamente sem deixar fuligens ou fragmentos em suas vidas. Formam um casal absolutamente normal, mas mesmo assim, ela sofre com seus conflitos.
Ângela olha o relógio marcando dez horas e enquanto prepara o almoço de domingo, pensa, pensa. O marido Alberto, diante da televisão, assiste a corrida de fórmula um, torcendo pelo seu favorito, um norte americano. Depois, virá para a cozinha, abrirá uma lata de cerveja. Jogarão conversa fora, farão amor depois do almoço, dormirão algumas horas, abraçados, fatigados, satisfeitos por se alimentarem e se amarem.
- Mas que droga!
Uma queimadura leve para “esfriar” suas lamentações. “Eu mereço”, queixa-se ela, repreendendo-se por ser tão avoada. Enquanto pega rapidamente uma pomada, ela reflete que, de fato, está tudo tão bem, tão normal, tão rotineiro. Ambos trabalham no segmento do comércio, na rotina fatigante da informação superficial – números, papéis, mercadorias, notas fiscais, dados que mudam a cada instante. O que está errado, então? Ela não compreende e se martiriza, tentando buscar uma explicação dentro dos próprios conceitos. Que insensatez querer mais, se dispõe de tudo o que precisa para viver: casa para morar, comida, trabalho e um marido bondoso, que mal lhe conta as próprias dores. Além disso, sente-se culpada por navegar nas nuvens.
Coloca o liquidificador em atividade. Pronto! Mais uma queda livre das suas fantasias aladas para a famigerada rotina, que gosta, apesar de tudo. E lá vai ela, se perguntar pela centésima vez o que há de errado para ela tanto se questionar.
Assim que termina o almoço, começa a dar um jeito na louça acumulada na pia. Escuta uns passos e logo o marido aparece atrás dela, pousa as mãos ligeiramente em suas nádegas e dá-lhe um beijo no pescoço, local que sabe quebrar qualquer resistência. Ângela sorri, diluindo-se em emoções, e acabam antecipando o momento mais íntimo ali mesmo, ela com as mãos ensaboadas com detergente. Ora, não fora ela mesma que pensara a poucos instantes na exaustão da rotina? Enfim, nem reclamou e amou aquele momento de fuga do tédio.
Alberto acende um cigarro e dá uma volta até o portão para, segundo ele, “tomar fôlego”, coisa meio difícil visto que vai fumar. Ela termina a louça e põe à mesa, enquanto viaja novamente, desta vez, com pensamentos mais favoráveis de aceitação da vida como ela é.
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