Estéfanie dá o máximo de sua habilidade vocal e juntamente com Eduardo na guitarra, Vinícius na bateria e Peter no baixo, recebe aplausos e ovações de uma plateia extasiada. Centenas de adolescentes cantam as músicas de sua autoria e pulam freneticamente, contagiados pelo som dos instrumentos. Estéfanie encerra o show com um caprichado agudo e Vinícius triunfa com suas últimas notas na bateria. O delírio extravasa todas as expectativas e eles maravilham-se com o sucesso que atingiram hoje. O nome da banda, Engrenagem, é repetido pelo coral de vozes entusiasmadas, sucessiva e ininterruptamente...
- TÁ VIAJANDO, CARA?!
Depois da “extrema delicadeza” de seu amigo Peter, Estéfanie sacode a cabeça, aturdida. Irada, encara o amigo, mas este não está nem aí para ela, pois acompanha a galera que aplaude a verdadeira banda que se apresenta no Centreventos Cau Hansen, em Joinville. O pessoal pula, canta, assovia e nesse desvario de som, luzes e cotoveladas, Estéfanie se sente subitamente entediada. Não que não aprecie o afamado show. Frustra-se porque ainda não havia conseguido realizar seu sonho, que é o de apresentar a própria banda que organizara há dois anos, na qual exerce a função de vocalista e compositora. Apesar de sonhadora, sabe que o sucesso não cai do céu e é resultado de muito trabalho, dedicação e persistência.
- SABE D’UMA COISA? – berra ao ouvido de Peter.
- O QUÊ?! – pergunta ele, desatento e sem olhar para ela.
- É QUASE UMA HORA DA MADRUGADA E TÁ NA HORA DA GENTE IR EMBORA!
O garoto protesta, mas depois de um forte puxão em sua camiseta, é arrastado no meio do povo espremido.
Estéfanie apanha o celular e liga para Eduardo e Vinícius, persuadindo-os a retornarem para casa. Encontram-se na escadaria principal do Centreventos. Decidem pegar um táxi e juntam alguns trocados.
- E agora, mano? Nós tamo mal na fita, velho! – alerta Peter, esfregando a cabeça quase raspada, ao verificar que tinham gastado mais dinheiro do que deveriam.
- Nós vamo atrás de um zarcão e vamo logo – propõe Eduardo.
- Mas que bicho louco! Zarcão? A essa hora? Tá cheirado, cara? – contesta Vinícius, malhando o amigo.
- Calem a boca! Vam’bora! – decide Estéfanie, estressada com a celeuma inútil iniciada pelos companheiros.
Vinícius então acende um cigarro e oferece para os outros, que negam energicamente.
- Tô fora! – respondem os outros três.
- Não dá nada. Além disso, eu preciso me acalmar.
- Sai dessa, cara! – critica Estéfanie. – Enquanto você pensar que esta porcaria te acalma, vai só se dar mal.
Vinícius não dá a mínima importância às recomendações dos amigos e traga seu cigarro inofensivo. À medida que a fumaça produz os efeitos de euforia esperados em seu organismo, o garoto ensaia caretas de satisfação.
Estéfanie chama-o ainda uma última vez, mas já é tarde, porque tão logo chegam à Rua Orestes Guimarães que dá acesso ao estacionamento do Centreventos, o garoto sumira na multidão de jovens entorpecidos. Preocupada, ela e os outros dois amigos seguem adiante para procurá-lo. A maresia é tremenda e Estéfanie tampa as narinas. “Os caras sabem que é uma furada e tão se achando”, pensa, enquanto se esgueira no meio deles em busca do companheiro.
Peter e Eduardo avisam que vão tentar descolar uma carona e enquanto Estéfanie fica imóvel, tentando encontrar uma pista do paradeiro de Vinícius, uma garota enfezada vai pra cima dela.
- Ei! Calma aí!
- Calma nada, fura-olho! Vou te dar uma lição!
Logo, dezenas de garotas fecham círculo em torno de Estéfanie e da garota que iniciara a briga.
- Ei, deixa meu cabelo! Não fiz nada! – protesta, tentando se defender do canivete que roça em seu rosto.
Atordoada, Estéfanie nem vê quando Vinícius aparece na roda, acalmando a garota desvairada com um copo de bebida forte e um baseado. Estéfanie suspira aliviada por Vinícius ter reaparecido bem na hora de livrá-la de levar, de graça, uma surra.
- Onde você se meteu? – indaga, zangada.
Vinícius dá uma desculpa esfarrapada e tira onda da sua cara de assustada. Estéfanie fica ainda mais furiosa e tem vontade de dar uns bons tapas no amigo irresponsável. Finalmente, Peter e Eduardo surgem para buscá-los.
- Conseguimo carona! – anunciam com euforia.
Os jovens embarcam em um veículo, que é conduzido acima do limite de velocidade e fura um sinal vermelho da rua Dr. João Colin.
Estéfanie é a primeira a ser deixada na porta de casa.
- Tchau, galera! Amanhã a gente se fala.
- Falô! – respondem os outros simultaneamente.
Enquanto Estéfanie entra em sua casa, Vinícius enfia-se entre os assentos do motorista e do passageiro e sugere continuarem a curtição.
- Sei de um lugar que tá bombando! – anuncia, em meio a um soluço.
Peter, Eduardo e seu amigo motorista topam, contudo, ficam um pouco apreensivos, pois sabem que Vinícius anda se metendo com uma galerinha da pesada e não confiam nele. Mesmo assim, são convencidos por argumentos irresistíveis.
- Tem mulher boa pra caramba lá...
- Tamo dentro!
Dão a ré e, excitados, seguem para o local combinado: um bar com pagode ao vivo que abrira recentemente na cidade.
*****
Estéfanie entra em casa na ponta dos pés descalços para não fazer barulho. Abre a porta de seu quarto e, ao acender a lâmpada, é surpreendida pelo pai que, sentado em uma poltrona, franze a testa, arqueando suas sobrancelhas espessas.
- Que susto, pai!
- Você já viu que horas são, dona Estéfanie? – interrompe, levantando-se. – Duas e meia da madrugada! Eu e sua mãe não pregamos o olho durante a noite inteira!
- Não fica estressado, pai... eu... eu posso explicar... – gagueja, estampando um sorriso de desculpas para atenuar a zanga do pai. – O show começou bem mais tarde do que foi anunciado. O pai sabe como é. E nós demoramos pra encontrar carona pra casa...
- Chega de desculpas, filha! – ralha, empertigando-se na frente da adolescente com o dedo indicador desenhando rabiscos impacientes no ar. – Eu disse que você devia chegar às onze horas e nem um minuto a mais! O que você e aqueles desocupados andaram aprontando?
- Pai, aqueles que você chama de desocupados são meus amigos...
O comentário inapropriado excede o autocontrole dele e, calada e cabisbaixa, Estéfanie ouve uma ríspida recriminação. Não é a primeira das severas admoestações, mas sempre se sente magoada. Para encerrar, o pai proíbe-a de se encontrar com os amigos. Sai do quarto batendo a porta atrás de si, enquanto Estéfanie reage em um pranto soluçante.
*****
São aproximadamente três horas da madrugada. Ouvem-se consecutivos disparos de armas de fogo no bairro Costa e Silva e um estudante é gravemente ferido. A ambulância dos bombeiros voluntários de Joinville é acionada e chega rapidamente para o socorro, porém, os médicos conseguem somente aliviar a expiação do jovem. Por conseguinte, a polícia age e evidencia que a vítima se envolvera em uma pancadaria com um traficante de drogas que frequentava o Clube 17. Os fragmentos de pedras de crack encontrados na jaqueta do estudante assassinado levam os investigadores a alertar imediatamente outras viaturas para varrer o quarteirão e passar um pente fino na galera que se espalha com medo da represália.
Do outro lado da rua, na Praça do Bosque, um casal de adolescentes permanece em um dos bancos de concreto trocando carícias e, apesar de tamanha agitação, não percebe a aproximação de outro policial armado que vai logo os interrogando. Sobressaltada, a garota fica de pé em um milésimo de segundo e o garoto, com a intenção de ganhar moral diante da menina, empertiga-se e enfrenta o policial. A atitude irrefletida do garoto em peitar a lei provoca a ira do policial, que trata de punir o rapaz com o cassetete.
- Tio, por favor, deixa ele em paz! – implora a jovem, tremendo da cabeça aos pés. – A gente não fez nada... eu juro! A gente vai direto pra casa, né, Eduardo?
- É, é isso aí, gata... – tartamudeia, massageando o braço atingido.
Entretanto, o policial de compreensivo não tem nada e exige o número do telefone da casa de Eduardo. O garoto saca de cara o que vai acontecer e não quer tomar bronca do pai, senão ele vai cortar seu barato na banda Engrenagem. Apesar da insistência e das desculpas, o policial entra em contato com o pai de Eduardo e este chega ao local uns dez minutos depois do telefonema, estacionando furiosamente o caminhão carregado. Zangado, faz o filho pagar o maior mico, porque, nessa altura, os vizinhos, em roupas de dormir e chinelos, estão parados na frente das próprias residências para ver o motivo de tanta gritaria. Depois da repreensão, Eduardo nem percebe que passa perto de Vinícius e de Peter e embarca no caminhão.
- É, o bicho se ferrô... – reconhece Vinícius.
Vinícius observa que o policial vem seco na direção deles e fica nervoso. Sabe que a coisa vai ficar preta para o lado deles se o cara resolve evista-los, pois ainda tem um baseado largado no bolso lateral de seu bermudão. Como se tivesse lido seus pensamentos, o PM vai logo mostrando autoridade e examina-os. Vinícius quer reclamar com os modos do Tatiana contara toda sua história e, no final, Natália abraçou-a.
Amiga, você tem uma barra pesada pela frente, mas não desista, viu? Você merece toda felicidade do mundo. No final, tudo vai dar certo.
Obriga, Natália. Eu sabia que podia contar com seu apoio.
Agora preciso ir, estou atrasada para o colégio. Tchau!
Assim que Natália saiu, Tatiana voltou ao trabalho.
Natália saiu da empresa e ficou surpresa quando viu Luíza e Paloma.
Ué? Vocês não iam embora?
A gente ia, sim, mas ficou batendo papo e nem viu o tempo passar – falou Luíza.
Você nem imagina quem passou por aqui todo feliz, Natália – comunicou Paloma.
Quem?
O Paulo, aquele mala que ia se casar com a Tatiana. Ele sorriu e disse tchau, até parecia gente. Acho que o casamento fez bem pra ele – continuou Paloma.
Pode ser – concordou Natália, rindo porque conhecia bem a razão que o transformara. – Olha, eu não quero ser estraga-prazeres, mas estou atrasada – alertou.
Ah, meu Deus! – exclamou Luíza, apavorada. – Vou perder minha aula! Tchau, gente!
Espera, eu vou com você – disse Natália, enquanto se despedia de Paloma.
As duas apressaram o passo para chegarem a tempo de tomar o ônibus no terminal norte e Paloma atravessou a rua, pois morava em uma casa que fazia frente com a empresa. Antes de abrir o portão, porém, ela viu uma sombra movimentar-se e ficou inquieta.
Deve ser minha imaginação – resignou-se ela, entrando na casa.
Assim que ela sumiu, a pessoa que estava à espreita saiu de seu esconderijo e atravessou a rua, encaminhando-se para a porta que dava acesso ao interior da empresa. Girou o trinco, mas o sistema interno de travamento estava acionado. Naquele instante, viu a luz na cozinha do andar superior ser acesa e um funcionário colocar a cabeça para fora da janela.
Está precisando entrar? – perguntou o rapaz.
Sim.
Espere um minuto que já estou descendo. – O rapaz levou um minuto para descer e, ao abrir a porta, olhou para o sujeito com uniforme e boné e se afastou para que ele pudesse entrar. – Você é novo por aqui? – perguntou antes que o instalador desaparecesse no corredor.
Sim.
Ah, eu também. Está no plantão noturno?
Sim.
Tchau, bom trabalho.
Igualmente.
Tatiana olhou o relógio. Passava das 19:30 e ela suspirou. A pilha de ASLA’s para conferir parecia não ter diminuído e a moça começou a sonhar com a publicação de suas histórias. Ela amava escrever e, apesar de não ter nenhuma expectativa a curto prazo para conseguir a publicação, não desistia de seu sonho.
Seus pensamentos foram subitamente interrompidos pelo, mas fica paralisado, com a respiração presa.
- Vocês tão limpos, VAZA, VAZA, VAZA! – ordena o policial e se encaminha para a viatura.
Vinícius e Peter, sem perder tempo, somem nas ruas sombrias.
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