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Joinville, Santa Catarina, Brazil

ENGRENAGEM DO CRIME – 10º CAPÍTULO - TPM – 2ª PARTE




Vanessa acorda lentamente com algum ruído na rua. Tem dificuldade para concatenar alguma ideia de que dia da semana e que horário poderia ser. Um pouco da luminosidade do dia atravessa o quebra-sol por detrás da cortina de voal e ela sorri, dizendo para si mesma que não há necessidade para se preocupar e inspira profundamente. Uma sensação de plenitude envolve-a.

Os olhos continuam pesados e ela pisca várias vezes. Suspira sentindo o corpo quente e afasta o cobertor. A umidade do ar surte efeito em seu peito e só então ela percebe que está nua. Ergue um pouco a cabeça, com curiosidade, apalpa o corpo como se quisesse se certificar que ela fosse real e aspira uma fragrância marcante no ar.

Então se lembra dos bons momentos que passara com Renato. Precisa pensar para se certificar de que não sonhara ou imaginara aquele encontro e diante da incerteza, a cama se mexe e um braço forte paira sobre seu peito. Ela acaricia os pelos, a pele do braço e a mão de Renato cobre um de seus seios. O mamilo reage imediatamente e Vanessa sente o desejo invadir o seu corpo.

Ela observa o belo rosto de Renato. A cútis levemente bronzeada, sobrancelhas espessas e largas, os cílios longos sobre as pálpebras fechadas, o cabelo recém-aparado espetando ao toque dela, o nariz proeminente, mas sem excesso, os lábios carnudos. As costas dele estão descobertas e Vanessa desliza suavemente a mão dos ombros até as nádegas. Tocá-lo está incendiando-a, mas ela não se atreve a acordá-lo.

Esgueira-se por baixo do cobertor e continua avançando, suavemente, para senti-lo. Sua mão percorre cada centímetro do corpo de Renato, que não reage, e Vanessa fica cada vez mais excitada. Ela sorri, morde os próprios lábios e não se sente envergonhada por isso, como antes, pois sabe que ele está dormindo.

A respiração fica entrecortada enquanto ela desliza a mão pelo corpo dele. Sem querer, geme baixinho, e cobre a boca com a outra mão com receio de tê-lo despertado.

Ela continua acariciando o corpo dele e então sente a ereção se completar. Ele vira-se e ela assusta-se.

- Você tá acordado?! – pergunta, resfolegante, o rosto vermelho.

- Boba, vem cá!

Renato puxa-a em um abraço sobre seu corpo. Ajeita o travesseiro para ficar mais alto e olhar bem no rosto dela. Vanessa mal pode encarar o olhar, e ele se diverte com sua reação. Afasta uma mecha de cabelo do rosto dela, desliza os dedos pelo nariz, lábios e rosto. Segura a mão dela, beija a palma, deixa a mão dela apoiada em seu peito, desliza a mão até as nádegas e ajeita-a sobre ele.

Vanessa fica calada, muito embaraçada. Mas Renato é gentil, toca-a com suavidade, deixando-a confiante e certa de ser amada. Vanessa encoraja-se para beijá-lo nos lábios e Renato abraça-a com mais vigor.

O beijo leva-a ao céu. Ela agradece a Deus por Renato estar ali com ela e ter proporcionado tanta felicidade.

Vanessa abre os olhos de vez em quando e encontra os olhos cor de amêndoa, brilhantes e apaixonados.

Ela o abraça com vigor e serpenteia sob ele. Ambos se fundem em um único corpo e em prazer absoluto. Durante longo tempo, permanecem trocando carícias, entregando-se mutuamente. Até que chegam ao ápice do prazer.

A umidade vem como um bálsamo de prazer. Permanecem abraçados, sorridentes, se olhando, se tocando, até adormecerem outra vez.


*****


César analisa o vídeo de segurança do prédio do qual sumira a planta. Solicitara os vídeos gravados durante a semana anterior, contudo, não encontra nada.

Lê novamente o resultado da análise das fibras encontradas no local. Observa atentamente a cópia da planta original e se perde imaginando algum bandido ameaçando colocar explosivos naquela região de maior concentração dos canais do gás natural. Basta uma banana de dinamite para mandar pelos ares uma grande extensão. Certamente há alguma conexão entre essa planta e o assalto da indústria de explosivos para pedreiras.

- Nós vamos pedir lanche – Dalva irrompe a sala com grande estrondo e um vozeirão de 70 decibéis. César reage com um dicionário particular de palavrões e recriminações.

A colega rebate com gargalhadas, o que o deixa ainda mais furioso.

- Desculpe, detetive. Eu não quis assustá-lo. Só vim dizer que vamos encomendar lanche...

- Tá bom, tá bom, mas nunca mais entre num laboratório dessa maneira. Ao contrário do que você talvez possa pensar, aqui tem pessoas trabalhando, se concentrando.

- Ok. O que vai pedir?

- Ah, sei lá, o mesmo que vocês – ele continua furioso, agitando os braços e com tom da voz mais impaciente.

- Então, tá, três xis-salada, legal?

Ele concorda e ela se encaminha para a porta. E para implicar diz que a reação dele foi a melhor coisa do início de noite. César levanta-se e bate a porta pouco depois de ela correr para fora.

- Garota insuportável! – vocifera.

Respira fundo, volta a se sentar diante dos indícios e pressiona a tecla ENTRA para o vídeo continuar.

Já cansado, porém, desejoso de encontrar algo para incluir no quebra-cabeça, César insiste. Seu lanche chega trazido por outro colega. Enquanto se alimenta, César acompanha o vídeo.

Um sujeito encosta uma moto na recepção, retira o capacete e carrega um pequeno embrulho dentro de uma sacola plástica. Entra no prédio e avança para a recepcionista, que logo que o atende, levanta e sai da frente do vídeo.

César tem uma intuição, então, pausa o vídeo e aumenta o zoom no pacote. Identifica sachês de mostarda e catchup e detecta a cor verde. Observa o sanduíche que mastiga e pensa alto:

- Alface. Hum... alface, xis-salada... ei!

Entusiasmado com o palpite que surgira, César deixa o vídeo seguir. Há um corte da imagem em que a funcionária retorna com dinheiro e o tempo em que o motoboy permanece na recepção. Oito minutos, 32 segundos. Muito tempo para agir, imagina César.

- As fibras contém resquícios de molho de tomate e gordura vegetal... – deduz, vasculhando outros laudos. – A mesma fibra encontrada nas imediações da clínica. – Como é que eu não pensei nisso antes?

Ele amplia a imagem do entregador de lanches, deixa a imagem parada no monitor, imprime e sai do laboratório, largando metade do lanche ao lado da mesa de trabalho.


*****


Ângela trabalha na loja no período da tarde até o horário do fechamento do shopping. É quase hora de fechar, e ela nem havia se dado conta, pois atendia alguns bailarinos. A época do festival de dança em Joinville, o maior do mundo, é aguardada com grande preparação pelo comércio em geral, já que aquece a economia da cidade. Todos os anos, Ângela compra ingressos para ela e Alberto assistirem aos shows clássicos e aos grupos de dança contemporânea, o que não aconteceu dessa vez em virtude da doença de Alberto. Ângela preferiu cuidar do orçamento familiar, e os turistas chegavam em boa hora para melhorar suas vendas e ela organizar as contas nos meses em que Alberto continuaria encostado pelo INSS, e sem receber o auxílio-doença no tempo ideal.

Ela comemora o fechamento da venda de roupas de frio e já calcula uma boa comissão. Os turistas agradecem e se despedem. Quando observa parte das lojas fechando, só então ela olha para o relógio. Apressa-se a fechar a loja. Suas colegas vendedoras já haviam fechado o caixa e se despediam. Ângela vai rapidamente fechar o caixa, guardar o dinheiro em local seguro da loja e apanha sua bolsa e a jaqueta.

Enquanto tranca a loja pelo lado de fora, voltara a pensar na visita suspeita de Débora e se aborrece.

- Oi.

Sobressaltada, Ângela quase grita. Vira o corpo abruptamente e vê Ricardo sorrir com simpatia. Só então se lembra de que ele havia ligado para ela pedindo ajuda e ela sugerira que ele viesse no final do expediente. Surpresa por ele ter esperado quase duas horas até ela sair, imaginou que o amigo realmente estivesse com um grande problema.

- Desculpe, Ricardo, eu... eu estava atendendo... tinha muita gente... – Os rodeios fizeram-na se sentir tola e ela optou pela verdade. – A verdade é que eu esqueci, me desculpe.

- Eu é que peço desculpas por estar tomando o seu tempo. Você deve estar cansada.

Ele cumprimenta-a formalmente com um aperto de mão e pergunta sobre a saúde de Alberto. Ela explica que o pior já passara e que, com cuidados, logo ele voltaria a trabalhar. A perícia médica está marcada para a semana posterior e ele será avaliado.

Um facho de luz percorre as vitrines e Ângela observa que o segurança já está fazendo a ronda. Segue com Ricardo até o elevador e depois até o estacionamento. Não estão tão atrasados quando percebem que ainda há muito trânsito. Os outros lojistas também estenderam seu atendimento.

Combinam aguardar na saída do shopping. Ricardo espera Ângela embarcar em seu automóvel e em seguida vai até o próprio veículo para não deixá-la sozinha aguardando durante muito tempo. Nesse horário, precaução com a segurança não significa luxo.

Deixam os veículos em um estacionamento próximo e seguem para um barzinho da via gastronômica. Ricardo oferece-se para pagar, Ângela, por sua vez, nega, não por orgulho, e sim, por acreditar na igualdade de sexos. Enquanto aguardam o pedido, se servem de suco natural. Conversam um pouco sobre o movimento na cidade, sobre o clima, sobre os dias de inverno rigoroso no Estado, com direito à neve e geada e finalmente Ricardo resolveu se explicar.

- Eu fui comunicado da data do meu depoimento e preciso de testemunhas. Achei que você poderia me ajudar.

- Francamente, Ricardo, não entendo como poderei ajudar você.

- Você não deve estar lembrada, mas no dia que estivemos no supermercado e que nos conhecemos, ocorreu um crime lá na clínica.

- Não, não lembro – mente, embora se lembrasse da sensação causada pelo embaraço do encontro. – E... – ela encoraja.

Ricardo explica que precisa de álibi, porque o estão acusando. Ângela pensa um instante e aceita ser testemunha. Nunca tinha passado por aquilo, mas julgava a causa boa.

A refeição foi saboreada com mais prazer, já que Ricardo não se cansava de agradecer. Ao terminar, ele paga a conta, apesar dos protestos de Ângela. Acompanha-a até os carros, desativa o alarme de sua pick up e antes que ela embarque ele segura suavemente o pulso dela. Ângela franze a fronte, detectando algo de estranho no ar.

- Obrigado – fala, sorridente.

- Não precisa agradecer. Estou apenas falando a verdade, nada mais.

Ele beija-a no rosto próximo ao lábio e se demora um pouco. Ângela podia sentir a fragrância da colônia que ele usava e fica subitamente tensa. Depois que o marido enfartara, ela não havia mais tido relações íntimas por causa do estado de convalescença e ordens médicas, entretanto, seus hormônios não são tão compreensivos como ela acreditava. Nunca traíra Alberto e não seria justamente agora que o faria.

- Escute, Ricardo, não vamos confundir as coisas, tá bom?

Ela tenta ser educada, porque julga Ricardo extremamente ético e honesto e não pretendia ofendê-lo.

- Sinto muito, Ângela, eu... eu... não quis... – tenta se explicar, mas estava piorando as coisas.

- Tudo bem, tchau!

Ângela apanha a chave do automóvel e trêmula, mal consegue desativar o alarme. A proximidade de Ricardo perturba-a e ela quis se afastar o mais rapidamente possível.

- Desculpe... – ele falava, mas ela só desejava ir embora.

Subitamente, ela avança para Ricardo e beija-o ardentemente.

Ricardo abre a porta do passageiro e Ângela embarca. Ele entra pelo outro lado, se acomoda e continuam se beijando sofregamente.

- Você é linda, Ângela, desculpe, eu sei que você é casada, e eu não sou desse tipo, mas é mais forte do que eu...

- Você está confundindo as coisas: amizade, confiança, atenção – ela se limita a dizer, mas nessa altura já retira a jaqueta.

- Eu sei... – ele fala entre um beijo. – Estou abusando da sua integridade...

Ela senta-se no colo dele e geme quando sente seu desejo. O coração pulsa dentro dela, acelerado e impaciente, mas ambos percebem a tempo o deslize que haviam cometido.

Ângela, embaraçada, volta para o assento e veste a jaqueta. Procura a bolsa e desembarca. Precisa de alguns minutos para que a respiração volte ao normal. Ricardo aproxima-se, também constrangido, contudo, a abraça carinhosamente, se desculpando. Ângela permanece por alguns minutos no aconchego do abraço dele, o que a alivia.

- A culpa foi minha – admite. – Você não tem nada a ver com as frustrações que estou enfrentando...

- Não precisa me dar explicação nenhuma, tá? A gente esquece o que aconteceu, ou melhor, o que não aconteceu e fica assim mesmo.

Ângela dá um beijo no rosto dele e entra no automóvel.

Ela ainda sente o corpo tremer ao chegar em casa. Certamente parecerá nervosa e inquieta diante de Alberto, mas dado o adiantado da hora, ele já está dormindo. Ela entra, troca de roupa e abraça o marido, mas não consegue dormir imediatamente. Seu coração ainda ribomba dentro do peito, aguardando uma sensação que não acontecera.

*****


Ângela levanta mais tarde e vai diretamente para o banho. Dormira mal, sente tonturas e um súbito remorso a consome. Sente-se traiçoeira e inquieta, pois pensa que o lado sensual de sua personalidade aflorara novamente, o que ela não podia permitir.

O box abriu devagar e Alberto, inteiramente nu, entra com ela no banho.

- Bom dia, amor...

- O que você tá fazendo aqui?! – recrimina. – Lembra que seu cardiologista pediu que evitasse emoções fortes?

- Eu sei, mas estou com saudade, faz tempo...

Ela apanha o sabonete e esfrega o corpo do marido. Ele faz o mesmo, demorando-se nos seios fartos dela. Logo se abraçam, beijam e se amam embaixo do chuveiro. Ambos estavam se poupando há muito tempo e a relação viera em boa hora. Enrolada na toalha, Ângela observa Alberto se enxugar e nova onda de excitação se propaga nela. Aproxima-se do marido, faz-lhe uma carícia e beija-o.

O pensamento é invadido pela sensação do beijo fortuito em Ricardo na noite anterior e mesmo que Ângela procurasse se concentrar, o rosto deste último avança. Cada traço ia sendo desenhado em sua memória, cada sensação, a tentativa de evitar o encontro, o rompante que levara ambos a um momento de intimidade. O ritmo dos beijos e das carícias acelera e ao final, Ângela está abraçada a Alberto na cama, sem ter percebido.

Junto do êxtase, Ângela se sente repugnante. Evita olhar para o marido, pois o remorso invade-a novamente. Se ama o marido, como é fato, como tivera coragem de se atirar nos braços de outro homem?

A reflexão preenche seu pensamento durante toda a manhã, calando Ângela, como se ela temesse confessar seu deslize.


*****

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