Minha foto
Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 8ª CAPÍTULO - O CELULAR – 3ª PARTE


Ângela carrega uma bolsa ecológica aparentemente cheia e caminha apressadamente. Passa pela porta automática, identifica-se na recepção, cola o adesivo de acompanhante e passa pela catraca em direção do elevador.

O corredor da emergência está lotado. Além de pacientes que aguardam atendimento, dezenas de pacientes em macas ocupam o espaço disputado.

Ângela, apesar da urgência, percebe um jovem indignado com o estado de uma paciente na maca que está bem perto de onde ela espera o elevador.

- Ele fez isso com você? Você não pode permitir isso! Tem que denunciar aquele canalha!

Ângela reparou no lado esquerdo do rosto da paciente as luxações e as pálpebras do olho grudadas por sangue coagulado. O rapaz continuava falando, mas Ângela embarcou no elevador e logo esquecera daquele episódio para viver os próprios tormentos.

Assim que a campainha soa para o seu andar de destino, ela toma o corredor e entra na sétima porta à direita. Alberto está deitado na maca e dorme. Ângela deixa a bolsa sobre uma mesa no canto do quarto, olha para o marido e suspira. Calmamente, toca na mão com soro e beija a fronte dele. O rosto está lívido, mas ele parece se recuperar.

- Querido... – sussurra – você poderia ter evitado isso...

- Ãh?

Alberto abre devagar os olhos e acompanha os movimentos da esposa no quarto do hospital. Ela sorri, com espontaneidade evidente.

- Meu amor, você me deixou assustada... eu te amo tanto.

Aproximando-se outra vez, toca suavemente nos cabelos do marido. O médico que havia procedido com a cirurgia cardíaca entra nesse instante.

- Nada de grandes emoções, hein, campeão!

- Oi, doutor.

- Tudo bem, senhora?

O médico avalia o estado de saúde de Alberto, conversa com o casal, sinaliza algumas instruções para continuar com o tratamento em casa.

- Terá algum trabalho, Dona Ângela, mas, se quiser, temos enfermeiros que atendem em domicílio para indicar...

- Não será necessário, doutor. Eu mesma quero cuidar dele.

Ela sorri, enquanto olha com amor para o marido convalescente.

- Esse homem é minha vida.

O médico pigarreia e discretamente se retira.

Enquanto Ângela faz companhia para o marido, recorda-se dos momentos angustiosos que vivera.

Assim que abrira a porta, deparara-se com Alberto caído contra a parede, mão no peito, olhos aguados e esbugalhados e face translúcida de agonia e dor. Imediatamente, Ângela se aproximou e tentou fazê-lo voltar a si e quando percebeu que não adiantava, telefonou para o SAMU, que não se demorara a chegar. O atendimento de urgência fora decisivo para salvar a vida de Alberto.

De volta de suas lembranças, Ângela avalia como seu despreparo emocional e sua explosão no momento errado prejudicaram a saúde de Alberto. Até então, ela não imaginava que ele estivesse tão debilitado. Sentiu como o próprio egoísmo cegara suas observações e a distanciara do marido.

Conhecendo o remorso e o arrependimento, ela decide se tornar uma esposa mais presente e a primeira atitude é o de providenciar para que ele se restabelecesse.

- Olá! Com licença? Aqui é o quarto onde o Alberto está internado?

- Sim – confirma Ângela.

A garota aproxima-se do leito e cumprimenta Alberto, porém, ele está sonolento e não responde.

- Deve ser a Ângela. Ele fala sempre de você. Eu me chamo Débora. Muito prazer.

Débora estende a mão para cumprimentar Ângela, que corresponde de forma apreensiva. Algo na preocupação e no olhar de Débora perturba-a e ela trinca os dentes.

A moça é bastante jovem, de uns 23 anos talvez, muito bonita e bem arrumada. Explica que trabalha com Alberto e gosta muito dele, que ele sempre a trata muito bem.

Ângela não é pessoa de conter a irritação, contudo, com o atual estado de saúde de seu marido, tolera a presença da moça embora tenha grande vontade de expulsá-la dali.

- Se me dá licença, Débora, o meu marido precisa repousar.

- Ah, claro. Fico contente que ele tenha ficado bem. Estava passando o maior estresse na fábrica...

- Estresse? – Ângela arqueia uma das sobrancelhas.

- Sim... o Alberto não contou? – admira-se.

A moça indaga de forma inocente, mas Ângela se sente traída por não saber do que se trata.

- Ah, sim, agora me lembro – dissimula pois o orgulho fala mais alto.

- Vou indo. Tudo de bom.

Débora sai e Ângela começa a analisar a situação. O ciúme instala-se de forma devastadora. Fica imaginando que grau de intimidade há entre Débora e Alberto e as suposições provocam dor de cabeça.

Mais uma vez, seu temperamento entra em ação em evidente desgosto e frustração.


*****


Cai a tarde e com ela uma névoa fina e fria. “Perfeito”, comemora o motorista de um guincho truck. Na BR101 o trânsito só aumenta e chega a formar engarrafamento em alguns pontos onde a duplicação prossegue.

Uma placa reflete a luz dos faróis e indica que saía dos limites de Joinville. Outdoors divulgam estabelecimentos comerciais do município vizinho, bem como as placas de propaganda eleitoral induzem: “Faça o melhor por Quatro Barras, faço o melhor por você! Vote em...”

Entretanto, nada dessas observações faz parte dos pensamentos do guincheiro. Sua mente repassa as últimas orientações. “Faço tudo direito, deixo o chefe satisfeito e ainda ganho uma boa grana”.

“Compra uma casa pra morar com a sua galega”, sugerira seu chefe e ele concordara apenas para não provocar a ira do patrão. Sabe por experiência própria o que acontece aos que não cumprem com os tratos. “Viver com aquela lá que só me enche o saco? Nem pensar!”, reflete o homem ante a ansiedade das noitadas que pretende pagar. Já havia prestado outros serviços para o patrão e sempre fora muito bem recompensado, como aquela estranha tarefa de escrever na parede de um galpão. “Cara esquisito!”, lembra o motorista, que acha as ordens que cumpria um tanto sem noção.

Sinaliza com o pisca à direita e guia para a portaria de uma empresa que fica na marginal da BR. Aguarda o segurança identificar o guincho e subir a cancela. Com o motor do guincho ligado, alcança um pacote que está no assento do passageiro e estende para o guarda, que abre o envelope de costas para a câmera de segurança. Um sorriso discreto e um sinal para continuar dão a dica para o guincho passar pela portaria e seguir pela rua da esquerda, acompanhando a sinalização do local. Um galpão de uns 2000 m² segue para a área norte e na área sul da propriedade lê-se uma indicação de carga e descarga de caminhões. O local está iluminado por lâmpadas de fotocélula. Estaciona o guincho, apanha um bloco e após desembarcar, encaminha-se para a expedição.

- Boa noite, serviço de guincho solicitado para um Scania, placa BRM4313 de Quatro Barras – identifica-se para o funcionário.

- Um momento, vou conferir.

O motorista abaixa a aba do boné e inspira ar com algum nervosismo. Observa o funcionário consultar o computador e retornar.

- Deve haver algum engano, senhor. Esse caminhão já está carregado e não apresenta nenhum tipo de avaria...

- Olha aqui, eu só tô fazendo o que me mandaram e não saio daqui sem levar guinchado o diabo do caminhão!

Contrafeito, o funcionário resolve comunicar a segurança e, com expressão de desagrado, retorna confirmando o pedido do guincho.

- Desculpe, senhor, é que o Seu Alberto não havia avisado o departamento...

- Tá, tá, agora pode me dizer onde é que tá o caminhão? Eu não tenho a noite toda.

O funcionário explica a localização do caminhão a ser guinchado e solicita que aguarde o tempo de providenciar escolta por causa da carga perigosa.

- Ô, cara, vê se facilita meu trabalho! – reclama novamente.

- Sinto muito, mas é a norma da indústria.

- Fazê o quê, né?

O motorista volta ao guincho e manobra a pelo menos 500 metros para recolher o caminhão.

Quase uma hora depois, reboca o caminhão. Passa tranquilamente pela portaria e segue no sentido norte da BR101, acompanhado de perto por dois batedores.

Aproximadamente 20 km após, o guincho dá pisca, reduz a velocidade e entra em uma estrada secundária mal iluminada. O motorista aciona a buzina do guincho três vezes consecutivas; primeiramente, com um som longo, depois um curto e em seguida por três acionamentos que dão a impressão de um único impulso sonoro. Lentamente, vai reduzindo a marcha até parar por completo.

Os seguranças dos batedores também param, desembarcaram e, confusos, aproximam-se da boleia do guincho.

Inesperadamente, o grupo é cercado por bandidos armados. Rendem os seguranças algemando-os aos volantes de seus respectivos veículos. Destroem os radioamadores e afanam as armas.

Enquanto isso, outros dois assaltantes ajudam a desatrelar o caminhão do guincho. A ação toda dura cerca de doze minutos e após, não resta mais pista nenhuma do guincho ou do caminhão.

Na portaria da empresa, o segurança responde OK, desliga o celular, desarma o sistema de segurança, apaga as filmagens e guarda objetos pessoais em uma mochila, inclusive o envelope recebido anteriormente. Observa nas câmeras que não havia qualquer movimentação, desliga toda a energia elétrica da indústria e, embarcando rapidamente em uma moto, sai cavando rumo à rodovia.


*****

Com muito custo, Estéfanie argumenta com os pais sobre o trabalho temporário obrigatório que melhoraria seu orçamento. Era só até comprar um computador novo, explica.

Titubeantes, os pais não gostam da ideia, mas como seu desempenho na escola continua bom apesar de trabalhar fora, os pais concedem licença para o trabalho extra.

Primeira etapa vencida”, comemora.

Por outro lado, preferia que não tivessem permitido. “Injusto!”, pragueja contra seu impiedoso destino. Punida por causa do melhor que podia oferecer ao mundo e agora prisioneira de uma trapaça como enredada na teia de uma viúva negra, com seu veneno letal.

Estéfanie largara mão de seus sonhos em troca da obediência aos pais e diante de uma alternativa para comprovar que a banda é boa, caíra em uma armadilha.

Apesar de pensar em soluções para evitar que o promoter continuasse a chantageá-la, nada conseguia planejar.

“Vera.”

O nome aparece subitamente em seu cérebro exausto. “Será?”

Sim, ela conclui que poderia ter uma chance. Vera oferecera-se voluntariamente para ser agente da banda, quem sabe dispunha de meios para promover a banda. Estéfanie fica em dúvida se conta o fato à Vera ou não. Depois de avaliar todos os ângulos, decide-se: procurará Vera, porém, não mencionará a chantagem.

Satisfeita com a probabilidade mínima de fazer as coisas certas, finalmente adormece.

*****

Nenhum comentário:

Postar um comentário