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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 3ª CAPÍTULO - A PLANTA DO GASODUTO – 2ª PARTE




São 10h30 de uma quarta-feira cinzenta e Pedro vende lanches na Praça do Bosque. Parece nervoso e angustiado. Atende uma freguesa e não consegue controlar o tremor na mão que estende o troco.

Já aprontara muita coisa sem o conhecimento de Vanessa, que o venera como um marido sinônimo de nobreza e dignidade. É fiel, apesar de agir de má fé repetidas vezes. Esconde-se atrás de uma farsa do verdadeiro caráter que possui e manipula a esposa de maneira que ela se sinta culpada pelas cobranças ou acusações que faz. Julga-se um cara boa pinta, de modesto não tem nada quando vende a própria imagem e talvez por tais extravagâncias de gênio não arranje um emprego com carteira assinada. Falando a verdade, Pedro é uma dessas pessoas que não gosta de se sentir preso a rotinas, horários pré-estabelecidos, cobranças de chefias. Prefere sempre lucrar sem ter muito trabalho. Suar a camisa? Só se for no futebol com os amigos.

A freguesa recebe o troco e a sacola plástica contendo dois xis-saladas e volta para seu trabalho. Enquanto Pedro raspa as sobras de hambúrguer na chapa com uma espátula, outra cliente se aproxima.

- Olá! Vê três bem passados!

- Prá já!

Ele coloca os hambúrgueres sobre a chapa para iniciar a fritura e sente a mão da mulher pressionando sua nádega. Sobressaltado, vira de frente para a assediadora.

- O que é? Vai me dizer que você torce pro outro time?

- Ô, moça! Assim você me ofende... mas olha, sou casado, tô trabalhando sossegado, numa boa... Não faz uma coisa destas...

- Cheio de marra. Gosto de caras assim. Dão mais trabalho, mas acabo conquistando todos vocês.

- Mas o que é isso, dona? Me deixa quieto, por favor.

- Vou deixar você quieto, sim. Me disseram que você vende umas parada, é verdade?

Pedro contempla a mulher com mais atenção. Cabeleira loira, maquiagem, unha feita, corpinho malhado, dente tudo enfileiradinho, bolsa chique, sapato de salto fino, roupa boa. As observações não param por aí. Sabe o que ela quer realmente e ele pode fornecer o objeto de sua cobiça, mas alguma coisa alerta Pedro para não se envolver com aquela dona. Os hambúrgueres começaram a passar do ponto.

Já que ele não responde, a cliente abre a carteira e mostra muito, muito dinheiro. Os olhos de Pedro parecem saltar das órbitas. “Mas e se ela for policial?”, pensa. “Canja demais dá pra desconfiar.”

- Não sei do que a senhora tá falando.

- Ah! Você é mesmo besta! Passa aí o que você tem.

- Não tenho nada do que a senhora tá pensando – ele insiste.

- Bom, se o meu dinheiro não tem valor, pode ser que eu tenha...

A mulher volta a se insinuar e Pedro, aflito, não sabe o que fazer. Pesa entre sua própria segurança ou o negócio aparentemente rentável. Podia então passar o resto do dia em casa descansando. Não, não, aí tinha que aturar o grude da esposa, e isso ele não está afim. Mas resolveria de outra forma depois que oferecesse seus préstimos à formosa cliente. Toma a decisão e abre uma bolsa, de onde retira alguns papelotes. Entrega para a mulher, que parece toda derretida por ele.

- 700 pila – cobra, sorrindo em retribuição aos gestos afetados da mulher.

- Isso aqui paga o seu serviço!

A mulher acerta um golpe com o joelho na região flácida do sujeito, que se encolhe, gemendo de dor. Em seguida, imobiliza-o com uma gravata e pressiona a espinha dele com uma arma de baixo calibre.

Pedro suplica por sua vida, dizendo que ela pode levá-lo preso que não oferecerá resistência alguma, porém, a mulher ri com o desvario.

- Tá achando que eu sô polícia? Pois eu sô muito pior! Isso aqui é só um aviso pra você fazer as coisa certa da próxima vez. Você deixô o maior furo, incompetência! Vai se ferrá... Hoje só tô avisando, na próxima não tem perdão.

Largando o homem, ela guarda a arma, ajeita o cabelo e a roupa, caminha normalmente pela praça. Pedro senta em uma banqueta plástica. O suor pinga de sua fronte e ensopa a camisa. Ele sabe de onde partira aquela ameaça. A coisa está começando a se complicar. Desliga o fogareiro. Os três hambúrgueres viraram carvão. Com ele poderá acontecer a mesma coisa.


*****


Passa das 17 horas e Ângela acaba de chegar do salão de beleza, onde retocara as raízes de seu cabelo com um tom forte de chocolate, fizera manicure, depilação e tratamento facial.

Prepara uma refeição rápida e arruma a mesa com artigos para um jantar romântico. Troca a roupa de cama, espalha pelo ambiente um spray que contém uma fragrância suave de jasmim. Liga o som em volume audível e vai para o banho. Perfuma-se, veste-se com apurado gosto estético, combinando uma lingerie preta com um vestido tomara-que-caia bordô. Calça scarpins e aconchega-se na cama à espera do marido. Fazia surpresas habitualmente, pois Alberto, apesar de quieto e desinteressado, sempre aprova suas iniciativas.

Alberto chega do trabalho uma hora depois e nem procura pela esposa. Primeiramente abre uma lata de cerveja, enganando-se de que o álcool poderá aliviar a tensão acumulada no dia.

- Alberto... – chama ela, com voz suave.

Não há resposta. Ela encosta-se na cabeceira da cama, ajeita o vestido e aguarda. Os minutos passam e ele não aparece. Ângela ouve o estalo da segunda lata de cerveja. Começa a ficar zangada. Levanta-se e sai furiosa do quarto.

- O que ele pretende me fazendo de boba? – pensa alto, trincando os dentes, pois essa situação nunca acontecera antes.

Alberto está de pé na garagem, com braços cruzados, olhar vago e pensamento distante. Usa a camiseta do trabalho, um short e os chinelos de sempre. Ângela fica extremamente aborrecida quando ele chega do trabalho, não toma banho e vai deitar com a mesma roupa suada e cheirando a cigarro. Tal comportamento irrita-a ainda mais.

- Não escutou que estou chamando por você? – chega à garagem, armada de desaforos.

- Não – Alberto nem sequer olha para ela.

- O que há com você? Não vê que eu tô te esperando?

Desta feita, Alberto olha para a esposa. Observa-a de alto a baixo e parece não enxergar nada de diferente nela. Ele costuma ser muito reservado, evitando assuntos que o aborrecem. Hoje ele prefere ficar calado no seu canto.

Ângela repete a pergunta e ele continua taciturno. Faz exigências de atenção, pede para que ele dê uma opinião sobre sua beleza, e como nada adiantasse, começa a censurá-lo, colocando em dúvida sua conduta e até mesmo sua masculinidade.

Alberto procura ignorar as reclamações da esposa, pois não está disposto a discutir. Entretanto, as agressões verbais tomam maior vulto e acabam por exaltá-lo de maneira semelhante ao descontrole de Ângela.

Alberto surpreendia-se todas as vezes que a esposa inventava coisas novas para incrementar seu relacionamento. Amava-a, desejava-a, respeitava-a, contudo, as diferenças provocavam desentendimentos que ambos não estavam ainda preparados para enfrentar. Reconhecia em Ângela um temperamento forte que fazia com que ela agisse de forma a subjugar as necessidades dele, a desmotivá-lo de suas preferências, a direcionar tudo para ela mesma. Tudo, até o dinheiro que ambos recebiam. Tudo deveria girar em torno dela e Alberto estava se cansando das obrigações que ela lhe impunha. Ângela nunca parava para ouvi-lo, e como ele já tinha tendência a não expor seus pensamentos e sentimentos mais íntimos, as limitações de expressão ocorriam com maior frequência.

Ângela, transtornada com o desprezo do marido, atira um copo contra a parede. Não aceita quando as coisas não acontecem do jeito como planeja. Atira o segundo copo e quase atinge o esposo.

Alberto sua frio, tentando controlar o nervosismo. Seu sangue ferve. Desejava apenas um pouco de descanso para engolir a trapaça que seu chefe fizera, desviando-lhe a comissão de uma grande venda. Como se não bastasse a injustiça, ainda fora capaz de acusá-lo de fraude no sistema contábil. E para fechar a noite com chave de ouro, a esposa parece uma desequilibrada. Sem se dar conta, fecha o punho com toda a força. Sente vontade de esmurrar toda a falcatrua e gritar com toda a força existente em seus pulmões. Ângela está do outro lado da sala de jantar em atitude de ataque, como dois leões disputando o território.

“Deus, que situação é esta?”, Alberto pensa, e antes que toda raiva contida seja descontada na esposa, ele sai de casa e começa a andar a esmo pela rua. O ar frio da noite provoca tosse e calafrios, mas de sua fronte despencam grandes gotas de suor. A caminhada oferece-lhe alívio para os músculos extremamente tensos. Anda durante quarenta minutos e retorna.

Enquanto Alberto sai de casa sem dar a menor satisfação, Ângela fica ainda mais enfurecida. Começa a se despir, jogando as peças de roupa por onde passa. Entra no box e abre o registro. O contato da água gelada com a pele quente provoca choque térmico e ela geme alto, mas permanece sob a ducha. Chora e escorrega pela parede até sentar no chão. Soluça, fecha a água e veste o roupão. Havia preparado tudo com tanto cuidado. Em que errara?

Enxuga o cabelo com a toalha e tiritando de frio, veste um pijama de algodão e vai para baixo do cobertor. Não consegue conter as lágrimas, que descem ininterruptamente por seu rosto. Escuta Alberto fechar as pantográficas da garagem e trancar a porta da saída, mas prefere não vê-lo. Finalmente, é dominada pela exaustão.

Alberto ainda se sente abalado e não consegue se alimentar. Pensa em conversar com a esposa, mas observando que ela já se deitara, decide deixar as coisas como estão. Apaga as luzes e se deita, cruzando os braços atrás da cabeça. Tenta afugentar o sono, pois deseja pensar em uma forma de reverter a situação que compromete seu emprego, mas a sonolência invade-o e ele adormece facilmente.


*****



- Sem digitais.

- E o lote que foi produzido?

- Estava riscado como fazem com os chassis dos carros.

- Sem digitais, sem procedência, sem testemunhas. Mas que merda!

César coça a cabeça e retorce o rosto em uma feição preocupada, enquanto caminha pelo corredor do prédio ao lado do capitão Castro em direção ao laboratório de perícias. Atravessam a porta de vai-e-vem envidraçada e param em torno de uma mesa repleta de tubos de ensaio, microscópio e, em meio aos diversos materiais disponíveis para análise, encontra-se a lata de tinta fosforescente.

- Se o autor da pintura não deixou impressões digitais, ninguém o viu e não é possível rastrear o fabricante, o que nos resta? – pergunta Castro, exasperado.

- Temos alguma coisa – retorque César, alcançando um farrapo retangular de um tecido branco muito fino. – Isto aqui foi localizado pela equipe de campo grudado no arame farpado da cerca que dá acesso aos vizinhos do centro de tratamento.

- O que pode ser? Algodão? Poliéster?

- Um tipo de uniforme talvez – César examina o tecido contra o facho azul de uma espécie de lanterna. – Mas não temos nenhuma pista que relacione este ao seu caso do roubo da planta do gasoduto.

- Chefe! Chefe! Acho que encontramos uma pista!

Castro e César voltam-se abruptamente para a entrada indiscreta da investigadora estagiária.

- Vejam! O estudo grafológico bate com um ex-dependente que recebeu alta há pelo menos quatro anos.

- Excelente trabalho, Dalva! – reconhece Castro.

- Viu, viu, César? Eu não disse que eu dou conta do recado? – provoca, com ares de falsa modéstia.

- Menos, Dalva, menos – César sacode levemente a cabeça e bufa, impaciente. A euforia desenfreada da estagiária desconcentra-o, além de que ele detesta interrupções e galhardeio.

- Precisamos de um mandato – retoma Castro.

- Já está aqui – Dalva estende uma página impressa para o capitão, orgulhosa por ter providenciado tudo. Castro apanha o papel, devolve um sorriso de agradecimento e segue para o local.

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