- Arregaça o velhaco, aí!
- Não, eu imploro, não!
O estrídulo de agonia poderia ter sido ouvido pelo bairro Aventureiro inteiro não fosse o som de balada estar em níveis ensurdecedores.
Dois sujeitos espancam um homem, ao passo que o repreensor, friamente, assiste a agonia da vítima.
- É assim que cara traíra é tratado, compreendeu?
- Sim, sim, eu compreendi... clemência, chefe, clemência!
- Você deixou furo na clínica daquele pilantra metido a bonzinho e eu perdoei. Mas agora que não sacou o que a sua mulher pretendia, vai levar a coça que merece!
- Piedade, chefe, piedade! Eu vou dar um jeito nela. A vagabunda não vai nem piar.
- É bom que esteja falando com sinceridade, traficante de araque!
- EU JURO!
- Chega.
O som é desligado. Pedro caí de joelhos e mal sustenta o peso da própria cabeça.
- VÊ SE TRATA DE DESCOBRIR SE O OUTRO CARA FEZ CÓPIA DA PARADA QUANDO LEVOU TUA MULHER PRA FODER!
Humilhado, Pedro ergue a cabeça e promete “limpar a área”.
*****
Vanessa não pregara o olho durante aquela noite. Primeiro, chorara baixinho lembrando-se do desgosto do flagrante. Pensara nos anos que vivera feliz com o companheiro, nas primeiras carícias, nos primeiros contatos físicos após muita preparação emocional. Pedro era gentil, trabalhador, correto, seguro, inteligente, lindo e romântico. Ela não podia precisar quando é que as coisas mudaram ou em que ela errara. Desde quando Pedro se envolvera com o crime? Ela sempre achou que a situação estava sob controle, que ela é que era a infantil. Pelo menos, era o que Pedro a fazia acreditar quando a desmerecia diante de familiares ou amigos, ou quando rejeitava seus afagos. Pensar em tudo aquilo aumentava severamente seu desequilíbrio emocional. Somando a tudo, seja por destino ou coincidência, Renato aparecera para resgatá-la de uma ocasião perigosa. E, ainda, mais agravante, estivera na casa dele, no quarto e na cama de um estranho. Sentia-se impura, desajeitada, porém, apaixonada.
Os conflitos inundam de dúvidas sua alma e cessam seu choro. Lembra-se do calor do corpo dele quando se segurara sobre a moto, do cuidado que ele tivera de não tê-la desrespeitado, de não deixá-la em sua casa porque havia risco, de ter cedido a própria casa e se dispor a ajudá-la. Quando vestira a roupa que ele lhe emprestara, e que sentia o cheiro da pele dele, seu corpo se incendiava. Vanessa se sentiu importante, valorizada.
Às 3 horas da madrugada ela decidiu que não podia mais permanecer na casa dele. Levantou com cuidado, abriu a porta sorrateiramente e verificou que Renato dormia. Em silêncio e no escuro, trocou de roupa, ajeitou a cama, apanhou as rasteiras e caminhou na ponta dos pés até a porta. Fechou devagar, calçou as rasteiras e seguiu pela rua Monsenhor Gercino, caminhando na direção da Rua São Paulo, onde avistou os primeiros transeuntes. Pediu informações a algumas moças que aguardavam no ponto de ônibus e ficou contente porque era o ponto em que parava o transporte especial. Ao embarcar, teve dificuldade para convencer o motorista já que não portava identificação ou documentos, mas um acaso veio lhe ajudar, já que o fiscal a reconhecera. Trabalhara com afinco para evitar pensar em seus problemas, mas após o término do expediente, instantaneamente os temores voltaram a lhe assaltar.
Na saída, esgueirou-se porque vira que Renato a procurava no meio da multidão que saía do trabalho. Nova onda de calor sobressaltou-a, pois ela sentiu que ele parecia preocupado.
Subir a rua estreita até sua casa exigiu grande esforço e muitos suspiros. O que encontraria?
Porta trancada. A chave está no bolso da calça jeans. Abre. Pedro não aparece. Vanessa coloca água para fazer café e começa a preparar o almoço. A noite em claro começava a pesar suas pálpebras, porém, Vanessa luta contra o sono. Ainda limpa a casa e lava roupas. Faltam 15 minutos para as catorze horas, mas Pedro não chega. Serve a carne de panela, o arroz e os legumes em tigelas e deixa sobre a mesa embaixo de uma toalha de louça. O sono volta a amolecer seu corpo e finalmente ela permite que ele a derrote.
- ONDE TÁ A PORRA DO CELULAR?
Parecia ter acabado de fechar os olhos quando ouve o grito, e parte de Vanessa ainda dorme. O organismo recém-saído do estado de vigília não reage. Mas ela percebe que já está escuro lá fora.
- Levanta, desgraçada!
O corpo dela está mole, inerte, sem força. Ela sente-se içada pelo cabelo para dentro de um pesadelo, os sons distantes, as dores lancinantes perfuram suas costelas, a cabeça estala, o corpo lateja, pulmões sufocam. As mãos vigorosas de Pedro sacudindo-a pelos braços frouxos acompanham o ritmo da exasperação do rapaz, que repete “onde está o celular”, seguida de palavrões, xingamentos e humilhações. Vanessa consegue apontar o local do aparelho e Pedro a atira contra a cama, onde ela desaba desfalecida.
- Onde tá o vídeo?
Ele volta para a esposa, puxa-a novamente pelo cabelo, coloca o aparelho quase grudado nos olhos.
- Não fiz nada, Pedro! Para, por favor!
- Cadela! Cadê o cara?
- Para, Pedro! – ela implora tentando afastar a mão dele. – Do que você tá falando?
- DO MACHO COM QUE VOCÊ FUGIU!
Empurra-a contra a parede e sai da casa. A garota tenta erguer a cabeça, mas o peso dos sinos que tilintam finda suas energias.
“Deus, ele não ficou nem preocupado por causa dos rapazes que me perseguiram! Por favor, Deus, me leva!” consegue orar, antes de imergir na profunda escuridão.
*****
Vinícius desembarca de um automóvel preto, visivelmente contrariado. Ajeita a alça transversal da mochila e olha para o pai, que sinaliza para andar. Adiante, um médico aguarda o recém- chegado, demonstrando simpatia.
- Boa tarde. Dr. Fausto, a seu dispor.
- Boa tarde. Este é meu filho Vinícius.
- Venham até o escritório do Seu Ricardo, por gentileza.
Assim que o Dr. Fausto se vira e segue na frente para indicar-lhes o caminho, Vinícius faz uma careta mordaz que é flagrada pelo olhar observador e desconfiado do pai. Embora desaprove a atitude desrespeitosa de Vinícius, o pai evita qualquer reprimenda nesse momento.
- Entrem – o médico abre a porta apontando o homem sentado à escrivaninha dentro do cômodo estreito. Em seguida à entrada dos visitantes, deixa-os a sós. Após novas apresentações, todos se sentam. Vinícius tira a mochila das costas e larga-a, amuado, ao lado da cadeira.
- Bem, Vinícius, vou explicar como funciona nosso trabalho por aqui. Parece que você não está satisfeito com sua internação, não é mesmo? – provocou o administrador.
- Eu não preciso disso aqui. Não tô doente.
Ricardo não se intimida com a reação. Antes, lhe admoesta para que o tratamento lhe seja proveitoso. Volta-se para o pai de Vinícius e indaga o que a esposa pensa disso.
- Leda, minha esposa, não quis vir porque acha que nosso filho é inocente, que não tem problema nenhum.
- É isso aí, minha mãe nem veio junto para não participar dessa palhaçada que meu velho tá fazendo comigo...
- Mais respeito, rapaz! – zanga-se o pai.
Ricardo percebe que a situação é delicada. Enquanto o pai procura a solução para o filho, a mãe o contraria, o que fortalece o garoto. Terá que convencer a mãe a participar da reunião de apoio. Observa um momento o paciente emburrado, depois anuncia:
- Agora é por nossa conta, Seu Marcos. Pode se despedir de seu filho.
- Que papo é esse de despedida? – altera-se Vinícius, saltando da cadeira. – Vou ser obrigado a ficar nesse fim de mundo? Não quero!
- Vinícius, é pro seu bem – ressalta Ricardo.
- Meu bem um ó! Tô fora! Vam’bora, pai!
Marcos posiciona-se de pé defronte o filho. Seu ar de autoridade silenciosa imobiliza o rapaz.
- É sério, pai?
Marcos despede-se de Ricardo e segue para o veículo. Perplexo, o rapaz olha o carro e imediatamente digita no celular.
- Mãe? Mãe, o pai me largou aqui, me ajuda, manda alguém me buscar... mãe, quê? Você não pode fazer nada?! Você sabe que eu não sou nenhum viciado, mãe!
Desliga o aparelho e fica ainda mais furioso.
- Vamos, Vinícius, vamos conhecer o seu alojamento. Você vai precisar se adaptar também e conhecer as demais dependências de nossa fazenda...
- Não quero conhecer porra nenhuma!
- Você não será obrigado a fazer nada, Vinícius...
- Ainda bem que tamo falando a mesma língua, cara! – sorri com satisfação. – Tô liberado?
- Dr. Fausto, pode trazer o incentivo para nosso jovem, por favor?
Vinícius fica todo empolgado, certo de que havia ganhado aquela batalha. Exibe-se, orgulhoso e arrogante, um típico adolescente criado com tolerância excessiva. Entretanto, assim que o médico entra no escritório seguido por dois homens musculosos, ambos enfermeiros, e se posicionam um de cada lado do garoto, o rapaz começa a mudar de expressão.
- Como eu ia dizendo... – inicia Ricardo, você é convidado a um tratamento.
- Tá viajando, cara?
- Eles podem ajudar você a decidir se tratar por você mesmo. Essa é a sua opção.
O rapaz fica em silêncio, matutando. Os enfermeiros estão imóveis, aguardando qualquer reação, embora pareçam desatentos. Ricardo apenas fita o jovem.
Bruscamente, Vinícius corre para a porta, porém, é imobilizado pelos enfermeiros. Esperneia, grita, ameaça.
- Vocês não têm direito de me manter aqui!
Dr. Fausto, enquanto o jovem reage de mal grado à internação, abre a embalagem de uma seringa e inicia o preparo de um sedativo.
- Espere, doutor – pede Ricardo um momento antes que ele injete o sedativo. – Vamos dar mais uma chance ao garoto. Vinícius! Você não precisa disso, precisa?
A voz severa de Ricardo faz o garoto parar de se contorcer. Respirando irregularmente por trás do cabelo desgrenhado, colado ao rosto, ele se acalma.
- Não, não preciso.
- Parece que estamos começando a falar a mesma língua – Ricardo utiliza propositalmente a mesma expressão que o garoto e ordena que o soltem.
Vinícius ajeita as roupas e o cabelo e muito embora o ar de revolta ainda paire em seu semblante, não se rebela.
- Temos regras aqui. Cabe a você obedecê-las. Horário para acordar, deitar, trabalho e lazer. Visitas somente no segundo domingo de cada mês e só dos familiares cadastrados. Não pode faltar às refeições. Deve frequentar o grupo de apoio diariamente e interagir com o psicólogo duas vezes por semana. Agora me acompanhe. E não esqueça: você tem sorte por estar aqui. Milhares de adolescentes nas suas condições não têm a mesma oportunidade.
Amuado, contudo, obediente, Vinícius segue Ricardo pela propriedade até alcançar um dos alojamentos. Entram no quarto coletivo e Ricardo aponta um beliche.
- Abra sua mochila e despeje suas coisas sobre o colchão.
- Quê?
A surpresa faz com que o garoto core de indignação.
- Pra quê isso? Tô limpo...
- Quem não deve não teme – afirma. – Quer que eu mesmo faça isso, rapaz? Preciso cadastrar seus objetos pessoais e fiscalizar, retirando aquilo que não é permitido.
Convencido, Vinícius tira as coisas da mochila. Gotículas de suor começam a brilhar em sua fronte assim que Ricardo começa a revistar seus pertences e anotar um a um o que possui. Ricardo termina a revista e orienta o garoto a guardar as coisas em um armário. Ofegante, Vinícius ajunta tudo com braços trêmulos e segue para o local indicado. Assim que ergue a roupa, um pacote cai no chão. Ele apressa-se a ajuntar e esconder a embalagem, todavia, o gesto não passa despercebido por Ricardo que, após uma rápida anotação, aproxima-se do jovem e estende o braço com a palma da mão aberta para cima.
- Isso faz parte dos itens proibidos nessa instituição.
Cabisbaixo e envergonhado por ter sido flagrado, passa o pacote com droga para Ricardo.
- Agora vamos até o alojamento sul, onde o Tomás está esperando. Sua primeira atividade será ajudar na limpeza dos sanitários...
- O quê?! Limpar banheiros? Você tá zoando comigo!
- Você acha que alguém está aqui para brincar? – Ricardo satiriza, apontando os dois enfermeiros, que os espreitam na entrada do alojamento.
Vinícius resmunga algo ininteligível, mas a “opção” agrada-o tanto quanto ficar naquele isolamento.
*****
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