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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 1ª CAPÍTULO - O SABOR DO XIS-SALADA – 2ª PARTE



Vanessa, de pé no banheiro, remexe em seu nécessaire e, desconsolada, se olha no espelho. A imagem que se reflete ali, repetindo seus movimentos e devolvendo seu olhar incrédulo, parece irreal.

Baixa os olhos por um momento para as mãos que, trêmulas, abrem o pó compacto e apanham a esponja, porém, ficam suspensas no ar a um palmo da face maculada. Aguardam indecisas durante o instante em que Vanessa retoma a coragem de encarar novamente seu semblante na moldura envidraçada. Os olhos do reflexo prendem-se aos olhos da mulher e aqueles atravessam a alma desta, muito mais lesada do que a parte tangível de seu ser.

Os mesmos olhos perscrutam seu interior e nessa troca, Vanessa sente o peito comprimido e a respiração descontinuar, entretanto, aquele aspecto quase sinistro parece imutável. Sente também súbita vertigem e seus pés perdem a aderência com o piso frio. As pernas formigam. O coração acelera. As lágrimas distorcem as imagens de sua memória visual. Com exorbitante debilidade, larga o estojo e a esponja, deixando a cabeça pender para frente. Os braços enfraquecidos suportam o peso de todo o corpo quando as mãos se apoiam na pia para evitar o desfalecimento.

Finalmente, depois de inspirar e expirar profundamente, aproveitando ao máximo cada alvéolo pulmonar, Vanessa lava o rosto e levanta a fronte. Esfrega com afinco a esponja com pó sobre a pele, cobrindo grande parte dos hematomas. Impulsionada por um resquício de orgulho, ativa a mente para pensar em uma desculpa qualquer caso as colegas de trabalho estranhem esse inusitado zelo com a própria aparência, já que não se maquia diariamente.

Atraída por um estalido, Vanessa vira-se abruptamente para trás e encolhe-se, receando que o marido tivesse despertado. Contudo, tranquiliza-se ao observar que Pedro apenas se remexera na cama e ainda roncava. “Quando ele acordar vai sofrer com dor de cabeça”, preocupa-se, apesar dos desgostos da madrugada.

A lembrança inunda novamente seus olhos aguados e ela se esforça para reter as lágrimas. Sente-se confusa e amedrontada, pois presumia que ela e o marido tinham um bom relacionamento, e pensava erradamente que a violência doméstica ocorre devido a brigas constantes. Irritava-se ao assistir os noticiários porque as esposas não denunciavam o cônjuge agressor na delegacia da mulher e ainda se julgavam culpadas, argumentando motivos que levavam à agressão física. Hoje, porém, em que Vanessa passa de juíza à vítima, percebe o porquê as mulheres silenciam: porque um dos sentimentos envolvidos é a esperança de que o incidente nunca mais acontecerá.

As emoções confundem-na, martirizam-na, incitam-na a abandonar tudo, tamanha a humilhação que a arrasa. Inspira profundamente e avalia que o melhor é sair de casa sem fazer barulho. Tranca a porta e, cabisbaixa, desce devagar a rua íngreme. Encabula-se quando uma vizinha lhe cumprimenta, pois tem a impressão de que a outra consegue enxergar nela as marcas da violência.

São quatro e meia da madrugada quando embarca no transporte especial para ir à confecção. Sente-se grata pelo trabalho, esforça-se para ser funcionária exemplar e gosta de seu ofício, entretanto, nessa manhã cinzenta, tudo é triste. Mágoa, humilhação, revolta, vergonha; sentimentos misturam-se em seu ser.

Desembarca do ônibus e atravessa a portaria, liberando a catraca com seu crachá. Suspira de alívio porque no meio de quinhentos funcionários ninguém parece tomar conhecimento das dores que dilaceram sua dignidade.


*****


Estéfanie acorda com o ruído das roldanas das cortinas sendo arrastadas nos trilhos metálicos. O sol bate em cheio no espelho de seu roupeiro e reflete o brilho por todo o quarto. Apesar de seu murmúrio de protesto, Iracema, a mãe da garota, empurra as janelas, tagarelando uma série interminável de ordens para que a filha obedeça prontamente.

- Mãe... você não vai trabalhar hoje? – pergunta, sonolenta e abatida.

- Ô, filha! Eu já fui e já voltei. Esqueceu que hoje é sábado e eu largo o serviço às nove horas? Vamo! Levanta dessa cama, sua preguiçosa!

- Calma, mãe... não vê que eu tô toda quebrada? Que dia é hoje? – insiste.

Enquanto responde, Iracema recolhe as roupas empilhadas em um canto do quarto. “É sábado, ouviu? Sá-ba-do!” e Estéfanie finalmente coloca os pés para fora da cama e espreguiça-se. Esfrega os olhos, inchados de tanto chorar, e lembra-se da recriminação do pai. Quer lamentar, mas Iracema, com seus 1,56 m de altura, está ocupada demais com os afazeres domésticos; preocupada com o almoço, com a roupa por lavar, com a faxina geral, com o jardim que precisa de cuidados. A filha fala, fala. Mas o que está dizendo mesmo? Com a trouxa de roupa suja no colo, a mãe só pensa que Estéfanie não passa de uma adolescente totalmente adversa da educação que lhe dera.

- Ah, e eu quero que dê um jeito nesses penduricalhos! – exige Iracema, pois jamais aceitara o estilo desafiador da filha, que não economiza piercings. – Além disso, tem que sumir com estes trastes...

- Ô, mãe! – Estéfanie protesta em lá maior quando a mãe chamou de trastes os seus instrumentos musicais. – Ao contrário do que a senhora pensa, não sou uma desinteressada – tenta explicar. – Eu quero assumir a música profissionalmente, e eu preciso praticar. Como é que a senhora tem coragem de dizer para me desfazer de meu bem mais valioso, mãe? Seria o mesmo que obrigar o Tio Patinhas a jogar fora sua moedinha número um!

Suas reclamações tampouco fazem cócegas na visão autoritária e definitiva com que sua mãe conduz a convivência familiar e mantém a ordem. Estéfanie engole as lágrimas enquanto arruma sua cama e ajeita alguns bichos de pelúcia sobre a colcha cor-de-rosa. Gosta deles tanto quanto do violão e das pautas com as quais compõe. Tenta, então, recolher seu material, mas é impedida por um assomo de lágrimas. Não, decide, não praticaria tal injustiça consigo. Tentaria conversar com os pais, pediria uma nova chance. Por mais que os amasse e consciente da necessidade de obediência, não poderia permitir que eles arrancassem sua própria alma.


*****



Durante o trabalho, Vanessa procurou não se lembrar do episódio que marcara as horas anteriores de sua vida, mas assim que cumpre o expediente, abandona qualquer tentativa de disfarçar a realidade. Seu semblante está visivelmente deprimido e ela teme o retorno para casa. Angustiada, desembarca do transporte especial por volta das 9h30 e caminha na direção de sua residência.

Pedro, por sua vez, encontra-se no portão da casa, aguardando ansiosamente a chegada da esposa e sorri ao avistá-la. Vendera muitos lanches na última sexta-feira e cedeu a um apelo de consumo há muito desejado ao adquirir um aparelho de DVD, que já instalara na sala, conectando-o à TV. Impaciente com os passos lentos de Vanessa, que se demora a subir a ladeira, abre o portão e vai ao encontro dela. Nem percebe que ela se encolhera com sua aproximação, dá-lhe um selinho e apressa-a a entrar na casa.

Vanessa, completamente confusa, se deixa levar pela empolgação dele e obedece cada comando em silêncio: venha, entre, veja...

- O que é maravilhoso? – pergunta, como se tivesse acabado de despertar de uma noite mal dormida.

- O DVD! Comprei pra nós hoje pra te fazer uma surpresa!

Franzindo a fronte, ela se arma para despejar sobre ele todas as frases que treinara durante o percurso, mas antes disso cai em um estado de entorpecimento, que a impede de proferir uma única palavra. “Estava com a consciência pesada e quis aliviar a culpa”, reflete, embora momentaneamente incapaz de revelar ao marido seus pensamentos e dores.

- Não gostou? – indaga, inocentemente. – Mas que bicho te mordeu?

- Eu é que lhe pergunto, Pedro.

Saindo da inércia, ela desabafa. Mostra os hematomas, altera a voz, ameaça denunciá-lo para a polícia. Ele apenas se senta e, calado, fita-a. Depois pergunta:

- De onde foi que você tirou tudo isso? Tá ficando doida? Se não tá satisfeita com meu esforço, porque tá aqui comigo?

Depois de desferir aquele golpe, apanha o boné, ajeita-o na cabeça, pega vasilhames de alimentos e temperos na geladeira, guarda em um reservatório do carrinho de lanche, o qual empurra rua abaixo. Vanessa então chora até a última gota, em uma mistura cada vez mais conflitante de sentimentos. Quando finalmente se acalma, raciocina a respeito da atitude do esposo. Revoltada, percebe que ele agira como se nada tivesse acontecido e como se ela tivesse inventado tudo! Mas de que maneira ela seria capaz de fantasiar um desentendimento de tamanha proporção se há evidências que comprovam a agressão sofrida em seu corpo? E o aparelho de DVD, de onde ele tirara dinheiro para comprar se o carrinho de lanche ajuda somente para pagar o aluguel do imóvel onde residem? Vanessa então se sente uma ingrata, um dos poucos sentimentos que ainda faltavam para sua coleção emocional.


*****


Passa das 14 horas quando um rapaz jovem, com a pele morena devido à exposição continuada ao sol e com a fisionomia aparentemente castigada, prega tábuas de madeira para formar a parede de uma pequena estalagem semelhante a mais duas habitações construídas nas proximidades. Ao seu lado, um cão vira-lata espreita e então late para alertar sobre a aproximação de outro homem, com o qual o animal se encontra para receber um afago no pelo marrom.

- E aí, Deco? Vejo que está quase terminando mais um alojamento!

- Seu Ricardo, que maravilha ver o senhor aqui em pleno sábado! – alegra-se, com sinceridade. – Pensei que o senhor só voltava na segunda-feira.

De fato, Ricardo não havia se demorado tanto dessa vez. Saíra há três dias para cuidar de seus negócios no escritório e visitar a própria família, mas sua verdadeira felicidade mora ali, na fazenda Reconstruindo Vidas, local que ele próprio fundara para tratar das pessoas que buscam uma melhor qualidade de vida.

- Tenho uma coisa pra você! – anuncia, retirando um envelope do bolso da calça jeans. – Encontrei sua esposa por acaso quando entrávamos no correio da Rua Princesa Izabel, lá no Centro. Então ela pediu que eu entregasse pessoalmente esta correspondência.

- Uma carta da minha esposa? – anima-se, apanhando o envelope com urgência. Contém o desejo de ler a carta e olha para Ricardo com gratidão. – Desculpe, eu leio depois que terminar meu serviço...

- Ora essa! Demorou! – exclama Ricardo, esboçando um sorriso tranquilizador. – Uns poucos minutos não vão prejudicar seu trabalho e ainda vai auxiliar no seu tratamento.

Ricardo observa o rapaz abrir o envelope e, discretamente, volta para o rancho que serve de sede para a clínica. O cão acompanha-o abanando a cauda, feliz com a presença do dono, até que esse entra no rancho. Ricardo abre a porta do pequeno escritório. Tem muito trabalho a fazer, mas o calor não o encoraja. O sol forte e a falta de vento desse sábado à tarde tornam o ambiente abafado e sufocante. A baixa umidade relativa do ar também provoca mal-estar. Desprovido do grande estado de excitação que normalmente o acompanha, porém, consciente da importância das tarefas pendentes, apanha correspondências, caneta, boletos, livros contábeis e sai da sala abrasadora, indo se instalar em uma das mesas de concreto que fica à sombra de um grande chorão no pátio da entrada principal do recanto. Nem ali pode trabalhar sossegadamente, porque os insetos o infernizam. Apoia os braços na mesa e se põe a divagar.

Dera muito trabalho para os pais quando adolescente. Desprezava as exigências que eles impunham, ofendia-os, agia inadvertidamente. Não dava satisfação sobre sua vida. Frequentava o colégio, mas não as aulas; desrespeitava os professores, consequentemente reprovara diversas vezes por baixo desempenho e mau comportamento. Nas ruas, passava trotes nos transeuntes para escarnecer de suas reações. Maltratava cães e gatos. Bebia muito e dirigia alcoolizado o automóvel do amigo. Tripudiava das garotas. Zangava-se com facilidade. Buscava ínfimos pretextos para agir com violência. Liderava uma gangue de baderneiros e vândalos. Seus pais recebiam reclamações, denúncias e ameaças a todo o momento, contudo, pávidos, acompanhavam as piores notícias sobre o próprio filho. Perceberam tarde demais que haviam perdido o controle sobre o garoto. Não bastasse o quadro social decadente e criminoso no qual Ricardo se envolvera e insistisse em continuar, começara a consumir drogas.

As consequências do consumo foram as esperadas: agressões, furtos dentro de casa –  pequenos, mas não menos relevantes, delitos nas ruas, desistência dos estudos, perturbação mental, saúde em definhamento. Os pais de Ricardo iniciaram um difícil, dispendioso e persistente trabalho em favor da recuperação do filho, e graças à atuação corajosa da família, cinco anos após a degeneração, Ricardo estava limpo.

Ricardo volta para a realidade da administração do Reconstruindo Vidas: compra de mantimentos, medicamentos, organização das visitas, cumprimento da imposição da vigilância sanitária para construir um local adequado para cada um dos jovens internados. Escuta as marteladas de Deco que, com mais afinco, termina a parede. De longe, o rapaz anuncia com alegria quase infantil que a esposa virá visitá-lo no início do próximo mês. A notícia da reaproximação desse casal enche Ricardo de satisfação, pois a própria experiência mostra que a família exerce papel essencial no tratamento de desintoxicação. No entanto, poucas estão habilitadas para ajudar, porque o consumo de drogas não somente destrói o organismo daquele que se torna dependente químico, como também aniquila a família que vive os mais caóticos descontroles emocionais.

As drogas invadem sutilmente a vida das pessoas, disfarçadas por um sentimento de curiosidade aliado a uma necessidade espontânea, resultante de desavenças familiares, sentimentos reprimidos, proibições, decepções, amarguras e até mesmo ociosidade. No caso dos jovens, o desejo de aceitação em um grupo exige que ele tome certas atitudes para se igualar aos companheiros que, com desafios mal-intencionados estimulam a prática de rebeldias, como a insatisfação em relação a bens de consumo, indisciplina, atos de vandalismo, desobediência aos pais. Adolescente ou adulto – pouco importa a idade cronológica, para se autoafirmar não vê o inimigo oculto numa inofensiva porção de pó. Quer ser notado, admirado, cercado de amigos, dos mesmos que em um estalar de dedos desaparecem assim que o dinheiro acaba.

Ricardo assume que havia se corrompido muito cedo e não sabe explicar a distorção de caráter que o incitava a praticar atos desvairados com total leviandade. Alimenta o sentimento de gratidão e profundo respeito pelos próprios pais, pois está vivo porque eles nunca desistiram dele. Baseado no exemplo de amor incondicional dos pais, Ricardo projetara para si mesmo um enorme desafio: resgatar outros seres humanos arruinados pela dependência química, procurando restituir-lhes a autoestima e reunificando as famílias segregadas. Se o início de qualquer atividade é difícil, prosseguir com seu propósito exigia comprometimento, persistência, paixão, força de vontade. Enquanto riqueza, fama e poder constituíam-se em metas para a maioria das pessoas, ele, despretensiosamente, almejava contribuir para melhorar a vida de algumas pessoas em uma pequena propriedade rural no distrito de Pirabeiraba.

Quando se dá conta, Ricardo já havia terminado o trabalho e, satisfeito, leva os materiais de volta para o escritório, pois está anoitecendo. Enquanto o dono trabalhava, o cão permanecera ao seu lado em silêncio o tempo todo, como se fosse capaz de compreender a importância de sua disciplina e de seu comportamento.

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