Vanessa passara o dia trabalhando com total felicidade. Sorria sem cumprimentar quem quer que fosse, produzia com grande habilidade, de tal forma que ainda lhe sobrava tempo para pequenos intervalos de descanso. Seu corpo estava leve, a mente tranquila. Pedro é o pé direito de sua vida, portanto, quando lhe trata bem, isso contribui para o bem-estar dela.
O sorriso estampado na face corada é como um retrato. Enquanto varre, o faz com alegria. Não presta atenção ao moço que para a seu lado.
- Oi...
Vanessa ergue-se subitamente, trêmula e esbaforida. A pá com lixo que segura nas mãos trai seu nervosismo. Percebe então que não adianta procrastinar a correção dos atos que considerara impróprios para sua situação civil.
- Renato, por favor... – começa, atrapalhando-se com as palavras mais simples.
Ela evita olhar para ele. Dirige-se ao tambor de lixo, deposita a varredura e volta em um instante. A boca resseca e ela está visivelmente envergonhada.
- Renato, sou uma mulher casada, está entendendo? Ca-sa-da! E longe de parecer prepotente, imaginando que eu tenha causado algum tipo de interesse em você, eu quero que não me aborreça mais.
- Tudo bem, mas ser casada é apenas um detalhe – responde, desconcertando-a. O olhar incide sobre ela de tal forma que a faz estremecer.
- Para mim não é só um detalhe – retorque. – É tudo em que acredito. São os valores que aprendi, que respeito e procuro seguir. A fidelidade é apenas um desses valores. Sem meus princípios, não sou ninguém. Não me chamaria Vanessa se não fosse por eles.
Vanessa não sabe como sair dessa situação constrangedora. As colegas de trabalho já estão olhando com desconfiança e ela não quer comentários maldosos circulando em seu setor.
- Melhor não conversarmos mais, se não for pedir muito.
- Seu marido é um cara de sorte – comenta, depois de alguns instantes de hesitação. – Gostaria de ter chegado na frente dele. – Dizendo isso, se afasta e segue para o setor no qual trabalha.
Vanessa suspira e reconhece que Renato mexe com ela, mesmo que seja casada e feliz. As últimas palavras dele perturbam novamente seu ser.
Ela não podia observar o sorriso de satisfação que se estampa no rosto de Renato. É evidente que ele despertara interesse nela, e ele estava disposto a continuar. Tinha paciência o suficiente para viver a aventura que pretendia. Gostara dela desde o primeiro instante em que a vira e pensa em conquistá-la. Depois de realizar seu empreendimento, não se importa que ela fique com seus valores medíocres.
*****
Eduardo olha para o teto. Os olhos fixam qualquer coisa que um simples observador não se capacitaria a examinar. As pupilas parecem gélidas e sua face lívida como um ser inorgânico. As pálpebras abrem e fecham em espaços inconstantes e numa lentidão esmorecida. Os braços, esquecidos ao longo do tronco, dão continuidade à silhueta esfacelada que permite ser derrotado pela energia mórbida da autocompaixão.
A mãe entra no quarto e fala com ele, mas a figura inanimada do filho sobre o colchão não se move. Momentaneamente, ela se esquece da atual deficiência que o pai concedera ao jovem e se flagra querendo ralhar com o filho. Entretanto, antes que o rompante de impaciência lhe venha surtar e provocar histeria, ela chama o rapaz pelo nome em um tom alto, porém, complacente, e o garoto vira o rosto na direção dela.
- Filho, você tem visita.
Que mundo estranho, imperfeito, silencioso e apavorante, pensa ele. As palavras que saem da boca da mãe parecem incompletas e totalmente desprovidas de sentido. Ele recorda das diversas vezes que Estéfanie exigia que melhorasse sua dicção a fim dos ouvintes compreenderem os versos e não somente a música, coisa que antes parecia bobagem agora se faz presente, indispensável. Talvez conseguiria traduzir o que a mãe estivesse comunicando.
Indiferente, Eduardo vira o corpo para o lado da parede e fecha os olhos, mergulhando em tristeza e fracasso. Desejava agradar o pai com sua música, tornar-se famoso e quem sabe merecer um pouco de afeto. Porém, o sonho acabara antes mesmo de começar.
Um leve toque no ombro faz com que ele se encolha, mas a mão que afaga seu rosto o traz de volta dos terrores de seu fracasso.
- Edu, eu já sei o que aconteceu, mas você vai se recuperar.
Eduardo vira-se e senta-se na cama, encostando-se na cabeceira. As pancadas ainda fazem seu corpo doer e ele geme, ajeitando-se para aliviar as consequências da surra que levara. Olhar para Estéfanie é como mergulhar na magia da noite e sentir vibrar todas as notas musicais em um compasso sereno, iluminado pelo brilho das estrelas e o aconchego do luar. Vê-la diante dele é como sobrevoar o oceano e poder roçar a pele sobre a sua e sentir alívio de todas as frustrações.
De repente, a vê sob o domínio predador de Peter, sendo alvo de um gigante indestrutível. Julga-se inferior a seu adversário, e por isso não ousa medir forças com o talento conquistador do galante companheiro de banda e inimigo de sua felicidade. Desvia o rosto para a janela, tomado de súbita repugnância, situação inexplicável diante de seus mais íntimos conflitos.
- Eu não entendo nada do que você diz – irrita-se. – Eu agora sou um surdo imprestável, tá entendendo? Você não precisa mais de mim.
Estéfanie não havia compreendido a reação inopinada, visto que não tinha total discernimento do drama que o amigo vivencia e os complexos que prosseguem com a redução da própria estima. “Eu gosto muito de você, Edu”, ela fala e se Eduardo não estivesse tão envolvido com sua fraqueza espiritual, perceberia o brilho diferente nos olhos dela, que lamentava o ocorrido, mas se compunge com grande afinco por causa do amor que sente pelo garoto, paixão que ela tentava dissimular e não aceitava, mas que no momento oportuno da dor se evidencia.
Ela pega um caderno que está sobre a cômoda e começa a fazer uma anotação. Deixa o que havia escrito sobre a cama, acena e sai.
Curioso, Eduardo pega o caderno e lê: “Por que você não respondeu o meu bilhete?”.
Eduardo olha pela janela. Estéfanie já tinha atravessado a rua e sumia na esquina do quarteirão. Confuso, ele se pergunta: “E essa, agora? Que bilhete?”. A dúvida oscila suas certezas.
****
Alberto chega em casa e o estresse é visível. É como o pavio aceso de uma dinamite, a qualquer momento aguarda a explosão. As sobrancelhas formam uma única linha, com a divisão praticamente imperceptível. Abre uma lata de cerveja e bebe o líquido de uma só vez. A irritação parece ter aumentado e assim Alberto esmaga a lata vazia e a atira contra a parede. Fuma um cigarro após o outro e ao cabo de meia hora queima um maço inteiro. Tanto nervosismo tem explicação, já que havia sido trapaceado e corre o risco de perder o emprego. Aguarda a esposa, mas justo naquele dia ela está atrasada. Apanha o telefone e liga para a loja. Avisam que ela havia saído. Contata o celular e no terceiro toque a ligação cai na caixa postal. Isso provoca grande desconfiança.
Ângela está no shopping que fora inaugurado recentemente na cidade se esbaldando em compras. Ela tem um bom ordenado que lhe proporciona certas extravagâncias. Está com uma amiga, e riem à toa. Havia se estressado com um cliente e precisava de terapia: nas situações mais críticas, as compras são para ela o melhor remédio.
Seu celular está no silencioso, então, ela não percebe o aparelho chamar a cada vinte minutos. Entra de loja em loja, experimenta roupas e acessórios e sai com uma bolsa no braço. Assim passa mais de duas horas até que vão lanchar. Ela está felicíssima com as coisas novas e não percebe a presença do homem que parara de pé ao seu lado na mesa da praça de alimentação. A amiga coloca-a a par da situação quando aponta o sujeito. Ângela então se vira e cumprimenta-o:
- Oi, Ricardo! Você por aqui? Tudo bem? Sente aqui com a gente! – convida, empolgada com a súbita chegada.
- Eu não quero atrapalhar, Ângela – desculpa-se ele, educadamente. – Reconheci você e só passei para cumprimentar.
- Mas eu insisto. Senta! – incentiva.
Ricardo aceita o convite, pede um suco, oferece-se para pagar alguma coisa para elas e conversam sobre diversos assuntos. Ângela ouve-o, embevecida. A amiga disfarça, olhando o relógio, depois diz que precisa ir embora.
- Eu vou com você – diz Ângela, apanhando as sacolas.
- Posso deixar vocês em casa se quiserem.
- Não, imagina. Não queremos incomodar...
- Não é incômodo. Venham.
A amiga de Ângela desembarca primeiramente e em seguida Ricardo dirige para o endereço que Ângela descreve. Ele fala sobre seu trabalho no centro de tratamento e tanta paixão por oferecer ajuda para as pessoas contagia Ângela, despertando uma curiosidade natural sobre o assunto. Motiva-o a falar mais e observa a evidente empolgação na voz e no brilho dos olhos do motorista.
- Amanhã vai chegar mais um garoto e eu sei que ele vai dar bastante trabalho no começo.
- E como sabe? – perguntou, inocentemente. – Adivinha as coisas ou as pessoas sempre chegam revoltadas para se tratarem?
- Não é uma questão de adivinhar, Ângela – explica com paciência, enquanto guia cuidadosamente o automóvel –, mas uma predisposição que nós percebemos quando a internação é forçada visto que o dependente químico não aceita ou não enxerga motivos para tal intervenção. Ainda existe o acompanhamento dos pais, que por sua vez, ignoravam que o filho estivesse envolvido com o tal vício e arranjam subterfúgios para se absterem da responsabilidade de que foram omissos na educação.
- Quer dizer que além do dependente não aceitar a internação ainda existe a indiferença dos pais em relação ao tratamento? – Ângela nunca havia principiado em um assunto tão importante e agora percebia outros lados das dificuldades que eram encontradas em clínicas semelhantes.
- Na maioria dos casos, a família procura nossa ajuda quando a situação se encontra em níveis de relacionamento intoleráveis, como é o caso dos que “limpam” a própria casa para conseguir obter as drogas. Quando as coisas atingem esse estágio, a família já está destruída.
- É aqui – aponta Ângela. – Entre para conhecer o meu marido, Ricardo, e conversarmos mais sobre a clínica de reabilitação.
- Agradeço seu convite, mas preciso ir, que o caminho é longo. Mas aguardo você e o seu marido para uma visita. É só me telefonar.
- Combinado. Tenho seu cartão e vou ligar para agendarmos a visita. Por hora, agradeço a carona.
Ela apanha as sacolas, desembarca, abre o portão, e somente quando ela abre a porta de entrada da casa é que Ricardo dá partida no automóvel. “Que homem gentil”, pensa Ângela.
- Quem era o cara?
A voz de Alberto vibra dentro da cozinha e sobressalta Ângela, que reage com um pulo que foi mal interpretado pelo marido. Ela observa a lata de cerveja caída no chão e fica subitamente preocupada. Questiona o fato, mas Alberto diz que ela queria fugir do assunto. Não suporta a ideia de traição, embora Ângela contasse tudo nos mínimos detalhes. Alberto exalta-se e ela, que não permite que ninguém lhe levante a voz, responde no mesmo tom. Insultos são desmedidamente trocados e quando a briga passa dos limites das agressões verbais, Ângela felizmente percebe que é hora de parar. Pega suas coisas e se tranca no quarto, onde tenta se acalmar, mesmo que o marido continuasse proferindo desaforos inconcebíveis devido ao excesso de ciúme. Ele esmurra a porta do quarto, exigindo que ela abra e Ângela suplica que ele pare. Durante duas horas o confronto continua implacável.
De repente, a casa fica silenciosa. Ângela, esgotada, decide se abre a porta ou não. O silêncio súbito perturba ainda mais e ela resolve sair do exílio. Quando sai, não contém o grito de profundo horror diante da tragédia iminente.

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